A guerra dos homens-peixe

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Romeu Martins · São José, SC
30/7/2007 · 114 · 5
 

O que aconteceria se ao invés de se tornar escritor de livros de aventura um dos pais da ficção científica entrasse para o mundo da política? Mais que isso, e se Jules Verne – ou Júlio Verne, para quem prefere aportuguesar o nome de vultos históricos – chegasse ao topo dessa outra carreira e fosse eleito, em 1886, o primeiro presidente da França? Caso continuasse apenas com tal linha de pensamento, o escritor, designer e professor universitário carioca Octavio Aragão teria escrito um livro de um subgênero daquela mesma ficção científica que Verne ajudou a dar à luz: a história alternativa, que é marcado por descrever como seria o mundo se alguns eventos históricos ocorressem de modo diferente do que aprendemos na escola. Porém, o autor foi além e em seu primeiro romance solo, A mão que cria, ele não trata apenas do criador de personagens como o Capitão Nemo e Phileas Fogg. Aragão também deu nova vida às criaturas, e, com isso, o gênero explorado foi outro; foi a chamada ficção alternativa, a verdadeira arte de domar os personagens alheios.

Para os leitores habituais de quadrinhos, o mais famoso exemplo desse outro ramo da ficção científica é a série As aventuras da Liga Extraordinária, de Alan Moore e Kevin O´Neil. Contudo, de maneira diferente da dupla de quadrinistas ingleses, o escritor brasileiro deixou de lado os protagonistas mais espalhafatosos dos livros clássicos e optou por personagens mais discretos. Por isso mesmo, em uma primeira leitura, eles podem passar despercebidos por quem não conhece tão profundamente a literatura fantástica do século 19 (sabiamente, o autor acrescentou como extra uma muito útil lista de anotações ao final do livro, esclarecendo algumas das referências mais obscuras).

Um exemplo vem do livro Vinte Mil Léguas Submarinas: ao invés de se apropriar do bizarro comandante do Nautilus, como fizeram Moore e O'Neil, Aragão tomou emprestado de Verne o pesquisador Pierre Aronnax. Trata-se do estudioso que sobreviveu ao trágico fim do submarino e que, na versão do brasileiro, conseguiu preservar alguns dos segredos da embarcação pioneira e ainda foi o responsável pelo ingresso de Verne na política. Da mesma forma, em A mão que cria vamos sendo apresentados a diversos outros personagens literários – ou a seus antepassados e descendentes – criados não apenas pelo presidente alternativo da França mas também por diversos de seus colegas. No portfólio estão escritores como H.G. Wells, o outro pai da ficção científica, H.P. Lovecraft, Herman Melville. Isso para não falar em outras personalidades reais, como os alemães Adolph Hitler e Rudolph Hess e os brasileiros Dom Pedro II e Oswaldo Aranha, todos compartilhando uma narrativa que cruza aproximadamente um século e meio de história.

Com um cenário tão imaginativo, a situação nessa linha temporal alternativa não demora a se complicar e uma guerra entre duas novas raças passa a pôr em risco todo o mundo. De um lado, o incentivo que o governo francês empreende em nome de novas tecnologias, passa rapidamente do estágio de submarinos e metralhadoras para a fase de implantação de um exército de supersoldados anfíbios (para quem gosta de academicismos, o gênero baseado em avanços científicos imaginários no século retrasado também recebeu alcunha própria: é o steampunk). Do mesmo modo que um sobrevivente deu prosseguimento às criações náuticas de Nemo, um segundo conseguiu resgatar os segredos de manipulação genética descritos por H.G. Wells em A Ilha do Dr. Moreau (aliás, vem deste livro a citação que dá nome ao trabalho de Aragão).

O resultado é uma dinastia de seres híbridos de homens com golfinhos que, em um primeiro momento, foi muito útil à humanidade ao arriscar a vida em duas guerras mundiais. O problema veio com os tempos de paz, quando aqueles experimentos, mais fortes e longevos que os seres humanos normais, passam a representar séria concorrência em um mercado de trabalho escasso. Com isso, os anfíbios viram alvo de manifestações violentas. Um paliativo foi, tal como ocorreu na história real com o povo judaico, a criação de um Estado dedicado aos híbridos. A nação de Lemúria – parte submersa, parte formada pela ilha onde Paul Alphonse Moreau realizava suas experiências – se tornou o refúgio de aproximdamente 50 mil habitantes.

Do outro lado do front, o segundo exército conseguiu se manter com mais discrição mas também seguiu influenciando de forma decisiva os acontecimentos daquele mundo, servindo de inspiração para os piores momentos da história do século 20. Formado por uma legião de mortos vivos, a origem dessa outra potência alternativa está ligada a um evento real: a queda de um asteróide na região da Rússia conhecida como Tunguska, em 1908. Um dos maiores achados do livro de Octavio Aragão é a real identidade do general desses zumbis, um misterioso gigante de quase três metros que se denomina Ariano. O escritor brasileiro conseguiu recriar com maestria uma das maiores vítimas de descaracterização ao longo de décadas de adaptações e novas versões da obra em que surgiu originalmente. Com isso, o segundo capítulo de A mão que cria, “Olhos amarelos”, no qual o clima de ficção científica predominante é deixado de lado em nome de uma ambientação mais típica da literatura de horror, pode ombrear com as melhores criações do gênero.

