A folha que sobrou do caderno (e da folha d ponto)

Imagem do documentário A folha que sobrou do caderno
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Luana Wernik · Brasília, DF
30/7/2008 · 114 · 7
 

Lembro perfeitamente de uma discussão que tive com um ex-chefe, onde em resposta ao meu chamado para participação em listas de discussão ele respondeu: "Designers pensando coletivamente? Em que mundo você vive?". O que mais me assustou porém, foi o fato disso não ter partido de um publicitário ou marketeiro, e sim de um designer de produto. Há tempos formado, só quer saber da sua graninha no fim do mês, como a maioria. Não recrimino, de forma alguma, afinal todos temos contas a pagar e idealismo não enche barriga. Mas o que eu fico pensando é o seguinte: Como, com cada vez mais gente formada nos moldes de uma educação precária e retrógrada, os novos profissionais vão enxergar além de seus pequenos e egocêntricos umbigos?

Já passa da hora de agir, parar de discutir se o termo "logomarca" existe ou é lenda, fazer algo realmente consciente e colaborativo, e principalmente: deixar as críticas destrutivas para quem não age. Porque quem tenta sair da inércia é sempre criticado negativamente, você sabe.

Acabo de asssistir a uma das iniativas mais louváveis vindas de alunos de design, o documentário A folha que sobrou do caderno. Produzido por estudantes da UFBA e divulgado recentemente no NDesign de Manaus, o vídeo dá início ao debate sobre os cursos de design no Brasil. Mais do que isso: sobre a postura passiva de alunos e professores, e como isso reflete diretamente na qualidade do ensino de design no país. O mais curioso talvez é que se retirarmos a palavra "design" de todos os pontos do vídeo e substituirmos por qualquer outro curso, dá no mesmo. Todo o sistema educacional passa pelo mesmo problema. A diferença é que como o professor do vídeo disse: "o aluno de design se forma sem saber qual problema vai resolver, antes do problema existir, numa profissão que nem existe oficialmente." Não vejo isso como impecilho ao debate e à ação e sim como uma força motivadora maior e mais resistente para defender o que acreditamos. Existem muitos pontos negativos levantados no vídeo, como a aluna que diz que "aluno só quer saber de resolver problemas com soluções prontas, não quer mais pensar", e o que tenho visto muito depois de formada: gente querendo fazer trabalho apenas pra virar "estrelinha" com muito glamour e fama, pensando apenas no seu umbigo; mas existe quem queira tirar as coisas do lugar, botar a universidade pra funcionar, os alunos pra reagir e os profissionais pra brigarem por seus direitos. E sabe onde estão essas pessoas? Elas não estão sozinhas falando mal de tudo e de todos: elas estão se organizando, ganhando força. Esse é o papel do CONE, da ADG, da ADEGRAF, etc. Organizar os indivíduos em torno de ideais, para tentar (com força política) alcançar suas metas. Esse tb deveria ser o objetivo do NDesign, além das festas. O vídeo fala tb da força que o estudante tem e não sabe. Ás vezes até sabe, mas não usa…

Minhas primeiras sugestões?
Primeira e mais simples: Entre em uma lista para debater assuntos que realmente acrescentem, sem disputa de posts ou ataques pessoais. Tente ajudar, construir, compartilhar, debater. As listas não precisam de mais gente para avolumar os spams.

Segunda, porém mais complexa: entre sim para uma associação, seja do seu estado, seja nacional, esta é a melhor forma de sua voz ter o força junto às demais. Porque não adianta propagar aos quatro ventos que ninguém faz nada se você não der o primeiro passo. E aí vale o ditado: uma andorinha só não faz verão. Todas as profissões hoje regulamentadas passaram por esse dilema, inclusive medicina (como muitos adoram comparar). Até o momento em que as pessoas viram que não adiantava ficar cada um no seu canto resmungando que ninguém respeitava a classe, que eram mal remunerados, etc. Se até o crime se organiza, nas piores condições possíveis, porque a organização e a busca de objetivos comuns parece um sonho tão distante para nós, designers? Neste caso, a vontade é o primeiro passo. Como há muitos a serem seguidos, que tal começar?

Terceira e talvez mais importante: se você ainda é estudante, pode fazer muito mais que isso: mostre a seus professores do que você é capaz. Ainda que esculhambem seu trabalho em detrimento de alguns "tosqueiras", ainda que o detonem por pura e simples inveja, ainda que digam que é medíocre. Você sabe melhor que ninguém do que é capaz. Mostre isso nos seus trabalhos, na discussão em sala de aula, acrescentando seus saberes, suas experiências e seu modo de pensar a cada um dentro de sua sala. Esse é o grande barato do efeito multiplicador da educação que temos de resgatar para as próximas gerações, e isso vale para o ensino em geral. Ninguém sai o mesmo depois de participar ativamente de boa aula de história da arte. Foi-se o tempo em que isso era era papel apenas do professor. A universidade foi feita para se compartilhar conhecimento. Pense, desafie, proponha, questione.

O que mais me choca( na verdade me mata); o que mais me revolta é essa passividade, essa paralisia que impera e segue para além da faculdade, no mercado de trabalho, no serviço público, no dia-a-dia de cada um. Espero de verdade que este vídeo ajude a compreender e mudar ao menos um pouco a realidade que vivemos. Vale muito a pena assistir e divulgar. Parabéns mesmo ao Mauro Alex e cia pela iniciativa. Obrigada!

Em tempo, créditos do documentário:
A folha que sobrou do caderno

Alexander Czajkowski
Mauro Alex Rego
Gabriel Costa
+colaboradores

Link para visualização do vídeo

O Alexander disponibilizou o link sem restrições de cópia. Se forem repassar ou colocar em seus blogs, por favor façam a devida referência.
Link para download do vídeo

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Helena Aragão
 

"O mais curioso talvez é que se retirarmos a palavra "design" de todos os pontos do vídeo e substituirmos por qualquer outro curso, dá no mesmo." É verdade... Boa discussão, Luana. Estou vendo o vídeo e me identifiquei com várias questões do meu tempo de faculdade (de comunicação). Achei bacana o vídeo tratar de cursos universitários de diferentes estados.

Aliás, já que o vídeo está disponível em licença flexível, bem que você poderia postar aqui no Banco de Cultura, né? Vi que tem meia hora, mas compactando é possível encaixar no tamanho limite do Banco. Vou torcer para rolar. Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 28/7/2008 14:49
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Luana Wernik
 

Vou tentar zipar, obrigada pela sugestão! Obrigada tb pelo comentário, abs!

Luana Wernik · Brasília, DF 29/7/2008 20:18
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Cintia Thome
 

Interessante discussão. Posado muito importante, repensar é dever. ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 30/7/2008 10:26
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Cintia Thome
 

postado...

Cintia Thome · São Paulo, SP 30/7/2008 10:26
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Andre Pessego
 

Interessante, troca de ídeias rentável.,
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 30/7/2008 23:14
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andré luiz rocha
 

muito bom.

andré luiz rocha · Chapadão do Sul, MS 31/7/2008 08:05
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joe_brazuca
 

Excelente.

joe_brazuca · São Paulo, SP 31/7/2008 17:40
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