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A Mulher da Capa Preta

Marcelo Cabral
Boneca da Mulher da Capa Preta
1
Marcelo Cabral · Maceió, AL
5/1/2012 · 33 · 2
 

Antes de qualquer coisa: esta é uma história de fantasma. Portanto, quem tem um coração com tendência a fraquejar, ou é desprovido do sangue frio necessário para seguir adiante, pare a leitura agora, e procure outro assunto pra entreter o juízo, deixando de lado essas coisas do além. Já para quem aprecia uma bela história de amor, um romance juvenil, este causo maceioense pode ser um prato cheio.

Conheça o pouco que todos em Maceió conhecem sobre a jovem e bela Carolina Sampaio, ou Carol, cuja história foi contada em trova e verso por toda a cidade, e já virou até bloco de carnaval. De boca em boca, inúmeras versões de sua suposta história foram repassadas entre os maceioenses por, pelo menos, três gerações.

Uma noite romântica

Na Maceió de outros tempos, menor e mais ingênua, a cidade vivia noites de festa e alegria, nos grandes bailes que lotavam clubes que não existem mais. Talvez apenas na memória dos mais velhos. Certa noite, nesta Maceió romântica, Carolina estava apreciando o grande baile, com banda de fora e tudo, quando percebeu os olhares interessados de um simpático rapaz, bem vestido, que segurava no braço uma capa de chuva preta.

O desconhecido tomou coragem e foi falar com ela.

– Olá, moça bonita. Qual o seu nome?

– Carolina – disse ela risonha.

– Bela noite, não?

E os dois engataram na conversa e na dança, noite adentro. Sorriam e cantavam, como em um filme de época. Tudo era perfeito. O olhar do rapaz dizia que ele poderia muito bem se interessar por aquela pequena. Finalmente, quem sabe, ele namorava alguém firme e largava aquela boemia... Talvez até casasse?! Controlou a empolgação. Mas estava decidido a rever a garota no dia seguinte. Daria um jeito.

Ao final do baile, com os corpos moles de tanto dançar, o rapaz fica surpreso quando ela aceita o convite de uma carona para casa. Perfeito de novo. Ele mal acredita.

Chove muito e ele oferece sua capa para Carolina, que se protege enquanto correm para o carro do rapaz. Quando chegaram ao bairro do Prado, entre a Praça da Faculdade e o Cemitério da Piedade, a garota pede que ele a deixe ali, na esquina de sua rua. Ele insiste para ir até a porta da casa, que ficava bem próxima. Ela responde que prefere assim, e falou firme. Ele aceita. Não queria contrariar a moça no fim de uma noite perfeita.

– Deixo minha capa contigo. Amanhã venho buscar, certo?

Ela concorda com um sorriso, desce do carro e segue pela rua escura, não sem antes deixar seu endereço e roubar um beijo do rapaz. Ele espera um pouco, e quando acha que ela estava na segurança de casa, segue seu próprio caminho através da garoa fina. Já ansioso pelo dia seguinte.

Sob a luz de um novo dia

Na manhã seguinte, o rapaz acordou ainda sonhando com a moça do baile. Voltaria  para buscar a capa, mera desculpa, queria era conquistar Carolina. Esperou a manhã passar, para não incomodar a garota e a família em seus afazeres. Por volta das 2h da tarde, ele foi, um tanto nervoso, até o endereço indicado no papel, na rua em que deixara a jovem na noite anterior.

– Boa tarde – disse uma senhora simpática que o rapaz identificou como mãe de Carolina. Ele apresentou-se, muito educado, e falou sobre a noite anterior, quando conheceu sua filha, e explicou que estava ali para buscar a capa e conversar com a moça, se lhe fosse permitido.

A mãe de Carolina Sampaio não conteve as lágrimas e reagiu com agressividade.

– Minha filha Carolina morreu, anos atrás.

O rapaz ficou branco e sentiu como se perdesse o chão sob seus pés. Pensou por um segundo, e não acreditou. Imaginou que a mãe não queria a filha, tão viçosa e sabida, de conversa com homem estranho. Mas a mãe mostrou a foto de Carolina pendurada na parede, e ele a reconheceu. Era uma foto de defunto. Morta, e maquiada como nunca em vida. Com data de chegada e saída deste mundo impressa na moldura.

O rapaz cambaleou. Primeiro se sentiu mal, o estômago revirou. Depois, insistiu e teimou. Não podia ser. A mãe, abismada com aquilo, o convidou ao Cemitério da Piedade, que ficava a poucos metros daquela mesma rua, para ver o túmulo de sua filha.

