A gente não quer só comida

Renato Fino
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Daniel Cariello · Brasília, DF
14/12/2006 · 176 · 12
 

Rango de rua bom tem em todo lugar. Não há quem não conheça pelo menos uma dúzia de biroscas que vendem cachorros-quentes imperdíveis, pastéis de vento saborosos e outras pérolas da alimentação, encontráveis facilmente em qualquer esquina. Desses eu não preciso falar.

Mas do que eu preciso falar, e vocês precisam conhecer, são dois lugares diferentes em Brasília. Eles servem comida na rua também. Mas têm algo a mais.

O primeiro é o Cachorro-Quente do Landi. Assim, em maiúsculas mesmo, já que esse é o nome oficial do lugar, estampado nas camisas dos atendentes.

O Landi trabalhava em uma padaria. Um dia encheu-se e decidiu montar seu próprio negócio. Seria em uma esquina, se houvesse uma em Brasília. Como não tem, ele montou logo depois de um balão de trânsito, na 405 sul.

Poderia ser apenas mais um cachorro-quente, se não fosse um detalhe: se existe um limite possível para um cachorro-quente, lá ele foi atingido.

Mas cachorro-quente não é só pão, salsicha e molho? É. E não é. A diferença é o que está por trás desse. Para chegar ao Olimpo dos hot dogs, o Landi montou uma empresa familiar. Empresa mesmo.

A rotina começa as 6h da manhã, quando a primeira turma inicia a produção de batata-palha. São eles que fazem. Assim como os pães, fabricados no mesmo dia em que são consumidos. A batata é tão famosa que é vendida até para lanchonetes e restaurantes.

No meio da tarde, a turma da venda assume o posto. Acopla o reboque na Caravan e a enche com todos os ingredientes. Às 18h, pontualmente, o primeiro cachorro-quente do dia é servido. E se o expediente tem hora pra começar, também tem pra terminar.

“Aqui é uma quadra residencial. A gente nunca passa das 23h, para não incomodar a vizinhança”, conta Charles, irmão do Landi, enquanto levanta-se para cumprimentar dois clientes que chegam. “Estamos aqui há 20 anos, e nunca houve uma só reclamação”. Vinte anos? “É verdade. Eu venho aqui desde criança”, grita um outro cliente, sentado em uma mesa próxima, ressaltando bem o clima quase familiar do local.

A questão das mesas, aliás, é outro ponto notável. São 10, de 4 lugares cada. E às vezes acontece de ter que esperar uma delas vagar. Enquanto isso, Landi, Charles e companhia, leia-se primos e cunhados, esbanjam simpatia. “E aí, meu querido. Só alegria?”. Soaria falso, se não fossem eles falando.

“Os segredos são a estrutura de empresa e o atendimento”, diz Charles, dando um alô a outro cliente, que já vai embora. “Até mais, meu querido!”. Logo em seguida, passa um carro pelo balão, buzinando. Todos eles acenam, cumprimentando. “Isso é um ritual. Às vezes estamos com as mãos ocupadas, então o carro faz a volta e buzina de novo, até levantarmos a mão”.

O funcionamento é realmente impressionante. Deixa qualquer rede de fast food pra trás. O cachorro-quente é servido em menos de um minuto. Não importa o movimento. Eles ainda conhecem a maioria dos freqüentadores pelo nome. E decoram até suas preferências. A minha já sabem: queijo por baixo da salsicha e pouca batata-palha. Fórmula alcançada após anos de experiência.

O fino dos caldos

Saindo da Asa Sul para a Asa Norte, chegamos ao Caldo Fino, na 409 norte, logo depois da entrada da quadra residencial.

O proprietário, Renato Fino – “Fino é apelido, por causa do caldo” – é também muito simpático. Mas não é nesse quesito que ele mais se destaca. O forte ali, além dos deliciosos caldos, é o enfoque cultural.

“Minha vontade é fazer um evento de cultura por dia”, conta ele, que toca clarineta e estuda composição na Universidade de Brasília. “Hoje mesmo, antes de você chegar, teve um quarteto de violões aqui”. Perdi. Mas fui brindado com um Baden-Powell saindo das caixas de som.

O sonho dele era montar um café, que homenageasse a cultura local. Mas a idéia evoluiu e chegou ao formato do caldo. Aliás, dos caldos. São vários. E o cardápio varia diariamente.

Por que caldo? “Combina com arte. As pessoas sentam e tomam calmamente, conversando, apreciando os eventos que acontecem aqui”. E os vizinhos, reclamam? “Não. Pelo contrário. Eles vêm muito”.

Nisso, chega à mesa o poeta Nicolas Behr, conhecido em Brasília. Imagino que ele vá recitar uma poesia, como já o vi fazer ali mesmo. Mas, pro meu engano, apenas senta-se e pede um de abóbora com charque. Eu pedi de mandioca com carne.

A cultura transborda pelo ambiente. Pendurados na barraca onde está o fogão, há CDs e livros de artistas locais, à venda. O próprio Renato, além de músico, também é poeta e escritor. “Quer ler uns contos meus?”. Quero. E não é que são bons?

