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A Iconografia da Barbárie

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Favela from above
1
Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ
15/3/2007 · 103 · 17
 

Atenção distinto público. Conforme anunciado aqui mesmo neste sítio, temos o orgulho de apresentar o segundo e último (pelo menos por enquanto) episódio da transcendental série:

“BARBÁRIE TAMBÉM É CULTURA'

Apresentando hoje um tema que apesar de, enquanto peça de humor, não ter a menor graça, nos ajudará sem dúvida nenhuma a compreender, definitivamente, porque talvez devêssemos começar a nos livrar logo (além da hipocrisia, do cinismo e de outras manias sub- urbanas) de algumas expressões outrora tão jocosas e pitorescas (ó jocosidade brasileira hoje tão efêmera!), tais como, por exemplo, 'Bárbaro!' (quando nos referíamos a uma coisa tão boa, que chegava a ser fantástica) ou a gauchíssima “Barbaridade!” (com um sentido mais ou menos igual, só que exagerando mais ainda), ou mesmo “Sinistro!” (algo assim como 'Incrível!', 'Pra lá de bom'!), ou mesmo “Terror”, 'Horror', 'Alucinante' e outras palavrinhas que, ditas assim, no calor de uma conversa sadia e sem compromisso, podem agora assustar alguns desavisados, estressados, como estamos ficando nós todos hoje em dia -principalmente os cariocas- que de hilários piadistas de plantão, antes cuca-frescas profissionais, nos tornamos pilhas de nervos, literalmente perdidos como cegos em tiroteio, ouvindo a briga de foice no escuro, abaixando aqui e ali a cada zás das foices (vai que uma delas é a daquela 'velha dama' que nos quer a todos, um belo dia, em sua fria companhia?). Coisa de louco!

Vamos nessa então, enquanto vivos estamos (o episódio de hoje aliás, passa ao largo destas palavras que não se deve mais sequer ousar falar).

Escrito no já distante 4 de Janeiro de 2004 e publicado em 2005 (nesta versão de 2007 há uma brevíssima atualização), num jornal on line chamado 'Observatório da Imprensa', leiam o candente tema da escuridão jornalística, do 'apagão' imagético, do 'branco' da nossa antes tão corajosa e impoluta mídia, enfim sobre a ausência de imagens que a barbaridade real (até demais) destes nossos dias vai nos legar para o futuro (que, se recuarmos à 2004, nada mais é do que este inquietante presente). Com vocês então:

A Iconografia da Barbárie

Mídia e imagem popular no Brasil

Como um filme mal editado, a Mídia no Brasil começa a sofrer, em muitos aspectos, as conseqüências da ausência de imagens que reflitam o que realmente acontece nas entranhas de nossas grandes cidades, principalmente no interior dos enormes bolsões de exclusão e miséria ainda hoje chamadas, com certo descaso semântico, de 'comunidades carentes'.

Que efeitos estas circunstancias produzirão num futuro mais imediato, sobre o acervo de imagens da vida contemporânea de nossas grandes cidades, principalmente Rio e São Paulo; sobre a iconografia de nossa alma urbana em suma? Que falta estas imagens farão á compreensão de nossa realidade, aquela compreensão tão necessária á formulação de políticas que estimulem nosso desenvolvimento ?

Para início de conversa, pode-se supor talvez que, entre outras razões, a circunstância desta nossa carência de imagens reais do cotidiano, foi recentemente instalada pela violenta e absoluta rejeição que os traficantes de drogas – e as diversas outras modalidades de bandidos que hoje infestam o nosso Brasil -- passaram a sentir pela imprensa em geral, principalmente por aqueles setores voltados para o registro de imagens, em coberturas jornalísticas que, por força do enorme aguçamento da violência urbana, passaram rapidamente a assumir a condição de cobertura de guerra.

Havia já na moderna iconografia jornalística do Brasil (na filmografia inclusive), por conta dos renitentes (embora sutis) mecanismos de afirmação do nosso elitismo, um certo manto de invisibilidade que encobria, por exemplo, a trágica vida nas favelas, invisibilidade esta encoberta pela criação de uma imagem, idílica, romântica, do favelado cordial, pitoresco e submisso, dominado por meia dúzia de contraventores fuleiros e desorganizados, imagem que talvez nada mais fosse do que uma espécie de projeção de como os intelectuais de nossa iníqua classe média, gostariam que os favelados efetivamente fossem: Seres miseráveis porém, conformados, bem humorados, e inofensivos.