Eles caminharam até a sepultura. Lá estava escrito: “Carolina Sampaio”, com a foto da moça do baile. E sobre a lápide, o rapaz encontrou sua capa de chuva preta.

Cemitério da Piedade

Muitas versões desta história são contadas na capital alagoana. Há versões em que o rapaz é um caminhoneiro, outras, um taxista. Versões de uma Carolina do século XIX. Outras dos anos 1980. E talvez seja esta universalidade atemporal que torne uma lenda urbana como esta tão duradoura na história de uma cidade como Maceió. Vamos lá... é uma história de fantasma bem clichê. Daí o sucesso. A ponto de construírem um monumento com a forma de uma capa preta em sua sepultura.

Estive lá no último dia 2 de novembro, dia de finados, para conversar com as pessoas sobre a personagem e tentar descobrir mais sobre Carolina, ou do seu efeito no imaginário fantástico alagoano. O que esta fantasminha baladeira fez para merecer uma noitada com o belo rapaz? Será que é uma compensação pela morte prematura? Um conto sobre a perda da juventude?

Várias questões como estas passavam pela minha cabeça naquela manhã ensolarada no Cemitério da Piedade, bairro do Prado, em uma parte bem antiga da cidade. Muito movimento de floristas e vendedores de velas de todos os calibres, além de outros jornalistas, como eu, procurando histórias de morte e saudade. Enquanto isso, as famílias visitavam o repouso final de seus entes queridos.

Quando cheguei à sepultura de Carolina, a Mulher da Capa Preta, encontrei um arranjo de flores apenas sobre seu túmulo, a aquela capa preta construída em sua lápide. Tomei um susto com a presença silenciosa, encostada em outro túmulo próximo, de Sônia Maria, 41 anos, empregada doméstica, que observava compenetrada o túmulo de Carolina Sampaio. “Olá”, puxei conversa. Figura engraçada, Sônia me contou que vai lá visitar a Mulher da Capa Preta sempre, seja dia de finados ou não. “Estando viva, eu venho. Acho muito bonita a história.” Dito isto, começou a contar a sua versão, uma das tantas que ainda iria escutar naquele mesmo dia.

Sônia acredita no caso, e afirma que, ainda hoje, quando algum solitário a chama, Carolina vai ao baile com ele. Ela diz que, se não for real também, tudo bem: “Alguém pode fantasiar em sair na noite, misteriosa, e fingir ser ela, aproveitar uma noite apenas, e desaparecer. Eu, por exemplo, acho lindas aquelas moças de capa nos filmes de Nova Iorque”.

Arquitetura da morte

Uma jovem apareceu por lá também, e percebi que respondia questões e curiosidades dos visitantes. Falei com ela. Regina Barbosa, 24 anos, é arquiteta e está fazendo mestrado. Seu tema é a arquitetura funerária, onde estuda a importância do Cemitério da Piedade como patrimônio histórico e cultural da cidade de Maceió. Segundo ela, este foi o primeiro cemitério oficial da cidade, e data de 1850, solicitado via carta régia. Houve um estudo na época para a escolha do local. Hoje ambientalistas contestam a escolha, por conta dos gases liberados pelos mortos.

Regina também informou sobre um livro de 1972, que, segundo ela, não se encontra mais à venda, uma espécie de raridade, e que traz muitas informações sobre o local. Ela me contou algumas curiosidades sobre alguns mausoléus pomposos – como um de 1902 – e que ficam à vista de quem passa fora dos portões do cemitério, para demonstrar o poder da família perante a sociedade. Ou ainda, a divisão, não comprovada, entre áreas separadas para católicos, protestantes, e ateus, estes últimos, na verdade, proscritos da sociedade daquela época, como prostitutas e indigentes. Mas, segundo ela, não é possível constatar estas divisões. “O Cemitério da Piedade sempre foi conhecido como dos ricos, enquanto que o Cemitério São José, construído depois, é o cemitério dos pobres.”

Sua monografia de conclusão de curso também foi sobre cemitérios de Maceió, e consta como documento de referência na Secretaria de Controle e Convívio Urbano da capital, SMCCU. Regina já planeja um doutorado, onde vai pesquisar sobre como o traçado das cidades é influenciado pelos cortejos fúnebres. Em nada Regina parece alguém de gostos mórbidos, ou integrante de algum grupo gótico, ou qualquer coisa do tipo. Muito pelo contrário, jovem, loira, bonita e simpática, a pesquisadora parece uma moça comum, a não ser por um detalhe. “Sempre gostei de cemitérios, e durante o curso, resolvi estudar o tema”, revela.

