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A galera do poperô

Adriel Diniz
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Adriel Diniz · Porto Velho, RO
31/7/2006 · 123 · 10
 

Dance music. Isso é poperô em Porto Velho. A gíria é um jeito particular de alguns grupos de jovens que curtem a balada com música eletrônica, coreografias, roupas mais ou menos parecidas e vêm de lugares, que mesmo não estando lado a lado, são chamados pelo mesmo nome: periferia. Muito maçante? Então espera que eu vou escrever isso de outro jeito.

“Domingo a galera desce toda lá pra D&D, bota aquela beca e passa o bizu dos passinhos. O pessoal da quebrada sabe se divertir”. Foi assim que Samuel Silva, o Mumu, me falou. Ele mora numa das regiões mais mal faladas de Porto Velho, por ser área de venda e consumo de drogas. Mumu é cantor de hip hop e nunca ouviu falar em Luiz Beltrão. (?) Você também não?
Luiz Beltrão foi o primeiro doutor em Comunicação Social do Brasil, e o pioneiro também nos estudos de comunicação de massa no país. Uma das vertentes da pesquisa de Beltrão é um fenômeno chamado Folkcomunicação. Este fenômeno estudado pelo doutor apontou a comunicação entre grupos excluídos do processo de desenvolvimento como característica básica do embate social. Os tais grupos de reação utilizam a comunicação como forma de reagir à marginalidade a que são impostos pela elite e por isso criam jeitos bem particulares de falar, vestir e dançar.

Mesmo não conhecendo o tal doutor, Mumu vai nos ajudar a entender como é a comunicação nessa tal galera do poperô.
O primeiro passo é seguir o conselho do Ákilas Batista, ex-hip hop e hoje vocalista da banda Quilomboclada: “a gente não pode se arriscar a dizer o que significam as gírias inventadas na quebrada, porque vamos criar um parâmetro e essa linguagem foi criada exatamente para fugir a esta regra padrão da língua do patrão”. Entendidos então que nada dicionário.

O segundo passo é conhecer um pouco a história da Dimples Dance, uma das casas onde essa galera se encontra na cidade. Há 15 anos, o tal templo da dance music abriu as portas para receber os jovens que curtiam o estilo musical e estavam dispostos a encarar o preconceito dos mais velhos. A D&D sempre foi tida como um antro, onde jovens bebem, fumam e brigam. E de fato, muita confusão já rolou por lá. A criminalidade, muito perto da realidade da periferia, acaba indo com eles para a festa.

Boné na cabeça e camiseta por fora. Calça colada ou saia curta. Batom forte e muita bijuteria. Azaração. Carolina Souza, 18 anos, há três freqüenta a D&D. A estudante conta que no começo não dizia para mãe onde ia, com medo de que ela impedisse. Ela mora no bairro Nova Porto Velho, zona leste da cidade, de onde vem grande parte da galera. Quando chega na casa, a primeira atitude da moça é procurar “as comparsas”, como ela se refere às amigas. Elas, depois de pôr a conversa em dia, tratam logo de começar a paquera ou falar mal das outras garotas que passam pela rua Duque de Caxias, onde fica a Dimples. Lá o movimento é intenso no domingo à noite. O preço, de R$ 8, é pago na íntegra por poucos. A maioria usa a carteira de estudante para ter 50% de desconto. Carol conta que a D&D é o único lugar no centro da cidade que ela freqüenta, primeiro porque é o lugar onde as pessoas que conhece vão, segundo, pelo preço, e terceiro e não menos importante: “a galera pira mesmo é na D&D”, brinca Carol.

Mumu conta que a diversão da juventude de periferia em Porto Velho se dá basicamente em bares, que estão espalhados aos montes pela cidade. A cada esquina, dois ou três disputam a preferência dos clientes. “Os lugares dos bacanas são sempre muito caros, e se galera quer sair do bairro, só vai pra Dimples mesmo”, relata Mumu.

Por dentro da questão

Lá dentro, mesmo parecendo que vem todo mundo do mesmo lugar, as tribos tratam logo de se dividir. O pessoal do break se coloca logo a frente da cabine do DJ, onde o som é mais alto. Há sempre uma roda aberta e alguém fazendo piruetas ou passos ensaiados. Nas laterais da pista, dois coretos são tomados por quem gosta mais de dançar com as mãos. De um lado e outro, os grupos seguem coreografias diferentes, mas sempre com um quê de provocação. “O jeito deles dançarem é uma forma de se sentir importantes no grupo”, analisa a psicopedagoga Auxiliadora Fialis. Segundo ela, a necessidade natural de fazer parte de um grupo social leva os meninos a externar isso através da dança, das roupas e do jeito de falar. “Luiz Beltrão não aprofundou a pesquisa nesse sentido, mas podemos perceber que a folkcomunicação acaba se transformando num estilo de vida para esses jovens”, relata Hamilton Lima, professor universitário do curso de Comunicação Social. Lima conta que a realidade sócio-econômica desses grupos acaba os levando a viver de forma alternativa ao que é proposto fora da comunidade deles. “Até o tom de voz é diferente, porque eles fazem questão que seja diferente”, ressalta Auxiliadora. Os dois especialistas concordam também noutro ponto: essa reação ao sistema se torna mais forte na adolescência, quando os jovens mais necessitam de uma identidade social.

A D&D é um traço dessa linguagem social de reação. A periferia não é só forró, não é só brega e não é só violência. Os jovens precisam de diversão e encontram nessa casa um lugar onde podem ouvir o mesmo som dos boys, sem pagar o que é pago pelos burgueses, tira uma onda porque se diverte no centro e ainda pode levar um gato ou gata no popopó e ficar pagando de amor a noite toda.

