O ano de 2006 termina e, com ele, o papo (e a constatação) que a indústria fonográfica anda decadente continua em voga. Com toda a força. Qualquer artista minimamente organizado dispõe sua música no Trama Virtual, My Space. Faz a onda dos fotologs e outras mídias afins para mostrar a cara. Toda a movimentação é uma benção para o circuito da música independente. Embora não garanta a "certeza" de uma projeção maior. Afinal, sorte e talento, a Internet ainda não desenrola assim tão fácil...
A revolução pela qual essas mídias atuam é real. E vem rápida. Mas, aqui e acolá, você encontra textos e opiniões a toda a sorte sobre uma perspectiva exageradamente apaixonada dessa mudança. Como se o músico independente estivesse com a faca e o queijo na mão para divulgar seu trabalho em largo alcance, mas faltasse a consciência exata do que a ferramenta virtual pode fazer por ele. Não é bem assim. A Internet não "inventou a roda" do sucesso fácil ou de uma escala simples para o sucesso padrão.
Assim como se apresenta feito uma vitrine legítima, a Internet gera acomodação. Resultado: há quem deixe de conquistar novos compromissos de carreira por conta de uma preguiça virtual absurda. Falta público nos shows das bandas menores. Por quê? Por que as bandas são ruins mesmo ou o povo é deslumbrado com aquilo que é célebre? O buraco é mais embaixo.
Às vezes falta a mínima divulgação através de cartazes, flyers - já há algo de arcaico nisso? - ou de uma corrida atrás da mídia convencional que, acompanhando ou não essas revoluções, ainda tem seu valor como ferramenta noticiosa. Enquanto os fotologs, o orkut ou mesmo blogs estão recheados de informações sobre os eventos, a produção esquece da vida real... Ou ao menos de tentar fazer a ponte.
Vejo nas "cabeças" de muitas bandas novas a visão de que a Internet facilita. E pronto. Espera-se o resultado. Quando este não vem, então sobra o discurso do reclamismo, da formação de panelas - como se fosse inadmissível reunir pessoas que tenham afinidades e acreditam no mesmo trabalho. A coisa funciona como então? Se a panela da qual faz parte é competente, vá atrás de esquentá-la! Ainda mais quando você já tem experiência para o metiê. Melhor ainda.
Enfim, ainda é comum a turma se deslumbrar com o número de "fãs" da comunidade da sua banda no orkut. Esqueceram que são gente e lidam com gente do outro lado. Entregar o CD na mão das pessoas que irão ajudar - digo "ajudar", e não colocá-lo no colo e fazer cafuné - sua música a circular, conversar, realizar o corpo a corpo com o público ainda é fundamental. No dia que existir uma "fórmula" que possa projetar qualquer coisa que surja na Internet, é só pensar que, se você conta uma família numerosa online, vai longe... Crê nisso?
Por enquanto, a Internet é complementar. E deve ser assim ainda logo. Falta às novas gerações absorverem a realidade e colocarem o pé no asfalto atrás de divulgar sua banda. No Brasil, a escrotice da hegemonia dificulta o caminho por todas as áreas. Na música não seria diferente. E o que a Internet provoca, vez por outra, é a fantasia de que não seja bem assim.
Artigo publicado na edição de n° 19 do zine eletrônico Elefante Bú - elefantebu@yahoo.com.br
Interessante o artigo. Internet eh veiculo. E como tal, deve ser considerado na divulgacao de um trabalho. O que me surpreende, tambem, eh como a internet so eh veiculo quando o cara eh desconhecido. Uma vez labelado, ele retira as musicas do ar e passa a pensar que, estando numa label, as pessoas vao comprar a musica e pronto. Alias, recentemente fazendo um podcast sobre um festival independente, tinha o objetivo de colocar musicas de todos os artistas, ja que, embora eles sejam relativamente conhecidos no Brasil, a maior audiencia do meu podcast vem da Europa e do Japao. Portanto, o objetivo era apresenta-los aos estrangeiros. Mais da metade dos artistas nao tinha sequer uma musica para download gratis e meu podcast soh trabalha com musicas nao disponiveis na internet em ocasioes especiais. Portanto, essas bandas nao entraram.
No entanto, obvio que colocar o disco - fisico - nas maos de jornalistas legais, produtores interessantes eh parte do assunto. Afinal, nao eh de disco que se vive e, sim, de show.
Pois é. O que muitos artistas alegam - e é verdade - é que os compositores de fato não levam um tostão com a distribuição em MP3 e com a pirataria. Para quem não faz shows, só compõe, é mais complicado aceitar as mudanças.
Quanto ao lance de parar de disponibilizar as músicas na Internet, o NxZero é um mal exemplo disso. Desde que os caras começaram a ser agenciados pelo Rick Bonadio (Mamonas Assassinas, CPM 22, Charlie Brown Jr...), deixaram na mão um público jovem absurdo que eles tinham por aqui. Isso acontece muito também pela mentalidade caduca de muitos artistas desde sempre. Vêem a Internet como um espaço intermediário até atingir um sucesso padrão. Tá certo que, como falei, o espaço é complementar, mas devia estar junto sempre, já que o acesso é livre. E a peleja inicial é por aqui também.
Nego se agarra com tanta força à chancela de empresário que faz conta de "esquecer" até o que acreditava há não muito tempo.
Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 12/1/2007 11:09Sabe que essa do compositor eu realmente nunca tinha parado para pensar. No entanto, quando se faz shows, nao se ganha? O compositor nao recebe pela arrecadacao do ECAD? A cada show, a banda nao tem que fazer a lista das composicoes e dar o bordero da casa para extrair o valor do ECAD? Queria saber como funciona isso.
Roberto Maxwell · Japão , WW 12/1/2007 12:04Cara, a arrecadação do ECAD, a rigor, funciona de forma restrita. Um compositor bem articulado com as associações vinculadas ao ECAD recebe sim. Mas não é em todo show que fica acertado esse esquema certo de arrecadação. Ou seja, normalmente o cara recebe bem menos do que na realidade devia receber. Um compositor como o Fausto Nilo, que está sempre ligado às associações e corre atrás dessa arrecadação, recebe em torno de 5 mil reais por mês do ECAD. Mas o Fausto é exceção. E tem 1001 composições gravadas por aí por Deus e o Mundo da MPB. Só com o Fagner, por exemplo, ele deve tirar uma ponta legal. Foi uma das parcerias dele que mais rendeu sucesso comercial. É por aí essa história.
Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 12/1/2007 12:28Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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