A minha primeira vez com Mário de Andrade

Benedito J. Duarte - 1930 - livro Cartas a Manuel Bandeira - Ediouro - editada
Mário de Andrade, o gigante trezentos e cinquenta da cultura nacional
1
Cida Almeida · Goiânia, GO
11/4/2008 · 211 · 28
 


“(...) Com os docemente dos nanquins mais melancólicos
Brasil
Como será o Brasil?
MÁRIO DE ANDRADE.”





A minha primeira vez com Mário de Andrade tinha um Manuel no meio. Um Manuel que seria de uma vida inteira. E Mário me veio como um sentimento poético, uma fineza de sensações, um quase de palavras dizendo muito além daquilo que eu poderia compreender naquele momento. Mário me tocou nas palavras de Manuel. E seguiu comigo, silenciosamente, profunda e amorosamente esquecido.

E naquele tempo ainda não havia para mim Macunaíma, Carlos, Fräulein, o narrador freudiano, Malazarte, a escrava poesia despida por Rimbaud, Anita, as paranóias e (des) mistificações de Lobato que achou feio o que não era espelho, Portinari, Tarsila, Oswald, música do Brasil de dentro, mitos do Brasil das matas, nem a minha paixão por palavras.

A minha segunda e definitiva vez com Mário de Andrade também tinha o mesmo Manuel no meio, abrindo o caminho das pedras. E que pedras encontrei nessa trilha nada batida! Voyeuse, segui a voz. Melhor dizendo, as vozes de Mário e Manu, o lanterninha tinhoso no escurinho do Coração Perdido de Mário de Andrade. Mas o que conta agora, nesta história, é o Manuel da minha primeira vez com Mário, todo poesia. Não o Manuel todo prosa das cartas pensamenteadas de Mário de Andrade, uma outra história, que já contei um pouco aqui.

Profundamente, Mário de Andrade, o gigante serelepe da cultura nacional, o que se desdobrava em trezentos, trezentos e cinqüenta, em mil, morou comigo no encantamento primeiro das palavras pintadas, palavras de quase música de Manuel Bandeira. Das variações do nome que é uma tradução gigante de Brasil à ausência (res) sentida do amigo essencial, Mário de Andrade na eternidade da poesia de Manuel Bandeira.

E de tão lindo, profundo, dá vontade de chorar. Aliás, já lembrando uma das lições de Mário: “Versos não se escrevem para leitura de olhos mudos. Versos cantam-se, urram-se, choram-se”. E correndo por dentro dos versos de Bandeira a gente sente uma saudade quase íntima de Mário de Andrade. Uma saudade quase. Esta foi a sensação provocada em mim pelo poema Variações sobre o nome de Mário de Andrade, de Manuel Bandeira (Mafuá do Malungo, em Estrela da Vida Inteira), que reli recentemente. E em especial pela imagem dos docemente dos nanquins mais melancólicos, o que valeu uma das minhas costumeiras anotações a lápis na borda do livro registrando a emoção da leitura. E essa imagem grudou em mim. Ou melhor, já estava grudada, em camadas profundas, como um pentimento.

Outro poema do Bandeira que se incorporou definitivamente à minha alma é A Mário de Andrade Ausente (Belo Belo, em Estrela da Vida Inteira): “Anunciaram que você morreu/ Meus olhos, meus ouvidos testemunham:/A alma profunda, não/ Por isso não sinto agora a sua falta”. Deste poema, desde a primeira vez que o li, há muitos anos, fiquei com uma frase rondando a minha cabeça como um mantra: pensando em Mário de Andrade, profundamente. As sensações deste poema me seqüestraram (eis aí uma expressão típica de Mário de Andrade, o ser seqüestrado por um sentimento, uma beleza, uma sensação, uma obra de arte...). E nos dois tempos desta leitura, o de muito antes e o de agora, Mário de Andrade me seqüestra alma, coração e razão.

E ando por aí, nas linhas tortas dos aflitos becos que se perdem dentro de mim; dos becos sem saída que me ensinam a voar, a criar e recriar espaços mágicos para a existência; pronta para os esbarrões, numa esquina qualquer do Brasil que é Mário, possibilidades de mundos.

