A luz de Delson Uchôa

Murilo Uchôa
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Marcelo Cabral · Maceió, AL
17/4/2007 · 308 · 11
 

A trajetória e o impacto do trabalho de Delson Uchôa na arte contemporânea brasileira é a possibilidade de se começar a falar, a partir dele em diante, em uma pintura alagoana. Não por sua localidade regional, mas exatamente por sua universalidade mestiça. Só o homem que vive na arte habitada pode inaugurar este termo.

Em divertida conversa na sua casa, uma pintura no litoral norte de Alagoas, Delson Uchôa falou sobre ciência, religião, medicina, cinema, rock, folclore, e claro, arte contemporânea. Segue abaixo nossa prosa.


Marcelo Cabral – Percebo que uma idéia bem comum ainda persiste, de que é preciso conhecer e entender de arte para apreciá-la, e isso gera preconceitos que afastam os “leigos” deste ambiente restrito. A pintura ainda é muito elitista?

Delson Uchôa – Dizer que não entende de arte é um clichê. Hoje em dia não tenho o problema que tinha antes com clichês...Mas sua pergunta é pertinente, melhor que aquela “qual a primeira pintura que você viu e decidiu que queria ser artista?”. (risos)

Outro clichê: “O que é arte”? Arte é resposta que não precisa de pergunta. Veja bem, depois de assistir um filme do Almodóvar, por exemplo, é leviano sair comentando antes de digeri-lo. Você sai do cinema cheio de respostas. No jantar da noite seguinte, aí sim você refletiu e pode procurar por perguntas.

É preciso sim desmistificar o monstro sagrado da pintura e derrubar preconceitos. Profane a arte sagrada no Overmundo com esta nossa conversa e seja artista. (risos). A arte contemporânea é pensante, reflexiva. Alguns artistas estão levando seus trabalhos ao limite da afetividade para se comunicar com seus semelhantes. É necessário um novo conceito para que as pessoas não tenham medo de consumir arte.

M - Na exposição “Pintura Habitada”, na Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas, você riscou a palavra “não” da clássica placa “Favor não tocar nas obras”.

D - Claro. Por favor, toque nas pinturas. É preciso ver com os olhos e os poros, pele, dedos e pés. A arte dotada de tempo e experiências.

M - O que é a Pintura Habitada?

D – A pintura como um abrigo. Minha casa, minha arte, onde vivo e trabalho, onde pinto com as pessoas que me auxiliam. A pintura que pode ser um abrigo para várias situações, para a inibição, por exemplo...

O sujeito vai à exposição e pode habitar ali, morar um pouquinho naquele quadro.

Atualmente no Brasil, muitos programas estão tirando pessoas de situações sociais nocivas e apresentando para elas a pintura, entre outros ofícios. É um exemplo da arte como abrigo, como habites.

Você tem sede de que? Você tem fome de que?” Arte de comer, de beber, de habitar.

M - Um admirador dos seus trabalhos me disse uma vez que você é um cara que vê a luz e mostra aos outros. Fale dessa sua busca pela luz.

D – Existe a luz que se consegue usando pigmentos, uma luz criada, existe a luz física, e a ciência descobre muita coisa nova sobre ela, como por exemplo, que esta não se propaga necessariamente em linha reta, ou coisas como o buraco negro, que suga a luz... É impressionante como a ciência tem chegado a conclusões que demonstram que tudo está conectado, tudo possui uma mesma origem...

M – ...Como no conceito budista?

D – Sim, o cientista não é necessariamente budista, mas veja como tudo está conectado. A ciência leva o cientista até Deus, tudo que leva a Deus é religião.

Quando eu achava que estava esgotando a questão da luz surge à experiência com o Daime, de experimentar uma outra luz, ainda não criada, como imagem e semelhança. É preciso lutar para testemunhá-la, fortificar esta busca pela luz interior.

M – Apesar das inúmeras opções espirituais e religiões deste novo milênio, poucos artistas me parecem tão à vontade pra falar de espiritualidade como você. Qual o impacto do Daime e da espiritualidade na sua obra?

D – Te digo que mais uma vez a arte me sinaliza Deus, sem ter necessariamente uma religião. Minha busca é pessoal, por esta miração, esta luz. É muito comum que os freqüentadores do Daime se identifiquem mais com as religiões africanas. Para mim trás compreensões mais inclinadas ao budismo, que por outro lado me aproxima da ciência. E a ciência está na moda. (risos)

Influencia minha obra pelo hibridismo de culturas, uma espiritualidade mestiça, uma pintura mestiça, como tudo mais no Brasil, um país que é a própria possibilidade de se misturar com tudo sem deixar de ser.

