A HISTÓRIA ESPERA - Artigo

jjLeandro
Inventário de Aureliano Eusébio
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jjLeandro · Araguaína, TO
28/4/2008 · 164 · 8
 

Há no interior do Brasil, em cidades com mais de cem anos de existência, farto material para historiadores e sociólogos resgatarem não somente a história dos acontecimentos como também o estilo de vida da população estudada.

Abordo esse tema porque dia 23 de abril estive em Carolina (MA), cidade com 149 anos de emancipação política e ao menos mais 40 de existência, em busca de encontrar nos cartórios ou no Fórum da cidade o inventário de partilha dos bens de Aureliano Eusébio da Silva Virgulino. A tarefa não seria difícil e eu não estaria apreensivo se conhecesse bem essa realidade ou se o inventário fosse recente. Nem uma coisa, nem outra. A data complicava tudo: 1866! Tentaria acertar uma pulga dando um tiro num quarto escuro. Mas tinha que tentar. Aureliano foi um dos primeiros proprietários de fazendas na região de Babaçulândia, que estou resgatando a história em livro, e precisava ter acesso a esse documento, se ele ainda existisse, para corroborar as informações sobre a sua presença na área cerca de 1850.

O inventário não estava mais no 2º Cartório de Notas. Contudo, não houve decepção. Tive uma enorme surpresa. E das boas, felizmente – Ufa! A tabeliã, com educação e com tempo disponível - peculiar às pequenas cidades -, disse-me que havia mandado todos os inventários empacotados em caixas para o Fórum. O destino – contou – seria a capital São Luís, onde seriam vistoriados para possíveis restaurações e posterior arquivamento. O Maranhão é um dos estados brasileiros com maior e melhor acervo histórico. Felizmente desta vez a burocracia funcionou a meu favor, ou seja, a lerdeza no envio de funcionários para o transporte do material o fazia adormecer no depósito do Fórum há meses. Maravilha, benzi-me, beijei o galhinho de arruda e meus patuás. Havia sido favorecido. Acreditei mesmo que era uma conjunção de forças a meu favor. Forças superiores nas quais eu nem acredito, mas que elas existem, existem!

A minha surpresa continuou, e sempre para o lado bom. Fui bem recebido no Fórum pela diretora que logo colocou todo o arquivo a minha disposição. Olhamos em uma relação dos nomes dos inventariados e na respectiva data, para posteriormente abrir o pacote numerado. Tudo muito bem organizado. Havia inventário da década de 1840. Vários deles inclusive. Para ser mais exato: todos os que foram feitos em Carolina. Havia também livros de registro de escravos, livros de habeas corpus, de petições, processos criminais, etc.

Em meia hora estava com o documento na mão. O inventário de Aureliano, de 1866, estava em ótimo estado. Não havia sido atacado por traças, nem mofo, nem goteiras que poderiam ter apodrecido o papel ou borrado a tinta.

Sou jornalista, não tenho a formação para a pesquisa que tem um historiador, um antropólogo, um sociólogo. Mas se fiquei satisfeito com o que vi, faço cálculo de como se sentiria um destes três profissionais diante de tão rico material.

Somos da era digital e todos os processos hoje se valem dessa tecnologia. Os de antanho tinham capas amarradas com cordões (um nó quase escondido arrematava o amarradio), eram manuscritos com pena de ave em papel almaço (o tamanho é o mesmo de hoje), algumas folhas pautadas, outras não. Algumas delas coloridas em azul quase água, parecendo papel de carta. A tinta era corrosiva, pela sua acidez, acredito. Nas laudas do inventário de Aureliano ela fez furos onde ficou mais grossa, por exemplo nos cortes da letra T. Mas sem comprometimento da leitura. A maioria das folhas são manuscritas em um lado apenas. A escrita grossa corroeu o papel; a escrita fina foi mantida em perfeito estado através dos anos.

