O gângster Kakihara tortura integrante de uma gangue rival em Ichi The Killer, dirigido por Takashi Miike, um dos cineastas preferidos da galera dos cineclubes de Belém do Pará.
Ichi the killer, de Takashi Miike, talvez seja o filme mais insano, brutal e (pasmem) engraçado já produzido pelo cinema japonês. As cenas de tortura, as eviscerações, a violência graficamente explicita e caricata, o sexo bizarro e as sátiras aos animes e aos filmes de artes marciais formam uma combinação maluca de estilos que, de alguma maneira misteriosa, funciona de modo exemplar. Ichi the killer pode ser violento, pode ser engraçado ou pode ser uma obra de péssimo gosto. Ainda assim, sob qualquer perspectiva que você o analise, ele será interminavelmente fascinante.
O meu primeiro contato com Ichi the killer – e, na verdade, com toda a produção recente do cinema de horror oriental – foi em um cinema mal-cuidado, com problemas de som e localizado em um centro cultural decadente e visivelmente carente de verbas localizado no centro de Belém do Pará. Era uma mostra de cinema extremo japonês, organizada por um grupo autodenominado apropriadamente de Cinema em Trashformação.
Já na entrada dava para sentir a empolgação dos presentes com o que viria a seguir. Não só dos espectadores como também dos organizadores, afoitos em saber qual seria a reação do público àqueles filmes visualmente chocantes e de temática bizarra. "Mermão, tem que pelo menos um passar mal e ir embora senão eu não vou ficar satisfeito", bradava um dos organizadores no lobby do cinema.
A fanfarronice adolescente do rapaz fazia sentido. Como me confidenciou algum tempo depois o técnico em informática Carlos Mendes, um dos criadores do Cinema em Trashformação, as primeiras exibições de Ichi the killer no auditório do Cefet, centro de formação tecnológica onde estudaram todos os integrantes do grupo, foram marcadas por desmaios, ânsias de vômito e debandada geral da sala de exibição. "Tivemos um problema com um rapaz que passou mal durante a exibição do filme e também em outras sessões de filmes extremos. Algumas pessoas mais idosas saíram no meio da sessão reclamando das cenas de violência e brutalidade", me explicou ele durante uma entrevista para essa matéria.
Ninguém passou mal, todos demos risadas nas cenas engraçadas, ficamos um pouco chocados nas cenas de violência e desde então o Cinema em Trashformação foi se tornando um nome freqüente no mundo dos cineclubes de Belém, uma tradição da cidade desde meados dos anos 60. Após uma série de mostras restritas apenas ao cinema de horror japonês, o grupo alcançou o auge de sua popularidade com o festival As Influências de Quentin Tarantino, que exibiu todas as obras obscuras que o diretor homenageou em seus filmes desde Cães de aluguel até Kill Bill. Realizado em agosto de 2005, ele contou com exibições duplas e, às vezes, triplas, tamanho o sucesso de público. Foi o que bastou para que o grupo se animasse e começasse a se levar um pouco mais a sério como um cineclube.
E como todo processo de crescimento, este também envolve um certo amadurecimento. Para Carlos Mendes, a hora agora é de se afastar um pouco do cinema extremo oriental e se aventurar por outras regiões do planeta. "Não queremos nos especializar em filmes chocantes, gostamos também de comédia, policial, ficção e até mesmo drama. Ficar preso apenas a um estilo seria contradizer o objetivo inicial do grupo. Queremos, inclusive, realizar uma mostra com os filmes do Lucio Fulci e de outros cineastas europeus e americanos", diz Carlos.
Atualmente, Cinema em Trashformação mantém uma bem-sucedida parceria com a produtora Dançum Se Rasgum Produciones e o blog Ressaca Moral na realização do Cinebizarro. Toda quarta-feira, no bar Café Com Arte, são exibidos gratuitamente filmes de terror, produções japonesas e obscuridades dos anos 70. Em um mês de mostra, por lá já passaram filmes como Bubba Ho Tep, de Vincent Coscarelli, e Vampyros Lesbos, do mestre do cinema erótico Jess Franco. Além é claro, de Ichi The Killer, do sempre presente Takashi Miike, um dos diretores preferidos do público dos cineclubes de Belém. Para o futuro, estão programados ainda Inside The Deep Throat, documentário sobre a história do filme Garganta Profunda, e uma mostra sobre o cinema de horror na Era Nixon.
