Numa rua recém-asfaltada no bairro Bandeirantes, predominantemente residencial em Nova Iguaçu, o vai e vem das pessoas no início da noite é pequeno. São trabalhadores voltando pra casa. Crianças aproveitando para brincar um pouco mais antes de ir pra cama. Mas, embora poucos saibam, um endereço naquela vizinhança servirá de cenário, dentro de poucos minutos, para mais um ato de resistência de escritores da Baixada Fluminense. Lá ocorrem os “Encontos”, evento que reúne, quinzenalmente, há mais de um ano, um grupo de amigos em rodas de leitura de contos, próprios e de autores já consagrados. (Vale explicar que a grafia do nome do sarau está correta, ou melhor, o segundo n é invertido, mas não sei como digitá-lo assim.)
Na cozinha, o anfitrião Moduan Matos está às voltas com o preparo de um caldo de feijão carioca, com batata, cenoura e lingüiça calabresa, que será o aperitivo da noite - a cerveja fica por conta dos que ainda vão chegar. Sua esposa Sil se ocupa de colocar a pequena Marília, de 3 anos, para dormir. Em poucos minutos, o portão do enorme quintal é aberto e a roda de leitura vai se formando. Naquela noite, os presentes são J. Marujo, Lafayette, William Sertório e Sandro Marschhausen, além do casal anfitrião. Um advogado, um médico, um vendedor de material de construção, um engenheiro, um técnico em Contabilidade e uma programadora visual, todos apaixonados pela arte de escrever. Já houve quarta-feira, em que o quintal, um verdadeiro pomar com pés de acerola, fruta-de-conde, mamão, banana, cajá-manga, coco etc., recebeu até 12 pessoas. “Hoje nossa maior dificuldade talvez seja reunir pessoas comprometidas com a literatura”, avalia Moduan.
Sob uma aroeira e uma goiabeira, sentados em cadeiras de plástico e ao redor de duas mesas no quintal, os escritores se preparam para mostrar os contos criados especialmente para aquela noite: Eclipse. Nos Encontos, o grupo sempre escolhe um tema específico para o próximo sarau. Pode ser uma frase, um personagem, uma situação corriqueira – O velho do cemitério, O mundo vai acabar amanhã, Jogo de xadrez entre o velho e a criança, O sapato de bico fino, Saiu pra comprar cigarros – e por aí vai.
Apesar do título único, a criatividade não é cerceada. Há eclipses tradicionais, há eclipses subjetivos. Um pouco de poesia, de comédia, de nonsense, de crítica social. E, acima de tudo, o prazer da literatura.
Na seqüência, Moduan serve seu caldo de feijão, que acompanha a cerveja presente desde o início da leitura. J. Marujo aproveita e comenta que pretende lançar, ainda este ano, o primeiro livro nascido a partir do projeto: “25 Contos”, reunindo textos de sua autoria. Pronta para ir para o forno, a obra só não tem data de lançamento ainda porque seu autor terá de arcar com todos os custos da publicação.
Logo depois, os amigos passam a ler contos de autores já consagrados. Na mesa, um volume de “Aquarelas do Brasil”, de Flávio Moreira da Costa, e de “Seleta em Prosa e Verso”, de Aníbal Machado. Assim, as vozes do sarau ecoam até a meia-noite, naquela quase silenciosa vizinhança na Baixada.
Após ouvir as histórias do anfitrião, percebo que mais do que morar no bairro Bandeirante, ele é, de certa forma, um bandeirante – no sentido de precursor. Nos anos 70 e 80, Moduan “publicava”, com giz, seus poemas em portas de aço das lojas comerciais no centro de Nova Iguaçu. Logo, fundou o grupo Caco de Vidro, com dois amigos. A idéia ganhou novos adeptos e chegou a reunir 15 poetas.
No início dos anos 90, surgiu o fanzine Desmaio Públiko, iniciativa dos escritores Eud Pestana e Cezar Ray para divulgar a obra de poetas iguaçuanos e com distribuição gratuita em bares da cidade. Moduan participou ativamente do projeto, já a partir do segundo número.
Eles tinham como seu reduto principal a antiga Casa de Cultura de Nova Iguaçu, na Rua Santos Dumont, palco de inúmeros “Encontros com a poesia”, evento criado por Moduan, que reunia amantes da literatura de Nova Iguaçu e teve entre os convidados escritores de outras cidades, já consagrados, como Salgado Maranhão e Flávio Nascimento. Também marcaram presença nas mesas dos já extintos Daniel`s Bar e Bar Raízes (do próprio Moduan e Sil, que se conheceram há 15 anos num desses “Encontros com a poesia”).
Autor de 13 livros, com crônicas, contos e poemas (“Vermelho – um século de poesia” traça a trajetória da poesia no século 20), publicados com a ajuda de amigos (a doação de R$ 100 dava direito a 10 exemplares), Moduan sonha com a criação de um selo da Baixada para publicação de obras de escritores da região.
“O que me move é manter essa bandeira desfraldada. A única coisa que sei fazer é escrever”, diz ele, que trabalha na Biblioteca Municipal Central Cial Brito, anexa ao Espaço Cutural Sylvio Monteiro, e não tem um escritor favorito. “Eu leio Gregório de Matos, Paulo Leminski, Cora Coralina, Drummond, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Ulisses Tavares... Sempre gostei de ler”.
Talvez seu poema "Energético", publicado na revista comemorativa dos 10 anos do Desmaio Públiko, resuma melhor seu amor pela literatura:
“Arte é ter sensibilidade
Deixar correr uma lágrima
Mesmo invisível
Deixar cair a máscara
Diante do público
Sem representar
Ser dono da emoção
Que não se encontra em outro lugar.
Arte é saber viver
É se aproximar
Sem saber amanhã
Onde vai estar.”
Rafael, você já tentou fazer algo parecido?
BH é grande e de repente já rola um movimento desses por aí, mas seja pouco divulgado. Tomara que vc encontre essa turma.
Abraço.
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