A espiritualidade do Carnaval

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eduardo.carneiro · Rio Branco, AC
17/2/2007 · 110 · 6
 

A espiritualidade do Carnaval

“Carnaval é uma grandiosa cosmovisão universalmente popular de milênios passados... é o mundo às avessas”. (Bakhtin, 1970)

O carnaval realizado no Brasil é a maior festa popular do mundo. Grande parte dos foliões brasileiros, no entanto, não conhecem as origens e as implicações dessa festa. Pensa-se que o carnaval é uma brincadeira típica do Brasil, mas várias cidades do mundo como Nice (França), Veneza (Itália), Nova Orleans (EUA), dentre outras, também a celebram anualmente.

O carnaval, para surpresa de muitos, é um fenômeno social anterior à era cristã. Assim como atualmente ela é uma tradição em vários países, na antiguidade, o carnaval também foi praticado por várias civilizações. No Egito, na Grécia e em Roma, pessoas de diversas classes sociais se reuniam em praça pública com máscaras e enfeites para desfilarem, beberem vinho, dançarem, cantarem e se entregarem as mais diversas libertinagens.

A diferença entre o carnaval da antiguidade para o de hoje é que, no primeiro, as pessoas participavam das festas mais conscientes de que estavam adorando aos deuses. O carnaval era uma prática religiosa ligada à fertilidade do solo. Era uma espécie de culto agrário em que os foliões comemoravam a boa colheita, o retorno da primavera e a benevolência dos deuses. No Egito, os rituais eram oferecidos ao deus Osíris, por ocasião do recuo das águas do rio Nilo. Na Grécia, Dionísio, deus do vinho e da loucura, era o centro de todas as homenagens, ao lado de Momo, deus da zombaria. Em Roma, várias entidades mitológicas eram adoradas, desde Júpiter, deus da urgia, até Saturno e Baco.

Na Roma antiga, o mais belo soldado era designado para representar o deus Momo no carnaval, ocasião em que era coroado rei. Durante os três dias da festividade, o soldado era tratado como a mais alta autoridade local, sendo o anfitrião de toda a orgia. Encerrada as comemorações, o “Rei Momo” era sacrificado no altar de Saturno. Posteriormente, passou-se a escolher o homem mais obeso da cidade, para servir de símbolo da fartura, do excesso e da extravagância.

Com a supremacia do cristianismo a partir do século IV de nossa era, várias tradições pagãs foram combatidas. No entanto, a adesão em massa de não-convertidos ao cristianismo, dificultou a repressão completa. A Igreja foi forçada a consentir com a prática de certos costumes pagãos, muitos dos quais, cristianizados para evitar maiores transtornos. O carnaval acabou sendo permitido, o que serviu como “válvula de escape” diante das exigências impostas aos medievos no período da Quaresma.

Na Quaresma, todos os cristãos eram convocados a penitências e à abstinência de carne por 40 dias, da quarta-feira de cinza até as vésperas da páscoa. Para compensar esse período de suplício, a Igreja fez “vistas grossas” às três noites de carnaval. Na ocasião, os medievos aproveitavam para se esbaldar em comidas, festas, bebidas e prostituições, como na antiguidade.

Na Idade Média, o carnaval passou a ser chamado de “Festa dos Loucos”, pois o folião perdia completamente sua identidade cristã e se apegava aos costumes pagãos. Na “Festa dos Loucos”, tudo passava a ser permitido, todos os constrangimentos sociais e religiosos eram abolidos. Disfarçados com fantasias que preservavam o anonimato, os “cristãos não-convertidos” se entregavam a várias licenciosidades, que eram, geralmente, associadas à veneração aos deuses pagãos.

O carnaval na Idade Média foi objeto de estudo de um dos maiores pensadores do século XX, o marxista russo Bakhtin. Em seu livro Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, Bakhtin observa que no carnaval medieval – “o mundo parecia ficar de cabeça para baixo”. Vivia-se uma vida ao contrário. Era um período em que a vida das pessoas tornava-se visivelmente ambígua, pois a vida oficial - religiosa, cristã, casta, disciplinada, reservada, etc. – amalgamava-se com a vida não-oficial – a pagã e carnal. O sagrado que regulamentava a vida das pessoas era profanado e as pessoas passavam a ver o mundo numa perspectiva carnavalesca, ou seja, liberada dos medos e da ética cristã.

Com a chegada da Idade Moderna, a “Festa dos Loucos” se espalhou pelo mundo afora, chegando ao Brasil, ao que tudo indica, no início do século XVII. Trazido pelos portugueses, o ENTRUDO – nome dado ao carnaval no Brasil – se transformaria na maior manifestação popular do mundo, numa das maiores adorações aos deuses pagãos do planeta e, por tabela, na maior apologia a prostituição apoiada pelo Estado. Você vai participar do CARNAval?

Egina Carli de Araújo Rodrigues é professora de História das redes pública e particular de ensino no Acre (eduardoeginacarli@blogspot.com)

Eduardo Carneiro é acadêmico do mestrado em letras pela UFAC.

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Helena Aragão
 

Oi Eduardo, interessante... Queria te dar uma sugestão: a comunidade está organizando para produzir textos sobre o carnaval em todo o país (a conversa está rolando no Fórum) . O texto de vocês é sobre as origens da festa, mas acho que tem tudo a ver inclui-lo no pacote. Basta colocar a tag "carnaval-2007" (se você clicar no lapisinho, é só buscar o quadradinho das tags e preencher lá). As tags são importantes porque são palavras-chaves onde as pessoas produram o que querem ler dentro do imenso banco de dados do site. Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 14/2/2007 15:26
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jjLeandro
 

Beleza, Eduardo. Vamos lá incentivar o pessoal a postar. Quando o carnaval tiver rolando, tem mais!

abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 14/2/2007 19:34
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Egeu Laus
 

Ótimo Eduardo. Você poderia aproveitar e falar também sobre o carnaval de Rio Branco...
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 15/2/2007 09:55
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Felipe Obrer
 

Eduardo, que bom que aceitaste a sugestão de publicar algum histórico do carnaval além do teu comentário no fórum. Achei muito útil e instrutivo o texto.

Abraço.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 17/2/2007 14:40
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Alê Barreto
 

Eu não tinha a menor idéia que Bakhtin havia estudado o carnaval. Vivendo e aprendendo com esta overcomunidade!

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 17/2/2007 16:40
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koinha
 

Gostei muito desse texto sobre o carnaval, muito esclarecedor mesmo pelo menos pra mim.
Parabéns!!

koinha · Teresina, PI 6/2/2008 20:49
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