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A linguagem vertiginosa de Mário Peixoto

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Pedro Vianna · Belém, PA
2/4/2007 · 306 · 25
 

Ainda permanecem quase desconhecidos os poemas, romances e roteiros escritos pelo cineasta Mário Peixoto (1908-1992). A trajetória literária de Mário iniciou na década de 30, quando lançou Mundéu, livro que fez Mário de Andrade vê-lo como uma revelação poética, e O inútil de cada um (1933), romance que teve uma segunda versão, publicada em 1984. O livro ainda inédito Poemas de permeio com o mar, que possui muito da força das imagens de Limite, foi escrito da década de 1930 até a década de 1960. Os poemas de Mário Peixoto revelam a impossível separação entre texto e imagem. As palavras desenham visíveis movimentos. Os versos parecem ser determinados por uma intensa visualidade do eu poético, e a linguagem cinematográfica explicitada em Limite marca também a percepção poética na obra de Mário Peixoto, com poemas que vão além dos limites dos versos e chegam próximos às imagens do filme.

Imagens e palavras se misturam na obra de Mário Peixoto, em trocas recíprocas e inesgotáveis. Imagens se multiplicam indefinidamente, desnorteando o sujeito poético dos versos de Mundéu (1931) e Poemas de permeio com o mar , o narrador do romance O inútil de cada um, e a câmera que narra Limite (1930): facetas da voz que se recusa à personificação e que podemos “identificar por uma semelhança entre o tom que estas vozes assumem e as complexas questões existenciais e estéticas a que nos remetem“. A linguagem poética de Mário prende-nos em algumas armadilhas, imagens nos conduzem a um estado de torpor, e nosso olhar torna-se cada vez mais turvo, por conta da confusão sensorial apresentada nos textos. Imagens se impõem em seus poemas, que não deixam outra possibilidade se não aceitar e acompanhar o movimento. Acabamos imersos em uma complexa rede de imagens velozes e vertiginosas.

É evidente uma certa organicidade na obra de Mário Peixoto, que assume formas diversas e acaba retornando insistentemente, como imagem que está sempre defluindo dos mesmos núcleos temáticos. Este fato não ocorre apenas no filme, mas nos poemas e romances, com a particularidade de as imagens de cada um destes serem essencialmente as mesmas já que, apesar de se distanciarem, possuem uma correlação temática. Suas imagens poéticas sempre revelam realidades irreais, simulacros inevitáveis, porém revelando uma profunda coerência, através de imagens que evidenciam uma unidade. Por isso sua escrita jamais vela as imagens, pelo contrário, sempre as revela. "Ao inventar a escrita, o homem se afastou ainda mais do mundo concreto quando, efetivamente, pretendia dele se aproximar", afirma Flüsser, o que nos leva a pensar que, na obra de Mário Peixoto, a percepção da contradição na palavra permanece, nos aproximando e distanciando da realidade concreta. A linguagem, em sua obra, será sempre metamorfoseada, como uma construção - com todos os perigos e promessas.

Referências bibliográficas:

Farias, Otavio. Eu creio na imagem. In: O fan, vol. 6. Rio de Janeiro, 1929.

Mello, Saulo Pereira de. Mário Peixoto - Escritos sobre cinema. Rio de Janeiro: aeroplano, 2000.

Peixoto, Mário. Limite. "scenario" original. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.

Rocha, Glauber. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2000.

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Felipe Obrer
 

Pedro, achei o texto muito bem escrito, e me trouxe informações novas, já que só tinha ouvido falar de Mário Peixoto muito superficialmente (ainda vou dar uma olhada nos links.

Tenho algumas sugestões (já que está em edição e passei por aqui). Transcrevo os trechos, com as alterações que sugiro já incorporadas.