Enfim, com esse esbarrão-clarão no chão duro do Brasil sigo pensando em Mário de Andrade, profundamente. E mais profundamente ainda tocando e sendo tocada por suas palavras, por essa fome animicamente macunaímica que me deixa pra lá de inquieta, eloqüente e atrevida.

Profundamente, voltemos aos poemas do Manu.

Penso que nada mais apropriado para começar uma conversa sobre Mário de Andrade do que percorrer a trilha calorosa da amizade que o uniu a Manuel Bandeira. Assim como Bandeira, eu me flagro pensando em Mário de Andrade, PROFUNDAMENTE, e em toda a inquietação que ele me faz mergulhar justamente nesse momento quando tudo parece à flor da pele, buscando materialidade e expressão, de um jeito meio dantesco... No meio do caminho desta vida descubro Mário de Andrade e corro atrás de sua pedra fundamental.

Talvez esse PROFUNDAMENTE Mário de Andrade em Manuel Bandeira tenha me levado a comprar, há muito tempo, dois livros que devorei (e tenho devorado tantos outros!) após anos de esquecimento na estante: Cartas a Manuel Bandeira, com prefácio e notas de Bandeira (Ediouro), e Portinari, Amico Mio, organização, introdução e notas de Annateresa Fabris (Editora Autores Associados). Estes livros nunca mais voltarão para o fundo confuso da minha estante.

E para resolvermos de vez a questão do profundamente que me seqüestrou no poema do Bandeira, justamente no ponto em que ele fala da falta de Mário que não sentia no momento: "(...) Sei bem que ela virá/ Pela força persuasiva do tempo/ Virá súbito um dia, / Inadvertida para os demais. Por exemplo assim:/ À mesa conversarão de uma coisa e outra./ Uma palavra lançada à toa/ Baterá na franja dos lutos de sangue,/ alguém perguntará em que estou pensando,/ Sorrirei sem dizer que em você/ Profundamente (...)". Talvez, ainda na trilha de Bandeira, eu esteja tateando: “(...) nas sombras mais fundas ficaram os docemente dos nanquins mais melancólicos (...)”.

Os traços, a tinta, o que vai amarelando por dentro, os docemente melancólicos da gente virando memória lírica, afetiva, enfim, os nossos lutos de sangue, saudade. Talvez no tempo daquela leitura eu já intuísse esse profundamente sem solução de pensar as pessoas que nos tocam e vão passando, da mesma maneira como passaremos um dia por outras.

Mas essa não é uma saudade qualquer. É a falta que nos move no xadrez da vida e que vamos eternizando com tinta, barro, pedra, madeira, palavras, sons, imagens, os elementos que instigam à materialidade e expressão dessas funduras e desses profundamente em uma tentativa de ordenamento estético, arte - a suprema delícia do sofrimento da beleza.

E Manuel Bandeira via em Mário de Andrade uma tradução de Brasil. Um Brasil ávido de expressão de sua brasilidade, das suas profundezas. Em Mário de Andrade o caldo de todas as inquietações estéticas na busca de um espelho nas artes que refletisse a diversidade, profundidade e originalidade do Brasil, que desaguou como um rio impetuoso na Semana de Arte Moderna, dando início ao Movimento Modernista, do qual Mário é mais do que um ícone. Ele era a luz e o escuro; o que mergulhou fundo no poço de suas buscas e experiências estéticas, o que ouviu profundamente o Brasil e sua língua, e trouxe essa audição para o cerne de sua obra (até certo ponto subvertendo-a e eivando-a com os excessos de suas crenças) como uma ponte para o futuro – se alguém meter o dedo nesse caldeirão saberá que Mário de Andrade esteve fundo ali, antes de qualquer outro falar de reforma da Língua Portuguesa e de seu abrasileiramento; Mário, o que incomodou a todos, principalmente os amigos, o que não se conformou com a própria obra.

Escreveu Macunaíma em seis dias, mas a gestação do herói sem nenhum caráter foi um processo custoso, fruto de anos de pesquisa, cabeçadas na parede da incompreensão e uma teimosia que explica e confirma a verdade singular do escritor (o criador) – e não apenas do incentivador cultural –, o que abriu a machado a própria trilha e nela sulcou os seus passos como o visionário da terra nova e fértil, onde jorrava o leite e o mel do nosso espelho mais genuíno, aquele que aspira ao universal.

