Não é um desperdício a TV pública produzir conteúdo semelhante ao da TV comercial? Tiro pela culatra, já que pela defasagem e abandono recorrente em boa parte das 1.885 emissoras do tipo (Abepec, 2005), o mais provável de se assistir é uma programação enfadonha e burocrática. Ao apresentar o Sopa Diário aqui no Overblog, coloco "na roda" um exemplo local perfeitamente replicável de acordo com as diversas realidades do país. Experimental, bem-humorado e críticamente contextualizado com as discussões do momento, a Sopa está na telinha todo dia, das 12h às 13h, ao vivo pela TV da Universidade Federal de Pernambuco (TVU – Canal 11).
Mistura de programa de música, entrevista e debate, há mais de três anos o Sopa Diário está no ar trazendo “a visão do prato pela ótica da mosca”. No mesmo horário sofrido daqueles insuportáveis programas do tipo porta de cadeia, onde a periferia só se vê morta ou enjaulada. Feito na hora, “como caldo de cana”, o programa incorpora o improviso e os problemas técnicos como recurso de linguagem. Mais de 500 bandas brasileiras e estrangeiras subiram em seu palco. Tudo isso, somado à figura do apresentador Roger de Renor, faz do Sopa Diário um programa vivo, imprevisível, conectado com a cidade, e acima de tudo, independente.
“São três anos no ar. Faustão ou o Luciano Huck não agüentam nem dois minutos sem ibope, Bope, ou vender celular”, brinca Roger, cujo termômetro para medir a audiência consiste de uma “gréia”: quem trouxer uma mosca feita de material reciclado, ganha uma camiseta dos três anos de programa. Durante algumas semanas, todo dia tinha fila na porta do estúdio.
A festa de aniversário foi mês passado, no Nascedouro de Peixinhos, espaço cultural situado num bairro com tradição de movimentos culturais (taí outra bela história pra contar no Overmundo). O convite virtual não poderia ser mais inusitado: uma chamada televisiva narrada pelo apresentador do vizinho ao Sopa na grade de programação, Samir Abou Hana, “o secretário da cidade”. Não pude estar lá, mas só pela programação o momento deve ter sido memorável: shows de Lula Queiroga, Mestre Galo Preto e Tronco da Jurema, e Mundo Livre com participação especial de Cannibal (Devotos), Pácua (Via Sat), e Lamento Negro, sendo este último grupo uma das inspirações que levaram Chico Science a formar a Nação Zumbi. Soube que deu tanta gente que faltou cerveja. "A programação foi feita da forma mais democrática possível", garante o apresentador. Ele explica que a escolha pelo Nascedouro tem a ver com a próxima etapa do projeto, que pretende produzir o programa 100% fora do estúdio, em bairros da periferia da cidade, como a Bomba do Hemetério, Alto José do Pinho, Roda de Fogo. "Quero mostrar a melhor parte desses lugares".
Roger é bastante popular na cidade, e não só porque aparece todo dia na TV. Antes mesmo de ser eternizado pela voz de Chico Science e Gilberto Gil na canção “Macô”, do álbum Afrociberdelia, ele já agitava a noite o Recife dos anos 90 com o bar Soparia, sede “lúdica, etílica e sentimental” da biodiversidade que formou o manguebit. Em fevereiro de 1997 Roger fechou a Soparia, alegando ser impraticável conviver com a violência e o tráfico de drogas ao redor. Insistiu com o Pina de Copacabana, em outro endereço.
Quando encerrou definitivamente a carreira de dono de bar, há seis anos, começou como comunicador. Primeiro, com o programa Sopa da Cidade, que inclusive transmitia ao vivo os shows do Abril Pro Rock. Depois, com o também radiofônico Cidade de Andada, transmitido de algum ponto da cidade com uma banda ao vivo e interação com o público. Em meados de 2002, estreou na TV comercial com o Som da Sopa, para migrar em 2004 para a TVU como Sopa Diário. Desde o começo do ano, Roger ataca também na internet, inclusive no Overmundo (perfil e textos aqui). O próximo projeto on line é transmitir um programa de entrevistas no bar da Francinete, tradicional prostíbulo na frente dos armazéns portuários do Recife Antigo.
Entrevistei Roger numa terça-feira, minutos após o programa terminar. No camarim, ele falava compulsivamente enquanto trocava a roupa: “Programa ao vivo é assim, depois que acaba tem que dar uma acalmada, senão eu falo três horas sem parar”. A conversa foi quase toda sobre o programa, feito em parceria com a turma da TV Viva de Olinda e o OmbudsPE, projeto que discute a mídia sob o ponto de vista dos direitos humanos.