No primeiro parágrafo o título "O inútil de cada um" ficou com apenas "O inútil" negritado, convém incluir no negrito "de cada um". Sugiro também um deslocamento de vírgula, para antes de "e" (tive que reler, e aí entendi, mas acho que como proponho facilita um pouco mais):
Os versos parecem ser determinados por uma intensa visualidade do eu poético, e a linguagem cinematográfica explicitada em Limite marca também a percepção poética na obra de Mário Peixoto, com poemas que vão além dos limites dos versos e chegam próximos às imagens do filme.

No último parágrafo, tiraria o "entre si" depois de "correlação temática", já que fica implícito, e tentaria não usar "No entanto" no início da frase seguinte, já que ela não traz uma idéia oposta. Por último, suprimiria "temática" ao final da frase, evitando assim a repetição -"unidade" já dá conta do recado:

Este fato não ocorre apenas no filme, mas nos poemas e romances, com a particularidade de as imagens de cada um destes serem essencialmente as mesmas já que, apesar de se distanciarem, possuem uma correlação temática. Suas imagens poéticas sempre revelam realidades irreais, simulacros inevitáveis, porém revelando uma profunda coerência, através de imagens que evidenciam uma unidade.

Espero que recebas bem as sugestões, que só fiz porque gostei do texto, e tive vontade de que ficasse ainda mais "azeitado". Se não gostares ou não achares pertinentes, é só não alterar nada.

Abraço

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 31/3/2007 17:49
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Pedro Vianna
 

Felipe,

que dizer de sua colaboração? Fico muito grato pela sua inestimável colaboração. Suas correções e soluções foram extremamente pertinentes. Devo até te dizer que essa é aprimeira vez que vejo alguém utilizar a fila de edição para seu propósito último. Claro que vou alterar o texto. Desde já te convido para que, se for do teu interesse, leias os outros textos que eu for postando no overmundo e enriqueça-os com teus comentários.

Abraço,

Pedro VIanna

Pedro Vianna · Belém, PA 1/4/2007 09:42
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Felipe Obrer
 

Pedro, é um orgulho pra mim "ouvir" essas tuas palavras. Colaboração genuína é essa aí, que emociona.
Abração!

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 1/4/2007 13:23
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Felipe Obrer
 

Pedro, esqueci de dizer: já tinha lido o texto sobre o Nelson Rodrigues, achei muito bom.

Mais um abraço,

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 1/4/2007 18:21
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Maldoror
 

Pedro,

Na obra de Mário Peixoto a imaginação ocupa um lugar central e aparece exposta na estruturação de sua obra, fato que podemos enxergar, em muitos momentos, por conta de uma tendência metalingüística que perpassa toda a obra, e esta imaginação se desdobra, planos oníricos e reais se interpõem e, deste modo, imagens se aproximam para que a obra se construa, em um movimento que explicita a impossibilidade de separarmos imagem e imaginação. Encontramos uma sensibilidade determinada por esta imaginação e que, em sua poesia, tenta abarcar o indizível. Podemos contrapor a estas observações, a definição que Cornelius Castoriadis fornece para as imagens, "não no sentido de "ícones" ou "imitações", mas Vorstellung, representações, ou melhor: apresentações: apresentações de qualquer coisa sobre a qual nada pode ser dito, salvo por meio de uma outra representação, acerca da qual o discurso estará eternamente aberto(…)". A imagem, ao invés de apenas sugerir, apresenta, revela o que estava encoberto, e, por tudo que não revela, expõe falhas que permitem que o discurso continue em movimento e amplia as possibilidades de aproximação entre imagens que podem ainda estar por vir - como se as imagens, de certo modo, estivessem mais próximas da vida. A imaginação constitui a própria imagem, alcança o inatingível e será justamente nas aberturas e falhas da linguagem, com todas as suas insuficiências, que a Poesia surgirá com autonomia, viva, sem forma fixa - nos poemas ou em Limite. As imagens, que apresentam a imaginação criadora de Mário Peixoto, possuem autonomia e, desta forma, pode-se ir além da obra, com uma sofisticada - e freqüente, ao longo da obra - problematização dos muitos impasses da linguagem e da expressão artísticas.

