A construção de toda muralha é realizada para separar um lado de outro, protegendo o lado de dentro contra o lado de fora (ou em alguns casos, o lado de fora contra o lado de dentro). A idéia é mais ou menos simples: qualquer pessoa que se depare com a muralha não consegue atravessá-la e é obrigada a se conformar com sua impotência. É diante de uma muralha que o dramaturgo alemão Tankred Dörst ambienta A Grande Imprecação Diante dos Muros da Cidade.
A peça conta a história de uma mulher chinesa cujo marido fora convocado para integrar as tropas do Imperador. Após algum longo tempo sem seu retorno, ela parte até a muralha para exigir do Imperador a "devolução" de seu marido. Logicamente não consegue falar com o imperador, mas seus interlocutores - os guardas de plantão - lhe propõem um trato, em nome do imperador: caso ela consiga identificar seu marido entre os soldados dentro de suas armaduras, ele estará livre para voltar para casa. Ela escolhe um soldado aleatoriamente e os dois (ela e o soldado) precisam provar que realmente se conhecem e são casados. Os soldados se divertem com a saia justa em que os dois se meteram. Com esta fábula, Dörst não se propõe a ilustrar uma historinha isolada: ele cria metáforas interessantes sobre a inconsistência das relações conjugais, sobre uma visão do papel da mulher e do homem na sociedade e sobre relações políticas de poder e suserania. Muitos lados de muitas muralhas.
Na montagem em cartaz no Ágora, a cenografia integralmente dourada se apropria de um corredor nos fundos do teatro, fazendo analogia ao formato da grande muralha de forma simples e eficiente. O figurino, sem exageros, é elaborado na medida certa para contrastar com o minimalismo do cenário. Apesar do naturalismo da montagem não ser exatamente a linguagem favorita deste que aqui escreve, sua execução e sobretudo as atuações (com destaque para a performance excelente de Renata Zanetha) tornam o espetáculo dinâmico e não deixa a inteligência do texto se perder em firulas de produção.
Publicado originalmente na Revista Bacante.
Maurício Alcântara · São Paulo, SP 31/5/2007 18:10
Muito interessante, principalmente estas várias visões, a partir da muralha.
Obrigada.
beijos
Realmente, a peça é realmente bastante interessante e acho inevitável pensar no sentido das muralhas, sejam elas quais forem, Saramar... Só acho que a montagem poderia ter sido bem mais interessante se fosse menos naturalista... mas enfim...
Obrigado pelo comentário!
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