O Tocantins já foi bastante associado na mídia – preconceituosamente, diga-se de passagem – aos índios. De forma pejorativa, muita gente responde com o seguinte comentário ao ouvir que somos do Tocantins: “Ah, e lá tem muito índio?”. A frase é seguida geralmente com um ar de espanto, de coisa exótica. Sim, o Tocantins tem várias tribos indígenas, graças à Deus não foram todas exterminadas. Mas o estado cravado no coração do Brasil, e fruto de lutas seculares, tem uma trajetória capaz de provocar outros referenciais interessantes. De qualquer forma este artigo é sobre índios e brancos. Aqui estão presentes as etnias Krahô, Apinajé, Krikati, Karajá entre outras. Elas são alvo de pesquisas interessantes, uma delas de um grupo organizado pelo professor da Facomb – Faculdade de Comunicação da UFG, Nilton José. Trabalhando com jornalismo comunitário, eles desenvolvem um projeto interessante e visitam freqüentemente os Krahô.
Em seminário realizado em Palmas-TO, no Ceulp-Ulbra , para estudantes de Jornalismo e Publicidade, o professor Nilton contou um pouco da experiência que é discutir formas alternativas de comunicação com os Krahô. Eles têm exata noção do que é e para que vai servir, por exemplo, uma rádio comunitária na aldeia. Isto, caso o governo federal, através de sua agência reguladora, se digne a analisar o pedido. Nesta área tudo é proibido, tudo é muito vigiado, a fim de garantir os “direitos adquiridos” das grandes empresas privadas, e das tvs governamentais, que trabalham pouco ou nada a serviço da comunidade.
Do alto de sua sabedoria, o cacique disse ao professor que quer muito a rádio, mas não quer profissionais brancos, de fora, fazendo comunicação para índio ouvir. “Nós mesmos vamos fazer as nossas notícias’, teria afirmado o cacique à equipe da universidade. Ele sabe que para ser genuína, sua comunicação deve ser feita por eles mesmos, para eles próprios. A noção do que é notícia, do que interessa à sua comunidade, e da linguagem, é peculiar ao seu universo. E no vai e vem das discussões, o cacique Krahô foi além. Segundo relatou o prof. Nilton José, do seu jeito próprio o líder indígena expressou uma crítica mais profunda. Disse estar cansado da visão que o branco tem do índio, e da forma como se refere à sua cultura, com o olhar do superior sobre o inferior.
Para arrematar, tocou na questão da linguagem, ao comparar o processo de aculturação que o branco faz sobre as nações indígenas, ao que o Norte Americano faz com o brasileiro – para não dizer com “o resto do mundo” – na pregação de valores, na influência musical, literária, e cultural em geral. O cacique disse ao professor, que neste aspecto, sua aldeia Krahô está para o branco bem à frente do que nós em relação aos americanos: “nós pelo menos falamos a sua língua. E vocês, já falam a deles?” perguntou. Um pensamento simples, e muito revelador. Da ótica do dominado, falar a língua do dominador é o primeiro passo. Fiquei pensando nas nossas tribos urbanas, compostas por adolescentes extremamente influenciados pela cultura, música, programas de TV americanos. Grande parte deles canta letras em inglês tosco, sem compreender o que significa.
Sorri sozinha da sabedoria do cacique Krahô e sua lição. Ele compreendeu como deve lidar conosco. Ele, líder de uma tribo, sabe o que quer para sua rádio comunitária. Aliás, sabe que precisa dela, e o uso que fará deste instrumento. Afinal, índio quer se ver e quer se ouvir. Quer reafirmar sua cultura. Não quer se perder no que é do outro. E nós? O que queremos da nossa comunicação? E mais, o que queremos da produção cultural do primo rico? Como vamos lidar com suas tantas mensagens subliminares ou não? É preciso decidir se vamos consumir o conceito de belo do americano e do europeu, se vamos nos espelhar no que não é nosso e seguir criticando de forma destruidora o que é nacional. Num mundo cada vez mais sem fronteiras e sem barreiras, o cacique nos deixa a lição elementar. Podemos interagir, podemos gostar do que vemos na TV, podemos cantar belas canções em inglês, sem problema. Aliás, adoro a literatura inglesa, mas precisamos elevar o nível da discussão e da convivência. De preferência de igual para igual, e preservando o que é nosso. Uma idéia simples e revolucionária, como a frase do Cacique Kahô. Uma idéia que vale para nós que fazemos imprensa, e para os que fazem educação. Afinal pela informação e pela educação é que se constrói o mundo.
Menina, quer dizer que o Niltinho anda por aí... Foi meu professor na Faculdade de Jornalismo da UFG. Fiz parte do estágio supervisionado com ele, um programa sobre posse urbana na Rádio Universitária. Bom, isso lá pela metada da década de 80. Que bom que ele está na ativa. Gostei do artigo.
Beijo grande.
Oi Cida, pois é, ele vem todo mês por conta deste trabalho com os krahôs. Pensa, aquela irreverência toda falando pra uma platéia de alunos da universidade luterano. Vc precisava ver as caras e bocas do povo. Também passei por ele no velho ICHL de tantas e boas lembranças. Fico feliz que tenha gostado do artigo!
Outro bjo.
Muito bom ler esse seu texto no Dia do Índio, Roberta. Muito legal acompanhar os seus pensamentos enquanto ouvia a reflexão do cacique. Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 19/4/2007 17:51Ótimo texto. Niltinho está em todo lugar, eita homem que anda!
Glês Nascimento · Palmas, TO 20/4/2007 01:39
Helena, agradecida pela leitura, e pelo comentário! Outro abraço!
Glês!!!!, vc por aqui!...rs. É o homem anda mesmo, e vai espalhando "subversão" da melhor qualidade. Valeu!
Que bom vc não ter deixado passar batidoeste tema tão interessante e urgente.
Que bom que o Niltinho - tbm estudei com o cidadão! - continua firme em seus projetos e convicções.
E o seu texto continua uma delícia.
Abs, Seleucia
Selêucia, agradecida pela visita e comentário, precisamos nos encontrar mais.
Josué, obrigada pelo comentário. Grande abraço!
Eu estava presente nessa palestra... Estudo na UFT, mas por sorte meu namorado me chamou e passamos a noite toda lá no auditório. Achei seu texto bem legal, afinal, mesmo sendo goianiense, moro em Palmas a 2 anos e estou a cada dia que passa aprendendo a gostar dessa terra. Orgulho de encontrar índios na rua...
Quanto a seu texto, gostei do início, do meio e do fim, mesmo achando que no fim faltou fechar com uma conclusão do que foi dito na introdução...
Abraços e continue escrevendo sobre nossa terra!
Bruna, valeu o comentário. Eu optei por terminar refletindo sobre a moral da história, no caso, da lição do cacique. Na verdade, a introdução é mais um chamariz, para provocar o leitor a ficar no texto. Obrigada!
Roberta Tum · Palmas, TO 4/5/2007 15:19
Só complementando, as etinias existentes no Tocantins são os povos Ynã (karajá, Karajá-Xambioá e Javaé, os Timbiras (Apinajé, krahô-Canela e Krahô) e os akwe, conhecidos comos xerentes, e recentimente, a funai reconheceu os Pankararu, como etnia do tocantins. Os Krikati é também Timbira mas ficam mais concentrado no Estado do Maranhão.
Auro Giuliano · Palmas, TO 13/8/2007 11:15Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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