Capitu, minissérie em cinco capítulos que estreou dia 9 na Rede Globo, apresenta-se como uma tentativa de reunir literatura, teatro e televisão com altas doses de experimentalismo. Tentativas ousadas como esta devem ser reverenciadas não apenas por ser um sopro de vida em meio ao marasmo que domina a televisão brasileira nos últimos anos, mas também por inserir elementos inovadores nessa mídia, fugindo dos padrões já tão estabelecidos na televisão.
Machado de Assis somado a uma pequena dose de rock n’ roll e com um ar de filmes como Moulin Rouge. Capitu é uma experiência visual bastante interessante, principalmente no que diz respeito a sua audaciosa direção de arte e fotografia. A escassez de cenários e o tom lúdico e teatral adotados corroboram o clima que Luis Fernando Carvalho tem buscado em suas últimas experiências televisivas como Hoje É Dia De Maria, por exemplo. Nesse caso, a aposta em cores saturadas só enriquece a obra. A trilha sonora é outro ponto a se destacar, regada a pop rock, a música constrói a atmosfera da série de forma eficiente, apresentando densidade e leveza nos momentos certos. A opção de apostar em uma trilha sonora moderna, muito distante da época em que se passa a série nos remete a experiências similares cinematográficas, como é o caso dos filmes Moulin Rouge e Maria Antonieta, por exemplo.
Contudo, Capitu não é perfeita. Como citado acima, o tom adotado para narrar a versão televisiva do clássico Dom Casmurro de Machado de Assis, é o teatral, isso se reflete tanto na já citada escassez de cenário quanto nas atuações das personagens proporcionando altos níveis dramáticos, gestual e expressões exacerbados, o que beira o caricatural. A figura do narrador é sempre um risco, pois muitas vezes este tende a contar o que não é necessário ser narrado, aquilo que pode muito bem ser contado em imagens. O tom adotado pelo narrador interpretado por Michel Melamed é, assim como pelo restante do elenco, muito dramático e espetaculoso. É certamente, um elemento poético na série, o ator é muito carismático e consegue fugir um pouco do farsesco apresentando uma mescla de encantamento e insanidade, sendo assim condizente com o clima de Capitu.
A linguagem (por ser quase uma transposição literal da obra original) é um tanto arcaica. Isso somado a câmera ágil e uma edição que pode parecer confusa para alguns, com cortes abruptos e uma narrativa longe do convencional fazem de Capitu um universo hermético que pode atrair a nova geração mais pelo visual mesmo, atrativo e cheio de criatividade, do que pela linguagem. Outro fator que prejudica um pouco é as vinhetas que anunciam os personagens e situações, apresentando-se quase como capítulos de um livro. Soa quase infantil e desnecessário. O próprio narrador – o Dom Casmurro – poderia apresentar os “capítulos”, ao invés de inscrições e vozes radiofônicas invadirem a tela.
Mas em meio a tantos méritos e deméritos, um ponto a favor da série não pode deixar de ser citado: a atuação de Letícia Persiles, com um olhar expressivo e uma voz forte. Nada mais do que uma grande estrela sendo anunciada.
As propagandas da minissérie não diziam muito (aliás, não diziam quase nada) sobre ela, assim como Capitu diz muito pouco sobre Machado de Assis e sobre a obra original na qual se baseia. Em certos momentos, Capitu ganha contornos de um conto de fadas psicodélico. A entonação das personagens só contribui com um clima lúdico que nunca esteve presente nas obras machadianas, dando a impressão de que embora as palavras, letra por letra, tenham sido fiéis ao original de Machado, ao abraçar liberdades poéticas a fidelidade some e em parte o espírito é traído. O que não é necessariamente ruim, pois mostra o quanto Luis Fernando Carvalho continua um autor, no sentido mais grandioso da palavra. Mas se alguém pensa que vai conhecer Machado através da minissérie Capitu, está redondamente enganado. E os fãs puristas do livro podem ficar irritados com as liberdades tomadas.
Com tantas coisas, ela acaba por ser eloqüente demais. Interessante a proposta de apresentar uma narrativa que fuja do convencional, inserindo tantos elementos incomuns e inovadores na televisão brasileira. Entretanto, é necessário saber dosar bem esses elementos, para não correr o risco de que a proposta acabe soterrada pelo conjunto da obra. Mas que ela deve ser aplaudida pela ousadia, inventividade e por um conteúdo que foge da vulgaridade, isso é inegável.
Olha, eu vi. Achei bem bonito visualmente, mas bem confuso também. Não sei se o problema era meu, mas tive dificuldade de entender certas falas do Melamed. Acho que pelo menos este primeiro capítulo não conseguiu resolver bem a necessidade de contar a história e ser ousado/bonito visualmente.
Acabei com a impressão de que na propaganda era melhor, quando só tinha a música forte e as imagens lindas. Ou seja, a impressão é de que funciona bem como clipe, mas não pra contar uma história.
Mas foi só o primeiro capítulo, vejamos o resto... Valeu pelo texto, você tocou nuns pontos que eu não tinha atentado. Abraço!
Concordo, na propaganda parecia melhor... mas vou continuar acompanhando para ver se a impressão muda.
Até mais.
Experimentalismo é uma ousadia sadia (!) para uma TV aberta (normalmente fechada, lacrada para cultura). Só pelo fato de estar passando na Globo já é uma bela e grata surpresa
Paulo Esdras · Brumado, BA 12/12/2008 17:55Parece que a critica do alto e do medio publico da tv, fala a mesma lingua...
victorvapf · Belo Horizonte, MG 14/12/2008 15:27
Assiste toda a minissérie e não achei “confuso”. O que vi foi um programa de alta qualidade. Luiz Fernando Carvalho mais uma vez está de parabéns. Foi uma celebração digna aos 100 anos da morte do mestre do realismo nacional, Machado de Assis.
Também não vi “Moulin Rouge” em nenhuma parte da minissérie. São duas obras totalmente diferente em proposta e produto final.
A escassez de cenários faz parte da própria obra literária. A historia é transmitida por Bentinho. E quem era esse personagem? Uma mente transtornada pelo ciúme. Acredito que a proposta do diretor era criar um ambiente psicológico do narrador. Não esquecendo que, a principal característica de Machado de Assis é a análise psicológica dos personagens. Então, não estranhei ver uma Capitu com contornos de um conto de fadas psicodélico.
Outra característica do realismo de Machado era a preferência por personagens populares e vulgares, beirando ao caricatural mesmo.
Achei tudo bem feito e maravilho.
Abraços!!!
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!