Estava diante do documento que procurava. Felicidade. Mas quando abri a primeira página houve uma frustração. Ah, não! Daria conta de entender aquelas filigranas? Folhas e mais folhas numa escrita rebuscada. Aos poucos fui decifrando e logo estava habituado. Não houve sequer tempo de pensar que pesquisadores são pessoas geniais por decifrar coisas assim. É apenas o hábito, constatei. O hábito faz o monge, mas também mata o viciado, tergiversei na hora.

Vi no rol dos bens citações que a nós hoje são curiosidades, mas naquele tempo era usual. Entre os pertences havia lá descrito: “um couro de boi”; “um vidro de azeite” “uma junta de boi de carro mança (sic)”; “Uma roda de fiar algodão”.

Lamentavelmente havia também o ser humano tratado como mercadoria: “Um escravo cabra de nome Romualdo, vinte e seis annos: 600$000” (réis); mais adiante: “Uma escrava de nome Filomena idiota de doze annos: 30$000”. Os bens imóveis eram relacionados como “Raiz”, e estava lá: “Terras da Fazenda Matança, uma légua quadrada pouco mais ou menos: 100$000”. Bem visto aí o valor que tinha à época um escravo; por isso, possuí-los dava status.

Há muito mais coisa, e eu fico pensando aqui na quantidade extraordinária de material ainda inexplorado Brasil afora. E pensando nisso, veio-me uma idéia à cabeça. Por que alunos de cursos afins não buscam diferenciar suas pesquisas para Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), abordando assuntos que os remetam a esse riquíssimo material inexplorado? Digo com convicção: a História espera.

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Rute Frare
 

Gostei!
Tá votado rsrsrs
Beijos

Rute Frare · São Paulo, SP 27/4/2008 22:54
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Felipe Obrer
 

"...resgatarem não somente a história dos acontecimentos como também o estilo de vida da população estudada."

Na faculdade de história se estudam as correntes historiográficas. Em oposição à linha que destaca grandes personagens protagonistas e datas como marcos fixos, existem outras. Uma que sempre me suscitou interesse é a chamada "micro-história", que tem como âmbito de pesquisa um universo menor. A história de uma rua, de um bairro ou o processo de partilha de uma herança familiar, como é o caso que abordas, Leandro. Acho que esse jeito de pesquisar é mais interessante, porque parte do pequeno e pode, se necessário, estabelecer relações com outras camadas mais distantes geográfica e temporalmente. A história, pra se renovar, poderia ter sentido assim mesmo: do presente para o futuro e do micro para o macro.

Um abraço,
Felipe

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 28/4/2008 12:51
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Felipe Obrer
 

quis dizer, e me corrijo aqui para esclarecer, "do presente para o passado e do micro para o macro".

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 28/4/2008 12:52
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jjLeandro
 

Felipe, obrigado pela sua presença.
Escrevi um comentário demorado sobre justamente quão gratificante e importante é a "micro-história" que vc coloca, mas p meu azar quando cliquei ENVIAR, foi-me feito o pedido de LOGAR. Poxa vida, cara, perdi todo o comentário.

abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 28/4/2008 15:23
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Higor Assis
 

Muito bacana amigo, muito mesmo.

Higor Assis · São Paulo, SP 28/4/2008 16:34
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Felipe Obrer
 

Achei o verbete micro-história na Wikipedia, dá uma idéia razoável do que vem a ser essa corrente.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 28/4/2008 16:40
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jjLeandro
 

Fui lá na Wikipedia, interessante. Ainda não havia lido sobre essa corrente. Apesar disso, a pesquisa sobre o Aureliano está inserida perfeitamente na micro-história.
abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 28/4/2008 17:16
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Tita Coelho
 

Sabe,
uma época trabalhei na Secretaria de Educação do Estado como Coordenadora do Centro de Documentação. Fiz um curso para restaurar e "zelar" pela história das outras pessoas. No Centro de Docum,entação, tinhamos a vida funcional de todos os trabalhadores da educação; apesar da alergia a poeira, era ótimo iniciar uma pesquisa sobre a carreira de alguém!
Gostei do texto demais.
beijos

Tita Coelho · Porto Alegre, RS 29/4/2008 07:41
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