Há discussões das mais variadas em torno da figura de Jesus, talvez pelo carisma histórico [isso é o que analisaremos], que ainda alimenta multidões e até então líder político algum conseguiu. Logo percebe-se que adotaremos aqui a perspectiva de um Jesus como figura política daquela sociedade. Uma das discussões gira em torno de sua falsa divindade uma vez que historicamente esta divindade teria sido construída ao longo dos séculos e decidida politicamente.
Para tanto admitiremos que a história de Jesus enquanto ser santo tem algo de miticidade uma vez partirmos do presuposto de que o mito explica a ordem social cósmica vingente e preocupa-se com as origens e a fixação de valores. A imagem de fábula, mentira, tida hoje como sinonímia comum para o termo mito fora estabelecida ainda no mundo greco-romano e, no entanto, sabe-se que o mito narra um fato verdadeiro em busca de uma verdadeira razão para o fato. Essa visão construída ainda na antiguidade é o que dará suporte para que haja uma fuga do tempo histórico de Cristo e este seja fixado em um calendário litúrgico. A liturgia, pois, teria o papel de perpetuar o mito do Cristo divinizado, semelhante ao contar de histórias de pai para filho, aqui com uma diferença, é algo registrado. Esse ponto é interessante e abrirei uma pequena brecha no andar do texto para expor uma relação mínima, mas necessária: Nietszche certa vez afirmou que o cristianismo morrera na cruz com Jesus visto sua figura central ter ruído perante o poder político da época. O calendário litúrgico então nada mais seria que uma estratégia cristã para manter a história sagrada de Jesus Cristo sempre viva; não é à toa que a experiência religiosa do cristão está assente na imitação de Cristo, sobre a repetição litúrgica da vida, morte e ressurreição. Atribuir ao Cristo o tom mítico não estaria, de acordo com a idéia primeira, desconstruindo-o, mas justificando tamanha penetração histórica que sua figura alcançou. A idéia de carisma histórico apenas tende, então, a ser desconstruída.
Um ponto que justificaria este elevado grau de discussão acerca da figura de Jesus se explica pela própria forma como surgiu o cristianismo, fruto de decisões políticas historicamente comprovadas; cristianismo este que foi moldado em torno de elementos e simbologias que permeavam os cultos religiosos de então: a instituição do 25 de dezembro como data de seu naascimento, por exemplo, é a mesma data em que os pagãos romanos comemoravam a divindade solar (Sol Invictus).
O mito do Cristo, o Messias, teria surgido, é verdade, bem mais anterior a esse fato político e histórico: é fato bíblico que os profetas do Antigo Testamento já clamavam pela vinda de um Salvador, que resgataria o povo de Moisés, em tamanhas atribulações, visto historicamente como um momento de perda da hegemonia israelita do Oriente; o Jesus faria uso desses clamores proféticos para erguer sua figura política em torno de uma nova visão de mundo, crítica perante os poderosos, eleita pelos pobres, grande massa social da época, visão esta que seria vista mais tarde como ameaça ao poder do Estado Romano a ponto de merecer uma morte na cruz. Uma morte na cruz cumpriria todas as sentenças proféticas, o consagraria, senão para todos, mas para alguns, os seus apóstolos, os quais levariam as palavras de um Cristo ressuscitado, demarcando os alicerceres do que mais tarde seria o pilar para a construção de um movimento cristão que eternizasse sua figura. Sem a decisão política tomada a figura de Cristo resumiria-se a de um profeta como outros do Antigo Testamento.
