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A IGREJA E O SACRO IMPÉRIO ROMANO GERMÂNICO

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HISTÓRIA EM EVIDÊNCIA · Balneário Arroio do Silva, SC
11/4/2007 · 23 · 0
 


ARTIGO CIENTÍFICO DE AUTORIA DE SANDRA PERUCHI, ACADÊMICA DA VII FASE DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA - UNIDADE ARARANGUÁ - 2007

A Igreja Católica foi uma das principais instituições medievais. O seu poder era de tal grandeza que atingia toda sociedade. Foi na Idade Média que a Igreja tornou-se a maior proprietária de terras da Europa. Assim sendo, a Igreja atuava não somente no plano espiritual, mas também no domínio material.
Com a ruralização da economia, que se estendeu por toda a Alta Idade Média, a Igreja, antes concentrada nas cidades, foi obrigada a se deslocar para o campo, e os bispos e abades se tornaram verdadeiros senhores feudais.
Nessa época, a Igreja tinha praticamente o controle do saber. O domínio da leitura e da escrita era privilégio quase que exclusivo de bispos, padres, abades e monges. Os membros do clero eram, por isso, as pessoas mais aptas a ocupar cargos públicos, exercendo funções de notários, secretários, chanceleres. A Igreja que antes dependia dos reis, começou a entrar em conflito com a autoridade real.
A definição do poder papal
A organização da Igreja encontrava-se definida, por volta do século III, com a estruturação do clero secular e o surgimento do clero regular.
Clero secular era aquele voltado para a administração da Igreja, composto por padres, bispos, arcebispos, diáconos e papa, que lideram também o clero regular, que por sua vez, obedecia regras rígidas de comportamento. Era composto por frades e monges que saíam as ruas para catequizar.
Em 325, o Concílio de Nicéia estabeleceu a igualdade entre os patriarcas (chefes espirituais) de Jerusalém, Alexandria, Antioquia e Roma. Mas já se atribuía, desde então, autoridade especial ao bispo de Roma.
A autoridade do bispo de Roma sobre toda a cristandade ocidental começou a ser reconhecida por Teodósio, imperador que oficializou o cristianismo como religião do Império Romano e que empregou pela primeira vez a palavra papa. Pouco a pouco, esse poder foi se consolidando, até ser reconhecido oficialmente pelo imperador Valentiniano III, com a publicação do Edito da Supremacia Papal, em 445.
Com a queda de Roma, a Igreja passou a dar unidade a Europa, isso se deu no ano de 476, demonstrando, assim, o papa ter mais poder do que reis e bárbaros. Perante todos ele afirmava seu poder dizendo-se representante do apóstolo Pedro, a quem, conforme afirma a Bíblia, foi confiada a chefia da Igreja, estando lá escrito: “Tu és pedra e sobre ela edificarei a minha Igreja” (Evangelho de Mateus 16:18).
A direção da Igreja era feita pelo Papa e pelos Bispos, sendo que estes administravam uma diocese. Os bispos eram auxiliados nessa tarefa pelos cônegos, dando a Igreja a condição de Estado, dada sua organização.
O primeiro grande papa na Idade Média foi Gregório I (590-604), que se aproveitou da falência do poder imperial na península itálica, onde não havia governante, para assumir o poder temporal na região.
Gregório I estabeleceu os direitos e obrigações do clero, estimulou a fé pelo canto gregoriano, desligou-se da influência do Império Bizantino e, acima de tudo, procurou converter os povos germânicos ao cristianismo, trabalho continuado por seus sucessores.

A Igreja forma seu Estado
Em 756 a Igreja constituiu seu próprio Estado na península itálica, quando Pepino, o Breve, doou ao papado o Patrimônio de São Pedro, formado por terras tomadas aos lombardos. Com o nascimento do Estado da Igreja, o poder temporal do papa, que passou a exercer funções de verdadeiro monarca, aumentou de forma considerável.
Após a morte de Carlos Magno, em 814, o sistema eclesiástico do Reino Franco ficou submetido à autoridade de Roma. Até então, a Igreja dependia do poder e da proteção do imperador, que se considerava ao mesmo tempo rei e sacerdote.
Para administrar a Igreja, que contava com número cada vez maior de fiéis, o papado constituiu a Cúria Romana, espécie de secretaria geral, cujos membros mais importantes eram os cardeais. Em nome dos fiéis, tinha a função de eleger o papa. Os fiéis, assim, deixaram de participar dessa escolha.
Para cobrir as despesas administrativas, o papa criou o fisco pontifical, espécie de tesouro formado por rendas geradas nas propriedades do papado, contribuições, taxas sobre serviços e impostos cobrados aos reinos cristãos.