Como nasceu o Sopa Diário?
Quando tinha o programa de rádio, as pessoas diziam que ele poderia muito bem ser feito para a TV. Então fiz um projeto para a prefeitura, mas era muito verde, tinha o objetivo de mostrar que a gente podia produzir aqui um programa com a mesma qualidade dos feitos no Sul. Para isso chamei a produtora Luni, de Lula Queiroga. Fizemos dois programas primando pela qualidade técnica, com as principais bandas de Pernambuco, como Mundo Livre, Nação Zumbi, Mestre Ambrósio. Programa de estúdio, feito com apresentador, programa de música mesmo. Eu arrumado, estúdio montado, pessoal técnico, som vindo de São Paulo... Gastamos 40 contos nesse programa – foi barato para o que se gasta num programa gravado.
A gente provou que podia fazer, mas provou também que a qualidade técnica não adianta nada. O problema realmente é a falta de uma visão mais aberta da parte de quem faz televisão aqui. A TV Guararapes (que retransmite a Band) veiculou o programa aos domingos, 10h30 da manhã. Nem eu mesmo via a porra do programa. O que eles vendiam, repassavam pra gente. Mas eles não vendiam nada, a gente não vendia nada. A gente estava lá há mais de um ano, mas ninguém sabia quem eu era. Um dia chegou alguém lá que pagou 1 real a mais - a gente não pagava nada – e na quinta-feira disseram que no domingo não teria mais programa. Aí a gente ofereceu à TV Universitária. Eu já estava mais conhecido porque tinha feito quatro episódios do “Brasil Total” com a Regina Casé, em rede nacional no Fantástico, e isso abriu as portas aqui.
Depois, com o apoio do Funcultura quis fazer diariamente, pra provar que a gente tem condição de fazer ao vivo, com banda tocando. Decidimos fazer a banda de âncora, e eu pagando de DJ, para um papo “mais reto” que a gente quer ter com a galera. Mais chegado com a moçada. Porque música pela música não dá pra ter nessa cidade. Deixa para os caras da MTV e seus patrocinadores fortes. Com o Funcultura, queremos usar a música para tentar melhorar as coisas de alguma forma. Tentamos compensar essa falta técnica de edição, de imagem, de estética, com a informalidade, com a abordagem regional, com a minha forma íntima de lidar com as pessoas e a cidade.
Desde quando vem a parceria com a TV Viva?
A parceria entre eu e Duda (Homem de Melo, diretor da TV Viva) vem do tempo da Soparia, em 1991. Já conhecia a TV Viva antes, por conta das coisas que eles faziam em Olinda, mas nem sabia que eram feitas por eles. Porque eles eram personagens da vida boêmia de Olinda, por estarem tomando alguma atitude. Quando começou o bar, como as bandas tocavam lá, eles chegaram e fizeram os primeiros clipes das novas bandas. O clipe do Mestre Ambrósio “Forró Pé-de-calçada” foi feito pela galera. Isso já faz 11 anos... Eles têm um histórico de clipes com praticamente todas as bandas dessa geração. Nessa época, era uma relação de “brodagem”. Qualquer coisa precisasse, telão, imagens, idéias, festas, era com a TV Viva que a gente contava - e eles também contavam com a gente. Por isso, sempre tive a idéia de trabalhar de uma outra forma com eles. Não que a “brodagem” tenha acabado, mas a gente partiu para a profissionalização. Quando apareceu a história de fazer um programa não só de música pela música, ou apenas mais uma revista cultural, a TV Viva foi o caminho natural.
O Sopa Diário é hospedado em uma TV universitária. Como o programa se posiciona com relação à educação?
Abordamos assuntos de uma forma direta com a galera. E isso contribui para mostrar que não é chato entender certos assuntos. Essa semana teve, por exemplo, os caras que mataram em São Paulo um cara num guichê de pizza, e saiu em todo o canto que eles eram três punks. Os caras estavam de jaqueta com símbolo anarquista no braço, e eles se diziam punks. Assassinaram um cara que talvez fosse muito mais punk do que eles acham que é o movimento punk. Eles não entendem o que é o anarquismo, nem o punk. O sistema dominou até isso de pregar Raul Seixas, Bob Marley e Chico Science. Só que não é isso. Chico não é só uma camiseta.