Foi justamente quando este manto de hipocrisia jornalística parecia se dissipar, que a síndrome Tim Lopes se abateu, de forma definitiva sobre esta arriscada forma de se fazer imprensa no Brasil.

Produzindo sub-repticiamente o registro, flagrando os delitos, o modus operandi da bandidagem, num contexto que já poderia ser descrito, sem nenhum exagero, como um típico estado de guerra, com dois lados empenhados em verdadeiras batalhas de morte; auxiliando (ou sendo utilizada) na produção de certo tipo de retrato do submundo que, por sua contundência, acabavam por se transformar em provas e atos de denúncia direta contra indivíduos de alta periculosidade, nossa imprensa talvez só tenha se dado conta dos enormes riscos – jornalísticos e humanos- contidos nesta sua temerária estratégia, quando Tim Lopes foi barbaramente trucidado por Elias Maluco.

O fato é que, no afã de cumprir, talvez açodadamente, sua função de caçadora de notícias, a imprensa de nossas grandes cidades, passou a divulgar, de maneira muito sistemática, certos segredos estratégicos cruciais para a estabilidade do crime organizado esquecendo-se de que estava envolvida na cobertura de uma guerra e que, neste caso, não poderia autorizar jamais, que seus correspondentes penetrassem, sem apoio policial ou militar, nas linhas inimigas.


Na Teletela de Orwell

Esta ojeriza pela utilização judicial ou comercial de imagens de seu cotidiano, foi crescendo lentamente no meio dos traficantes, ao mesmo tempo em que ia se formando no Brasil, a exemplo do que já ocorria no resto deste nosso globalizado mundo, uma espécie de sociedade “Big Brother”, com a privacidade de cada cidadão (sempre em nome da segurança de todos), sendo controlada por milhares de câmeras e microfones ocultos, gerando em todas as pessoas de bem, uma sensação de contraditória insegurança.

Perdendo o controle da situação e abandonado a imparcialidade (condição difícil mas, essencial á imprensa também em situações de guerra) os jornalistas (fotógrafos, principalmente) passaram a ser vistos como 'chisnoves', espiões em potencial, se transformando, na ótica dos traficantes, em bolas da vez, vítimas preferenciais de mortes exemplares, assassinatos emblemáticos, quase culturais, como efetivamente aconteceu com o hoje mítico Tim Lopes.

É por esta, entre outras razões, que hoje existem apenas lendas, relatos orais do que acontece realmente no interior de um complexo de favelas.

Circula também, a bem da verdade, um certo tipo de imagem bem próxima do real (talvez um tanto glamurizada demais) que anda sendo expressa por aí em bons filmes e telefilmes como Cidade de Deus e Cidade dos Homens . Desde que o controle violento dos traficantes sobre os espaços mais carentes da cidade se agudizou no entanto, rigorosamente nenhuma imagem real - principalmente noturna - pôde ser gerada ou trazida para fora do contexto onde foi produzida (neste ponto um novo preâmbulo com uma pergunta que não quer calar: Haverá uma iconografia autorizada pelas 'milícias'?).

Outro aspecto importante é que, ao mesmo tempo em que a enorme popularização de máquinas, meios e equipamentos para o registro de imagens virava um fenômeno de consumo no Brasil, o crescente interesse das, agora escaldadas, empresas jornalísticas (principalmente emissoras de TV) pela aquisição das impactantes imagens desta guerra, passou a ser orientado no sentido de racionalizar, ou mesmo anular, todos custos operacionais e humanos diretos, comprando imagens geralmente produzidas por outro interessante personagem de nossas selvagens cidades: O bravo e indefectível “cinegrafista amador”.

É com efeito esta conjuntura que acaba por estimular, se não o surgimento, pelo menos a afirmação deste tipo de ‘profissional’ de imprensa, safo, ágil, clandestino, biscateiro especializado na documentação de solenidades comunitárias, batizados, festas de casamento, bailes Funk, etc. indivíduos que, transformados numa espécie de paparazzi de mazelas e tragédias urbanas, logo se transformaram em incansáveis caçadores de qualquer imagem inusitada que tenha interesse jornalístico especial (e o conseqüente valor comercial) - exceto é claro aquelas cuja obtenção signifique o risco da vida ou a certeza da morte.

Ninguém sabe...ninguém viu.