Visitação intensa

À medida que o tempo passava mais e mais pessoas apareciam para visitar aquele túmulo, cada qual com uma teoria e uma nova versão do fato. Alguns até inventam, como a estudante de psicologia Maryana Santos, de 23 anos, com sua versão Cinderela. “Fosse eu a personagem, deixaria um sapato, em vez da capa.” Muitos – a maioria – especulam. Outros afirmavam que o túmulo ao lado era com certeza o do pai de Carolina. Vi uma garotinha, de uns 8 anos, perguntando ao avô enquanto caminhavam lá fora, na calçada: “É o pai da Capa Preta do lado dela?”. Ele acenou com a cabeça, confirmando.

Consegui desvendar alguns desses mistérios, com a ajuda de outros maceioenses como o analista de sistemas Marcio Martins, e sua esposa, Irna, que decifraram a data de nascimento e morte, gravada em algarismos romanos da seguinte forma:

✡; XXI – III – MDCCCLXIX

† XXII – XI – MCMXXIV

Ou seja, Carolina (1869-1924) não morreu tão jovem. Aos 55 anos, não era a garota na flor da idade da história. Com este mistério resolvido, vamos ao túmulo vizinho, do suposto pai de Carolina, dentro da mesma área de jazigo da família.

Fui dar uma volta e fazer umas fotos. Quando voltei, encontrei um grupo de jovens conversando com as pessoas próximas ao túmulo. Eram três estudantes da Universidade Federal de Alagoas. Rafaela Albuquerque e Ludmila Monteiro estudam Jornalismo, e Victor Mata é do curso de Letras. Ele  sugeriu a pauta de lendas urbanas para a publicação Mar Sem Ó, produzida pelos alunos de Comunicação.

“Nós conversávamos sobre como Maceió, tão diurna e tropical, tem, na verdade, um lado noturno e macabro, principalmente neste bairro e na região do Centro. Temos o Edifício Brêda (um dos prédios mais altos do centro da cidade, e notório local de suicídios), o IML, os Cemitérios, da Piedade, com a Mulher da Capa Preta, e o  São José, com o Menino Petrúcio, a quem se atribuem milagres. Então resolvemos pesquisar o assunto”, conta. Enquanto conversava com Victor, foi Ludmila que percebeu a data de morte e nascimento do túmulo vizinho. O morto tinha poucos anos de diferença de idade em relação à Carolina. Não era seu pai, e todos os investigadores presentes concordaram: o túmulo vizinho seria, muito provavelmente, do irmão de Carolina...

A questão do respeito aos mortos

Chega de solucionar mistérios. Afinal, grande parte da graça, do interesse das pessoas, da magia e longevidade de uma história como esta reside justamente em estar encoberta de mistérios. E não tenho a intenção de desmitificar ou desmentir causo tão popular da minha querida Maceió. Afinal, trata-se de um verdadeiro patrimônio cultural.

Durante toda a minha visita, conversando com os visitantes que passavam pelo túmulo da Mulher da Capa Preta, percebi que o assunto do bloco de carnaval, que sai da porta do cemitério à meia-noite, era tabu. Escutei muitas vezes que se tratava de “coisa de mau gosto”, ou que “não é certo brincar com os mortos”.

“Coincidência ou não. Sempre tem acidente, briga e morte quando sai esse bloco. Coincidência, ou não!”, reforçou Vanancir da Costa, de 32 anos, referindo-se ao atentado do ano passado, quando um sujeito saiu dirigindo seu automóvel por cima dos foliões do bloco Mulher da Capa Preta, deixando dezenas de feridos. Vanancir visitava o cemitério com sua mãe, Vanuzia da Costa, 70 anos, que também deu sua opinião: “Eu mesma que não tinha coragem de brincar com quem está morto. Esta história da Capa Preta, meu filho, é real. Real mesmo. Aconteceu".

Mas ninguém leva a história tão a sério como Milton da Silva, 40 anos, estudante de química na Ufal e professor em escolas particulares de Maceió. Milton chegou ao túmulo e abriu a portinhola da pequena cerca em volta das sepulturas de Carolina e seu provável irmão. Começou a limpar tudo e acender velas para a Mulher da Capa Preta. “Você é parente dela?”, perguntei. “Não”, ele respondeu.

