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A escola de Vênus

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Saramar · Goiânia, GO
6/10/2007 · 196 · 20
 

Comecei na escola como uma estrela semelhante àquelas que admirava desde pequena. Primeiro pela idade (6 anos), depois, pelo braço engessado, motivo de inveja de nove entre dez alunos e mais ainda, já sabia ler e escrever. Pequena, tímida e, graças à minha mãe, já sabendo ler muito bem, brilhei por algum tempo.

O braço quebrado, porém, trouxe uma dificuldade: sou canhota e quebrei justamente o esquerdo. Então, por mais que afirmasse meu imenso saber escrever, ninguém acreditava porque fui obrigada a fazê-lo com a desacostumada mão direita. Desfez-se assim, o brilho da incipiente estrela. Até hoje, escrevo com ambas.

A escola, Grupo Escolar Vasco dos Reis, no Setor Sul (bairro da classe média de Goiânia), era, pela proximidade, o celeiro dos meninos pobres de parte do meu bairro, o Setor Universitário. Nesses tempos jurássicos (ano 1969), os ricos moravam no centro, que geograficamente, ficava a um córrego de distância da minha rua. Na prática, a distância era medida em anos-luz. E, no meio, a escola, abrigando meninos pobres e alguns remediados.

Da minha rua, todas as crianças iam juntas para a escola e era uma festa e uma bagunça lindas. Posso quase rever aquele bando de meninos magricelas e seus malabarismos rua a fora, sempre implicando uns com os outros enquanto as meninas, de mãos dadas, iam mais atrás desvendando, entre si, grandes segredos. Que saudade!

Havia o Damião, menino mais velho que decidiu ser para sempre criança e nunca deixar o Grupo Escolar. Era, segundo minha mãe “um capeta em figura de gente” e nos atormentava por todo o curto caminho entre a casa e a escola. Depois do portão, porém, era um lorde. Com as professoras, claro.

O Grupo Escolar, pequeno e antigo, mal continha os ímpetos olímpicos de seus alunos, por isso, a “hora do recreio” era desfrutada fora dos muros, enlouquecendo a vizinhança. A construção, no meu tempo, já era velha; as salas feias, de paredes descascadas e as janelas altíssimas (para uma criança) davam um tom de penumbra constante. As carteiras, de duplas, rangiam e, desse ranger, os alunos mais corajosos faziam a festa nas tardes monótonas sobre a tabuada. Pobres professores! Não, eu não me incluía entre eles, isso era coisa de meninos e não de meninas, sempre quietas como bonecas.

Ali, encontrei-me definitivamente com os livros e com inesquecíveis professores, como Dona Dalva, que sempre me premiava com pequenos textos (escritos à mão!) e castigos memoráveis, como escrever cem vezes “não devo conversar na sala de aula”. Sim, apesar de tímida, sempre fui tagarela.

Estudava na cartilha Sodré (Deus, nunca mais havia me lembrado dela), pequena, de capa verde com uma menina de tranças. Mais tarde, na terceira série, passamos para um imenso livro de leitura feito aqui mesmo em Goiânia. A leitura sempre foi o ponto alto das aulas, em voz alta, em grupo.

O lanche, ou “merenda” como se diz por aqui, era horrível. Porém para nós, meninos pobres, sempre foi essencial. H avia um mingau feito de leite em pó enviado pelos EUA, por meio da “Aliança para o Progresso”, programa de ajuda patrocinado por John Kennedy. Durante as festas escolares, sempre éramos lembrados da felicidade de poder contar com tal gororoba.

Memoráveis eram os dias de “tirar fotos”. Todo mundo bonito, uniforme impecável, saias compridíssimas, blusa sobre camiseta, com o distintivo da escola, bordado à mão e uma fila de meninos quietinhos como filhotes de demo. O resultado era um binóculo (a coisa mais surreal do mundo) com nossa imagem perdida lá dentro, pequenina. Ainda guardo uma dessas em que estou na mais gloriosa banguelice dos meus sete anos. Que vergonha!

Lembro-me do meu encantamento com a diretora da escola. Sempre foi especialmente atenciosa, apesar de rígida na disciplina. Mas o que me deixava encantada era o seu nome: Vênus, como uma estrela, um planeta e me admirava demais que alguém pudesse ter recebido o nome de um astro. Para mim, gente assim só podia ser alguma coisa muito próxima dos anjos. Eu, que sempre sofri todo tipo de gozação por causa do meu nome estranho, invejava a diretora por esse belíssimo Vênus.