Esse feito é a prova do amadurecimento de um autor que estreou profissionalmente há quase 10 anos, com a noveleta "Eu Matei Paolo Rossi", na coletânea de ficção científica Outras Copas, Outros Mundos, lançada pela finada editora Ano-Luz, em 1998. Centrada na idéia de viagens no tempo, aquela primeira história deu origem ao projeto mais ambicioso do escritor: o universo Intempol, uma polícia temporal corrupta e formada basicamente por brasileiros. A idéia gerou um portal (http://www.intempol.com.br, no momento fora do ar), também deu origem a outro livro de coletânea com vários autores explorando aquele conceito e até um álbum em quadrinhos, The Long Yesterday, criada pelos colaboradores Osmarco Valladão e Manoel Magalhães (a mesma dupla responsável pelo mais recente O Instituto.

Com maturidade autoral ou não, todo aquele cenário de A mão que cria não passaria apenas de um pano de fundo engenhoso se não houvesse uma trama para amarrar tantos fatores inusitados. Para desempenhar esse papel, o escritor imaginou um drama de vingança, inveja, traição e atentados políticos que, sem pieguice nem soluções fáceis, se arrasta por três gerações da dinastia que governa Lemúria, os Currie McKenzie. Aqui, os já mencionados leitores de quadrinhos podem fazer associações com monarcas anfíbios das maiores editoras americanas: Namor McKenzie, o Príncipe Submarino da Marvel, e Arthur Curry, o Aquaman da DC, além de longa lista de seus respectivos coadjuvantes.

Isso, em parte, se explica por originalmente A mão que cria ter sido elaborado como uma fanfic – ou seja, uma ficção de fã, espécie de irmã caçula da ficção alternativa, em que admiradores imaginam aventuras de personagens do cinema, quadrinhos, cinema ou TV. Infelizmente, o livro não faz nenhum comentário sobre o fato de uma versão preliminar do texto ter sido publicada no site Hyperfan no formato de uma minissérie do Aquaman. Nem mesmo naquela lista de anotações se mencionam as várias referências quadrinísticas, ao contrário do que ocorre com as citações literárias, cinematográficas e até históricas.

Mais grave que tal omissão, foram alguns deslizes editoriais que resistiram às revisões do texto. Nem é o caso de mencionar alguns poucos erros de digitação e vícios de linguagem – mas, convenhamos, a redundância “sair de dentro” bem que poderia ter sido evitada nas duas vezes em que aparece no livro –, afinal eles não comprometem em nada o andamento da história. Grave mesmo foi a desatenção com vários dos textos introdutórios que deveriam ajudar o leitor a se localizar no tempo e no espaço em que se passam certos trechos do livro. Tais erros, devido à estrutura extremamente complexa, com múltiplos narradores e não-linear da obra, fatalmente podem prejudicar a compreensão mesmo do leitor mais atento.

Logo na página 22, um atentado ocorre no que é descrito pela legenda como sendo “Londres, 11 de abril de 1992”. Pelas próprias notas do autor, descobrimos que o mais exato seria situar a data em 30 de março de 2002, que vem a ser o suposto tempo presente da ficção. Mais à frente, na página 96, a legenda introdutória assinala: “Lemúria, 1940”. Aqui fica impossível determinar a data com exatidão, entretanto, certamente não pode ser aquela. Afinal, a cena em questão mostra um certo persongem tomando decisões maduras; personagem este que só veio a nascer oito anos após 1940. Por fim, todas as legendas do capítulo 7 que remetem a 1946 devem ser desconsideradas e substituídas por um simples “Hoje”. Do contrário, quem tentar seguir a linha temporária alternativa proposta tem boas chances de sofrer um colapso mental. Uma segunda edição poderia resolver com facilidade esses lapsos.

Curiosas também são as várias pontas soltas que foram deixadas ao longo da história e os persongens que são apenas delineados mas não têm uma participação ativa na trama. Isso pode ser explicado pela origem fanfic da obra, quando o autor fez referência obrigatória aos coadjuvantes dos quadrinhos. Já um otimista, diria que o plano desde o início era dar seqüência ao livro, algo que pode ser baseado nas últimas linhas da obra, indicando que o Brasil deverá vir a ter uma maior importância naquele mundo fictício. Essa hipótese seria a ideal, até porque de tal forma seria possível desenvolver temáticas que foram apenas esboçadas. Para falar de um caso específico, temos uma interessantíssima visão da religiosidade dos homens-golfinhos, porta aberta para novas possibilidades a serem exploradas (e que poderiam justificar a inteligente sacada da capa do livro, que conseguiu tornar a foto do detalhe de um submarino em algo similar a um templo pagão).

