Um caçador de tendência é um cara que sai por aí escarafunchando o que estão vestindo, falando, fazendo, comendo, gostando e mais um monte de gerúndio. Ele é contratado pela indústria e seus parceiros para inspirar inovações e obviamente antecipar lançamentos.
A conseqüência esperada – além do truque óbvio de dizer que a marca é inovadora - é de ganhar um mercado que já existe. Se uma grife lança uma coleção com a cor que já está nas ruas, ela ganha os adeptos que já procuram a cor em questão, para dar um exemplo rasteiro. Tendência portanto é querência.
E por mais que a Miranda Priestly (Priest de sacerdote, portanto, Priestly , sacerdoticamente) tente explicar que uma cor é muito mais que uma simples cor (sic) – é um estalo quase transcendental de gênios genialmente geniais - o objetivo é mais prosaico – e muito mais razoável, considerando justamente que é uma “idéia” (assim, entre aspas mesmo) que movimenta bilhões de dólares e comprimidos de antidepressivos.
Portanto, sob esse ponto de vista, esses caçadores aí fazem todo o sentido, mesmo quando eles são – como é muito comum – chupadores ágeis de idéias alheias. Em tempo de internet, caçar tendências chupadas é moleza e engana muita gente “ocupada demais” por aí.
Caçadores de tendências não são nem inúteis nem gênios.
Mas o que inebria são os ditadores de tendências. Esses são Mirandescos. Ditar tendências é apropriar-se de uma dessas querências já queridas pelas pessoas e dar uma forçada, uma anabolizada devidamente midiatizada. É mais ou menos pegar a tal da cor - para permanecer na caricatura – e gentilmente influenciar os canais de acesso à informação de que essa é a cor que está “pegando”, que é “tudo”, que é o “ó”, e que você é um lixo se estiver com outra. Casou a fome com a vontade de comer. A “tendência” que já é “querência” vira histeria, uma necessidade quase que fisiológica, a base da pirâmide de Maslow: mais vital estar vestindo lápis lazuli do que comer, “comer” ou des-comer.
Pois, apesar do ingênuo-quase-estúpido roteiro, apesar do bom-mocismo forçado, do glamour-paparazi-de-folhetim, e do product-placement-blockbuster, “o Diabo Veste Prada” - mais raso, mais digerível do que “Prêt à porter” do Altman – tem lá seus ensinamentos: “Caçadores e ditadores de tendências, eles ainda vão te pegar”.
Fernand, se você não sabe quem é o autor da tirinha - muito boa, por sinal! - talvez fosse melhor tentar descobrir e colocar o crédito, ou então ilustrar de outro jeito... Tudo que é postado no Overmundo fica disponível em Creative Commons. Aqui, a licença usada permite reprodução de textos/fotos/imagens para fins não-comerciais. Se o dono da tirinha souber e não gostar - apesar de estar clara sua boa-fé no uso - isso pode te causar problemas... Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2006 16:36Entendo Helena. Mas eu não estou usando a tira para "fins não comerciais"? Bom, de qq forma, vou retirar a tira, talvez seja melhor. E se eu usasse por exemplo o cartaz do filme q menciono, posso?
Fernand Alphen · São Paulo, SP 16/10/2006 18:13Olá Fernand, respondendo a tua pergunta - as imagens que você pode postar no site devem ser de sua autoria ou - claramente - de divulgação. Mas pra ficar claro: isso é só um conselho para evitar qualquer futuro problema com você, porque, na verdade, a responsabilidade pelas fotos é justamente de quem as posta, ok?. Um abraço!
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2006 19:19Valeu Thiago. Acho que vou arrumar alguma Miranda tupiniquim pra fotografar :-)
Fernand Alphen · São Paulo, SP 16/10/2006 19:24Fernand, apesar de não ter visto o filme, acho a discussão muito interessante e oportuna, Hoje com todos os meios de comunicação influenciando, estamos muito vulneraveis, e acho dificil alguém que já não tenha caído em algum tipo de ditadura da moda ou tendência ( é mais moderno), mas do caçador de tendência, não tiro o mérito porque sabe ler e traduzir o que esta no ar ( inconsciente coletivo) e nimguem percebeu ainda . Ótimo artigo.
Clelia Pacheco · São Paulo, SP 16/10/2006 19:55
oi Fernand: bem-vindo aos dilemas (filosofia do direito!) da Web 2.0 - o que é e o que não é divulgação em tempos de marketing viral?
pois bem: voltando à dona Miranda: e quando ela é brasileira? a querência (boa palavra, que significa meio lar, ou "heimat", em gauchês) aqui é o querer do outro, do lá de fora? (o que não seria exatamente uma vergonha: como já disse Oswald de Andrade, que obviamente não tinha lido nem Lacan nem Zizek: "só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago." ou - no mundo do marketing - há espaço para um querer local?