O sistema quer isso aí, todo mundo na Rua da Moeda, dizendo “é isso aí, Chico Science, aí Roger, Macô”, e fumando um e tomando um vinho de 1 real, dizendo que assim está contestando o sistema. Porra nenhuma, esse cara é um idiota, tá cheirando loló, enchendo a cara de maconha, e no outro dia não sabe o que vai dizer. Então não está contestando nada.
Em termos de educação, é dizer isso: “Não tenho educação, não tenho cultura, não tenho segundo grau completo, mas eu estou aqui para dar um alô. Estou com o poder na mão. O poder do microfone”. Eu me considero um MC, não me considero um professor. Apesar de estar na universidade, porque isso aqui é uma televisão da universidade.
Outra guerrilha deve ser fazer o programa ao vivo, todo dia. Você usa a limitação técnica como forma de experimentar na linguagem da TV?
Isso é uma coisa muito doida. Eu não tinha idéia de como seria fazer o programa diariamente, nem a liberdade que se tem numa televisão como essa. Tem todos os problemas de uma TV pública brasileira, mas também uma série de vantagens, porque aqui pode experimentar à vontade. Um cara no programa da TV Cultura não pode falar “xixi”. Na TV pública daqui a realidade é outra.
A gente parte do princípio que acabaram as fórmulas. Eu vou seguir quem? O Jô Soares? O tipo do cara da MTV? A gente vai fazer o que aqui? Eu fiz um tempão o programa vestido com short e camiseta sem manga. Eu queria chamar atenção, que as pessoas olhassem e dissessem “porra... quem é esse filho da puta aí? Tatuado, de camiseta, sem o menor estilo na televisão”. É, eu tenho o direito, porque o cara de terno e gravata está abusando de menor de idade, sendo processado. Tá lá, Denny Oliveira de terno e gravata – o programa da família brasileira. Eu não quero ser o programa da família brasileira. Quero ser o programa do tatuado, camisa rasgada e short, pra dizer que eu não dependo deles. E fiz um tempão assim. Hoje eu já acho que, depois de três anos nessa TV carente de tanta coisa, acho que preciso pelo menos me arrumar pra dizer pra galera “hoje eu me arrumei pra você”. As pessoas já me conhecem, e sabem que eu posso me arrumar. Mas como é que eu vou me maquiar pra testa não brilhar, quando a banda toda veio de longe, de ônibus, suado pra caralho? No máximo, uso um paletó comprado na loja de crente pra fazer uma graça. Amanhã eu canso disso e invento outro negócio. Visto uma farda.
Eu acabei lembrando do Chacrinha, que todo programa fazia uma roupa diferente. Numa matéria de revista, o jornalista te chamou de “Chacrinha de esquerda”. Você se sente à vontade com isso?
Não quero ser de lugar nenhum. João Paulo é esquerda, Lula é esquerda? Então não sou de esquerda. Não que seja contra eles, mas não sou a favor cegamente. Não sou a favor da questão partidária. Desta forma, não sou de esquerda de jeito nenhum. O que me aborrece é esse negócio de todo o dia estar reclamando. Existe uma diferença entre reclamar e informar. Reclamar é quem perdeu. Se a gente tivesse perdido, não tava aí, com a moral do Funcultura, a prefeitura não tava apoiando a gente, não vinha galera tocar música.
Assumimos a total parcialidade do programa, através da TV Viva, do conceito que a gente busca com o Centro Luiz Freire para não ter de pagar de imparcial aqui. Sem essa hipocrisia que a TV comercial tem: somos a favor da legalização das drogas e da liberalização do aborto, amparada por quem tem experiência, porque trabalha há tempo com direitos humanos. No meu caso, que estou falando, às vezes dá um sentimento de que falei demais, de que não poderia ter dito isso ou aquilo... Fudeu: é ao vivo. O que pega é o todo. Alguém vai entender um negócio, outro vai entender outro. Alguém me encontra na rua e diz assim: “dou o maior valor ao teu programa. A mulher falou lá, botou pra fuder. Aí você falou e botou quente também”.
Esse programa é a continuidade do bar que eu neguei lá no Pólo Pina e na Rua da Moeda. Eu não queria que a representatividade e a credibilidade que eu ganhei com o bar ou com a minha história dentro da cidade, ou com a música de Chico Science fosse transformada num folhetim. De “aí Roger, esse cara é muito doido”... Sou muito doido mesmo, mas porque tô fazendo esse programa. Eu poderia estar com um restaurante em Porto de Galinhas: “Cadê Roger”. Ou com um programa de clipes, botando o dinheiro do Funcultura no bolso. Ou poderia ter ido embora para a MTV. Pra mim, ser muito doido hoje em dia é ir para o front.