Abraço,
Maldoror.

Maldoror · Belém, PA 2/4/2007 13:34
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ella
 

Numa época de descrença generalizada, quando sujeito e realidade parecem determinados apenas por uma inevitável instabilidade, a imagem oferece a possibilidade de algum apoio. Na fotografia, por exemplo, por seu vínculo direto com a realidade, talvez fosse possível confiar. A fotografia parece redefinir a forma de o homem se relacionar com a realidade, segundo Susan Sontag. Entretanto, não podemos esquecer que o cinema, com as técnicas de montagem, e também a fotografia podem ser conduzidos de forma a criarem uma nova realidade que algumas vezes poderia parecer até mais verdadeira do que a própria realidade. Será que justamente ao percorrermos caminhos intrincados, de imagens múltiplas e infinitas, iremos nos deparar com uma poética incomum, que prima por ser sutil e delicada, apesar de abordar questões complexas e dolorosas que dizem respeito a uma época marcada por imensas contradições ? A poética de Mário Peixoto ultrapassa seus limites e atinge o universal.

ella · Cametá, PA 2/4/2007 13:43
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Pedro Vianna
 

Maldoror

Percebo bem o que dizes, as imagens nesta obra, adquirem autonomia e nos apontam ser impossível controlar a sua força ou mesmo sua significação. A construção de imagens e a estruturação da obra a partir das imagens evidenciam o esforço de dar forma ao infigurável, ao disforme. E na obra de Mário Peixoto, as imagens que saltam dos versos, do filme ou do romance O inútil de cada um, em suas duas versões, revelam uma via reflexiva sofisticada, apesar de instintiva, como acreditamos. Segundo Cornelius Castoriadis, "o pensamento abstrato, ele mesmo, deve sempre se apoiar em uma figura ou imagem qualquer, seja essa, minimamente, a imagem das palavras que o suportam" e, na obra de Mário Peixoto, essas imagens autônomas, que não seguem em linha reta e nem podem ser contidas ou controladas, ligam se a outras e constituem, deste modo, uma reflexão crítica sobre o próprio fazer poético. E, como em um jogo de espelhos, as imagens se multiplicam e as significações insistem em se ocultar.

Pedro Vianna · Belém, PA 3/4/2007 08:47
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Pedro Vianna
 

Ella,

Onde ir,
ó náufrago?! -
e assim que as outras noites
se empilharem
senão ao mesmo ponto
de partida:
rotas desbotando
em ilegível mapa carcomido!

["Votivo", Poemas de permeio com o mar II]

A instabilidade não parece ter saída. A angústia faz parte deste eu-lírico que experimenta a realidade como se estivesse sempre à deriva, sem rumo certo, sempre a oscilar frente a um fluxo incontrolável - poesia e vida parecem estar sempre fora de controle. Os versos da estrofe acima remetem-nos, inevitavelmente, para a imagem que conduz Limite, com os três personagens à deriva em um pequeno barco. Não se pode saber que naufrágio teria sido este, mas identificam-se os náufragos, perdidos, sem direções ou mapas possíveis. Segue-se sempre, mas sem que se saiba o por quê ou para onde. E a direção pode ser circular, pode-se mesmo retornar "ao mesmo ponto/ de partida:/ rotas desbotando/ em ilegível mapa carcomido!". Parece que nem mesmo as imagens possuem a capacidade de dar conta deste universo de sombras que não se traduz. Não há luz a iluminar e apontar uma direção.