E a trilha de Mário de Andrade é libertadora. Ele se mostra por inteiro, não apenas na obra pronta e acabada, madura (Paulicéia Desvairada, Macunaíma, Remate de Males...), mas também na generosidade de nos legar o caminho do aprendiz Mário de Andrade, ao não condenar por completo a produção de gaveta que não resistiria a muitas leituras. E com o aval da sua própria crítica (que é bem ácida) brinda a posteridade com os frutos de sua inquietação de juventude.

E esta inquietação transformada em ponte, em comunicação além do seu tempo, é o que me coloca aqui, lápis afiado, a devorar a sua Obra Imatura: Há uma gôta de sangue em cada poema (poesia), Primeiro Andar (contos selecionados), A Escrava que não é Isaura (poética/ensaio). Esta Obra Imatura é o rótulo crítico de Mário de Andrade. É o começo da trilha. Já passei por Há uma gota de sangue em cada poema, obra considerada inexpressiva, mas já com o prenúncio da desconcertante estética marioandradiana, um grito poético pacifista do escritor horrorizado com a I Guerra Mundial.

O meu lápis maluquinho sublinhou construções interessantes: “(...) Onde as aldeias de sonoras ruas? / Onde os caminhos com arvoredos e framboezas? Tudo mudou! (...)”. E do mesmo poema (Exaltação da paz: “(...) honrar, com outros novos, / os monumentos velhos e grisalhos... (...)”. E ainda: “(...) por-lhe à janela as flores caprichosas (...)”.

E já que Manuel Bandeira foi o grande anfitrião desse meu encontro com Mário de Andrade, abrindo portas invisíveis e encantadas, quero o prosaico, a gostosura do pensamento marioandradiano. Na trilha da correspondência entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira, que começou em 1922 e se manteve ininterruptamente até a morte do autor de Macunaíma em 1945, sigo o itinerário da minha emoção e do meu lápis, o que me “seqüestrou” e encantou em Mário, o escritor serelepe (“escritor mais serelepe que eu nunca vi”), o esgrimista intelectual, o ouvinte paciente, o crítico ácido e apaixonado (devotou em grau máximo essa paixão, sem poupá-los da crítica, a Manuel Bandeira e Candido Portinari - e neste reconhecia a expressão criadora que materializava o seu pensamento e crença do que seria uma arte universalmente brasileira).

As cartas a Manuel Bandeira são um documentário precioso das inquietações que fundamentaram a obra e a vida de Mário de Andrade, revelando nuanças do movimento modernista pelo filtro de um dos seus maiores esteios. Na correspondência ele também vai traduzindo e recriando um pouco desse Brasil profundo, emergindo na arte. E a sensibilidade de Manuel foi extrema ao optar por deixar as cartas nuas e cruas, da forma como saíram da caneta e da máquina de escrever de Mário, comprada à prestação e carinhosamente batizada de Manuela, uma homenagem ao amigo poeta.

Senti falta do retorno, as cartas do Manuel para Mário, o que não compromete em nada o entendimento deste retrato em branco e preto, claro e escuro, de Mário de Andrade. O contraponto está nas notas de Manuel (210 objetivas e curtas notas explicativas).

Fica evidente que Manuel funcionou como alter ego de Mário, que se considerava um psicólogo e se gabava de conhecer Freud. Ele enveredava pela análise psicanalítica principalmente na crítica literária e de artes plásticas. Acreditava que a função do crítico era a de um descobridor. Chega a ser impiedoso ao traçar na intimidade de seu diálogo escrito com Manuel o perfil de Lasar Segall, que de pintor número um na preferência de Mário perdeu o posto depois do encantamento exercido por Portinari – amizade que teve lá a sua pitadinha de desencanto, não em relação ao artista, gênio criador, mas ao homem atrás dos pincéis.

Mário costumava dizer que não tinha crítico para a sua obra. A crítica era feita na base do “não gostei”, reclamava. Dizia também que gostava muito quando algum crítico, por mais equivocado que estivesse na percepção de Mário de Andrade, lhe revelava alguma coisa nova.

Nas cartas, difícil distinguir os “erros conscientes” dos “erros de ignorância”, a menos que iluminados pelo próprio Mário, que se delegou a missão de tentar sistematizar o português do Brasil. “Eu escrevo brasileiro”. Exageros à parte, ali encontramos um Mário divertido até mesmo com os seus erros de português. E aprendemos lições preciosas: os diminutivos brasileiros são mais carinhosos e agradáveis ao ouvido do que os lusitanos. Concordo, Mário: o bodinho tupiniquim é muito mais bonito que o bodezinho lusitano. E depois de você me sinto livre para nadar em riachinho...

