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A história de Junior, o skatista caminhoneiro

Foto: Homero Nogueira
Junior, seu caminhão e seu skate
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Marcelo Viegas · São Bernardo do Campo, SP
12/4/2008 · 178 · 5
 

Nem só de super-heróis vive o Skate. Para cada Rodrigo TX, Gerdal ou Bob, existem milhares de heróis anônimos, cuja obstinação e amor ao carrinho mantém o Skate vivo e forte. São eles que consomem as peças assinadas pelos profissionais, garantindo a sobrevivência das marcas e o fortalecimento do mercado. Sem os anônimos não existem os super-heróis. Ser herói de quem? Ser herói para que? São partes entrelaçadas e importantes de uma mesma estrutura, mais importante que ambos, mas que – em contrapartida – não sobrevive sem eles: o Skate.

Não consigo deixar de pensar numa coisa que o Chuck Treece disse nessa mesma edição: “somos todos importantes para o skate”. Essa frase endossa a idéia por trás dessa matéria, que é valorizar os heróis anônimos do Skate. Como Junior, skatista de Tubarão (SC), que cruza as estradas do Brasil no seu caminhão. Isso mesmo: um caminhoneiro que anda de skate, cuja história será contada a partir de agora...

Criado na boléia

Nascido e criado em Tubarão (SC), Sálvio Sandrini Junior conheceu o skate em 1985. Mas antes disso já havia conhecido outra grande paixão da sua vida, o caminhão. “Desde pequeno eu viajo com meu pai, que é caminhoneiro também. Isso aí já vem de família”, afirma Junior, cujo apego ao caminhão ficou visível durante a sessão de fotos: a cada três tentativas da manobra, ele ia dar uma olhada na sua carreta Scania vermelha, carinhosamente apelidada de “Bruto”. “Deixa eu ver como o Bruto está”, falava Junior, averiguando se tudo estava OK com seu instrumento de trabalho, estacionado a poucos metros do local. Bruto intacto, Junior voltava pra sessão. O ritual repetiu-se pelo menos umas cinco vezes durante a sessão de quarenta minutos no monumento da Castelo Branco (SP).

Antigamente Junior se dividia entre o skate e o surf. “Tubarão é pertinho da praia, fica uns 15 km do Farol de Santa Marta, aí eu só queria saber de ficar na praia”. O tempo passou e vieram as responsabilidades da vida adulta: “Eu saí do exército e percebi que tinha que fazer alguma coisa. Daí caí na estrada”, diz. Filho de peixe, peixinho é, e Junior adotou a profissão do pai. Já se vão doze anos desde sua primeira viagem, sempre contando com a companhia do skate. “Desde a época que eu viajava com meu pai eu já levava o bico de tubarão debaixo do banco do caminhão. Quando parava eu já dava um rolezinho, umas batidinhas”, conta.

Trilho ambulante

O seu caminhão carrega muito mais do que as cargas que garantem sua sobrevivência. Carrega marcas e símbolos que identificam sua opção diferenciada de vida. No lugar das tradicionais frases de caminhoneiro, na traseira do Bruto está escrito em letras garrafais: SKATEBOARD. Logo abaixo a frase “Crucificados pelo sistema”, título do álbum do Ratos de Porão, uma de suas bandas favoritas. Pra completar o quadro ainda tem uma batelada de adesivos de skate, inclusive um da Cemporcento.

Mas a carga mais preciosa que o Bruto transporta não é tão leve quanto um adesivo. Como nem sempre é garantido encontrar cidades com bons picos para andar de skate, Junior resolveu esse dilema carregando a tiracolo um trilho. “Comecei a levar o trilho faz uns dois anos, porque eu passava por umas cidades que não tinham picos para andar. Então eu decidi fazer o trilho e comecei a levá-lo comigo”, esclarece o esperto caminhoneiro, que agora não passa mais perreio. Na pior das hipóteses procura um chão liso, descarrega o trilho e está garantida a sessão.

E o que pensam os outros caminhoneiros sobre o skate? “Eles nem acreditam, têm uns que acham que é brincadeira, que eu estou me ‘fazendo de bobo’. Não sabem que eu gosto de verdade, que é tipo uma cultura mesmo”, relata. Não é só no caminhão que Junior carrega a influência cultural do skate: “Lá em casa as prateleiras são feitas com shapes velhos”.