Em época de descrença generalizada, quando sujeito e realidade parecem determinados apenas por uma inevitável instabilidade, a imagem oferece a possibilidade de algum apoio. Na fotografia, por exemplo, por seu vínculo direto com a realidade, talvez fosse possível confiar. A fotografia parece redefinir a forma de o homem se relacionar com a realidade, segundo Susan Sontag. Entretanto, não podemos esquecer que o cinema, com as técnicas de montagem, e também a fotografia podem ser conduzidos de forma a criarem uma nova realidade que algumas vezes poderia parecer até mais verdadeira do que a própria realidade. A imagem que marca os poemas de Mário Peixoto seria esta imagem fotográfica, característica da modernidade, que altera a relação do sujeito com a realidade e, ao parecer mais fiel à realidade objetiva, em sua representação, oferece-nos uma nova realidade, muitas vezes distorcida. Não há ingenuidade na obra de Mário Peixoto - por mais que sua linguagem poética em alguns momentos pudesse até nos fazer seguir esta pista enganosa - e as ilusões criadas pela linguagem serão sempre desmascaradas, mas nunca de forma clara ou óbvia. Será justamente ao percorrermos caminhos intrincados, de imagens múltiplas e infinitas, que iremos nos deparar com uma poética incomum, que prima por ser sutil e delicada, apesar de abordar questões complexas e dolorosas que dizem respeito a uma época marcada por imensas contradições - a poética de Mário Peixoto ultrapassa seus limites e atinge o universal.

Pedro Vianna · Belém, PA 3/4/2007 08:49
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Pedro Vianna
 

Sacou?

Pedro Vianna · Belém, PA 3/4/2007 08:50
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FILIPE MAMEDE
 

Não conhecia o cara. Mas me interessei. Quanto ao texto, muito bem escrito. Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 3/4/2007 14:58
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Thiago Camelo
 

Pedro, muito legal sua colaboração! Só conhecia os versos de Mário pelo documentário "Onde a terra acaba" e já gostava muito.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 3/4/2007 19:21
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Thiago Camelo
 

Aliás. Alguém sabe se ainda é possível adquirir algum livro dele em loja (acho difícil, mas nao custa perguntar)?

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 3/4/2007 19:22
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Egeu Laus
 

Já tinha visto várias vezes o filme Limite que considero um dos caminhos que o cinema poderia ter seguido se não tivesse se transformado nisso que conhecemos.
O que não conhecia, até recentemente, era o documentário Onde a terra acaba que o Thiago cita e que é simplesmente fantástico. Recomendo a todos.
Os livros de Peixoto que você me mostra agora são uma agradável surpresa, Pedro. E já vi que no sítio virtual de Mario tem algumas das informações que precisamos, Thiago.
Grande abraço para todos!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 3/4/2007 21:29
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[ds]
 

Mario Peixoto. Certa vez, há um bom tempo, levei uma namorada (não iniciada) num cineclube pra ver Limite... AHh Hahaha Ela quase sai da sessão antes de acabar o filme (esquentadinha que só!). O filme não é muito fácil, mas acho que ela exagerou.

[ds] · Recife, PE 3/4/2007 22:51
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Marcelo V.
 

A primeira vez que vi "Limite" foi na faculdade de jornalismo; fiquei apaixonado e um tanto assustado ao ver que, numa sala de 80 alunos, eu tinha sido o único a gostar do filme (o resto da turma esbravejou com a professora, por tê-los submetidos a tal "suplício"). Anos depois, me formei em cinema, graças à inspiração de muitos artistas como Peixoto.

Marcelo V. · São Paulo, SP 4/4/2007 01:17
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Pedro Vianna
 

Thiago,
é muito bom mesmo esse documentário. Quanto aos livros creio que deva ser difícil encontrá-los mesmo. Mas vale à pena uma garimpada nos sebos, foi onde consegui os meus...

Pedro Vianna · Belém, PA 4/4/2007 08:24
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Pedro Vianna
 

Vou postando aqui outro trecho do poema:

Dentro de ti
neblinas se rasgaram
como compreensões
geradas
de catástrofes -
como as pálidas tiras de luz
que após os ventos
em síncope - se
deixam às praias
pelo olhar líquido e amainado,
transmudando
o que tardiamente
rolaram como inútil.

["Votivo", Poemas de permeio com o mar II.]