E nado em busca do rio grande e das vertentes de sua obra, embalada por esses sons de nossa brasilidade mais funda, os rincões desencontrados do meu sertão-Brasil interiorzinho de mim; essas vastidões amazônicas das vitórias-régias da minha emoção percorrendo becos sedutores de sua escrita. E vou dobrando esquinas de desvairadas paulicéias. E vou por dentro, no mais fundo da voz, no mais verdadeiro tom da voz, no mais virgem dos matos, no mais mítico dos barros, no poço fundo e escuro de onde emergiu endiabrado Macunaíma, um clarão no meu espelho.

E por esses dias fecundos, marioandradianamente fecundos, com os docemente dos nanquins mais melancólicos da poesia de Bandeira, o Manu de todas as deliciosas horas, sigo pensando profundamente em Mário de Andrade, uma tradução gigante de Brasil.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Felipe Obrer
 

Cida, lindo teu texto! Saudades de te ler, bom te ver de volta.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 7/4/2008 16:51
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
FILIPE MAMEDE
 

Artigo muito interessante. Reli Macunaíma recentemente. Uma coisa foi ler com 12, 13 anos como trabalho de escola. A minha segunda vez com Mário foi melhor também. A propósito, um colega overmundano escreveu AQUI um texto sobre uma visita de Mário de Andrade ao Rio Grande do Norte, nos idos da décade de vinte; muito tempo depois da efervescente Semana de Arte Moderna.

Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 8/4/2008 09:03
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
clara arruda
 

texto muito significativo,sempre nos serve de memórias vivas.parabéns!

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2008 16:14
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Tacilda Aquino
 

Que você continue nadando em busca das vertentes da obra de Mário de Andrade e emocionando com sua sedutora escrita que nos revela, através de Mário, nossa brasilidade mais funda.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 8/4/2008 16:47
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Sinvaline
 

Cida o primeiro voto é o meu. Gosto muito de Mario de Andrade e sua aproximação com o autor é narrada de forma espetacular. Parabens
sinvaline

Sinvaline · Uruaçu, GO 9/4/2008 16:20
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Andre Pessego
 

Cida,
estou saindo pro trampo remunerado, vou voltar pra reler.
até entendi outra coisa. Depois é que vi, como o meu
num trechinho de "Musica Doce Música",
um abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 11/4/2008 06:49
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Grande Cida, grande Mário, o pai da moderna cultura brasileira!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 11/4/2008 07:45
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ize
 

Querida Cida,
ando ausente do overmundo mas hj, não sei porque cargas d'água, resolvi passar por aqui. Acho qué é porque ando querendo, como nunca, ir embora pra Pasárgada. VC sabe que eu amo Mario de Andrade, e talvez não saiba que Manuel Bandeira tb é um dos meus casos de amor. E ao trazer os dois pra mim, dentro dessa sua escrita que sensibiliza à flor da pele, que suspende o juízo, que faz a gente se esquecer da pressa e aprender a lentidão (tão marioandradianamente), vc me trouxe pra Pasargada (lugar que meu imaginário desvela como o paraíso). E vc nem imagina como eu estava precisando disso.
Cida, é impossível passar pela sua escrita incólume. Escrever assim para o leitor é um ato de amor.
Muito obrigada por isso. Estou leve como uma pluma
Beijos
Ize

Ize · Rio de Janeiro, RJ 11/4/2008 15:45
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
André Teixeira
 

Cida Almeida!!!

Foi com imenso prazer que li seu texto-POESIA-pura sobre uma Poesia bandeirAndradiana ... eu, um conhecedor apenas das sombras desses homens, sabendo pouco de suas expressões em letras, agora iluminado com o fogo dessa sua escrita!

Ouvi e gostei de uma adaptação de Macunaíma para Música, com a cantora Iara Rennó, que lançou o disco "Macunaíma Ópera Tupi". O disco será distribuído em escolas e bibliotecas públicas do Brasil. Aqui tem uma matéria do programa Metrópolis quando do lançamento do cd em SP.

