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A importância de leitura de textos

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Selma Moura · São Paulo, SP
3/4/2008 · 119 · 8
 

Selma de Assis Moura
selmamoura@usp.br

São objetivos da escola e das famílias em geral proporcionar às crianças o acesso ao conhecimento e a formação de indivíduos críticos, comprometidos consigo mesmos e com a sociedade, capazes de intervir modificando a realidade, auto motivados e aptos a buscar o aprendizado e o aperfeiçoamento contínuos, o que passa pela formação de leitores competentes.
É fato sabido que várias gerações têm demonstrado não apenas o desinteresse pela leitura, mas também a incapacidade de fazê-la coerentemente, compreendendo um texto em profundidade, o que inegavelmente limita o indivíduo em suas possibilidades de acesso ao conhecimento culturalmente construído.
Portanto, é tarefa urgente dos pais e da escola, em todos os níveis, buscar maneiras de estimular, mais do que a capacidade de ler, o prazer pela leitura. Apenas propiciando aos sujeitos leitores o prazer da leitura poderemos construir as competências necessárias para sua apreensão e produção.
Pensadores como Paulo Freire apontam para o reconhecimento de que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura da palavra escrita implica na ampliação da possibilidade de leitura do mundo. Assim, concluímos que o não desenvolvimento de bons leitores limita as possibilidades de leitura do mundo, da compreensão da realidade social e da intervenção do sujeito buscando a transformação da sociedade.
No intuito de desenvolver, desde a mais tenra idade, o hábito e o prazer da leitura, desde a educação infantil devemos oferecer oportunidades de leituras variadas, leitura não apenas de textos escritos, mas a própria leitura e interpretação do mundo em que a criança está inserida e do qual faz parte como ator social.
O acesso a diferentes tipos de texto, mesmo bem antes da alfabetização, permitirá desenvolver tais capacidades, alem de apresentar à criança elementos constitutivos do texto: vocabulário, estrutura, enredo, coerência interna, elenco de personagens e, além disso, o uso social da escrita, elementos esses que serão fundamentais no processo de alfabetização. Isso porque constatamos que “as crianças constroem conhecimentos sobre a escrita muito antes do que se supunha” (MEC/SEF, 1998, vol.3, p. 123).

Os Contos
Instrumentos privilegiados nesse sentido são as histórias infantis. Além de desenvolver o interesse pela leitura, vêm também ampliar o universo vocabular, permitir o exercício da fantasia e da criatividade. Ao apresentar, de modo maniqueísta, a polarização bem/mal, virtude/vício, recompensa/castigo, possibilitam a discussão de padrões éticos e morais, e a formação de valores.
A paixão das crianças pelos Contos vem das próprias características de seu desenvolvimento. “Sonhadora e imaginativa por natureza, a criança aceita sem hesitação o ilogismo das narrativas mágicas presentes nas histórias infantis” (Alberton, 1980). Seu interesse e participação nas atividades de leitura dessas histórias são poderosas ferramentas na formação de bons hábitos leitores.
“O pensamento mágico da criança traz recursos inesgotáveis para que se exercite sua imaginação e fantasia, passando o sonho e a realidade, muitas vezes, a se confundirem, o que reforçaria sua espontaneidade criadora” (Nicolau, 1990, p.131). Dar possibilidade à expressão desses pensamentos possibilitará um crescimento pessoal e social, através da interação com seus pares, que vivem fantasias semelhantes.
Na aquisição e aperfeiçoamento da segunda língua, é fundamental despertar o interesse das crianças para envolver-se no aprendizado, e torná-lo o mais significativo e prazeroso possível. Resgatando conhecimentos prévios, baseando-nos na familiaridade que as crianças já têm com essas histórias, poderemos fixar o vocabulário em inglês e apresentar novas estruturas de linguagem.
Essas habilidades de linguagem na segunda língua serão úteis não apenas para conferir-lhes mais confiança em expressar-se nesse idioma, mas também em constituir um lastro de conhecimento que poderá ser utilizado em situações posteriores em que devam construir frases no idioma inglês. O fortalecimento de suas capacidades lingüísticas e a constituição de um repertório de expressões são objetivos fundamentais deste trabalho.

As Poesias
As crianças pequenas se encantam com as poesias, que lhes parecem (e na verdade são) brincadeiras com as palavras. O ritmo, a métrica e as rimas são logo percebidos pelas crianças, que passam a brincar de fazer poesia, focam sua atenção à sonoridade das palavras, e montam seus versinhos orgulhosamente. Esse trabalho, quando feito paralelamente em Inglês e Português, apresentando poemas nas duas línguas, auxilia a criança a perceber as semelhanças entre os dois idiomas, ampliar seu vocabulário através da memorização de suas poesia prediletas.

Os textos informativos
O trabalho com textos informativos, encontrados, por exemplo, em jornais, revistas, internet e enciclopédias, permite a formação do hábito de ler para estudar, para buscar informações, competência essencial por toda a vida. As crianças percebem a diferença entre esse tipo de texto e os textos de ficção, pois passam a perceber a realidade imediata expressa nos artigos de jornais e revistas, que comparam com as conversas que ouvem, aquilo que vêem na rua e o que assistem na televisão. Ao trazer esses textos à análise das crianças, vemos surgir acaloradas discussões, onde as crianças põe em jogo aquilo que sabem sobre o tópico tratado, trocam opiniões, debatem e assim a prendem a negociar, a expressar verbalmente suas idéias, a rever seus conceitos. Os textos informativos, quando integrados ao trabalho com textos em geral, amplia as possibilidades de leitura do mundo.

As histórias em quadrinhos
Embora já tenham sido alvo de preconceito por parte dos adultos, os gibis hoje são aceitos para o entretenimento das crianças. Contudo, as HQs carregam grandes possibilidades de trabalho com texto, pois têm uma linguagem própria, aliando recursos de imagem e texto, apresentando histórias com textos curtos e sendo muito atraentes às crianças. Para os pequeninos que começam a perceber as letras e como elas formam palavras, e aventuram-se pelas primeiras leituras, oferece a vantagem adicional de serem escritos com letras maiúsculas, aquelas que eles começam a identificar primeiro. É imprescindível contar também com gibis na biblioteca familiar e na escola.

As parlendas e cantigas tradicionais:
Hoje é domingo, pede cachimbo... Eu sou pobre, pobre, pobre, de marre, marré, marré.... O cravo brigou com a rosa...
Desde muito pequenas as crianças adoram as cantigas, quadrinhas e parlendas, e demonstram muita facilidade em memorizá-las, passando a cantá-las ou declamá-las em vários momentos. Além de serem textos ricos por trazerem consigo a cultura do nosso país, suas regiões e momentos históricos em que foram criados e por terem sido transmitidas geração após geração como um tesouro cultural, esses textos são privilegiados para promover a aquisição de vocabulário e, na alfabetização, permitirem a correspondência entre a escrita e a sua leitura, pois por serem familiares às crianças, ajudam-nas a não se preocuparem com o conteúdo (que já é conhecido) e focalizar sua atenção à forma da escrita.


Bibliografia:

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil, gostosuras e bobices. São Paulo, Scipione, 1989.
ALBERTON, Carmen Regina e outros. Uma dieta para crianças: livros – Orientação a pais e educadores. Porto Alegre, Redacta/Prodil, 1980.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília, MEC/SEF, 1998.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 39. ed. São Paulo, Cortez, 2000.
NICOLAU, Marieta Lúcia Machado. Textos Básicos de Educação Pré-escolar. São
Paulo, Ática, 1990

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Paulo Esdras
 

Selma, o texto nos traz ótimos argumentos para o incentivo a leitura. A "leitura nos traz possibilidades de leitura do mundo, da compreensão da realidade social e da intervenção do sujeito buscando a transformação da sociedade". Isso pra mim é motivo mais que suficiente para que os políticos não se arrisquem a incentivar prática tão perigosa para eles. Quem pensa, critica. Quem é crítico, muda a sua realidade.

Paulo Esdras · Brumado, BA 1/4/2008 17:17
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crispinga
 

Selma,
Infelizmente, hoje em dia, temos fortes concorrentes que desviam a atenção dos jovens leitores: a televisão e a internet. Cabe aos pais a função de incentivar seus filhos, oferecendo a eles livros compatíveis a cada faixa etária, com conteúdo atraente, além da literatura indicada pela escola. O exemplo também é fundamental. Pais que gostam de ler, que levam seus filhos as Bienais de Livro, certamente estarão formando bons leitores. Monteiro Lobato, Manoel de Barros, Ruth Rocha, Ziraldo...O importante é estarem presentes nas estantes dos pequenos.
Muito legal sua colaboração!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 1/4/2008 22:17
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Malue
 

Selma, muito bom seu texto e o Paulo está coberto de razão: há muito poder de transformação no ler...
Parabéns

Malue · Gurupi, TO 1/4/2008 23:47
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clara arruda
 

maravilhoso seu texto,deveria ser lido em muitos outros lugares minha querida.principalmente nas escolas públicas desse imenso país.meu voto e meu respeitoso abraço.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 3/4/2008 06:05
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Paulo Esdras
 

Discordo de Crispinga. A TV e a Internet são outras leituras, novas leituras (com a estante mais cheia de bobagens, é claro)

Paulo Esdras · Brumado, BA 3/4/2008 12:56
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Felipe Obrer
 

Selma, interessante falar da importância da leitura, mas deixo uma dica, para próximas colaborações: este tipo de texto cabe melhor no banco de cultura do site, na categoria "não-ficção", ok? O overblog tem outro foco, é como uma revista cultural. Vale ler os links participe e ajuda.

Abraço,
Felipe

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 3/4/2008 14:34
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Lena Girard
 

Adoro contar histórias, adore ler, adoro escrever histórias. Acho que isso só foi possível porque minha infância foi repleta de contadores de histórias. Eu ouvia histórias de manhã, de tarde e de noite. Isso fez-me uma leitora ávida. Para mim, o ponto chave para formar cidadãos leitores, é incentivar pais, professores, avós, amigos, enfim, todo mundo a contar histórias para a nossas crianças. Agindo assim, despertamos interesse, aguçamos a criatividade, formamos bons ouvintes, ativamos a capacidade de concentração das crianças.

Lena Girard · Belém, PA 3/4/2008 17:02
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Hermes Bernardi Jr.
 

Selma,

suas considerações a respeito da importãncia da leitura de textos são muito bacanas, e a "leitura" da imagem dos livros infantis são igualmente necessárias para a fruição estética do sujeito em desenvolvimento.

Abraços
Hermes
Escritor de LIJ

Hermes Bernardi Jr. · Porto Alegre, RS 4/4/2008 01:38
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