A FESTA DO RIO [O PARADOXO DA BELEZA]

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matyeu · França , WW
21/2/2009 · 206 · 19
 


Uma festa popular e aberta. Uma pequena e pacata cidade, encravada no sertão semi-árido do Nordeste brasileiro. Dia da padroeira. As pessoas [homens, mulheres, adultos e jovens, mas nenhuma criança] vão se aglomerando no leito do rio seco, enquanto curiosos se acotovelam em cima da ponte. Cena de piquenique. Comida, lençóis no chão, bebida e muita conversa.
Mas o assunto é outro...
Todo ano, no primeiro dia de fevereiro, centenas [isso mesmo, centenas] de prostitutas se reúnem no leito seco do Rio Trairy, na pequena e [até o dia anterior e a partir do dia seguinte] bucólica cidade de Boa Saúde, distante 80 km de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Um dia depois, começam os festejos da padroeira da cidade. É o profano e o sagrado, um após o outro.
A Festa do Rio é uma das festas populares mais profanas existentes no Brasil e que acontece há 130 anos! [festa centenária] E, ironicamente, no mesmo dia da festa da padroeira!
No início da tarde começam a chegar os homens, a maioria já habituada com o ritual da festa. Jovens rapazes, curiosos e ansiosos, ficam mais distantes, observando e aprendendo como participar. Aos poucos as mulheres chegam, de carro, ônibus e caminhões [todos fretados]. Elas vem de várias partes do Estado para venderem sexo, barato e rápido.
A cena da chegada delas é cinematográfica. O som dos motores dos carros é superado pelos urros dos homens, verdadeiros gritos de amor, pilhérias e outras saudações. Os carros param e os homens se comprimem formando um corredor para que as mulheres tenham acesso ao leito do rio, embaixo da ponte. O ambiente toma um aspecto de urgência, como se algo fosse acontecer a qualquer momento. O som, os odores e o frenesi deixam a realidade em suspenso.
Os espectadores estão sobre a ponte, os protagonistas embaixo. O sol vai se pondo. As mulheres fazem uma refeição em mesas postas sob as juremas [árvore típica da região]. Os homens as rodeiam, como animais à espreita da caça acuada. A noite vai chegando e elas começam a dança de insinuações, caminhando por entre os grupos para que os homens ofereçam seus lances.
Enquanto há luz natural os casais procuram uma moita afastada, mas quando a noite cai, a festa atinge o clímax. Sexo em grupo, sem nenhuma cerimônia. Em cima da ponte já não há mais ninguém. O breu da noite apagou a tela. Foram ver a novena. Lá embaixo um rio de gente, fluindo nas ondas do sexo. Tudo isso sem a presença de um único policial. E nem precisa, pois a cerimônia é religiosa!
É uma beleza chocante, quase impossível, indescritível, inimaginável, No entanto, não se pode ignorar um evento que traduz nada mais que uma beleza profana, sempre velada, à margem da sociedade, e sobre a qual não nos caberia nenhum juízo de valor, afinal estamos diante de um fenômeno sociológico que apenas carece de um olhar franco, ausente de preconceitos.
É o paradoxo da beleza.
Acontecimento inédito capaz de chamar a atenção; de causar até admiração! É o belo sem pudor, sem ostentação.
Imaginem uma beleza sem elegância, sem requinte e sem delicadeza; sem encanto e sem princesa; sem suntuosidade e sem fascinação; sem anjo, sem lírio e sem mimo; sem diva e sem ninfa, sem deusa nem rosa, sem fada, sem nada. Nem sublime nem solene, nem poético, nem suave, nem doce, nem suntuoso, nem mágico, porém pitoresco e inconcebível; de extraordinária tentação e esplêndida sedução.
Elas [essas mulheres] eram tudo e nada disso, e se davam sem equilíbrio e sem prender o coração.
MICRO MUNDO
texto : Buca Dantas
Filmagem : Matyeu Duvignaud