Cida, espero que goste do disco tanto quanto gostei do seu texto: estou lendo-o pela segunda vez... creio que lerei novamente.

GRANDE abraço!!!

André Teixeira · Aracaju, SE 11/4/2008 17:14
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Adelcir
 

Belíssimo texto, por assim dizer, de modo simples.


Adelcir · São Paulo, SP 11/4/2008 19:56
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
 

HUUUMMM...urrando de prazer pela qualidade do texto em si (embora não tenha aprendido a gostar de nenhum dois) "vendo-lhe" meus Parabéns, mesmo com bastante atraso. (Explico: não sou homem de sair dando, por aí, nem mesmo Parabéns.)
Apenasmente, gostaria de informar que li há poucos anos um artigo que defendia a "criação" do Modernismo lá por Fortaleza ou Aracaju, 5 ou 6 anos ANTES da tal famosa Semana paulistana.

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 12/4/2008 15:02
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Marcos Paulo Carlito
 

É interessante, para mim, analisar como as palavras podem causar tanto efeito nas pessoas.
Tua sensibiladade é um mistério para mim Cida, porque possuo natureza mental (talves sentimental) diferente.
Aprecio a propriedade do seu texto, que me revela um universo dentro de poucas (ou muitas) palavras.

Marcos Paulo Carlito · , MS 12/4/2008 15:58
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Obrer, obrigada pelas boas-vindas e o olhar atencioso.

Filipe, agrade_cida pelo link da matéria sobre a visita de Mário ao Rio Grande do Norte. Já li alguns textos do Mário sobre as impressões dessa viagem ao Nordeste. Bom saber da repercussão aí. Depois farei um comentário na contribuição do Rostand.

Clara, bom compartilhar, então, um pouco da minha memória afetiva pelo itinerário da leitura sempre apaixonante de Mário de Andrade.

Tacilda, obrigada pelo estímulo, sempre. Inclusive pela prazerosa companhia em minhas andanças por livrarias e sebos.

Sinvaline, Mário é muito mais do que um autor essencial. Quando mais leio Mário mais descubro a voz de nossas inquietações mais fundas. Imprescindível Mário de Andrade para qualquer pessoa que tenha a ambição da escrita. Mário escrevia a obra e mostrava a pedra do processo criativo, às vezes com os seus prefácios pra lá de interessantíssimos; noutras raspando camadas fundas, psicanaliticamente, das motivações dos poemas, dos livros... Era um trabalhador incansável. Escrevia, escrevia e reescrevia, reescrevia e reescrevia... Um, dois, vários livros ao mesmo tempo. Sabia que um livro não termina com a escrita, com a revisão do autor. Metia a mão na massa da edição, nos infindáveis detalhes da feitura de um livro. E continuava pensando e melhorando seus livros.

André, tomara que volte mesmo. Bom ter você por aqui.

Cida Almeida · Goiânia, GO 14/4/2008 12:36
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Spírito, grata pela leitura. Interessante que você tenha falado em paternidade. No caso de Mário, uma paternidade muito amorosa. Ele era o cara que não estava apenas envolvido, mas comprometido com o Brasil. Nas cartas para o Bandeira tem uma passagem muito interessante, em que ele chega a engendrar, pela leitura das entrelinhas, uma teoria amorosa do texto. Dizia que escrevia por amor à humanidade. Era um cara que se doava, que se envolvia com o outro, que se importava, que cutucava, que incomodava. O mais impressionante em Mário foi a sua capacidade de se desdobrar em tantos quantos foram necessários para edificar muito mais do que uma obra (de valiosos méritos e que continua a nos instigar e desafiar, e que por si só já teria dado um trabalho danado a Mário), um espelho profundo de Brasil - na crítica literária e de artes plásticas; na pesquisa folclórica e musical; na questão lingüística; na experiência estética, nas influências que exerceu sobre compositores, escritores, artistas plásticos – enfim, todos os nossos grandes nomes das artes. Ele era o cara que pensamenteava o Brasil. Sem contar o edificante homem público e ainda o comprometido professor Mário, que tentava ensinar aos seus alunos a difícil lição nº 1, de que estavam no conservatório para aprender música e não simplesmente piano como respondia o coro à indagação do mestre. E deitava lenha na mania nacional do ensino do piano. Acho que, no caso de Mário, quase que não sobra nem um tiquinho das tintas da preguiça para a composição do Macunaíma. E ainda arrumava tempo para escrever cartas, o Senhor Correios e Telégrafos, mais de sete mil em sua correspondência ativa. E todas relevantes, pois trazem um pouco desse Brasil pensamenteado de Mário, das inquietações que nortearam a sua vida e obra.

