A hora e a vez... dos mortos-vivos

divulgação
Cena do filme "Mangue Negro"
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Roberto Maxwell · Japão , WW
30/4/2008 · 110 · 3
 

Sem apoio governamental, diretores querem colocar o Brasil na rota dos zumbis

Dizem que o cinema brasileiro vive de realidade. Filmes de sucesso como Central do Brasil, Cidade de Deus, Carandiru e Tropa de Elite têm, pelo menos, um ponto em comum: o show de realismo para mostrar as mazelas do Brasil contemporâneo. Com tanto interesse na realidade, há espaço para o cinema de fantasia na Pátria Canarinho? Três jovens diretores brasileiros apostam que sim. E mais: eles decidiram investir do próprio bolso e, com a ajuda de amigos, estão realizando e pretendem colocar na tela, ainda este ano, três longas metragens de zumbis, sub-genêro que possui uma série de fãs brasileiros, ainda órfãos de produção nacional.

As histórias dessas produções têm muitos pontos em comum. Diferente do que ocorre com a maioria dos filmes de longa-metragem no Brasil, os três filmes foram feitos sem aplicação de recursos públicos. Opção ou falta dela? “ Não é falta de opção”, explica Davi de Oliveira Pinheiro, diretor de Porto dos Mortos. “Tínhamos a opção de esperar conseguir os recursos e fazer um filme natimorto como grande proporção dos filmes nacionais”, alfineta ele. De fato, boa parte dos projetos de longa-metragem no Brasil leva anos para ficar pronto justamente porque os diretores buscam recursos através de leis de incentivo. “Eu queria muito fazer o filme e ninguém estava disposto a me dar dinheiro pra isso. Então, eu mesmo financiei”, conta Tiago Belotti que já tem o seu A Capital dos Mortos praticamente pronto. Com sua frase, Belotti resume um sentimento em comum que tem movido os três cineastas: fazer o filme. Para tanto, assumir riscos foi fundamental. “Eu comecei a filmar da única maneira que me era possível naquele momento: sem um centavo no bolso, fazendo o cenário com tábuas velhas e construindo os primeiros bonecos com recursos próprios”, conta Rodrigo Aragão, diretor de Mangue Negro.

Amigos, amigos... Inclusive nos negócios
Além da coragem de investir dinheiro do próprio bolso (ou através de empréstimo, como fez a produção de Porto dos Mortos), os três diretores precisam contar com o apoio dos amigos para realizar os filmes. Aragão conta que rodou cerca de 15 minutos do filme com uma câmera “emprestada e com uma equipe trabalhando de graça”. A partir daí, ele conseguiu o apoio de um investidor que colocou R$ 30.000 na produção. “O projeto foi realizado em regime de mutirão”, explica ele, que aplicou parte do dinheiro no pagamento de pequenos cachês para a equipe. Tiago Belotti revela que fez A Capital dos Mortos com cerca de R$ 10.000. “A produção só foi possível com tão pouco dinheiro por causa do apoio da equipe, que se empenhou muito no projeto e o fez de graça”, explica ele.

De fato, os valores em jogo são muito menores do que os de mercado. Ainda mais para obras que necessitam de efeitos especiais. Para que os zumbis apareçam críveis na tela, os diretores precisam aliar talento e criatividade. Até porque o público imediatamente rejeita os chamados “(d)efeitos especiais”. Ao lançar o primeiro teaser do filme na internet, a equipe de Porto dos Mortos levou um susto com os comentários postados por usuários do YouTube. “A maquiagem do zumbi não ficou boa. Parece que misturaram pó de arroz com suco de groselha”, escreveu um dos comentaristas. A produção procurou capitalizar as críticas e investiu na contratação de um maquiador renomado no Brasil. Davi está confiante. “O teaser, apesar de ter ritmo e ser extremamente bem montado, está muito aquém do que o filme vai ser”, explica. “ O filme vai ser uma força da natureza”, complementa ele, “para não parecer humildade”.

A internet e os planos de distribuição
No momento em que a entrevista para esta matéria foi realizada, Mangue Negro e Porto dos Mortos ainda não tinham previsão de estréia. A Capital dos Mortos está escalado para abrir a programação do Festival Internacional de Filmes Curtíssimos. Mas, desde a fase de pré-produção, os filmes vêm causando barulho nos fóruns de internet. Apesar dos inúmeros pontos em comum, gente relacionada aos filmes A Capital dos Mortos e Porto dos Mortos andaram se estranhando nos fóruns do Orkut. Por outro lado, a rede também é o espaço onde os fãs manifestam seu interesse pelas obras. “Wow, que filme é esse? Alguém sabe se já foi lançado? Parece muito bem feito.”, diz outro comentário postado no vídeo promocional de Porto dos Mortos. “Muito bom, mostra a inventividade do diretor e produtores com recursos escassos”, ressalta um fã do filme Mangue Negro.