O clero regular
O clero regular nasceu do movimento monástico, por volta do século III, e tomou forma quando São Basílio, bispo de Cesaréia, organizou a regra para os monges ou cenobitas: todos os monges deviam habitar o mosteiro ou cenóbio e praticar os votos de castidade, pobreza, caridade e obediência a um chefe, o abade. No mosteiro, juntos, rezavam e praticavam a penitência.
A principal figura da vida monástica medieval foi Bento de Núrsia ou São Bento (480-543). Em 529, Bento fundou um mosteiro no monte Cassino, na península itálica, e organizou a ordem beneditina, dando-lhe regra própria. A Regra de São Bento, definida em 534, determinava que os monges deveriam viver em comunidade nos mosteiros; fazer votos de pobreza, castidade e obediência ao abade, que eles próprios tinham a incumbência de eleger; dedicar o tempo à oração e ao trabalho, fosse ele de caráter agrícola, artesanal, cultural ou educativo; hospedar peregrinos e viajantes; ocupar-se com os pobres e o ensino.
Algumas ordens surgiram posteriormente, como a franciscana, criada por São Francisco de Assis e a dominicana, criada por São Domingos.
A ordem beneditina deu ao monasticismo ocidental forma definitiva. Todas as outras ordens monásticas que surgiram no Ocidente basearam-se na Regra de São Bento.
Os mosteiros tornaram-se verdadeiros pólos culturais na Idade Média. Suas bibliotecas preservavam obras de escritores da Antigüidade grega e romana. Ao lado de cada mosteiro, geralmente havia uma escola, que atendia a população pobre da região. Em geral, os freqüentadores acabavam se convertendo ao cristianismo.
Pela Regra de São Bento, os abades deveriam ser eleitos pelos monges, mas os senhores feudais começaram a interferir nessa escolha, principalmente nos mosteiros localizados em seus domínios. Isso provocou o desregramento do clero regular. Para acabar com esses abusos surgiram diversos movimentos reformistas. Dentre os principais movimentos destaca-se o ocorrido na abadia de Cluny (fundada em 910 pelo abade Bernon). Esses movimentos procuravam recuperar o espírito original da vida monástica e garantir a autonomia da Igreja.
Eudes de Cluny (fundador da abadia de Cluny), ressaltou que:
Alguns clérigos desconsideram tanto o Filho da Virgem que praticam a o fornicação em suas próprias dependências, até mesmo nas casas construídas pela devoção dos fiéis a fim de que a castidade possa ser conservada dentro de seus recintos cercados, inundam-nas com tanta luxuria que Maria não tem lugar para deixar o Filho Jesus. (COSTA, Ricardo. http://www.ricardocosta.com/pub/cluny.htm)

Merece destaque, também, a execução, dentro dos mosteiros medievais, do rígido e minucioso trabalho dos monges copistas que acabou por preservar o saber greco-romano. Entretanto, mais que preservar, esse trabalho deu forma e conteúdo ao pensamento religioso que dominou todo o período medieval.

A formação do Sacro Império
Extinta a dinastia Carolíngia, em 911, os duques germânicos da Francônia, da Saxônia, da Suábia e da Baviera fundaram o Reino Germânico. Henrique I, da Saxônia, foi eleito rei pelos outros três duques. Acabou sucedido, em 936, pelo filho Oton I.
A aliança entre a realeza e o papado efetivou-se em 962 quando Oton I foi sagrado imperador em Augsburgo pelo papa João XII. Nascia com este ato o Sacro Império Romano-Germânico, que duraria até 1806. Sua criação acentuaria a dominação da Igreja pelo Estado.
Durante os séculos X e XI, quando atingiu seu apogeu, o Sacro Império Romano Germânico ocupava a enorme área que hoje corresponde a Alemanha, Áustria, República Tcheca, Suíça, Países Baixos, leste da França, norte e centro da Itália.
Oton I fundou bispados e abadias, que na verdade funcionavam como sustentáculo do Império, pois eram responsáveis por dois terços do exército e contribuíam com grande parte dos impostos. Os imperadores procuravam controlar os bispos e o papado para neutralizar o poder dos duques germânicos. Os sucessores de Oton I continuaram a política de controle do papado e a intervir politicamente na Igreja.
A intervenção do Estado trouxe conseqüências negativas para a Igreja. O alto clero, rico e vinculado ao poder político, começou a corromper-se. Os abades e bispos germânicos passaram a levar vida mundana, deixando de praticar a regra religiosa. Com isso influenciavam negativamente os membros do baixo clero (monges e padres), sob sua autoridade. O relaxamento dos costumes do clero recebeu o nome de nicolaísmo.