Abração e desculpe a espichada de assunto.

Cida Almeida · Goiânia, GO 14/4/2008 12:59
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Ize querida,

Também ando ausente, não só do overmundo, e querendo muito o (re) conforto de Pasárgada. Esse desejo de evasão que tanto habitou o universo poético de Bandeira, o nosso poeta de rosas e estrelas, e também o que ria mais porque era dentuço e tinha um humor mais afiado que os dentes, principalmente para afirmar a determinação da vida, a necessidade de seguir em frente, de transformar dor em flor. A minha paixão por Manu já foi declarada aqui, em verso e prosa. Assim como Bandeira, quando estou triste abro as portas de Pasárgada e sonho os meus delírios verbais, como faço de vez em quando aqui. E o texto sobre Mário tem muito desse encantamento do ser entregue ao sentimento, à emoção, rondando as cercanias de Pasárgada.
Há algum tempo, por exemplo, embora você não tenha notado, ali no cantinho do seu texto, espremida entre um ponto e vírgula, acompanhei aquela sua aula-fala sobre Lima Barreto, na reunião de senhoras, e fui literalmente transportada às emoções daquele mundo do Triste Fim de Policarpo Quaresma – leitura que tanto me impressionou. Bom demais, Ize, compartilhar impressões, paixões e emoções com você. E ainda mais paixões da grandeza de Mário e Manuel. E se o meu texto proporcionou um pouco de leveza, já valeu tê-lo escrito.

Beijo grande.

Cida Almeida · Goiânia, GO 14/4/2008 13:04
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

André Teixeira! Com exclamação pra lá de marioandradiana. Sinto-me honrada com a sua leitura e o retorno carinhoso do olhar e profundamente agradecida pelos links. Visitei todos e gostei muito do que vi e ouvi. Grande trabalho o da Iara. Fiquei com gosto de quero mais. Só preciso agora descobrir onde comprar o disco. Se tiver o contato direto dela, por favor, envie para o meu e-mail (cida_almeida2005@hotmail.com). A gostosura da obra do Mário é que ela é muito provocante e continua dialogando e instigante a gente. Em Mário, música e literatura caminham juntas. A prosa dele era muito musical. A obra Café, inicialmente pensada como um romance, ganhou concepção melodramática, transformando-se em uma ópera. Para levar o projeto adiante, buscou parceria de Francisco Mignone, amigo que já havia musicado outras coisas de Mário. Em Poesias Completas de Mário de Andrade – edição crítica de Diléa Zanotto Manfio, editora Itatiaia, 2005, existe um relato interessantíssimo dessa parceria com Mignone. E Café nem chegou aos palcos como queria Mário, que morreu antes da conclusão do projeto.

Um grande abraço.

Cida Almeida · Goiânia, GO 14/4/2008 16:39
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Adelcir, agredecida pela leitura.

Nato, meu caro, sei que é um moço difícil, que não sai dando por aí, e justamente por isso muito apreciado quando provoca a gente com os seus parabéns ou mesmo chega pra lá... Que bom que urrou, no sentido marioandradiano. Você tocou num ponto interessante, o aprender a gostar de certos autores. Com uns, o negócio pega de frente. Já com outros, o namoro pode ser um pouquinho mais complicado, mas a conquista é uma peleja das boas. Bandeira foi amor ao primeiro verso lido. Também pudera, foi o cara que me abriu as portas de Alexandria. Já Mário me pegou pela vivacidade da caixa postal. É que sempre fui voyeuse de palavras. Só que o feitiço virou contra o feiticeiro. Hoje Mário é mais do que cobiçado espelho do desejo. Tenho aprendido imensamente com ele, principalmente a tropeçar, dar a cara à tapa, ousar e abusar. Segundo Mário, esse negócio de escrever, publicar, tudo se resume à vaidade. No caso dele, magistralmente transformada em orgulho. Se o sujeito escreve, vaidade; publica, vaidade. Se não publica, vaidade também. A gente escreve mesmo é para encontrar o outro. E sei que nunca mais vou arredar pé dos sedutores becos da escrita de Mário de Andrade. Quanto ao artigo que você se referiu, fiquei mais do que curiosa. Espero que você conte essa história.