O meu nome, ao contrário, sempre serviu de mote para toda rima ou musiquinha inventadas pelos meninos para me atazanar. Sarava era o mais comum, seguido de Sara...má, ambos motivos de cachoeiras de lágrimas dentro da escola.

Fiquei ali até o final do curso primário. Anos depois, voltei como professora, para aquelas antigas salas que viram passar minha infância tímida e feliz. Hoje, depois de reformada, é um colégio militar (da PM) com o mesmo nome.

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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Saramar:
Aqui no Piauí existe um prato típico chamado "Mão de Vaca". Apesar da sustança (é feito de osso buco0 é muito saboroso e a gente sempre come mais do que devia. "Mão de Vaca" em São Paulo é o sovina,que só abre a mão pra dar bom dia e aproveita já dá também boa tarde e boa noite pra mão precisar abrindo as mãos com freqüencia. Apelidei seu texto de "Mão de vaca" e, sinceramente, nas duas acepções: tem gosto de "quero mais" -mão de vaca piauiense – e jeito de "dou menos" – a expressão paulista.

Pior é que vc começou de uma maneira deliciosa, brilhante como uma constelação de estrelas.O seu braço quebrado até me lembrou a careca que adquiri na radioterapia utilizada para combater uma "tinha" que se instalou na minha cabeça aos oito ou nove anos de idade. Minha cabeça ficou despelada como uma bunda e e eu só tirava a boina se alguém me desse algo em troca; um lápis, uma fruta ou um pedaço de pão com marmelada.

Depois desta entrada triunfal, Saramar, no entanto, você resolveu navegar em mares menos turbulentos, insinuando mais do que mostrando e suscitando em mim algumas perguntas.Por exemplo: Você se incluia entre os "alunos mais corajosos" ou Eles eram "Mais corajosos" tendo você como referência?
Cultura Inutil: A quem pode interessar quem foi o Vasco dos Reis? O parágrafo utilizado para esta informação poderia se-lo muito melhor utilizado em situar o ano em que os fatos ocorreram, a melhor caracterização do bairro onde a escola se situava.
Para o seu texto em utilizaria a palavra contenção. posso até estar enganado, mas você tem muito mais coisas pra dizer.
Até uma revelação importante como "sempre sofri todo tipo de gozação por causa do meu nome estranho" vira pormenor.

Sabe o que fica parecendo? Que em vez de curtir um vôo introspectivo dentro da memória você resolveu desincumbir-se de uma tarefa. Seu texto é uma promessa que ainda precisa concretizar-se. Mas todos os elementos para isso estão ao alcance da sua mão e da sua memória.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
.

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 3/10/2007 14:12
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Saramar:

Não me apressei em responder porque tenho certeza de que você sabe que ficou incomparavelmente melhor (e, garanto, nem doeu nada). Apenas uma coisinha ainda me incomoda: o lugar que você ocupa nas suas memórias não é, quase nunca, a de atriz principal mas, muito mais, o de testemunha da história. Acho que o que você chama "de criar um monstro" é justamente esta coisa de olhar para dentro de si mesma e tornar-se protagonista da história.
Sabe o que eu me lembrei? De um filme começando com a Saramar, que estudou 4 anos naquela escola, retornando a ela agora no papel de professora. No primeiro dia de aula, a Saramar chega bem antes do horário e entra numa sala vazia, justamente uma das que estudou na infância. Aí vem um flash back e ela começa as suas memórias...a Saramar de braço quebrado, sentadinha na carteira e a algazarra dos meninos chegando e assumindo os seus lugares naquela sala suja e penumbrosa com suas altas janelas. rsrsrsrs Dava um filme, não acha?
Falando sério, meu bem, está muito legal e bastante cinematográfico o seu relato.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o acho andarilho
PS Postei um texto no overblog falando do nosso projeto. Acho que pode servir de uma espécie de quadro de avisos para os participantes. Deixe um comentári o qq lá para ser avisada sempre que alguém queira se comunicar com o grupo como um todo

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 3/10/2007 22:35
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Outra coisa, Saramar. Como foi e quem foi que te alfabetizou aos 5 anos?

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 3/10/2007 22:36
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Joana Eleutério
 

Saramar,
Senti falta das fotos a que você se refere. Não sobrou nehuma?
Vou repetir uma frase que já coloquei em um comentário do texto do André Pessego e será o fecho do meu próximo: Recontar a nossa história com amor é sempre iluminá-la. Beijo grande.

Joana Eleutério · Brasília, DF 3/10/2007 23:37
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Letícia L. Möller
 

Saramar,
adorei o teu texto, uma leitura muito gostosa que faz a gente ir para aquela escola com você menina. Assim como a Joana, também fiquei com uma vontade danada de ver fotos suas daquela época...
Me atrevi a colocar minhas lembranças de jardim no overblog (em edição), se quiseres dar uma olhada vou adorar.
Um beijo para ti,
Leticia.