Milton é espírita e acredita que Carolina é um espírito de luz. “Nenhum espírito aparece para alguém como ela fez por nada. Acredito muito nela, e sempre estou aqui cuidando e acendo velas para iluminar seus caminhos.” Quase um devoto, Milton condena com ar de revolta a questão do Bloco Carnavalesco Mulher da Capa Preta: “Um desrespeito. Um absurdo. Para mim aquilo é uma vergonha”.

Uma pergunta me veio à mente. “Já que a história é verdadeira, o que aconteceu com o rapaz apaixonado do baile?” Milton respondeu coberto de certeza: “O rapaz morreu louco”.

Desejei-lhe melhor sorte, me despedi dele, de Carolina e do Cemitério da Piedade.

Bloco Polêmico

Passado o Dia de Finados, fui conversar com Marcos Catende, criador do Bloco Carnavalesco Mulher da Capa, e proprietário de uma churrascaria, onde aproveitei para comer uma carne de sol no intervalo do almoço, enquanto conversávamos. Marcos confirmou que muitas pessoas são contra o bloco, que completa 12 anos de existência no carnaval do ano que vem. “Recebo muitos telefonemas anônimos me esculhambando por causa disso, e até ameaças, por mexer com os mortos.” Sobre o acidente do ano passado, ele dá sua versão. “A mulher do sujeito foi para o bloco pular o carnaval, disse a ele que saía todos os anos e não seria este ano que deixaria de ir. Enciumado, o sujeito ficou esperando em uma esquina, e saiu atropelando todo mundo”, conta

Catende se defende e explica que o bloco não passa de uma brincadeira com uma personagem do bairro. Ele conta como tudo começou. “Eu fui dono de um bar aqui perto. Um dia estava com os caras em uma farra e eles me contaram a história. Resolvi montar o bloco. Os colegas ficaram com medo e desistiram. Já eu passei dez dias no Cemitério da Piedade e arredores, pesquisando o assunto, e desde o ano 2000 o bloco sai todos os anos, a partir da meia noite.”

Além deste bloco, Marcos, que é natural de Pernambuco, fundou outro, no município de Catende (PE), o Bloco Mulher da Sombrinha, história parecida do cemitério de lá, sobre bela mulher que seduz homens na noite, e após o romance, o sujeito acorda sobre sua sepultura. Além disso, sua churrascaria fica em frente ao Cemitério São José. “Eu não sei o que é isso. Certa vez fui a um centro espírita e lá me disseram que eu não deveria ir aos cemitérios. Disseram que, quando eu vou, sai um bloco de mortos atrás de mim.”

Ele ainda me contou alguns casos da Capa Preta, como o taxista que pegou um passageiro nas imediações do cemitério rumo ao bairro da Pajuçara, “alvoroçado, branco e suando, que jurava ter visto a Mulher da Capa Preta”. Ele mesmo diz ter visto a assombração em um bar, certa vez. Os foliões do bloco também juram, de pés juntos, terem encontrado uma mulher muito pálida, vestida de negro e com a pele gelada, curtindo o bloco de carnaval, no meio da multidão.

*Essa matéria foi editada e faz parte da edição nº 4 da Revista Overmundo.

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gteixeira
 

Gostei do relato, apesar de ser uma história bastante conhecida, aqui em Salvador, também tem histórias iguais, como a do taxista, que conhece uma loura e a leva em casa, no outro dia vai buscá-la e o endereço é o cemitério das quintas dos Lázaros. Outras com o mesmo enredo fazem parte do imaginário popular, principalmente os taxistas, Por aqui também tem a mulher de roxo que vive andando (penando)pela Rua Chile e namora um taxista, vivo.
Você fez muito bem o desenrolar do tema apesar de conhecido, o que torna mais dificil e mais rico e valorizado seu trabalho.
Parabéns, maravilha, adorei e ri o bastante com a estória.
Gteixeira

gteixeira · Salinas da Margarida, BA 10/1/2012 21:29
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Marcelo Cabral
 

Obrigado pelo comentário GTeixeira. Pois é, como eu disse, é um caso de fantasma bem clichê, devem ter muitas versões Brasil afora. Bom saber das assombrações da Bahia no teu comentário. Será que tem mais de outros estados? Comentem suas aparições locais por aqui. Abraços.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 11/1/2012 17:31
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