Se os três filmes conseguirão fazer carreira no fechado mercado exibidor brasileiro, só poderemos saber depois que ficarem prontos. Porém, os produtores não se desanimam diante desse obstáculo. Mangue Negro já tem um plano para lançamento em DVD e na internet. Já Tiago Belotti pretende lançar A Capital dos Mortos primeiramente em Brasília, onde foi filmado. Porto dos Mortos está investindo no mercado internacional e já tem até título em inglês — Beyond The Grave — e matérias publicadas em sites internacionais. Davi de Oliveira Pinheiro, diretor do filme, não esquece que cinema também é negócio. Ele pretende obter lucro para poder investir em seu próximo filme. “Ou me aposentar do cinema com o sabor de não ter me frustrado, de ter lutado até o último suspiro”, conclui ele, talvez refletindo o sentimento das equipes que vêm trabalhando nas produções dos três filmes.

Conheça mais cada um dos filmes

A CAPITAL DOS MORTOS
diretor: Tiago Belotti

sinopse: Zumbis invadem a capital federal e os não-zumbis partem para o contra-ataque.

estréia: 2 de maio, na programação do Festival Internacional de Filmes Curtíssimos

sobre a produção: “Um fator importantíssimo para o projeto foi o Orkut. Criei a comunidade do filme antes do mesmo começar a ser rodado”, conta Tiago Belotti que recrutou boa parte do zumbis do filme pelo site de relacionamentos e, ainda, membros da equipe e a banda Device, que cedeu 4 músicas para a trilha.

no youtube: http://br.youtube.com/watch?v=0O9c7-gxXw4

no orkut: A Capital dos Mortos

MANGUE NEGRO
diretor: Rodrigo Aragão

sinopse: A população que vive à beira de um mangue é aterrorizada pela presença de zumbis que emergem de suas águas. Uma fábula de amor e sobrevivência rodada nos mangues capixabas.

previsão de lançamento: agosto de 2008

sobre a produção: A maquiagem de Mangue Negro impressiona. “Sou um maquiador de efeitos, trabalho na área há 14 anos, principalmente em espetáculos teatrais. Neste tempo tive que desenvolver técnicas com custo baixo, já que o orçamento das peças sempre são apertados”, conta o diretor.

no youtube: http://br.youtube.com/watch?v=JAT4OvYEB70. Acesse e veja o curta-metragem Sob A Lama do Mangue Negro, que é uma espécie de making-of do filme.

PORTO DOS MORTOS
diretor: Davi de Oliveira Pinheiro

sinopse: O policial linha-dura Lockheart persegue Adam, um assassino serial à solta em um Brasil devastado. Pelas estradas de um mundo violento, povoado por mortos vivos, o obcecado oficial da lei enfrentará seu demoníaco inimigo.

previsão para finalização: julho de 2008

sobre a produção: A obra Porto dos Mortos “vai conseguir trazer coisas novas a um gênero que anda moribundo, esgotado de idéias”, aposta o diretor, que faz suspense sobre as inovações. “A novidade principal é o foco. Os zumbis são coadjuvantes de uma força bem pior”, revela ele, que está rodando sua película no Rio Grande do Sul.

na internet: http://br.youtube.com/watch?v=xlHfTlZybes

Publicado originalmente em Alternativa.

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Helena Aragão
 

Muito legal o texto, sobretudo na parte que trata do uso que eles fazem da internet na produção dos filmes. Não pude deixar de rir lendo a sinopse d'A capital dos mortos...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 28/4/2008 14:40
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ronaldo lemos
 

Olá Roberto, muito bacana o seu texto. Eu particularmente adoro filmes de zumbi. Acho o "A Noite dos Mortos Vivos" um marco. O que pouca gente sabe é que ele já está em domínio público, ou seja, quem quiser utilizar o filme, até para remix, pode seguir em frente. Dá para baixá-lo na íntegra aqui. No mais, continuo te devendo um e-mail sobre o iCommons Summit...

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 28/4/2008 16:48
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Romeu Martins
 

Hahaha, ótimo texto.

Romeu Martins · São José, SC 29/4/2008 01:31
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