ASSISTE A FESTA DO RIO :
http://www.youtube.com/watch?v=oW4CDxt4L_w


blog da Micro Mundo:
http://micromundobrazil.blogspot.com/


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Hermano Vianna
 

que coisa incrível! o que mais surpreende é que a festa existe há mais de 100 anos fazendo esse curto-circuito selvagem entre o sagrado e profano! o Brasil realmente é um espanto (já soube também de uma festa de prostitutas num cemitério duma cidade do interior cearense - alguém tem notícias?) - caramba, tô meio abestalhado ainda... teu pai conhecia esta festa Matyeu? (o Matyeu é filho de um dos meus ídolos, o excelente antropólogo francês Jean Duvignaud, que estudou muito os paradoxos das festas durante sua vida, publicando o grande clássico Festas e Civilizações) daria um livro incrível - vi que você colocou o vídeo também no Banco de Cultura do Overmundo: aqui está o link - abraços!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 18/2/2009 12:12
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matyeu
 

obrigado Hermano,
não sabia que vc estudou os textos do meu pai. Ele não sabia dessa festa, mais com certeza ia adorar ! foi muito "bacanal", as relações entre essas mulheres e esses homens ... mesmo havendo uma relação de dinheiro, há também uma ligação invisível do encontro ancestral, da tradição. Um fato engraçado ... foi nos anos 70 a prefeitura quis proibir essa festa, então todas as prostitutas invadiram o centro da cidade, houve muita confusão... foi pior ainda !! desde então ninguém quis se interpor ...
Já presenciei em vários lugares essa homenagem a divina comedia do dante ... o paraíso ( a festa da padroeira) e o inferno ( sempre uma festa onde tudo é permitido) , alias o próprio carnaval é uma dessas ...
Abraços

Matyeu

matyeu · França , WW 18/2/2009 13:37
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ronaldo lemos
 

Isso é realmente inacreditável. Supera até a Festa da Chiquita, que reúne 40 mil gays ao mesmo tempo em que acontece o Círio de Nazaré em Belém. A Priscila Brasil fez um documentário chamado Filhas da Chiquita retratando o encontro da entre as duas "procissões", o Círio e a Chiquita.

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 18/2/2009 16:40
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Ilhandarilha
 

Fiquei curiosa para saber qual é a padroeira da cidade... Será Santa Maria Madalena? Fantástica a festa e a sua descrição dela.
abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 19/2/2009 18:17
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Cherry Blossom
 

Myteu
Fantástico o teu olhar... Eu jamais seria capaz de imaginar algo assim no Brasil. Enquanto ia lendo o texto (excelente por sinal) iam me acorrendo cenas dos rituais pagãos que aconteciam na antiguidade,mas ao ver o vídeo me choquei com a nossa realidade tão brasileira...
Perdemos-nos entre as vias traçadas pelos milênios?....Que nada somos sempre os mesmos.....
Seu trabalho sempre muito, muito bom!
Beijo

Cherry Blossom · Dracena, SP 20/2/2009 13:04
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bucadantas
 

e aew pessoal!! estamos felizes pelos comentários...sinal de que a ferramenta Micro Doc tá no caminho certo...e não é que o Matyeu já é brasileiro?????

bucadantas · Natal, RN 20/2/2009 15:30
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joao xavi
 

este projeto dos micro docs tem uma dinâmica muito bacana.
rápido e rasteiro a gente vai descobrindo uma monte de coisas que fazem o brasil ser o brasil.

mesmo eu, que sou contra a institucionalização e a mercantilização das festas populares, não pude deixar de imaginar que neste caso caberia: ou uma ação de alguma secretaria de saúde, distribuindo camisinhas; ou até mesmo um apoio de alguma fábrica de preservativos.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 21/2/2009 12:45
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matyeu
 

"Graças a padroeira" que a prefeitura está distribuindo camisinhas ... a secretaria de saúde da cidade está com iniciativas de sensibilização... mais como está comentado no doc, "eles" não aceitam nenhum tipo de apoio, que seja eletricidade, chão mais arrumado ( eles fazem os programas no mato .. na terra mesmo ...) nada ! eles querem preservar essa autenticidade sabendo muito bem que um pouco de conforto seria o fim dessa liberdade. Até pensei que o "prazer" dos clientes está concentrado nessa rudimentalidade campestre ... não é um cabaré clássico ! Você pode passar sem ninguém lhe ver nem reconhecer, eu já vi isso em Roterdamês, na Holanda tb, no bairro vermelho da cidade, uma situação muito "voyeur" bem parecida a esta festa.

matyeu · França , WW 21/2/2009 13:21
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Ivette G.M.
 