Desbravando o Brasil

A rotina desgastante da vida na estrada tem pelo menos uma grande compensação: conhecer novos picos para andar de skate. Quando encontrei com Junior, levei a edição 114 da CemporcentoSKATE, aquela que tem o Paulo Galera na capa. Os olhos do caminhoneiro brilharam: “Já andei nesse monumento”, disse ele apontando para a capa da revista. “É em Ipatinga (MG), né?”. Além de Ipatinga, já levou seu caminhão, seu trilho e seu skate para muitas outras localidades desse Brasilzão: “Leste de Minas, Belo Horizonte, Itabira, Jaraguá do Sul, Valadares”, vai relembrando. “Aí a galera das cidades já fala: ‘Olha, o caminhoneiro tá aí!’. Tem um monte de gente que só me conhece por caminhoneiro, não sabe nem o nome”, se diverte Junior, absolutamente a vontade com o apelido de Caminhoneiro do Skate.

Apesar do skate funcionar como uma terapia para combater a solidão da estrada, certa precaução é necessária. Afinal não dá pra correr o risco de se machucar mais seriamente no meio de uma viagem, com o caminhão carregado e um cliente à sua espera. “Não posso me atirar, fazer loucura... Uma vez andando sozinho numa pista em Minas, caí de cabeça e não sabia nem onde eu estava (risos). Perguntava pra molecada: ‘Onde é que eu tô? O que estou fazendo aqui?’ (risos). Passei um perrengue desgraçado (risos)”. É rir pra não chorar, não há dúvida. E os acidentes caseiros também causam transtornos profissionais: “uma vez em Tubarão eu quebrei o braço, aí tive que viajar com meu coroa um mês. Ele dirigindo e eu do lado incomodando, de braço quebrado (risos)”.

Medo na Régis Bittencourt

Além do sono, o maior perigo pro caminhoneiro são os assaltos, tão frequentes nas rodovias brasileiras. Por isso a segurança é um tema central na vida desses trabalhadores. É preciso estar sempre alerta: fritar o peixe olhando o gato, como diz o ditado. “A segurança o cara tem que procurar. Se o cara vacilar... Eles levam”, admite. “Hoje roubam muito é no vacilo do caminhoneiro. Conversa com qualquer um, dá idéia pra qualquer um, é onde o pessoal cai”.

Nesses doze anos de profissão, Junior só passou por uma situação de real perigo. Ele relembra: “Foi uma vez na Serra do Noventa, na chegada de São Paulo, na Regis Bittencourt. Subindo a serra, umas quatro da tarde, encostaram do meu lado, mandaram eu parar, daí deram um tiro. Eu parei, mas eles estavam meio distantes, então eu abri a porta e saí correndo, catando cavaco. Não levaram o caminhão porque eu não estava junto. Essa já é uma das vantagens do skate, né cara? Tava no hip, ví os caras, já abri a porta e pulei direto. Quando eles desceram do carro eu já tava longe, tava com a agilidade de um gato (risos)”. Foi só um susto, mas deixou lembranças bem desagradáveis. “Foi cabreiro, e hoje eu sei porque o nome é cagaço: fiquei com vontade de cagar o dia inteiro (risos). Fiquei uns dois meses com aquela angústia de achar que tinha alguém me seguindo”.

Na contramão do estereótipo

As aparências enganam. Quem olha o Junior chegando no seu caminhão, camiseta do AC/DC, cabelo comprido e o corpo forrado de tatuagens, logo imagina que ele se enquadra no estereótipo do doidão, que cai na estrada e enfia o pé na jaca. É justamente o contrário. É um cara tranquilo, muito apegado a família e casado há sete anos. “Bem casado, bem casado, apaixonado pra caralho”, confirma com a felicidade estampada no rosto e pegando o celular pra mostrar orgulhoso as fotos da família Sandrini. A esposa Fabiane, as filhas Natália (7 anos) e Vitória (5 anos), além do pastor capa-preta Ozzy. As filhas já incorporaram o estilo de vida do pai skatista: “ah, pai, queria ter dinheiro pra ter dar um skate”, vivem repetindo as pequenas, enchendo de orgulho o pai coruja.