O Santo Ofício e seus procedimentos
A partir do século XIII, a Igreja decidiu criar um tribunal permanente para vigiar, julgar e punir todos os que não seguissem a autoridade papal. Foi criado, assim, o Tribunal do Santo Ofício.
Em toda a Europa o Tribunal do Santo Ofício organizou-se de modo a ser ao mesmo tempo olhos e ouvidos da Igreja, invisíveis, mas sempre atentos.
Em 1252, um documento do papa Inocêncio IV sugeria o uso da tortura contra qualquer suspeito de heresia.
Ao fim das torturas e dependendo do resultado, procedia-se ao julgamento, última etapa do processo que antecedia o auto-de-fé. Os condenados a penas leves caminhavam com uma vela nas mãos. À frente do cortejo seguiam os condenados à morte, entregues à justiça civil para serem queimados vivos. Às vezes, dependendo das demonstrações de arrependimento, eram enforcados antes de serem queimados.

Atualidades
1º) Uma lei aprovada no dia 10 de fevereiro de 2004 pela Assembléia Nacional Francesa proibiu o uso de vestimenta ou símbolos em escolas públicas que demonstrem o filiação religiosa (véu islâmico, o guipá, o crucifixo, etc.).
Embora as pesquisas de opinião demonstrem serem favoráveis a proibição, alguns líderes religiosos posicionam-se contrários a mesma.
2º) Há muito tempo a Igreja Católica deixou de ser a principal instituição do Mundo Ocidental. Entretanto, até os dias atuais, ela reune um vasto contingente de fiéis, o que lhe confere prestígio e poder.
Esse papel da Igreja Católica no mundo contemporâneo é um reflexo de como ela conseguiu se adaptar às mudanças da sociedade. Com isso, suas crenças e idéias continuam influenciando o comportamento de grande parte da população ocidental.
A Igreja Católica tem influência, por exemplo, em muitas das discussões polêmicas de hoje, como o controle de natalidade, a prevenção da Aids e a legalização do aborto.
3º) Em março do ano 2000, o vaticano divulgou um documento de noventa páginas intitulado “Memória e Conciliação: a Igreja e as culpas do passado”, no qual a Igreja Católica pede perdão pelos erros cometidos ao longo de dois mil anos de história.
Criada para ser uma mensageira do amor entre as pessoas, a Igreja muitas vezes desvirtuou-se dessa proposta e acumulou um conjunto de fatos que se revelaram exemplos de intolerância, opressão e corrupção.
4º) Em dezembro de 2004, o Google (programa de busca da Web), fechou um acordo com algumas das maiores bibliotecas do mundo para digitalizar o conteúdo de mais de 16 milhões de livros para que grande parte deles possa ser consultada na rede.
O projeto pode levar dez anos para ser concluído, pois calcula-se que seja possível digitalizar 50 mil páginas por dia.
O mais incrível dessa digitalização é que ela somente se tornou possível e vai chegar as pessoas que pesquisem pelo fato dos monges copistas da Idade Média terem transcrito volumes e volumes manualmente (a única possível na época), registrando, para posteridade não somente fatos que presenciaram, mas também que tomaram conhecimento, tais como os textos de Aristóteles e Platão, dentre outros.

BIBLIOGRAFIA
AZEVEDO, L de; DARÓS, Vital. A história dos povos: antiga e medieval. São Paulo: F.T.D., 1988. 208 p.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Biblía Sagrada: tradução oficial da CNBB. 3 ed. São Paulo: CNBB, 2006.
COSTA, Ricardo. acessado em 06 de julho de 2006, às 10.30 h.
OLIVEIRA, Waldir Freitas. A caminho da Idade Média: cristianismo, império romano e a presença germânica no ocidente. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. 75 p.
LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru: EDUSC, 2005. 399 p.
PERROY, Edouard. A Idade Média: os tempos difíceis (fim). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. 251 p.

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