Conheço bem, pelo menos a realidade de uma tv universitária. Trabalho, ou melhor, sou estagiário da TV Universitária da UFRN, e a maioria da programação, 90% dela, pelo menos, é enfadonha e olimpiana. Produzida para uma meia-dúzia de intelectuais sofistas, enfim... Graças a Deus, trabalho no patinho feio da TV. O TV ESPORTES, notadamente um programa esportivo, e por isso mesmo, visto como um subproduto, algo de menor importância. A melhor coisa é saber que somos o programa que tem o maior ibope da casa...
Pois é André, temos um programa parecido com esse que você citou na matéria. O Xeque-Mate, um programa de entrevistas, chegou a trazer até mesmo LOBÃO. Mas hoje perdeu o foco e as entrevistas são inassistíveis, se é que existe tal vocábulo...
Um abraço.
Oi Filipe,
1. A situação da TVU daqui é precária em termos de equipamento e recursos. Uma situação terrível, que eu chamaria de insustentável, e que só segue em frente graças a algumas pessoas que estão na luta há anos para manter a emissora.
2. A partir de seu comentário, me veio à imaginação: quantos programas bacanas de alcance local devem existir por esse brasilzão... Quem sabe, com a chegada da TV Brasil e sua proposta de inclusão da diversidade cultural brasileira, programas como o Sopa Diário e o Xeque-Mate (se ele voltar a ser assistível) possam ampliar seu alcance, estando em uma grade nacional de programação?
André sobre a festa dos 3 anos, eu tava lá e peço permissão a Fabiola Kezia, pra reproduzir aqui um comentário postado no blog de Roger (www.rogerderenor.com.br), que relata muito bem o que foi a festa de 3 anos do Sopa Diário:
"QUE FESTA ISSO EH TUDO...
GALERA PARABÉNS... PELA PRODUÇA, PELA INICIATIVA, PELOS CONVIDADOS, PELA SERIEDADE E PROPOSTA... NÃO TEVE VIOLÊNCIA, NÃO VI BAGUNÇA, SÓ UM LUGAR LIMPO, LINDO, ASTRAL, DE PAZ. ESPERO QUE VCS PRODUZAM MAIS EVENTOS COMO ESTE, E MOSTREM A PREFEITURA QUE SE PODE FAZER ALGO DE GRANDE PORTE SEM GRANA. Sexta fui pra o PE Music QUE DESORGANIZAÇÃO, UM EVENTO GIGANTE, COM UMA ENTRADA SÓ, UMA LOUCURA PRA ENTRAR VI MUITA GENTE SE MACHUCANDO. O engraçado eh que o Nascedouro eh ali do lado, as atrações foram nota 1000 de graça e foi pouca gente, eita povinho preconceituoso (metade da culpa da imprensa, que só mostra a violência do bairro) se fosse na Fábrica Tacaruna e pagando pra ver nada mais nada menos que: Lula Queiroga, Mundo Livre S/A, AQUELE HOMEM DE SORRISO LINDO E ESPIRITUOSO "MESTRE GALO PRETO". Numa plateia que MEU DEUS, ciculava entre nós, simples anônimos... figuras como Cannibal, Puppilo, Toca, Lia de Itamaracá, MEU DEUS QUEM NUM FOI... SÓ NOS 4 ANOS rsrsrsrsr..."
Foi muito bom... a comunidade não acostumada a ver tanta gente nos eventos realizados no Nascedouro (por não ser feita nenhuma divulgação pelos orgãos competentes), não se prepararam para os 3 anos do Sopa e faltou até água quem dirá cerveja... MAS FICOU A CERTEZA DE UM PASSO LARGO QUE SE FOI DADO JUNTOS...
Keila · Recife, PE 14/11/2007 19:07
Querido André Dib:
Quando o povo tá indo pra cima existem situações que podem ser consideradas revolucionárias. Não é esse o caso atualmente. A nossa luta pela preservação dos nossos valores culturais é uma atitude de Resistência, de criar e defender certas trincheiras de luta. Então eu só posso dar vivas a mais esta trincheira criada e defendida há mais de três anos.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
beijo
Que bom saber que há vida inteligente na TV por aí.
Abraços!
Legal sua temática. Escrevi um artigo que vai na mesma linha: http://www.overmundo.com.br/overblog/editorial-a-evolucao-da-ditadura-no-brasil
Abraços!
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