Pedro Vianna · Belém, PA 4/4/2007 08:27
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Thiago Camelo
 

Que coisa esse poema, não? Parece um pré-pré-pré Limite. Valeu Pedro!! Abraços!!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2007 14:48
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Maldoror
 

O desconhecido é parte integrante deste poema, impossível sabermos se os caminhos fazem parte do mundo interno ou externo desta voz poética já que ambos se confundem. As imagens poéticas revelam sempre uma realidade oscilante, de águas e reflexos que podem se construir e desfazer a qualquer instante. A realidade que faz parte do poemas traz sempre a marca da instabilidade, como se a realidade possível tivesse sempre a consistência de sonhos, nuvens, mares - sempre instáveis, alimentam sonhos e podem se desfazer a qualquer instante, pois mesmo o mar, muitas vezes, parece ser impalpável, e esta incerteza torna-se a única realidade possível.

Maldoror · Belém, PA 4/4/2007 16:26
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marcio rufino
 

É simplesmente deslumbrante este retrato praticamente antropológico que você faz da obra do Mário Peixoto, Pedro. Assisti "limite" várias vezes, mas não sabia que além de cineasta ele também era poeta. Me deu vontade de conhecer toda sua obra poética. Parabéns e um abraço.

marcio rufino · Belford Roxo, RJ 4/4/2007 18:37
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Fábio Andrade
 

Bacana, Pedro. O texto me levantou um paradoxo muito apropriado à figura do Mário: embora ele tenha uma produção literária bem mais volumosa que a sua (brilhante) experiência com cinema, a palavra "cineasta" aparece muito mais vezes associada ao nome dele do que "escritor" ou "poeta".

Fábio Andrade · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2007 01:40
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Fábio Andrade
 

Perdão pelo post duplo mas, Thiago, ganhei recentemente uma edição nova e bem cuidada de "Seis contos e duas peças curtas". Foi lançada pela Aeroplano Editora em parceria com o Arquivo Mário Peixoto. Embora tenha sido presente, sei que a minha cópia foi comprada na Saraiva, então esse livro pelo menos eu sei que está disponível.

Fábio Andrade · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2007 01:43
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Pedro Vianna
 

Obrigado Márcio.
Depois que conhecemosa obra litarária do Mário Peixoto, vemos oporque de muitas soluçõespçoéticas que ele adotou em Limite.
Abraço.

Pedro Vianna · Belém, PA 9/4/2007 13:54
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Pedro Vianna
 

Fábio,
é isso mesmo. Apesar dele ter tido uma boa produção literária, seu papel enquanto escritor é pouco recordado. Penso que isso se dá devido a importância do filme, que para mim é uma obra prima.
Valeu.

Pedro Vianna · Belém, PA 9/4/2007 13:56
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Pedro Vianna
 

Aqui uma transcrição do site sobre os textos publicados;

Mário Peixoto começa a escrever e publicar já no mesmo período em que realiza Limite.

Em 1931, sai a coletânea de poemas Mundéu (reeditado em 1996 pela editora Sette Letras) com forte sotaque modernista.

Mário de Andrade escreve o prefácio e caracteriza a obra da seguinte maneira: “Os poemas, digamos legítimos, de Mário Peixoto se caracterizam especialmente pela rapidez. Tem-se a impressão de um jato violento, golfadas irreprimíveis. São poemas que nascem feitos, explosões duma unidade às vezes excelente, em que o movimento plástico das noções e das imagens é incomparável dentro da nossa poesia contemporânea”.

O próprio Mário logo se distancia desta poesia por achá-la demasiadamente construída e forcada. No mesmo ano de 1931, publica, na revista Bazar, três contos e uma peça de teatro, que fazem parte de uma coletânea editada por Saulo Pereira de Mello em 2004: Seis contos e duas peças curtas (editora aeroplane), incluindo ainda material inédito sem datação.