Um abraço danado de dadinho.

Cida Almeida · Goiânia, GO 14/4/2008 16:44
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Carlito, também penso muito sobre isso, o efeito que as palavras causam nas pessoas. O poder que tem, por exemplo, o complexo espelho de palavras construído por Mário de Andrade que me faz querer ouvi-lo, muito além do seu tempo? O Mário que tem me fascinado é o Mário que construiu Mário de Andrade, pedrinha por pedrinha, palavra por palavra; o Mário sempre aprendiz de si mesmo; o Mário do orgulho duramente construído; o Mário que dialogava, investigava as motivações fundas do próprio texto; o Mário que buscava a opinião das pessoas como um contraditório para afirmar ainda mais a sua teimosia; o Mário sozinho e criativo do andar de cima do Coração Perdido; o Mário disposto ao Brasil... Viu? Isso é encantamento, poder absoluto das palavras!

E só porque você falou em mistério, um poema do Mário debruçado sobre o enigma, em Lira Paulistana:

"Esse homem que vai sozinho
Por estas praças, por estas ruas,
Tem consigo um segredo enorme,
É um homem.

Essa mulher igual às outras
Por estas ruas, por estas praças,
Traz uma surpresa cruel,
É uma mulher.

A mulher encontra o homem,
Fazem ar de riso, e trocam de mão,
A surpresa e o segredo aumentam.
Violentos.

Mas a sombra do insofrido
Guarda o mistério na escuridão.
A morte ronda com sua foice.
Em verdade, é noite."

Cida Almeida · Goiânia, GO 14/4/2008 16:50
sua opinião: subir
Ilhandarilha
 

Os traços, a tinta, o que vai amarelando por dentro, os docemente melancólicos da gente virando memória lírica, afetiva, enfim, os nossos lutos de sangue, saudade. Talvez no tempo daquela leitura eu já intuísse esse profundamente sem solução de pensar as pessoas que nos tocam e vão passando, da mesma maneira como passaremos um dia por outras.
Cida, só esse parágrafo já sacia a fome da gente da sua sensibilidade. O conjunto todo, então, é um banquete!
Quero ter um livro seu (aquele objeto tátil, sabe) Tem?

Ilhandarilha · Vitória, ES 15/4/2008 10:58
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Marcos Paulo Carlito
 

É noite...
Em mim,
em ti,
em nós...

Obrigado,

grande abraço...

Marcos Paulo Carlito · , MS 15/4/2008 11:00
sua opinião: subir
Cintia Thome
 

Cida, entrelaçou com mestria e afrouxou para o nosso entendimento. Mario foi um arrebatador nas artes, um que amassou bem o pão brasileiro, fermentava, delirava as verdades, as questões da época, inventava e reinventava... e Manuel era mais lúcido , senso crítico...Lembrei-me de Madriagal Melancólico "O que adoro em ti, não é a tua beleza, a beleza, é em nós que ela existe...ou quando ele diz "quero ter o poder de sentir as coisas mais simples..." Portinari era um exímio artista, criativo, mas não tinha pensamentos tão arrojados, era muito voltado pra si...para a família.
Tua maneira aqui, de colocar esta análise é de uma suavidade ímpar, visceral, do começo ao fim...Copio para ler, ler...Quero mais.bjus.

Cintia Thome · São Paulo, SP 15/4/2008 22:49
sua opinião: subir
José Carlos Brandão
 

Cica, gostei. Rememorei meu encontro com Mário de Andrade, as cartas dele a Manuel Bandeira, de como a imagem dos dois ficou gravada em mim, juntos, imagino-me a ouvi-los. Gostosa a sua escrita. Quando falo alguma coisa como "escrita gostosa" estou pensando em Mário. Ele ensina a gente o prazer do texto, de como um texto é gostoso, saboroso.
Abraços.

José Carlos Brandão · Bauru, SP 16/4/2008 12:23
sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Cida,

Pensando bem - falando junto com a Ilha, aí em cima - vale a pergunta: Cadê o livro pra gente ler quilômetros da sua verve, em vez de só uma ruazinha (apesar de assim tão iluminada)?

