A morte e a morte numa Paulista qualquer

Divulgação Sesc
Cena de VemVai, o caminho dos mortos.
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Fabrício Muriana · São Paulo, SP
21/5/2007 · 121 · 7
 

Algumas vezes já me perguntei o que passa pela cabeça de uma pessoa que trabalha fazendo sinopses de filmes, quando se deparam com obras do David Lynch, do Vincent Gallo ou da Lucrécia Martel. Depois de assistir VemVai - O Caminho dos Mortos, em cartaz num andar inteiro do Sesc da Avenida Paulista, passei a querer me corresponder com esses redatores de sinopses, pra, talvez, aliviar a angústia do meu resenhar.

Não que eu escreva sinopses, mas o problema está nas palavras. Não há palavras para definir algumas imagens, sons e sensações que a Cia. Livre propõe nesse espetáculo. Seja porque não fazem parte da nossa tradição narrativa ocidental, seja porque são diferentes de praticamente tudo que eu já havia visto sobre o tema.

Há duas semanas, estava em cartaz no CCSP a peça Adubo ou a sutil arte de escoar pelo ralo. Os paralelos com a montagem de VemVai são tantos que me arrisco a dizer (ou suplicar) a quem viu aquela, que veja também essa do Sesc Paulista. Processo coletivo de criação, construção de imagens, poucos elementos cênicos muito bem explorados, entrega total dos atores, extensa pesquisa de textos não necessariamente teatrais são só os aspectos mais vísiveis do diálogo. A morte é o tema central de ambas as peças, mas como ficaram diversas as montagens!

VemVai propõe um diálogo-refeição. Em todos os momentos do espetáculo os barulhos da Avenida Paulista não nos deixam esquecer onde estamos presenciando aquele ritual proposto pela Cia Livre. Esse ritual apresenta a cultura dos povos ameríndios como o prato principal e nós, como convidados do banquete. Sem exageros, até salsicha é servida no espetáculo como forma sublime de representação. E eu comi.

Estruturalmente, o único elemento narrativo material que vai do começo ao fim de VemVai é o vaká, que depois aprendemos que é o duplo (ou alma) para a etnia dos Marubo (viu como nós lemos o programa da peça?). Rasgando a montagem em diversos pedaços, temos cenas que vão desde rituais de canibalismo funerário até vendedores de tapioca apressados.

Música, vídeo, dança, conversas, interação física com o público e até teatro (vejam só) são os elementos para transportar o público para o diverso. Diferente de Adubo, que escracha a morte para celebrar a vida, VemVai coloca a morte como passagem e por isso os seus rituais. Não nega a dor da passagem, mas demonstra que é possível encará-la de forma menos espetacular que as atuais coberturas da mídia, menos aterrorizante que os mitos das religiões ocidentais, menos "fim-de-tudo" e "despedida" como são concebidos os velórios e enterros dos nossos dias. VemVai demonstra que nossa sociedade precisa reaprender a morrer, para aproveitar com mais intensidade a vida.

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Fabrício Muriana
 

Texto originalmente publicado na Revista Bacante.

Fabrício Muriana · São Paulo, SP 17/5/2007 16:38
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Jan Moura
 

VENHAM PARA CUIABÁAAAA! Aqui só vem Terça Insana, ninguém aguenta mais!.

Jan Moura · Cuiabá, MT 17/5/2007 18:08
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Fabrício Muriana
 

Realmente, Jan.
As coisas são concentradas demais aqui nesse sudeste.
Mais especificamente em São Paulo e Rio.
O que mais me revolta nessa situação (além da riqueza que se perde no resto do Brasil) é que mesmo aqui existem problemas de divulgação e circulação que fazem algumas montagens independentes e extremamente experimentais não terem público. Sem dúvida se houvesse mais troca com outras regiões, muitas peças, atores, diretores e sobretudo o público sairiam ganhando.