Está se criando por conta disso tudo, uma extensa área de sombra na iconografia de nossas grandes cidades, um apagão provocado pela falta de registros gráficos (fotografia, cinema, TV) retratando o dia á dia, o bem e o mau viver dessa gente, ou até mesmo o que acontece nos espaços públicos onde vivem ou circulam estes milhões de pessoas que o Brasil rico e remediado, hoje já meio apavorado, teima em esconder.

Infelizmente este vazio, muito provavelmente, só poderá ser preenchido um dia, pela pesquisa ou coleta de imagens privadas, registradas por aqueles mesmos cinegrafistas amadores em festas comunitárias, casamentos, álbuns de família, etc. imagens aleatórias, cifradas, censuradas por severíssimas leis do 'silêncio', geradas que serão pelas mais vagas motivações e interesses fortuitos, sobre as quais não podemos ainda sequer prever a estética e os conteúdos que conterão porque, serão reflexo da visão estreita, da visão possível, obtida através de um ângulo bem fechado, de dentro destas comunidades, que se tornaram trágicas cidadelas da invisibilidade.

Parece óbvio, pelo menos nos aspectos abordados até aqui, que esta situação só poderá provocar a curto prazo, a confrontação na mídia brasileira de duas iconografias contraditórias mas não excludentes: Uma hegemônica, que voltará a ser imaginada ou idealizada pelos habituais profissionais criadores de imagens (fotógrafos e cineastas principalmente), segundo sua exclusiva visão estética e ideológica, alimentada por seu interesse comercial evidente e aquela outra, produzida pelos próprios habitantes das tais comunidades carentes (inclusive os traficantes e integrantes de 'milícias'), anárquica, espécie de iconografia autofágica, movida por códigos de linguagem e conteúdos absolutamente imprevisíveis mas de valor sociológico muito maior.

Não é difícil se concluir portanto que na falta de outras, estas imagens quase endoscópicas ou tomográficas de nossa sociedade, serão essenciais á compreensão de nossas doenças sociais mais graves, pistas vagas porém, quiçá únicas, para almejarmos talvez alguma cura no futuro.

Extrair e compreender as imagens retidas no interior destas nossas cidadelas de invisibilidade será uma tarefa jornalística urgente daqui para a frente. Sem elas não haverá antropologia possível no futuro. Quem sobreviver verá. O melhor cego é aquele que quer ver.

Spírito Santo


Rio, 4 de Janeiro de 2004
(publicado em Observatório da Imprensa em 2005)

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Julz Reb
 

Não posso negar que a seleção de imagens para o texto foi ótima, mas que a imagem da mãe é perturbadora... moço, e como! A dor (diária para muitos) é real!
Muito bom o texto! (apesar de que eu gostaria que o conteúdo fosse mera ficção e eu pudesse continuar tapando o sol com a peneira... ser o cego que nao quer ver é tão mais cômodo, não é?)

Julz Reb · Canadá , WW 13/3/2007 00:57
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Spírito Santo
 

Pois é Julz,
Relutei muito em publicar a foto da mãe. O tamanho reduzido atenuou o impacto que, é ainda maior. Sobre a nosssa cegueira esgotei mesmo tudo que tinha a dizer. Fiquei mudo.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 13/3/2007 05:21
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Sergio Rosa
 

oi Spirito Santo. Só uma dica: o que acha de colocar o título em caixa alta e baixa? Acho que só caixa alta atrapalha um pouco.

abcs

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 13/3/2007 11:55
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Higor Assis
 

Qual será o preço dos agentes comunitários sobre suas respectivas filmagens "amadoras".

Verdadeiramente lucro sujo, não acredito mais em cinegrafista amador sinceramente.

Muito bom o texto, valeu amigo.

Higor Assis · São Paulo, SP 13/3/2007 16:24
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Egeu Laus
 

Spirto. O post sobre o filme Meninas que será debatido no Ibase dia 20 agora, resgata um pouco dessa dívida...
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 13/3/2007 18:04
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Egeu Laus
 

Volta a fita: O filme resgata a dívida, Spirito.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 13/3/2007 18:07
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Spírito Santo
 

Sergio, boa dica. Vou lá inserir, valeu!
Higor, como você já sugere, a coisa toda é um sisetma onde todos, de algum modo, se acumpliciam. Este 'cinegrafista amador' também é do esquema, logo...É mundo cão, meu irmão.
Egeu, pois é, tem o 'Meninas', deve ter algumas coisas que cobrirão, em parte, este hiato. Vamos cuidar de preservá-las qu no futuro serão elas ou elas.
Abs, para todos

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 13/3/2007 21:49
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Egeu Laus
 

Dia 20 tem o debate sobre o filme no Ibase (aqui no Rio). Vale a pena participar pra levantar também esta questão...