Letícia L. Möller · Porto Alegre, RS 4/10/2007 02:54
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Ize
 

Nossa Saramar, o Joca é um editor exigente demais rsrsrsrsr. Mas se ele contribuiu um pouquinho pra cara que esse seu texto ficou, valeu. Mto boas as suas lembranças e como flui a sua escrita. Sua prosa não fica nada a dever aos seus poemas. E adorei o título. Sugestivo e alegórico: não fosse vc poeta.
Estava aqui tão cansada lendo coisas tão chatas. Vc me salvou do tedio.
Muito obrigada e um beijo

Ize · Rio de Janeiro, RJ 4/10/2007 14:35
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Letícia L. Möller
 

Querida Saramar,
voltei para votar (fui a primeira!).
Beijos.

Letícia L. Möller · Porto Alegre, RS 5/10/2007 12:05
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

E eu o segundo!
+ beijos

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 5/10/2007 12:29
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BETHA
 

SARAMAR,
gosto demais dos seus poemas, e li o de memória também porque admiro o gênero. Acho que conseguiste atingir o objetivo: encantar, emocionar e, principalmente, resgatar aquilo que agora não é apenas teu, mas de todos que te lemos.
Bjs de Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 6/10/2007 09:37
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analuizadapenha
 

olá ...Sara-Mar, que missão a de curar a vida... hein? Estou tb com a Primeira Vez no Jardim, mande notícias sobre. Abraços.

analuizadapenha · Natal, RN 6/10/2007 12:51
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Agenor
 

Querida Saramar,
Texto delicioso de ler ...Você me fez lembrar do binóculo com fotografia. Era como se fosse uma coisa mágica e a gente ficava todo orgulhoso de se ver lá dentro.
Parabéns, amiga, belíssimas reminiscências...
Abraços

Agenor · Aquidauana, MS 6/10/2007 15:13
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brigitte
 

Querida Saramar (conterrânea), ótimo texto. A viagem que você faz nos conduz para dentro de suas lembranças.Adorei.
Só uma observação: O colégio Vasco dos Reis, se mudou para o Colégio Polivalente Modelo Vasco dos Reis. Uma fusão dos dois colégios, sob o comando da PM.

Abração.

brigitte · Goiânia, GO 6/10/2007 19:52
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Rubenio Marcelo
 

Amiga Saramar,
Vi agora e me deliciei com esta narrativa maravilhosa e tocante. Belo enredo, rico de detalhes, próprio das pessoas que têm uma admirável história.
Votei!

abrs,

Rubenio Marcelo · Campo Grande, MS 7/10/2007 11:17
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Frazão Brother
 

Missão cumprida, Saramar. Agora pode se soltar e escrever com o coração, que você é maravilhosa.
bjs

Frazão Brother · Anastácio, MS 7/10/2007 17:12
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crispinga
 

Faltava você, poetiza do coração!
BJS
Cris

crispinga · Nova Friburgo, RJ 7/10/2007 19:15
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Roberta Tum
 

Menina,
adorei viajar nas suas memórias, descritivas, lindas!
Parabéns!

Roberta Tum · Palmas, TO 8/10/2007 14:16
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Adriana Costa
 

Saramar,
que delícia de texto, que maravilhosas lembranças!
Flores sempre @>--

Adriana Costa · Brasília, DF 8/10/2007 15:42
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Andre Pessego
 

Sara, minha doce poetisa,
estou contente - voce é Professora, só podia ser: toda Professora do mundo é minha amiga. Só hoje pude ler tuas lembranças.
E, é assim - as crianças são "iguais", rigorosamente "iguais" - vamos crescendo e o mundo nos deturpando: ficamos como se sendo uns de seda, outros de algodãozinho, outros de mescla, e ainda outros dos tecidos de outros planetas, de Vênus - por exemplo.
um abraço, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 13/10/2007 14:50
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Marluce Freire Nascasbez
 

Saramar,

Parabéns doce poetisa!

Um aBRAÇO, Marluce

Marluce Freire Nascasbez · Carnaíba, PE 16/10/2007 13:57
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Saramar, veja o milagre que vc operou
Que bom, A Marluce, finalmente resolveu dar uma olhada nas reminicências ( este é o primeiro comentario dela, se não me engano, nos textos de reminiscências) trazida por voc^
Querida Marluce, espero que tenha vindo pra ficar
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 16/10/2007 14:49
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