Fabrício Muriana · São Paulo, SP 18/5/2007 10:02
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Jan Moura
 

Aqui existe um trabalho experimental em teatro também. A troca de informações ocorre ocasionalmente quando há projetos como o Palco Giratório do SESC, ou o Festival Nacional de Teatro de Cuiabá, que este ano vai para a 2º edição. Fora isso, é um bombardeio de peças comerciais do Rio e de São Paulo que, pelo visto não fizeram sucesso por ai, e resolvem ver se o povo daqui engole. E com ingressos lá no alto! Mas felizmente ainda existe coisas boas vindo para cá, mas são bem raras. Temos aqui algumas companhias que pesquisam novas formas de teatro, entre elas a nossa companhia, Confraria dos Atores, entra no nosso blog para conhecer um pouco: www.confrariadosatores.zip.net . Um grande abraço!

Jan Moura · Cuiabá, MT 18/5/2007 10:19
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Fabrício Muriana
 

O Sesc, sempre o Sesc.
Tem uma mulher que é colunista do Terra Magazine, não me lembro agora o nome dela. Mas enfim, pra ela o sesc é o verdadeiro ministério da cultura. Eu concordo.
Aqui em São Paulo, se não fosse o sesc com certeza metade das montagens mais experimentais nem sequer apareceriam. VemVai não foi assim, pq já tinha fomento da prefeitura. Mas enfim.
Não tenho nada contra a produção de um Terça Insana, só não me empolga nada ir assistir e definitivamente não seria uma peça pra Cuiabá comemorar a chegada. O que sim deveria haver é um patrocínio fixo para viagens. Mesmo que não fomentasse a criação, que ao menos desse força pra que os grupos viajassem mais sem ter que pagar do bolso.
E, claro, aumento da grana pra produções locais. Que de peças de São Paulo e Rio todo mundo cansa.
Sobre o blog de vcs, parabéns. Aqui em São Paulo os grupos que eu mais vejo "respirar" divulgam e discutem os próprios trabalhos através de blogs. Particularmente eu não faria um blog "institucional" (vcs assinam com o nome do grupo). Faria um blog em que cada um pudesse postar com o próprio nome. Mesmo assim a alternativa é ótima.
Eu tb tenho um grupo e um blog do grupo. Estamos em processo.
www.sagomadarrea.blogspot.com. Vale a visita.
Abraço.

Fabrício Muriana · São Paulo, SP 18/5/2007 10:43
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Alexandre Inagaki
 

Mr. Muriana, creio que o maior problema de resenhar um livro, filme ou peça está na limitação de caracteres. Por exemplo: rascunhei algumas linhas sobre "A Menina Santa", da Lucrécia Martel, nesta coluna que escrevia para a Antena 1. Mas é bóbvio que não consegui pus nem metade das idéias que foram dando cambalhotas no trapézio do meu cérebro enquanto assisti a aquele desconcertante filme da cineasta argentina. Quanto à frase final, ela me remete a uma expressão em latim, "memento mori", que significa: "lembre-se de que você vai morrer". A saudação, longe de ser pessimista, serve para que tomemos consciência de que um dia morreremos, e precisamos investir na vida enquanto ainda estamos por estas bandas. []'s!

Alexandre Inagaki · São Paulo, SP 22/5/2007 04:23
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Fabrício Muriana
 

É, sem dúvida a limitação de caracteres é um grande problema. Sobretudo da mídia tradicional.
Quando me imagino no seu lugar, penso em que tipo de parâmetros usar para definir a Lucrécia. Coisa de louco. Acho que o limite de caracteres seria o problema 2.
Sobre o "memento mori", tenho em casa o conto de onde saiu a adaptação Amnésia (péssima tradução do título), também de nome Memento. Engraçado como no conto, mais do que no filme se reforça a idéia de uma falta de sentido histórico (ou seja, o personagem pode ser o quiser, matar quem quiser, cometer os crimes que quiser, pois as leis são algo profundamente temporal). Parece que quando falamos de morte, estamos falando indiretamente muito mais sobre o tempo. Grande abraço, Inagaki.

Fabrício Muriana · São Paulo, SP 22/5/2007 09:55
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