Esse overmundo, com sua abertura para todos, contribui para que fiquemos conhecendo coisas como essa. É espantoso. Eu nunca poderia imaginar algo semelhante.
Parabéns, Matyeu
Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 21/2/2009 15:52
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Alê Barreto
 

Buca e Matyeu, muito legal o trabalho de vocês. Fui ao blog também assistir, gostei muito da idéia.

Vocês escolheram um formato muito agradável de apresentar o trabalho e que entendo que também estimula as pessoas a conhecerem a diversidade.

Hermano, boa a dica do Festas e Civilizações.

Abraços!

Alê Barreto

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 21/2/2009 16:42
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Mansur
 

É a festa de Baco! Estou estupefato, boquiaberto e um tanto reflexivo...

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 21/2/2009 18:23
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Miguens
 

O âmbito da satisfação da libido se sobrepõe à necessidade de abolição do trabalho, o que é curioso porque - ainda que possa parecer - a balança poucas vezes pende de fato para esse lado.

É engraçado, mas acabei de assistir ao vídeo com a sensação de que não sei mais qual é a linha divisória entre realidade e fantasia.
Ou melhor, será que existe mesmo fantasia?

Digo isso sem pessimismo ou moralismo, é apenas uma questão que surge.

Excelente matéria.

Miguens · Rio de Janeiro, RJ 21/2/2009 18:31
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Danielle Barros Santos
 

É engraçado como algumas situações podem ser vistas de várias maneiras; sorte poder ler (e viajar) através da sua perspectiva. Traduzir o que está subentendido de uma maneira tão simples e verdadeira!

Danielle Barros Santos · Aracaju, SE 22/2/2009 10:59
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Evandro Bonfim
 

curioso de saber mais, como começou a festa, de onde vem as garotas...

Evandro Bonfim · Rio de Janeiro, RJ 24/2/2009 13:21
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matyeu
 

as meninas são da região toda, cidades por perto...
Começo a 100 anos, ninguém sabe ou se lembra como ... tal vez simplesmente porque antes da comunião religiosa sempre vêem a comunião do inferno ...

matyeu · França , WW 24/2/2009 13:31
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QuiteriaKelly
 

Tem que ter muita sensibilidade pra mostrar de forma sutil, sem vulgarizar. Parabens pela imagens que nos deixa imaginar nao mostrando diretamente as cenas.

QuiteriaKelly · Natal, RN 25/2/2009 00:30
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Daniel Sinis
 

um tanto quanto primitivo ato de desespero sexual. Voltamos aos tempos das cavernas. Infeliz sincretismo. ô povinho ...

Daniel Sinis · Angra dos Reis, RJ 25/2/2009 01:56
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Ademir Furtado
 

Muito inbteressante esse texto. Além de apresentar as informações necessárias ao entendimento do tema, é extremamente bem escrito, sem tomar partido moralista, ainda mais num assunto tão delicado, que envolve questões morais.
Parabens

Ademir Furtado · Porto Alegre, RS 25/2/2009 23:07
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José Alaí
 

Eu já conhecia a "Festa do Rio". Fiz referência a mesma quando escrevi a História do Município de Boa saúde, no capítulo Festa da Padroeira (Ver blog: www.boasadern.blogspot.com). Parabéns pela maneira como escreveu e mostrou em vídeo um acontecimento mais que centenário e que não choca mais a comunidade.

José Alaí · Natal, RN 4/4/2009 13:21
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