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 13/3/2007 22:40
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Spírito Santo
 

Para quem visitou este post nas primeiras horas: Decidi suprimir a impactante foto da mulher chorando o irmão assassinado. Recebi um pertinente alerta da Helena Aragão acerca da possibilidade de, mesmo constando o crédito, se gerar problemas de direito autoral. A foto era do fotógrafo Fábio Motta da AE (Agência do 'Estadão') e merece ganhar alguns prêmios por aí.
Aliás alguém sabe aí como se descobre, de forma ágil, se uma imagem pode ou não pode ser postada aqui? Baixou um grilo em mim quanto a isto. Engraçado, por coincidência ou não, o assunto tem a ver com o tema do post.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 14/3/2007 07:05
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Egeu Laus
 

Spirito. Não consegui descobrir maiores informações. Acho que o melhor a fazer é mesmo uma consulta a Agência do Estadão via mail.
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 14/3/2007 07:54
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Egeu Laus
 

Pode tentar pedir notícias do fotógrafo Fabio Motta neste mail: contato@supergas.art.br

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 14/3/2007 07:58
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Spírito Santo
 

Valeu, Egeu!
Achei mais prático suprimir a foto. Fica para a próxima.
Brigadão,
Abraço

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 14/3/2007 11:16
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Higor Assis
 

É mesmo a foto é realmente boa. Uma pena não poder ficar no texto.

Higor Assis · São Paulo, SP 14/3/2007 17:02
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Spírito Santo
 

Pois é Higor,
Ela até que podia ficar mas era um risco. Acho que as fotos na internet que podem ser copiadas, deviam estar automaticamente liberadas. Quem não quer suas fotos disponibilzadas devia 'travar' as cópias e exigir contato para liberação. Seria tão mais simples.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 14/3/2007 19:02
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Spírito Santo
 

Esta matéria recebeu a 'chancela' Eu odeio pessoas burras · Overblog nas manchetinhas do sítio.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 19/6/2007 07:32
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Ize
 

Spirito, esse seu texto é tão incrível. Me fez pensar tanto nas imagens que a pesquisa acadêmica produz sobre o cotidiano das periferias!!! Será que essas imagens representam de fato o que as pessoas estão vivendo e sentindo? Ou não seriam um arremedo de como a mídia, inclusive os programas que vc citou, quer que a sociedade pense o que é a vida das periferias, vida dura, mas romântica e bela nas miudezas do dia-a-dia. Ando ficando cada vez mais embananada com seus postados. Mas eles têm me servido pra pensar que focalizar o cotidiano pode ser uma estratégia que, afinal, convém a esse momento trágico que vivemos em que desprovidas dos benefícios das políticas de bem -estar social, cabe as pessoas encontrarem beleza e poesia nos intervalos do sofrimento.
Vou imprimir esse texto pra ler com o grupo de pesquisa.
Abraços
PS Me tire uma curiosidade: o que significa isso que vc botou aí em cima? "Esta matéria recebeu a 'chancela' Eu odeio pessoas burras · Overblog nas manchetinhas do sítio"

Ize · Rio de Janeiro, RJ 7/11/2007 01:41
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Spírito Santo
 

Quando comecei meus modestos estudos sobre música negra do Brasil, andei recolhendo algumas partituras sobre o assunto. Mesmo lendo canhestramente como ainda hoje leio partituras, percebi que o que estava escrito não tinha nada a ver com a música que eu ouvia minha mãe (que era da roça), cantar. Quando basedao nas partituras, as harmonias, os arranjos, tudo saia diferente, soava primário e sem sal. Decidi então comprar um gravador K7 e sair em campo, como um São Tomé. Minha vida de antropólogo leigo começou por aí. Veja que coisa: As partituras de música tradicional não nos serviam para quase nada. Haviam escrito tudo errado. O eurocentrismo dos folcloristas e etnólogos (a maioria integrantes da Academia, claro) 'corrigiam' todos os acidentes de escala ou de ritmo que achavam 'errados' segundo as regras da norma culta musicológica, falseando, completamente, a música do 'Outro' (no caso, o'Povo'), tornando-a banal, quase infantilóide e, logo, inferior. Foi daí que foi possível avançar a pesquisa.
Acho que é factível que isto ocorra também com a Mídia, com a literatura, com a socioilogia.
Sobre a chancela 'eu odeio pessoas burras', te explico depois.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 7/11/2007 06:18
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