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A entrada de Paulo na história

Tiago Régis
1
Tiago Coutinho - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE
8/12/2006 · 142 · 4
 

O Grupo TR.E.M.A. volta a flanar pelos terminais de integração dos ônibus de Fortaleza. A série Cadeira com Rodas continua na busca de boas histórias, para contar, pensar, refletir. Chegou-se ao terminal da Parangaba. Nele, encontramos Paulo. 18 anos, porteiro, gosta de escutar música.

Enquanto isso, Lorena dorme na casa da mãe. Na mesma noite, a rádio Cidade toca uma música que agrada Paulo. Ele não pode ficar muito distraído. Se bobear, a galera entra pelo portão sem pagar. Aí, ele se fode. É chamado atenção. O terminal da Parangaba não possui muros. De dentro, dá até pra vê os anúncios do show de forró que acontecerá em breve. Lá o vento sopra mais forte e carrega consigo, às vezes, pessoas com a intenção de burlar a segurança. Paulo precisa pregar os olhos nos dois portões principais. Um para cada olho. O suficiente. Nos finais de semana, principalmente, alguns bebos chatos perturbam para entrar. Ele precisa dizer não. Está no emprego há pouco mais de dois meses. Precisa garantir os 464 reais, os vale-transportes e os vale-refeições. E manter a casa, onde mora com Lorena.

Lorena dorme, ou não. Talvez, perto dos trilhos, a noite esteja mais animada do que os ritmos dos fones de ouvido de Paulo. Nos trilhos. Nas trilhas. Os esquemas, as paradas. Já faz um ano que aquela história aconteceu. Há uns três meses, esteve no Fórum Clovis Beviláqua e viu que sua ficha tava limpa. Ficou orgulhoso. A história parece estar resolvida. Foi tão rápido. E tanta coisa aconteceu no pequeno tempo de um ano.

Paulo Leandro. 18 anos. Negro. Casado com Lorena. Cursa o segundo ano do segundo grau no colégio Eduardo Campos, no bairro morro do ouro, perto da sua casa. Nas terças e nas quintas-feiras, bate um racha com os amigos na escola. A aula termina mais cedo. Vigia o terminal de ônibus da Parangaba. Trabalha um dia sim e outro não das 23h às 5h. Mora no Beco da Rapousa, perto do Jacarecanga, perto do Hiper Mercantil, onde tem uns trilhos; perto do Liceu do Ceará, onde vai fazer cursinho pro vestibular. Quer cursar Administração. Deseja ter um bom emprego. Ouviu dizer que na Fanor pode estudar de graça por causa do Prouni. Vai se informar melhor.

Para chegar ao emprego, ele anda até a Francisco Sá. Pega o clube dos regatas e segue direto. Rumo ao terminal. No caminho, os fones não saem do ouvido. Gosta de reggae, pop rock e hip hop. Curte Racionais e MV Bill. Nas noites em que está fora de casa, Lorena, sua esposa, com medo de dormir sozinha, vai pra casa da mãe. Espera Paulo chegar de manhã. Tomam café da manhã juntos. Eles se amam. O olhar dele ao falar dela não nega.

Estão juntos há quase quatro anos. Ela tem 15. Ele, 18. Sempre moraram pertos. As famílias se conhecem. Quando quiseram dormir juntos, as mães não deixaram. Paulo não podia dormir na casa de Lorena. Lorena não podia passar a noite na casa de Paulo. Saíram de casa. Arrumaram uma casinha ali mesmo, pelas bandas do Beco da Rapousa. As mães ajudam nas contas. E eles podem dormir juntos, tranqüilos. Mas não todas as noites. Noite sim, noite não. Paulo trabalha.

Dias desses, Paulo terminou de ler um livro alugado na biblioteca do seu colégio. Gostou. Chamava-se "O Pensamento". Era a história de um cara que contava sua própria vida. Desde o comecinho, quando era moleque e freqüentava à escola. Depois procurava um emprego, uma mulher. Era isso. A vida do cara.

- E, você, Paulo, não quer escrever sua história também? Escreve aí, cara...
- Não! Só tem coisa que não presta. – E enrolava nos dedos os fios que seguram o seu rádio. Olhos atentos para o chão – Eu fazia coisas erradas.
- Que coisas?
- Coisas erradas. Drogas...
- Você consumia?
- Consumia e vendia. E roubava.

Cada vez mais, enrolava nos dedos os fios de um lado para o outro. Girava de um lado para outro.

O contato era a galera de depois da passarela, ali perto dos trilhos do Hiper Mercantil da Bezerra de Menezes. Lá tem umas paradas certas. Os caras encomendam uns modelos de celular. É só ir atrás e trazer que a grana tá garantida. Primeiro só no grito. Um canivete talvez. Depois veio o toca fita, um 38, seqüestro a mão armada, até atirar nas pernas de alguém que tentou reagir e quis correr. A mãe ameaçou colocá-lo para fora de casa por causa do silêncio. Ele não dizia de onde conseguia o dinheiro.

Tinha maconha, tinha pó. Tinha umas vendas pelos lados da Praça da Lagoa. A Lorena não gostava. Ele negava. Mas ela sabia o que acontecia. Todo mundo sabia. Até que veio o vacilo pra confirmar. A Febem pegou duas vezes e soltou. Na terceira, ficou 48 dias. Apanhou sem motivo. Ficou na tranca esperando sem camisa uma vaga em uma das celas. Depois saiu. Viu que o esquema era sério. Já faz um ano. Se arrepende. Tem vergonha de escrever, mas talvez goste de contar com o motivo de superação e orgulho.

Paulo conta a história. Edvaldo, do lado de fora, tenta entrar de graça no terminal. Não pode! Deixar eu entrar, aí, mah... Edvaldo desiste. Senta na calçada. Escuta a história de Paulo. A tensão arma o cenário. E o radinho balança ainda mais forte entre os dedos de Paulo. É Febem, né? – interrompe Edvaldo. É! Eu, graças a Deus, nunca fui pego. Já tou com 17 anos. Edvaldo pergunta se Paulo conhece uns amigos dele. Parece que sim. A cuspida constante marca cada fala. Edvaldo tem uma mulher e uma filha. Para sustento, vende bombom. Quer entrar naquela noite de graça no terminal. Mas o terminal só tem vendedor de bombom cadastrado. São 48. Quando abriram as vagas pro da Parangaba, ele perdeu a chance. Mas parece que morreu um cara há pouco, e ele vai entrar nesse esquema. Edvaldo senta na calçada. Eles conversam. Paulo no banco, dentro do terminal.

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Pedro Rocha - Grupo TR.E.M.A.

O capítulos anterior da série Cadeira com Rodas estão aqui.

Pedro Rocha - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 9/12/2006 00:59
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Sebastião Firmiano

Quanta gente neste país não é vista nem ouvida, pelos mandantes que tem a batuta nas mãos.
É preciso Pedro Rocha- Grupo TR.E.M.A/ Trazerem a vida e a vóz dessa gente, dos terminais, dos beirais de prédios, de debaixo das pontes.Esse mundo é que merece o Overmundo.
Parabéns.

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 9/12/2006 18:13
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Sebastião Firmiano

Desculpe-me: Eu pretendia me referir a TIAGO COUTINHO quando me referi á Pedro Rocha. Más como são do mesmo grupo, Então Parabéns a todos.

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 9/12/2006 18:22
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Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A.

Coutinho, muito massa!

Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 11/12/2006 11:14
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