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 16/4/2008 12:56
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Cláudia, também sinto o livro como você, com um prazer de carícia, um cobiçado objeto do desejo: formato, textura, cor...Enfim, uma fonte de misterioso alumbramento tátil.

Cláudia e Spírito – O primeiro livro provavelmente estará pronto em julho, Flor da Pedra (poesia). Parte dos poemas que compõem o livro já foi publicada aqui. Estou concluindo aqueles intermináveis detalhes de edição. Aliás, devo muito a vocês, leitores do Banco de Cultura, e a Mário o encorajamento para a publicação. O cara dá umas cutucadas danadas na gente. Instiga, vai nos empurrando para a exposição, a cara à tapa, o enfrentamento, os tropeços. Mais uma vez, grata a vocês pelo olhar e o incentivo.

Beijo grande.

Cida Almeida · Goiânia, GO 17/4/2008 15:15
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Cíntia, que bom que consegui entrelaçar e afrouxar na medida certa. Felizmente, Mário de Andrade está chegando cada vez com mais luz perto da gente, graças ao trabalho obstinado e criterioso de Telê Porto Ancona Lopez e equipes do IEB. As reedições de obras do Mário têm sido cada vez mais esclarecedoras. Os estudos têm lançado muita luz sobre a já iluminada vida e obra de Mário. Grata pela partilha de impressões.

Beijo grande.

Cida Almeida · Goiânia, GO 18/4/2008 09:24
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

José Carlos, bem-vindo ao Overmundo. Que bom que as minhas memórias de leitura fizeram você reviver as suas. Também me imagino a ouvi-los. E ouço! Mário, realmente, ensina a gente a “gostosura” do texto. E gostosura era uma palavra viva na boca de Mário. Passei lá no seu Usina de Sonho, gostei de saber do umbigo poético da sua aldeia e que no Brasil tem uma cidade em que o sonho tangível da poesia caminha lado a lado com o homem da rua, cria e recria mundos nos muros que dividem as casas, nos duros paredões das prisões... Bom saber de tudo isso e também das suas reflexões sobre o itinerário da criação poética. Embora goste muito do João Cabral, da materialidade do poema, sigo mesmo a trilha de Bandeira e muitos outros que davam um valor danado à inspiração, não como uma centelha divina que baixa no poeta e o leva à criação. Inspiração como aquele toque em que o poema exige-nos uma existência só dele, nos guiando no difícil caminho de intuir/erigir a materialidade de seu corpo. O resto, concordo, é transpiração, lapidação e incansável labuta com aqueles “pequeninos nadas” da poesia, como dizia Bandeira. E esses pequeninos nadas são as palavras. E voltando a Mário de Andrade, tocando justamente nesse ponto da inspiração/transpiração, até brinquei com a idéia, em Amendoim, a poesia da vida.
Grande abraço!

Cida Almeida · Goiânia, GO 18/4/2008 09:57
sua opinião: subir
Juliaura
 

Uma aula inteirinha do que fazer para aprender a ler.
A-do-rá-vel! (com exclamação) o teu texto, o teu amor, o teu coração, a tua empolgação ainda hoje da primeira vez, sinal de que o tempo é neca de pitibiribas quando se quer amar e mais amar e dar-se inteira a uma coisa que é a paixão.
Agrade_Cida.
Beijin.

Juliaura · Porto Alegre, RS 14/5/2008 19:09
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Juli, o negócio é que o Mário, o senhor serelepe, cutuca a gente, provoca, exige exposição. Quando lemos Mário, além do encantamento com a coragem e a ousadia dele, também nos sentimos devedores. E é uma dívida que só pode ser amortizada com leitura e compreensão da obra e vida deste brasieliro essencial. Terminei a leitura das poesias completas do Mário e me delicio com Quatro Pessoas, um romance inacabado que revela a argúcia e a fina sensibilidade do psicólogo Mário de Andrade. Assim, entre uma leitura e outra, vou voltando sempre a Mário de Andrade.

Agrade_Cida pela leitura e o carinho do comentário.

Beijo grande! E com uma exclamação marioandradiana, que concluiu numa análise belíssima em Amar Verbo Intransitivo ser a exclamação um traço da identidade do brasileiro.

Cida Almeida · Goiânia, GO 15/5/2008 12:26
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados