Li com gosto ímpar a deliciosa narrativa de Maria Luiza Castilhos: Elvis, Che, Meu Pai e o golpe de 64.
O tema é duríssimo.
O período dramático, trágico, horrendo.
As memórias de uma criança que fará dez anos, espera um baile, talvez com a presença física mesma do Che e animado de alguma forma pelo rock brejeiro de Elvis, dão a ternura que as pessoas que amam pessoas não perdem nas relações que travam, mesmo as mais duras, mesmo as mais miseráveis.
Maria Luiza tem o pai por ídolo, como uma criança tem um pai amoroso por herói.
Um resistente ao golpe, acusado injustamente de comunista pelos golpistas (e pelos dedos-duros oportunistas adversários políticos regionais), ainda que ter opinião diversa sobre realidades e modelos sociais e modos de produção não seja crime, Artigas Castilho Puignau não era, nunca foi e não é comunista.
Eu, um jornalista no rumo da aposentadoria, acredito, mas pra milico golpista e dedo-duro você só é inocente se provar que não é culpado, nos vai revelar a trama bem tecida da linda colcha de retalhos de memória.
Quem viveu o período, em qualquer circunstância não pode deixar de ler.
Ela faria 10 anos de idade e o sonho acalentado do baile da sua fantasia é atropelado pela vista dos gorilas enfardadosm fuzis apresentados de modo ostensivo, geralemnte a baioneta calada batendo à porta da casa da família.
A narrativa da primeira grande parte da obra é da criança, em finíssima arte, inédita talvez, como especulou na apresentação que fiz da sessão de autógrafos o overmano Nivaldo Lemos.
É um olhar de como vimos, crianças, o golpe que se dava às instituições democráticas, as partes em combate puramente ideológico, retórico, prisioneiros de um lado só, as armas públicas assanhadas sobre o povo pelo trio maravilhoso regina, os governadores de Minas, Rio e São Paulo, por meia-dúzia de oficiais auto-intitulados patriotas que logo sofreram eles mesmo o golpe dentro do golpe, com o AI-5 e arrancaram de vez a máscara, entregando o patrimônio e a própria força de trabalho do povo à hegemonia da exploração estadunidense e multinacionais das quais seriam seempre consultores ou dirigentes ao custo da miséria de milhões de brasileiros que pagavam os soldos polpudos deles, que não queriam os civis em paridade ganhando feitos nababos as vantagens tantas que davam a si próprios.
Diz a narradora, a certa altura da história, que perdia o pavor de criança da circunstância inexplicável do pai encarcerado pensando que todos aqueles empolados, empinados, armados, em botas lustrosas, sob quepes e fardas, também sentavam no vaso sanitário para satisfazer necessidades fisiológicas como qualquer mortal.
É a candura ingênua e realista da menina que narra a história, diz Pedrinho Guareschi, professor, filósofo e teólogo, na apresentação desta obra que merece, eu penso, a tua atenção de leitor.
O lançamento do caprichado livro de Maria Luiza Castilhos ocorreu a 15 outubro em Porto Alegre, no Memorial do Rio Grande do Sul.
A colega Bebê Baungarten disse a respeito:
"A exemplo de outras obras surgidas recentemente e que abordam de forma delicada, porém contundente, os anos de chumbo vividos no Brasil durante a ditadura, o livro de Maria Luiza Castilhos traz um emocionante relato desse período sob o olhar de uma criança".
Elvis, Che, meu pai e o golpe de 64 está na praça pela Editora Libretos, conta uma mesma história sob óticas diferentes: com a candura ingênua e realista de uma menina e, depois, com a visão crítica de alguém que descobre suas memórias soterradas, esquecidas no tempo.
Como disse no postado sobre o lançamento, a autora é minha camarada de longa data, amiga de emoções e medos, parceira de jornadas e conquistas várias, todas lindas e preciosas lembranças nossas.
No autógrafo que me deu, posso justamente orgulhar-me do que escreveu: Querido Adroaldo, companheiro de lutas, com muito afeto e paixão! Maria Luiza.
Ela nunca cogitara de se tornar escritora até que, daquele jeito nosso, não sabendo que era impossível, foi lá e fez. E, como simples leitor, sou sincero: fez muito bem feito!
Mais de 40 anos depois, Maria Luiza volta ao tempo de menina e traz com ela todos os seus heróis: Elvis, Che e Artigas Castilhos, seu pai.
Maria Luiza Castilhos é psicóloga clínica com formação em Psicologia Social e Saúde Mental Coletiva. Foi professora da PUCRS e da ULBRA e atualmente é funcionária pública da rede municipal de saúde de Porto Alegre.
Elvis, Che, meu pai e o golpe de 64
Maria Luiza Castilhos
136 páginas
ISBN – 978-85-88412-19-4
Edição e design – Clô Barcellos/ Libretos
Fotos - arquivo pessoal da autora
Preço: R$ 25,00
Pontos de venda: Livraria Cultura, Palavraria, Palmarinca e Saraiva Mega Store
A pedido de Nivaldo e possíveis outros interessados, o linque para aquisição é esse aqui.
Adroaldo, meu amigo,
mais uma vez parabéns pela resenha de Elvis, Che, meu pai e o golpe de 64. Pelo que aqui li, ilustrado com palavras de quem também viu com os próprios olhos, o livro de Maria Luíza, sua amiga, revela a face mais cruel e trágica do golpe militar de 64 - a perda da inocência de muitas crianças e adolescentes brasileiros, instados ao amadurecimento temporão pela necessidade de compreender o que acontecia e até de resistir à violência incompreensível que se lhes abateu de súbito na família naquele 31 de março. Portanto, se aqui não tivemos o drama das Madres de Plaza de Mayo, como nuestros hermanos argentinos, tampouco atravessamos incólumes a tormenta como alguns ainda pensam: muitas de nossas crianças não foram literalmente 'desaparecidas' da família e adotadas pelo carrascos de seus próprios pais, como lá, mas tiveram a própria infância roubada pela tragédia que se abateu no país e no seios de suas famílias. Com a palavra Elvis, Che, Meu Pai e o golpe de 64.
A propósito, ainda não o encontrei aqui na Saraiva Mega Store do Rio Sul, no Rio, nem no site da Saraiva. Continuarei procurando.
Um forte abraço.
Agradecido, camarada Nivaldo, és muito bondoso com essa minha breve impressão de leitura, que se a faço mais extensa antecipo a leitura pelo leitor e arrisco reduzir a cumplicidade da pessoa que vá ler a obra com a autora.
Também sou apenas um leitor de Maria Luiza.
Ajudado pela Cintia Thomé, no comentário de apresentação do lançamento, Nivaldo, trago para cá o linque de aquisição:
Siga por esse caminho azul.
Querido Adro,
Lembrei-me do belo filme que assistí ano passado com a Gabi, "O ano que meus pais saíram de férias", do diretor do "Castelo Ratim Bum", programa infantil que passava na TV Educativa, excelente, por sinal. A ótica dos anos de chumbo narrada por uma criança dá mais leveza sem tirar a seriedade do assunto. O mesmo acontece com "A culpa é do Fidel", a garotinha protagonista rouba a cena.
O livro de sua amiga tem tudo para virar um ótimo roteiro de cinema. Sem perder a ternura jamais...
beijos
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