Outra questão, essa mais presa ao tal detalhismo acadêmico, diz respeito a classificação que o livro vem recebendo. Classificação que aparece tanto na propaganda de seus editores quanto no prefácio, assinado pelo escritor Gérson Lodi-Ribeiro, maior autoridade – na teoria e na prática – do gênero história alternativa do Brasil. Nesses casos, A mão que cria vem sendo denominado de primeira experiência de ficção alternativa brasileira. A afirmação já provocou ligeira polêmica entre a pequena, mas ativa, comunidade ligada à ficção científica no país. O caso é que, mesmo descontando histórias curtas mais recentes, existem exemplos de narrativas longas que se enquadram perfeitamente naquele gênero. Caso das várias histórias em que Monteiro Lobato levou personagens da literatura e da mitologia ao Sítio do Picapau Amarelo. Além disso, para citar um único personagem universalmente conhecido, Sherlock Holmes já veio ao nosso país pelas mãos de, pelo menos, três autores. Nos anos 80, o jornalista e escritor catarinense Raimundo Caruso se apropriou da criação de Arthur Conan Doyle em seu Noturno, 1894. Já na década seguinte, primeiro J.J. Veiga, célebre autor do cada vez mais atual A hora dos ruminantes, e em seguida o apresentador e humorista Jô Soares também escreveram histórias alternativas com o detetive inglês, respectivamente em O Relógio Belisário e O Xangô de Baker Street.

De qualquer forma, mesmo sem poder ostentar o título de desbravador desse território, Octavio Aragão deve, sem favor algum, ser considerado o autor que encarou com mais fôlego e de modo mais radical o universo da ficção alternativa. Antes dele, nenhum outro autor nacional havia apresentado uma obra em que fossem empregadas tantas ferramentas desenvolvidas pelos maiores especialistas dessa área. Gente como o britânico Kim Newman, de Anno Dracula, e o americano Phillip José Farmer, Tarzan alive, que escreveram elaboradas versões para o vampiro da Transilvânia e para o homem-macaco das selvas. Isso para nem voltar a citar aquela dupla dos quadrinhos. Com sua engenharia capaz de entrecruzar distintas criações literárias em um mesmo cenário, o escritor carioca pode popularizar o gênero no país, colaborar com a difusão dos autores clássicos e ainda inspirar novos experimentos brasileiros. Afinal, com A mão que cria ele já foi responsável por pelo menos um milagre, ao garantir a ressurreição do selo Unicórnio Azul, da editora Mercuryo. O mesmo que, na década passada, levou às livrarias histórias originais do criador de Conan, Robert E. Howard, e livros baseados na série Arquivo X. Infelizmente, brigas entre os sócios daquela editora abortaram a sequência de novos livros de ficção científica pelo selo, mas Octávio Aragão já trabalha na segunda parte de sua ficção alternativa, apesar de não revelar por qual editora pretende publicá-la.

Este texto, originalmente publicado no site omelete.com.br, faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.

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Barba
 

Muito boa essa iniciativa do projeto Ponto de Convergência! "A Mão que Cria" mesmo (e principalmente) enquanto fanfic com certeza merece ser lido.

É realmente uma pena que o mercado editorial brasileiro ainda não comporte muito bem ficção nacional, quanto mais a que possui elementos fantásticos, mas vejamos se pouco a pouco a coisa muda.

Barba · Belo Horizonte, MG 30/7/2007 17:50
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Romeu Martins
 

Valeu o comentário, Barba e o apoio ao projeto.

Realmene há pouco espaço editorial a ficção fantástica no Brasil, tanto que boa parte, talvez a maioria, dos livros que chegam a sair são autoeditados. A Mão que Cria foi uma exceção, mas o selo que lhe garantiu espaço já deixou de publicar o gênero...

Garantir um pouco de visibilidade, ainda que sem paternalismo, é algo que se pode fazer para tentar fortalecer a FC nacional.

Quanto a fanfics, existem bons exemplos de textos sendo produzidos no país e não deixa de ser uma maneira dese ver escritores iniciantes fazendo suas primeiras experiências, utilizando personagens já consolidados para isso. Recomenda uma passada no www.hyperfan.com.br como opção para os interessados. Abraço.

Romeu Martins · São José, SC 31/7/2007 00:22
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Adroaldo Bauer
 

Belo projeto, boa análise. Boas novas para escrivinhadores que só têm a língua portuguesa por parceira.
Bravo, Romeu!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 1/8/2007 14:23
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Romeu Martins
 

Valeu, Adroaldo. Em breve vou postar a entrevista que fiz com o autor desse livro.

Já estou lendo aquele que provavelmente será o próximo livro a ser resenhado, Treze MIlênios, de um autor estrante chamado Osíris Reis.

Romeu Martins · São José, SC 1/8/2007 14:57
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Romeu Martins
 

Aliás, sobre o livro que citei acima. Ele se encontra em uma espécie de promoção: o autor o deixou disponível temporariamente para ser baixado gratuitamente.

Aos interessados, deixo o link: A Página do meu livro, Treze Milênios:
http://www.trezemilenios.xpg.com.br

Romeu Martins · São José, SC 1/8/2007 15:10
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

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