Patriotismo hoje é cafona não? Mas eu adoro meu país. (risos)

M – Conte mais sobre isso.

D - Toda manifestação, toda arte brasileira é bastarda, filha da pátria amada mãe gentil, generosa, que acolhe, que transa com cavalheiros dos quatro cantos, filtra qualquer cultura externa, e o que ela pare, o que nós brasileiros criamos é híbrido.

É por isso que surge Chico Science, que morto está muito vivo, e é por isso que o futuro vai acabar com Ariano Suassuna. Porque ninguém precisa projetar ao futuro um folclore purista, estagnando o processo natural da vida. Precisamos avançar.

Um Filme como “Cinema, aspirinas e urubus” faz com a imagem o que Science fez com a música. Indica que nada pára, que a cultura não é estática e precisamos avançar. E o nordeste está em alta.

M – Percebo muito esse purismo da cultura popular e o culto a obviedade do folclore como símbolo regional aqui em Maceió. Como por exemplo, o folguedo endêmico daqui, o Guerreiro, que está em todo lugar. Tudo e todos têm a necessidade de figurar o chapéu do guerreiro, as fitas de cetim, etc. tudo ali muito óbvio e um tanto forçado. Vejo na sua pintura as cores e as luzes do lugar e dessas manifestações, mas não é algo assim tão entregue, tão na cara...

D – Aqui em Alagoas estamos no cinturão luminoso do planeta, e isso vai influenciar meu trabalho. Nos anos 80, percebi o estridente grito das cores da cultura popular daqui. Percebi sua chocante semelhança geométrica com a escola Bauhaus, com o Neoplasticismo. Assim como também a estética de parques de diversão, faixas de caminhões...

Veja o Pastoril, mostra um contraste claro entre azul e vermelho e a música chega ao máximo a uma marchinha. Já Guerreiro é impressionante porque são tantas cores, que se torna um foco de luz, uma tocha de luz. As cores se desmaterializam. Sinta a temperatura e o ritmo da música do Guerreiro e veja como está em sincronia com aquela luz forte. Tudo conectado.

E a minha pintura filtrava esta cultura popular, local, regional. Por outro lado, escutava a guitarra nova-iorquina dos anos 70, ouvia Lou Reed e Talking Heads e aquela música influenciava o meu gesto, e na pintura aquilo também era filtrado.

Vamos desfazer os limites entre pintura e música, porque esta fronteira não existe. A música tem tudo que se encontra na minha arte, tem temperatura, ritmo, gesto. Se eu escuto algo daqui posso não saber se é a percussão ou solo de guitarra, mas senti ali um brilho, uma temperatura que é nossa.

É preciso despertar a subjetividade na construção da identidade. Não se trata de colocar um chapéu do Guerreiro, subir no palco e se apresentar, mas encontrar as frestas no que já foi feito.

M – Falando no que já foi feito. Como é isso de pintar sobre suas próprias telas anteriores?

D – É a pintura dotada de passado, da ação no presente e da expectativa do futuro, que é o que vai se entender dela...

M – ...Isso me lembra a semiótica de Peirce...

D – Vê, está tudo conectado...Nesta pintura por exemplo (Delson aponta para uma grande quadro de cores fortes, e contido nele, uma pintura anterior), esta luz (apontando pro quadro dentro do quadro) é de 1982, o estilo é francês, foi pintado em Paris nessa época. Já o quadro que o contém é de 2006, feito aqui em Maceió, com a luz daqui, de hoje. Nada aí está à toa. Complementam-se e se tornam um.

A arte não é estática. Pode se transformar.

M – Soube que você esta de malas prontas. Depois de presentear Maceió com a Pintura Habitada, qual a sua agenda de exposições?

D – Vou para São Paulo na semana que vem participar da SP Arte, uma mostra internacional voltada para galerias, colecionadores e críticos. Neste evento, a Galeria Brito Cimino vai realizar uma festa de apresentação do meu trabalho, uma homenagem de boas vindas. Logo na seqüência participo de uma exposição no Instituto Tomie Ohtake que compreende a arte brasileira no período de 1980 a 1995.

M - Conte um pouco sua trajetória até aqui, da participação na mostra “Como vai voce geração 80?”, da Bienal de Arte de São Paulo em 98...

D – Há pouco tempo atrás, aconteceu outra exposição, chamada “Onde está você Geração 80?” promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil, para comemorar os 20 anos da realização de “Como vai você...”, um evento que revelou muita gente, que congregou muitos talentos, fez história e carreiras. Aconteceu no Parque Lage, Rio de Janeiro. A Bienal foi outro momento importante pra mim.