Constança Hertz, no seu artigo Mapas inexistentes, caminhos incertos: a obra poética de Mário Peixoto, escreve a respeito desta coletânea: “As imagens poéticas revelam sempre uma realidade oscilante, de águas e reflexos que podem se construir e se desfazer a qualquer instante. A realidade que faz parte dos poemas traz sempre a marca da instabilidade, como se a realidade possível tivesse sempre a consistência de sonhos, nuvens, mares – sempre instáveis, alimentam sonhos e podem se desfazer a qualquer instante [...]. Nos poemas de Mário Peixoto, o fluxo é permanente e segue-se a flutuar, por mares ou nuvens sonhados e buscados – e esta incerteza torna-se a única realidade possível”.

Em 1934 Mário publica, em edição particular na Tipografia São Benedicto, seu primeiro romance, O inútil de cada um com prefácio de Octávio de Farias que o define como “livro de difícil penetração, de compreensão demorada [...]. Livro admirável, uma vez assimilado” e um “romance a ler e a reler”.

A mesma versão do romance é editada em 1935 pela editora Alfredo Frederico Schmidt e em 1996, a editora Sette Letras relança uma edição do texto de 1934/35.

A partir de 1967, em Angra dos Reis e posteriormente no Sítio do Morcego na Ilha Grande, onde mora até 1975 quando se instala no hotel Angra Tourismo, Mário re-elabora o texto original de 1934/5, usando-o como matriz para uma versão extensa de seis volumes, dos quais apenas o primeiro O inútil de cada um – Itamar foi publicado em 1984 pela editora Record.

por intervenção de Jorge Amado, com o qual Mário tinha trabalhado anteriormente num de seus projetos fílmicos. Os outros cinco volumes estão sendo editados pelo Arquivo Mário Peixoto para uma futura publicação.

O romance, um universo literário próprio de aproximadamente 2000 páginas e de extraordinária qualidade textual, dialoga visivelmente com duas obras consagradas: A procura do tempo perdido (1913-27) de Marcel Proust e Orlando de Virginia Woolf (1928).

Peixoto envia sua figura central Orlando, com referências claramente autobiográficas e cuja homossexualidade é, neste primeiro volume, ainda de caráter mais latente do que determinante, numa viagem no tempo, onde, como diz num dos trechos prefácios do romance, “a mente mantém-se continuamente ativa; quer acordada ou dormindo. Pode, além do mais, tal a imagem refletida, reproduzindo-se infinitamente numa galeria de espelhos – pensar em si mesma, com a desdobrada capacidade de estar, a um só tempo, também pensando sobre ela própria e apreciar-se nesse preciso ato de estar pensando sobre ela mesma”.

O olhar para o passado é uma obsessão do autor, e suas lembranças – pode-se pensar no romance como uma autobiografia estetizada – emergem através de uma sucessão de analepses, dando um ritmo singular ao texto, que lembra o “embalo da maré”, uma imagem recorrente na obra de Mário Peixoto.
Assim, no próprio título do livro – O inútil de cada um – temos a chave de leitura que nos leva à memória flutuante e não instrumentalizada como única possibilidade de alcançar a essência de vivências passadas.

Para alcançá-las, é preciso afastar-se da ação e ir em direção ao sonho, deixando-se inútil: “De sonho em sonho – notava apenas que ali havia agora o silêncio – aquele benfazejo que me largava as rédeas na mão, para prosseguir, sem desvios, para onde me quisessem levar aqueles chamados do tempo retrocedido”.

Escrever contra o tempo, contra o relógio que diz “menos um, menos um”, contrabalançando o espaço temporal perdido com o tecido textual crescente, evocando a memória, sem violentá-la, em direção a uma compreensão contingente da mesma, aí está o paradoxo de seu romance que poderia ter sido ou quem sabe, ainda pode ser, uma das obras destacadas da literatura - não apenas - brasileira.

Pedro Vianna · Belém, PA 9/4/2007 14:30
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