Ali, todas as formas de arte têm vez. Há saraus, exposições, shows, performances e o que mais for inventado. Tem até uma feira de troca, realizada no último sábado do mês. “Já vi gente trazendo até microscópio para ser trocado aqui”, conta.

Então, nada mais natural do que a arte brotar ali, espontaneamente. E foi o que aconteceu em um dos eventos realizados. No fim da noite, Luiz Buff, outro poeta da cidade, entregou uns versos, recém-criados, que Renato mostra com alegria e orgulho, sabendo que tem feito a sua parte pela cultura local.

“À famiglia Fino

Lúcio e Oscar não nos deixaram superquadras
Mas células-tronco de vida comunal
Quem toma de cheio um espaço vazio e o realiza
Esse, verdadeiramente, obra poesia”



Cachorro do Landi
De domingo a 6ª feira (sábado não abre)
Das 18h às 23h.
405 sul, entrada da quadra

Caldo Fino
De 3ª feira a sábado (fecha domingo e 2ª feira)
Das 18h a 0h30.
409 norte, passando a entrada da quadra

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DiogoFC
 

Legal! Mas sobre 'os limites do cachorro quente', é bom conferir um q existe em SP: Black dog. Com certeza já falaram dele aqui... o bagulho é simplesmente uma FÁBRICA de cachorro quente, com linha de montagem e tudo.

DiogoFC · Criciúma, SC 14/12/2006 16:40
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Thiago Perpétuo
 

O Caldo Fino é mesmo um espetáculo... lembro que na primeira vez que fui lá, falei baixo, quase entre os dentes, que também escrevia. O Fino pediu algo meu, e deixou pendurado por lá um tempo. E para o caldo, recomendo o de abóbora com queijo gorgonzola... de ir às núvens.

Thiago Perpétuo · Brasília, DF 15/12/2006 00:31
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Daniel Cariello
 

Oi, Diogo. Eu já comi o Black Dog. Não gostei. Me deram uma colher pra comer o pirê do cachorro quente. Muito estranho...

Acredite, você TEM que provar o do Landi quando for a Brasília.

Thiago, o Caldo Fino é realmente muito bom. O Renato é um incentivador nato da cultura, em todas suas formas.

Abs!

Daniel Cariello · Brasília, DF 15/12/2006 02:07
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DiogoFC
 

Ah sim, não estava falando de sabor, embora eu não tenha achado o do Black dog ruim. Estava falando do, digamos, CONCEITO de barraquinha de cachorro quente. Pô, os cara têm uma FÁBRICA!!!

DiogoFC · Criciúma, SC 18/12/2006 13:50
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jjLeandro
 

http://www.overmundo.com.br/banco/sala_edicao.php?em_edicao=2835

Vai lá e deixa a sua participação em Balanço Literário

abraços

jjLeandro · Araguaína, TO 23/12/2006 09:53
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jjLeandro
 

Feliz Natal, mano
http://jjleandro.blog.terra.com.br/
http:fotolog.terra.com.br/jjleandro60

jjLeandro · Araguaína, TO 24/12/2006 12:18
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jjLeandro
 

FELIZ ANO-NOVO!!

Abraços

http://jjleandro.blog.terra.com.br/
http://fotolog.terra.com.br/jjleandro60

jjLeandro · Araguaína, TO 31/12/2006 10:18
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K_C
 

Eu já comi lá, mas não sabia que ele havia montado essa empresa, e muito menos que o cachorro quente está a vinte anos na quadra...
Gostei bastante da publicação, vou até voltar lá...

K_C · Brasília, DF 4/2/2007 17:33
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MarceloAl
 

Gostei do artigo e hoje mesmo vou fazer um "levantamento" no "Fino" para poder dar minha contribuição conhecimento de causa.

MarceloAl · Brasília, DF 9/2/2007 11:48
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Fê Pavanello
 

Adorei as informações. Vou conferir e depois digo se achei bom ou não. O Black Dog é ótimo, mas em São Paulo tem outros tão bons quanto ou melhores, como os das barracas que ficam do lado do Parque Villa Lobos. Aqueles são imperdíveis!

Fê Pavanello · Brasília, DF 14/3/2007 23:12
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MarceloAl
 

O "fino" realmente é bom... pena que na noite que fui estava muito "calmo". Não que eu tivesse a expectativa de encontrar um local agitado, mas não tive o prazer de presenciar nenhum "acontecimento cultural".
Quanto ao Nicolas (do Pau Brasília), até que o vi lá... O conheci quando, mais ou menos em 1993 diagramei um livro(eto) de poesias dele. Claro que ele nem lembraria da minha cara (trabalhei com o Wilson Pessoa na N Idéias)... Mas se estiver lendo este, mando saudações...

MarceloAl · Brasília, DF 15/3/2007 08:08
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Natie Rangel
 

Preciso agradecer a este blog, que ajuda muito a quem não conhece Brasília a sair um pouquinho do óbvio... recém chegados, como eu e meu marido, só têm a agradecer...

Natie Rangel · Brasília, DF 29/12/2010 14:27
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