M – Delson, qual é a sua formação?

D - Eu sou médico, turma de 1981 da Ufal. Outro dia descobri que tinha uma pendência com o CRM (Conselho Regional de Medicina). Paguei a dívida com uma pintura e ficou tudo resolvido.

M – Sério? Então você é autodidata na arte?

D – Não acredito muito nesse autodidatismo. Na escola de medicina aprendi sobre o funcionamento e o desenvolvimento do ser humano, da vida, aquilo também sinalizava para as ciências humanas, para o espírito.

Depois me interessei por muitas coisas além da pintura, o reino vegetal, as plantas e seus pigmentos, as cores dos pássaros, o amarelo do xexéu e o vermelho do galo de campina, a arte indígena das plumas.

M – Está dizendo que tudo isso te ensinou no conjunto da sua formação como artista?

D – Sim. E o artista é aquele que instiga a mente humana a pensar mais. Os artistas contam a história mais honesta da Terra, e essa honestidade se torna universal.

A arte é neta de Deus e o homem é a coisa mais espantosa do mundo. A mente humana é mais terrível e espantosa que as catástrofes naturais, que os terremotos e tsunamis. Somos isto. Arte é isso.

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Marcelo V.
 

Ótima conversa, flui por uma vasta gama de assuntos. O trecho em que ele cita o rock setentista me lembrou aquele ótimo curta do Scorsese em que o Jeff Bridges pinta sempre ao som de "A Whiter Shade of Pale", do Procol Harum.

Marcelo V. · São Paulo, SP 17/4/2007 15:58
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Thiago Camelo
 

Adoro a terceira pintura, de cima para baixo.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2007 18:30
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FILIPE MAMEDE
 

Ótima entrevista. As fotos estão muito bacanas. Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 18/4/2007 10:40
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Pedro Vianna
 

Muito boa a entrevista. Curti mesmo.
Leia: http://www.overmundo.com.br/banco/suite-206

Pedro Vianna · Belém, PA 19/4/2007 18:41
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Claudiocareca
 

Marcelo Já li outras coisas suas e pra variar está maravilhosa a entrevista e tb pudera com um personagem deste só poderia. Adorei o papo e fiquei com inveja de não poder ouvir a voz ou sentir aquela brisa do mar enquanto o papo flui.
Eu não o conhecia e as fotos abriram o apetite parabéns! Manda um abraço pro delson q já me senti intimo. Oaskeiro é tudo irmão, mesmo q ele seja do daime e eu da união.

Claudiocareca · Cuiabá, MT 19/4/2007 23:04
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Claudiocareca
 

ah a última foto é a que ele se refere a escola francesa q foi brindada com uma nova luz? tem a cara de um renoir...

Claudiocareca · Cuiabá, MT 19/4/2007 23:05
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Marcelo Cabral
 

Obrigado Cláudio e todo mundo! A conversa também me agradou bastante. O Delson, além de grande artista, é um cara muito simpático, que me recebeu em sua pintura com hospitalidade e bom humor.
Sobre a ultima imagem, não é a que ele falou durante a entrevista, mas acredito que segue o mesmo conceito.
Abraços!

Marcelo Cabral · Maceió, AL 20/4/2007 08:45
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Glauber X
 

Delson é fantástico. Cada dia que passa seus traços, cores e palavras me inspiram mais. Incrível como encontramos seres com pesamentos e energias tão semelhantes a nossas. Quando minhas retinas estão de frente para uma obra dele, sinto-me confortável - realmente habito sua pintura e me sinto próximo do autor, é como um colo dado a um irmão.

Glauber X · Maceió, AL 8/6/2007 11:20
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Anna Jailma
 

Gostei e votei. Apareça no meu espaço também.

Anna Jailma · São João do Sabugi, RN 1/7/2008 10:06
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Cécy Castro
 

"...E o artista é aquele que instiga a mente humana a pensar mais. Os artistas contam a história mais honesta da Terra, e essa honestidade se torna universal.

A arte é neta de Deus e o homem é a coisa mais espantosa do mundo. A mente humana é mais terrível e espantosa que as catástrofes naturais, que os terremotos e tsunamis. Somos isto. Arte é isso. " Adorei isto!

Cécy Castro · Rio de Janeiro, RJ 24/10/2008 11:34
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Marcelo Cabral
 

Valeu Cécy! Também adorei, o Delson é incrível. obrigado. Abraço.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 24/10/2008 12:27
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