A única coisa que talvez não mude seja o modus operandi do grupo. Assim como na época das sessões quase clandestinas no auditório do Cefet, o Cinema em Trashformação continua obtendo seus filmes através de sistemas P2P de troca de arquivos, como o Soulseek e o Emule, e por meio de colecionadores especializados que vêm apoiando o grupo desde a sua fundação. Para o futuro, a realização de um sonho que persegue os seus integrantes desde a sua formação: a realização do primeiro festival de cinema fantástico de Belém do Pará. Através do escambo digital de arquivos via internet, a luta continua.
Cinema e política
Tão extremo quanto o Trashformação, mas no sentido político da coisa, o Potoca Freestyle surge com uma abordagem um pouco diferente para os padrões dos cineclubes paraenses: a exibição de filmes de teor político em espaços públicos da cidade. Sua primeira mostra, realizada no Bar do Parque – que já foi um dos redutos da esquerda e da boemia paraenses e que hoje é notório reduto de prostituição de Belém - contou com filmes como Febre de funk, The corporation e Não começou em Quebec e não vai terminar em Seatle.
A idéia de exibir filmes políticos em um espaço povoado por prostitutas, traficantes e menores de rua me parece tão extrema quanto, digamos, as extravagâncias carnais de Ichi the killer. Se deu resultado? Para a designer gráfica Giseli Vasconcelos, uma das organizadoras do evento, o saldo foi positivo, apesar de algumas dificuldades que seguramente acompanham uma iniciativa com essa. "As pessoas foram pegas meio que de surpresa com uma exibição de vídeos em um bar ao ar livre. Tô falando de gente que não tem acesso a jornais e não sabia o que nós estávamos fazendo ali. Essas pessoas nem sempre têm tempo para assistir a todos os filmes que exibimos ou mesmo a um filme inteiro. Para elas termina por ser uma experiência fragmentada. Mas eles se divertem e acabam por gerar uma nova expectativa para o lugar. Uns dispersam, outros atentam para os detalhes, para o som... No Bar do Parque surgiram elogios, reverências, sono, bêbados concentrados e até um pedido de permanência da iniciativa por ali", afirma ela.
Um pouco mais seguros com a experiência no Bar do Parque, o grupo seguiu em frente e armou uma segunda mostra. Desta vez na Feira do Açaí, entreposto comercial de compra e venda de açaí que já foi também um espaço cultural e atualmente se encontra em franca decadência. O tom político continua. Desta vez em filmes como Além do cidadão Kane, sobre a hegemonia de poder da Rede Globo na mídia brasileira; Retratos de uma guerra particular, sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro; e Iracema – Uma transa amazônica, contundente filme sobre a situação sócio-econômica da região Norte em plena Ditadura Militar. A produção local também foi lembrada com A Festa na pororoca, Açaí com jabá e A descoberta da Amazônica pelos turcos encantados, documentário sobre a gênese do tambor de mina em Belém do Pará que causou polêmica e dividiu opiniões em sua pré-estréia no final do ano passado.
Do Bar do Parque para a Feira do Açaí, o Potoca Freestyle reafirma o seu compromisso com a apropriação de espaços públicos inusitados. Prática que se reforça no discurso de Giseli, que trata a questão da retomada desses locais e a sua transformação em pólos irradiadores de cultura como um dos compromissos do cineclube. "Por que a produção áudio-visual tem que ser exclusiva de exibição em áreas privadas? São salas que têm donos e funcionam com um controle muito rígido. Creio que podemos oferecer à população essa produção cinematográfica como um bem cultural e de domínio público. Nem todo circuito cultural precisa de endosso, aprovação ou de leis de incentivo. Qualquer cidade como um organismo vivo vai tecendo suas vias e saídas públicas de acesso livre. O ir e vir ainda não está por completo cerceado", declara.
Entre os cineclubes aqui do Rio, se destaca o Beco do Rato. É cinema ao ar livre, num clima muito bacana. Já valeu até dica aqui no overmundo e matéria na revista de cinema Cinética
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 3/7/2006 13:41Faltou dizer que no Cinebizarro além de não haver cobrança de ingresso é liberado o consumo de bebidas e cigarros.
Tylon Maués · Belém, PA 6/7/2006 11:37
Aqui em BH tem o CineClube Subterrâneos. Existem outros, mas eu costumo frequentar esse, entrada franca também .
victorb · Belo Horizonte, MG 7/7/2006 10:00Opa, isso aí. vale o link para o Subterrâneos dentro do Overmundo também.
Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 7/7/2006 12:01
Muito bom esse topico!
abs
Byra Dorneles
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