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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Beleza, gostei da matéria, mas principalmente no inicio dela, quando me pareceu ter sido mais corajosa ao ir de encontro ao que há de particular nessa cena de Porto Velho, que sao as proprias pessoas que a compoe. A referencia a Luiz Beltrao me pareceu que acabou sendo pouco explorada. Respeito a opiniao dos tais "especialistas", mas acho que eles acabam sempre dizendo as mesmas coisas seja onde for do Brasill. O discurso é o mesmo, talvez porque as escolas que eles estudam já nao tragam grandes novidades há algum tempo. Isso, definitivamente, nao eh culpa de você, Adriel, mas acho que o que eles falaram foi tao obvio, que nem mereciam que você os citasse. Curti mesmo as pessoas, o modo como se organizam na festa, a descricao fisica da cidade, as girias, o modo de falar. Isso dá uma nocao do tipo de influencia que a cultura dai recebe e como essa influencia repercute. Tem meu voto! Abração!

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 29/7/2006 19:48
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Edson Costa Filho
 

Gostei muito do texto e concordo com o teor do comentário do Bruno Maia. Apesar de também concordar que os "especialistas" falaram o óbvio, achei necessárias as citações (eis minha única divergência do comentário do Bruno), pois isso enriquece o texto e dá uma melhor fundamentação.
Ao perceber a associação - criação de um sinônimo, na verdade - da palavra poperô à dance music, bateu uma curiosidade: Por que poperô? De imediato, me veio a lembrança de uma música que eu curti muito no início da década de 90 e foi um grande hit na época: "Pump up the Jam", do grupo Technotronics. A música iniciava assim: "Pump up the jam, pump it up (...) pump it up a little more". Ao ouvir essa música, a expressão "pump it up" é facilmente notada e tem a sonoridade muito semelhante (na música) à palavra poperô. Posso até estar falando bobagem, mas sugiro que escutem a música Pump up the Jam do grupo Technotronics (podem baixar facilmente no shareaza ou programas similares) e talvez entendamos o porquê de em Porto Velho chamarem música eletrônica de poperô. Não sei se estou correto, mas acho que faz sentido.
Parabéns, Adriel, pelo trabalho e também já tem meu voto! Abração

Edson Costa Filho · Aracaju, SE 30/7/2006 12:19
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Adriel Diniz
 

Exatamente Edson. Essa música é a origem da gíria, ainda hoje ela embala muitas barcas por aqui. (Bruno e Edson) - Quanto às intervenções dos especialistas, concordo com vocês, mas foram necessárias para uma fundamentação. Lógico que não foi só isso que falaram, mas não quis entrar mais profundamente no discurso deles por entender que isso poderia deixar a matéria técnica ou algo similiar. Mas acho que valeu à pena, eu me diverti bastante fazendo este trabalho. Obrigado pelo votos de vocês.

Adriel Diniz · Porto Velho, RO 31/7/2006 12:20
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Hermano Vianna
 

Oi Adriel: fiquei sem saber direito que tipo de música toca na Dimples. É house? Derivado da house? Mistura tudo? O pessoal dança break em cima de qualquer ritmo?

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 1/8/2006 06:04
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Adriel Diniz
 

Exatamente isso. Aqui chamamos de dance music, que são músicas internacionais derivadas do house, mas lá também há momentos para forró, pagode e outros ritmos. O pessoal do break faz os passos em cima de qualquer ritmo mesmo.

Adriel Diniz · Porto Velho, RO 1/8/2006 10:17
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Marcos Paulo
 

É como se você entrasse num outro mundo.

Lá, a linguagem é diferente para quem nao está acostumado, mas não deixa de ser entendida por todos. Break, house e versões dos dj´s ganham uma simbologia de uma periferia que tem e precisa do direito a diversão. Estão no mundo da música. Estão na Dimple´s Dance, o tempo da dance music.

Beleza de matéria, Adriel!

Vamo lá domingo que vem? Ha-ha-ha-ha!

Marcos Paulo · Porto Velho, RO 1/8/2006 13:00
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Marcos Paulo
 

Corrigindo...

É o templo da dance music!

Marcos Paulo · Porto Velho, RO 1/8/2006 13:02
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Hermano Vianna
 

tempo e templo: os dois termos fazem todo o sentido! Marcos: muito obrigado pela presença constante aqui no Overmundo!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 1/8/2006 19:11
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Marcos Paulo
 

Grato, Hermano. O Overmundo é, pra mim, um dicionário completo da cultura do Brasil. Aliás, fiquei sabendo que virás por essas bandas em outubro, salvo engano. Novidade agradável!

Marcos Paulo · Porto Velho, RO 2/8/2006 10:08
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Tê Jardim
 

E eis que uma porto-velhaca se reencontra com suas raízes.

Óquêi, peguei pesado... saí de PVH aos quatro anos e não lembro de nada.

Mas mesmo aqui em Belém fiz parte dessa folkcomunicação.

Juntei bons fatores requeridos pra fazer parte dessa estatística: sendo "não tão rica" [nunca fui pobre de verdade, apenas me faltaram supérfluos] e estudando em escola cara, passando por dificulades financeiras dos 13 aos 17 anos, aproximadamente. Que tal?

Usei carça forgada, camisa de rock tamanho GG, imitação de all star e gorrinho de malaco. Mamãe queria a morte, coitada... mas depois ela entendeu que era minha forma de enfrentar tudo isso.

Muito legal o texto, Adriel!

a propósito, tem material da Quilomboclada aqui no over?

Tê Jardim · Belém, PA 24/4/2007 14:49
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