Por T. Morethson
Recentemente dois amigos pediram que eu recomendasse um livro, um bom livro. Resisti ao desejo imediato de recomendar Metafísica de Aristóteles, pois, conhecendo meus amigos, não entenderiam muito da dialética aristotélica e, por isso, recomendei 1984 de George Orwell.
Recomendei 1984 porque lembro-me sempre de uma passagem interessante deste livro e de sua correspondência óbvia – não tão óbvia assim para alguns – com nossos “fatos” jornalísticos, trata-se do Ministério da Verdade. Para quem não lembra – caso não tenha lido, recomendo a leitura – o Ministério da Verdade era responsável por reescrever notícias e documentos de tal forma que eles sempre se adequassem ao desejo do Partido, assim, caso o Partido mudasse de vontade, mudavam-se todas as notícias passadas e documentos para condizer com a vontade atual do Partido.
E qual a sua correspondência com nossa realidade? Bem, embora na prática tais falsificações só seriam eficazes com um controle rígido da informação e das pessoas – como ocorre no livro – ela em parte é feita atualmente, mas duma maneira mais sutil. Trata-se de decidir a verdade antes dos fatos e depois dar aos fatos conotações da verdade planejada, assim, quando sai a notícia, ela já vem carregada de uma interpretação enganosa dos fatos. Pode-se também selecionar e divulgar apenas, ou mais, os fatos que interessam e que podem servir de apoio a verdade planejada, seria mais ou menos uma falsificação em tempo real, reescrevendo os fatos no instante seguinte em que acontecem.
Talvez você esteja pensando: Quando isso ocorreu? Ora, sempre ocorre, e o fato de que você talvez não tenha percebido mostra que são bem eficientes com esse método. Não acredita? Peguemos um caso recente, o caso da menina de Alagoinha.
Segundo o que foi noticiado pelos jornais, a menina abortou os filhos gêmeos de cinco meses devido ao risco de morte que teria caso continuasse com a gravidez e, por isso, o arcebispo de Recife excomungou os médicos e a mãe da menina que autorizou o aborto. Certo? Não, errado! Primeiramente, o arcebispo de Recife não excomungou ninguém, pois para aborto a excomunhão é latae sententiae, ipso facto, o efeito é conseqüência direta da ação em causa, é automática, assim, ainda que hipoteticamente o bispo fosse a favor do aborto, os médicos e a mãe seriam excomungados. O arcebispo limitou-se a informar a excomunhão.
Então, talvez você pense que a Igreja está errada em condenar o aborto e não o estuprador. Certo? Novamente errado, a Igreja condena os dois. Mas, então, por que excomungou apenas os médicos e a mãe, mas não o estuprador? Esse é um questionamento legítimo e que requer uma explicação – explicação esta que não foi dada pelos jornais.
Primeiro, a excomunhão é uma pena eclesiástica, diferente da legislação e penas comuns, e tem um significado pastoral que visa proteger a integridade espiritual e moral dos fiéis católicos e mover o culpado ao arrependimento, despertando a sua consciência para a gravidade do seu ato.
E por que não aplicar a excomunhão para o estupro? Por que os fiéis católicos sabem, sem sombra de dúvidas, que o estupro é um pecado grave e desprezível e, portanto, não há o risco de que a consciência dos católicos fique confusa e desorientada, pensando que o mal é bom. Esse, no entanto, não é o caso do aborto – que moralmente não admite exceção – pois é sabido que médicos, jornais, juristas e a legislação o aprovam, podendo, por isso, levar os fiéis católicos a cometerem o equívoco de pensarem que “o que é legal é lícito, o que a lei aprova ou não pune é moral” (1). A pena eclesiástica, nesse caso, visa manter íntegra a consciência cristã para que não haja confusão entre o que é bom e o que é mau.
Mas talvez você esteja pensando que se tratava de uma menina de nove anos grávida e com risco de morte. Sim, tratava se de uma menina de nove anos grávida, mas o risco de morte pode ser inquirido quanto a sua factualidade. Para não alongar muito este post, aconselho a acessarem o blog do Padre Edson Rodrigues, Pároco de Alagoinha (2). Mas, para ficar apenas numa pergunta: Por que passado alguns meses ainda não se apresentaram as provas reais da "legalidade" deste aborto devidas pelo Hospital ao Conselho Tutelar de Alagoinha?
Note que não se trata de abrandar a pena para o estuprador e penalizar maximamente quem aborta, mas de condenar as duas atitudes. A legislação brasileira se encarrega de punir o estuprador, mas concede exceções legais em casos de aborto. Nesse ponto ocorre a inversão da pena, distorcendo a justiça, pois ao passo que o estuprador é condenado a prisão e não a morte, o bebê por nascer é sujeito a morte mediante o aborto. Não lhe parece uma clara distorção da justiça quando um bebezinho recebe uma pena maior do que a de um estuprador?
As explicações sobre o quadro completo do fato acabam se revelando diferentes do tom com que o fato foi noticiado. Podemos notar também que o que deveria ser exposto como uma pergunta, foi noticiado como uma afirmação, como uma verdade acerca do assunto, a saber, o arcebispo excomungou, a Igreja condena o aborto e não o estupro, a Igreja é insensível, a menina corria risco de morte e etc. Tais afirmações, na verdade, serviram como um embuste para a população.
A verdade que ficou estabelecida foi a interpretação seletiva dos jornais, formando uma doxa que limitou a obtenção, ou compreensão melhor, da verdade.
Diversos fatores influenciam a forma em que a notícia é apresentada, fatores políticos, ideológicos e morais e muito comumente, imorais. Às vezes os valores foram de tal forma distorcidos que o que parece ser justo, o que parece ser uma verdade óbvia, serve apenas a objetivos escusos, formando uma rede de aparências que simula e limita a verdade.
Dado este exemplo e outros que grudam em nossa percepção, vemos que 1984 não é tão fantástico e longínquo como pode parecer a uma primeira leitura, mas nos lembra uma sombra que espreita, persistente, e que não cansa em sua tentativa de restringir a verdade.
Fonte: http://morethson.blogspot.com/
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(1) A menina, o aborto e a excomunhão – Padre Francisco Faus
(2) O caso da menina de Alagoinha-PE – O que você vai ler, a imprensa não quis e nem quer saber – Padre Edson Rodrigues
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