O mundo do marketing é o mundo do oportunismo. O q importa é a lei do custo benefício, sendo q benefício no caso significa "atingir ou impactar o máximo de pessoas do target". Salvo para estratégias globais de alinhamento de imagem (a regra do mínimo denominador comum de conteúdo que equaliza as mensagens para evitar derrapadas - e q muitas vezes cria um abismo de sintonia local) o que as marcas procuram é isso, sem preconceito. O resto é dar uma embalagem marketística até para a mais prosaica das iniciativas. Charlatanismo elementar. Em outras palavras, se consiguirmos "provar" numericamente a "eficiencia" do querer local, é fácil. As vezes dá. E isso sem discutir a manipulação inevitável que as marcas irão fazer. Basta aos criadores ter estômago, desprendimento, sentido de oportunismo e a mesma cara de pau. Pursimo e integridade não são moeda válida no mundo do marketing.
Fernand Alphen · São Paulo, SP 16/10/2006 20:35
Pior que a pessoa que busca moda para consumir tem uma satisfação efêmera, porque sempre vem uma nova...
Daí, os gastos financeiros aumentam.
Fora isso, o ambiente é altamente impactado pela necessidade de extração de recursos.
Além disso, a economia sofre influência do consumo...
Não valorizo muito o consumismo! Por outro lado, tem aquele "lance" da imagem que é necessária para a vida social. A questão é "dosar", "equilibrar"... utilizar a chamada virtude da temperança.
O filme é "ótemo", graças à Meryl Streep (maravilhosa!!!). Vale cada centavo por esse motivo.
Kuja · São Paulo, SP 19/10/2006 19:29
Kuja,
No caso, com cultura, já sou mais "gastadeira"... Adoro ler, estudar, ver vídeos, fazer cursos...
Agora com roupa, sapato, salão de beleza? Nem pensar!
fernand, adorei seu estilo de escrita. e tenho de concordar que esse mundo é assim mesmo. eu tento trabalhar com jornalismo de moda mas de uma forma cultural, só q tô quebrando a cara e meu ego fazendo acessoria de imprensa pra um shopping, que quer que eu faça justamente o q eu venho lutando contra - tratar a moda como algo meramente comercial e fútil. =/
Sarah Falcão · João Pessoa, PB 20/10/2006 13:53É Sarah, já passei por isso também mas já aprendi a relaxar... não dá para querer ser mais coerente que o rei...Valeu!
Fernand Alphen · São Paulo, SP 20/10/2006 14:52
faço um mestrado em design, e minha dissertação é em design e cinema. onde faço o curso tem muita gente da moda, e essa discussão de quem dita tendências, qual o papel da moda, qual a influência dos meios de comunicação e etc é discussão tão comum que até corro delas no dia a dia. e esse filme foi um dos mais comentados. o engraçado é que pouco se fala sobre outro lado do filme, que ele é um boa comédia, bem dentro do estilo high concept que hollywood tanto ama. está certo que o mundinho da moda é o seu grande apelo e talvez até um dos personagens do filme, mas o filme é bom no fim das contas. entretenimento tranquilo, sem muitos traumas e poucas (ou nenhuma) muitas complicações para quem vê. o vi com minha mãe e ela adorou o filme! e nem por isso saiu correndo para a oscar freire comprar uma bolsa gucci ou um vestido prada!
ndrc · São Paulo, SP 22/3/2007 16:17
me deculpem por algumas linhas confusas no meu comentário, cliquei no botão "enviar comentário" antes de revisar achando que ia rolar um preview e algumas partes ficaram enroladas. acho que deveria existir um botão de editar o comentário!
ndrc · São Paulo, SP 22/3/2007 16:21Muito legal seu texto. Beijo!
Revista Sintética · Osasco, SP 26/4/2007 20:48Vc tá certíssimo, ndcr. Tb me diverti com o filme e não comprei nenhuma griffe por causa dele, mas comprei mesmo assim.
Fernand Alphen · São Paulo, SP 27/4/2007 09:04
Primeiro queria te dar parabens, 6 meses depois de comentar um assunto "aparentemente" futil e banal como moda e consumismo,(com seu texto, como sempre , bem escrito ) ainda desperta interesse e é comentado.
Depois me pergunto, qual a importancia social destes valores? Como e porque, esta máquina gira, compra e acredita, usa, joga fora, muda, e por fim dá emprego, o mundo continua, e o número de pessoas envolvidas nessa cadeia, vai da semente do pasto ao couro do sapato na semana da moda em Paris ou da colhetadeira de algodão aqui que manda para China e devolve para Milão e que vai para NY pra DKNY bom sei lá ... Alem disso voltando `a 20 ou 25 anos atrás só existia alta costura e industria de perfumes, muito pouco se investia nos "Pradas e Guccis" que hoje estáo mais democratizados e cairam do olimpo, e aqui na terra agora tem por toda parte se não um original, uma cópia genial tipo Luis Vuiton idêntica, ou boné Gucci original ou não que diferença faz, o que importa é o conceito, os empregos que geram e a maquina que roda e mais que tudo, tem para todo mundo, ate para quem nunca ouviu falar em nada disso. Ainda bem!
Não trabalho com moda nem com publicidade, mas penso sempre no equilibrio desta terra linda que é de todos nos.
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