A rotina é implacável, a estrada chama e Junior chega a ficar uma semana longe de casa. Mas isso é o máximo que ele agüenta. Então volta para Tubarão, e têm de 3 a 4 dias para matar a saudade da família e andar de skate com seus amigos. “Mas não tem essa de data: Dias dos pais, aniversários, qualquer dia é dia. Só Natal e Ano Novo que é sagrado. Mas a saudade fortalece, o amor fica bom (risos). E também mantém minha mente livre de besteiras”, confidencia com um sorriso no rosto. O skate também ajuda a manter a mente sã: “Eu me divirto tanto andando de skate que eu não preciso fazer essas loucuras que a rapaziada pensa que eu faço. Pego o skate, dou um rolê, começo a gritar, a falar palhaçada... chego em casa fico com minha gata, minhas filhas, meu cachorro e tá sossegado”.

Pé na estrada e borda queimada

Estrada sem música não dá, e Junior carrega mais de 150 CD´s no porta-luvas (“todos originais”), fora os mp3´s com discografias completas de bandas como Black Sabbath (tá explicado o nome do dog), Led Zeppelin e AC/DC. Das novidades, ele cita Wolfmother. Além do skate, tem também um violão na boléia do seu caminhão: “Gosto de tocar um violão. Mas só um rockzinho mesmo, um Ramones... Gosto mesmo é de rock’n’roll. Música boa, como diz o outro, tem a música boa e a música ruim. Eu gosto de música boa!”, afirma com convicção.

Como todo caminhoneiro, Junior passa mais tempo viajando do que em casa. Mas quando está em Tubarão, é facilmente localizado no Anjeloni, um mercado abandonado que foi transformado num pico de street pela galera local. “É a Anjela Crew”, diz. Acostumado com a solidão da estrada, o caminhoneiro também se satisfaz com um rolê mais introspectivo: “De vez em quando, o que eu gosto mesmo é chegar em casa depois de viagem, pegar meu mp3 player, ir pra ‘barranca do rio’ (que é toda arborizada e com asfalto bem lisinho) e sair remando sem rumo, escutando som. Ventinho na cara, um ollie pra cá, um ollie pra lá... Chego em casa satisfeito. A mulher até fala: ‘Tava precisando né?’. Tá na veia, cara”, conta, demonstrando na sua fisionomia a paz de espírito que momentos como esse são capazes de proporcionar.

Caminhoneiro de profissão e skatista de alma, Junior não consegue enxergar a vida sem suas duas grandes paixões. “Se eu viajar e não levar o skate pra dar um rolezinho, acho que ia entrar em depressão. E o caminhão tá no sangue também. Se eu ficar um mês em casa já começo a discutir, tenho que ir pra estrada mesmo. Aí volta tudo ao normal. Pé na estrada e procurando borda queimada”.


[Matéria originalmente publicada na revista CemporcentoSKATE, edição 115]

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Roberto Girard
 

Marcelo,
Ter o privilégio de apreciar a narrativa histórica deste heróico caminhoneiro skatista, é revigorante para a alma.
São os anônimos que constróem uma nação, com sua dignidade e repeito.
Belíssimo texto.
Abs
beto

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Roberto Girard · Rio de Janeiro, RJ 10/4/2008 10:45
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clara arruda
 

Como sou uma apaixonada por skate achei maravilhosa a matéria.
feliz fico em saber que está publicado.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 12/4/2008 18:36
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joao xavi
 

muito bacana a história!
todo skatista tem um monte de causos pra contar, quando o carra ainda acumula a função de caminhoneiro então!
marcelo, podia colocar mais conteúdo da cemporcento por aqui, seria muito bem vindo.

ps: crucificados pelo sistema é realmente um clássico!

joao xavi · São João de Meriti, RJ 13/4/2008 13:15
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joao xavi
 

boas historias agradam skatistas, ex-skatistas e qualquer pessoa curiosa.

publica mais, porque crasse é ter os textos da cemporcento por aqui!

ah, manda um abração pro tibiu, sangue bom!

joao xavi · São João de Meriti, RJ 13/4/2008 21:55
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ayruman
 

Apreciando mesmo limitado pelo Tempo e confirmando presença. Luz e Paz. Sempre. jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 30/1/2009 10:30
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