A figura de Cristo enquanto mito cristalizou-se, ganhou forma, visto que está vica e presente em nossa sociedade, transformou-se mesmo em ideologia, com seguidores aos milhares, as igrejas, centros de formação em massa em torno de suas idéias. Tanto é ideologia que todos os credos cristãos fecham-se perante uma possível discussão do Jesus humano, político e de certa impõe aos seguidores uma visão linear, desprezível de perguntas acerca do fazer histórico; criam-se dogmas, eclodem a intolerância e a perseguição, como há muito já figurou e aqui-acolá se mascara nos espaços religiosos. Também nesse aspecto a figura de carisma histórico esfacela-se, seus ensinamentos são deturpados perante interesses alheios, sejam os que visem ao capital, seja aos que visem comodidade covarde perante as misérias humanas. A figura de Cristo com tal, sob viés histórico, constitui-se, pois, não pelo caráter de seu carisma, mas pela gama de interesses que rondam sua figura. Ao estabelecer nele, enquanto divindade, o podeer de remissão dos pecados, de salvação e de vida eterna, o dogma cristão aguça interesses humanos em prol de perpetuar o caráter divino a serviço de mazelas sociais como a intolerância, ignorância perante a realidade, comodidade perante as desgraças humanas. O Cristo que se perpetua é ícone contrário dele mesmo, é símbolo das relações de poder, força motriz da engrenagem social; do amor que tanto pregou o que resta?
Parabens!
Como me disse um colega recentemente. Se Jesus não existiu quem o inventou foi um cara muito bom.
Nem precisa dizer que tanto ele como eu, somos apaixonados por Jesus, tanto faz se mito ou não.
Abraços,
O meu artigo "arte, espiritualidade e a luta por justiça" dialoga com o seu. Click em cima do nome Zezito de OIiveria e você o achará.
Zezito
Sou outra apaixonada por Jesus.
É imanente ao homem tentar decifrar o mundo visível e invisível, tentar decompô-lo à semelhança da criança que quebra o brinquedo para ver como é dentro. Neste processo, as sociedades evoluíram (lado positivo), porém, tragédias em todas as áreas da vida (muitas desconhecidas) ocorreram , fruto do exercício laboratorial da espécie. Diante dos fenômenos fé, amor, ódio, esperança, do senso de transcendência, morte, pós-morte, o dom, o poder, o acreditar... - por abstratos que sejam, tornaram-se o maior desafio e, a partir daí vê-se de tudo um pouco. Jesus e suas mensagens, nem se fala, sempre estiveram no foco da questão. Vê-se de tudo um pouco, desde os que tentam desconstruir os conceitos, a essência (considerando até a humanidade como um bando de descerebrados) até os que buscam entendê-los como enriquecimento de mecanismos para o autoconhecimento, ou para a libertação dos dramas existenciais (são frutos da imaginação ou mitos?), para tornar a vida mais bonita. Descascando as camadas de dogmas, de dominação, de tudo que humanóides incrustraram no decorrer da história, “em nome de”, vejo a essência que exalta apenas a vida, focada no amor, na paz, no relacionamento harmonioso entre o próximo – não importa onde esteja -, na “palavra amiga” para vencer os entraves do caminho, e estímulo à fé – “certeza das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem.” – isto é sair da acomodação e dar um passo a mais. Ter este insight é aproveitar o lado bom da “fruta”. Está nas mãos de cada um em quem ou no que acreditar.
O Pier Paolo Pasolini lançou, em 1964, "O Evangelho Segundo São Mateus", adaptação muito interessante por, ao mesmo tempo, ser muito fiel ao livro (a ponto de o filme ser recomendado pelo Vaticano _e olhem que o cineasta era comunista, ateu e homossexual), mas dar a entender que Jesus teria sido um líder político protocomunista.
Marcelo V. · São Paulo, SP 24/4/2007 14:04
Do amor que ele pregou, quase nada...Pedro
Eu também me confesso apaixonada pela figura de Jesus, o profeta do amor, Jesus o filho do homem. O que Constantino fez mais de 100 anos após a morte de Jesus foi institucionalizar a Igreja, criar as liturgias, fundir num só mito o conceito de "Cristo". E embora ele seja hoje a fonte do poder da Igreja Católica Apostólica Romana e suas derivadas, continuo achando Jesus, que não era o Cristo, muito mais forte.
Gostei do texto!
Grande abraço!
O impressionante de tudo é que Jesus não fundou a igreja A, B, ou C. Hoje, muitos disputam serem os primeiros, e criaram regras, e disputam a propriedade. Diante da grandiosa mensagem de vida, o resto torna-se tão insignificante...
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