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A música baiana nasceu na Argentina

Cury
Este é apenas um dos 200 discos com o nome de Nestor Madrid
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Cury · Salvador, BA
16/12/2008 · 176 · 3
 

Apesar de toda a nostalgia que a cerca, muitos reclamam da década de 80.
– A moda no anos 80 foi um li-xo – dizem os estilistas.
– Tivemos os piores dirigentes – dizem os cientistas políticos.
– Foram feitos os piores discos – dizem os roqueiros.
Até nisso o rock e o axé parecem antagônicos, pois os anos 80 foi “onde foram feitos os melhores discos de axé, as melhores músicas”, dizem os axezeiros e até os próprios roqueiros.
Artistas como Luiz Caldas, Banda Reflexu’s, Margarete Menezes e Chiclete com Banana fizeram músicas que marcaram toda uma geração. Mais que isso, nos anos 80 eles fizeram discos que marcaram toda uma geração. O disco todo era pensado como um álbum e não apenas como uma lingüiça cheia. E não estou falando das letras, ferida mais atacada da axé music, pois ela não é o que faz a diferença. Estou falando do cuidado no que iria se expor, na preocupação dos timbres, na busca pelo novo, nas melodias...

Esses citados acima são conhecidos como os pais e as mães da axé music. Durante toda a década de 80 produziram canções que continuam nas memórias de muitos baianos e de muitos brasileiros.

Buscando conhecer a história de como tudo começou, pelo menos algum indício deste começo, procurei talvez a pessoas com maior autoridade pra falar no assunto, Nestor Madrid, produtor musical de quase todos os discos daquele momento. Se aqueles artistas são os pais da axé-music, Nestor é o avô. Com sua assinatura, foram sete milhões de discos vendidos.

Nos encontramos num início de noite e ficamos conversando por duas horas. Comecei do começo, perguntando como que aquilo tudo começou. E tudo começou no bar.

Como toda história, essa é pautada pelas pequenas escolhas. Nestor chegou da Argentina em 1980, com 22 anos de idade. Veio visitar a Bahia como turista e aproveitaria para rever o amigo, Guimo, também argentino e também músico, baterista. Nestor é baixista e Guimo o levou ao lugar onde os músicos se encontravam em Salvador, que era o “Vagão”.

Antes de qualquer gravação e qualquer estrutura, o Vagão era o local onde se encontravam as vertentes musicais. Os músicos estrangeiros que chegavam aqui, iam pra lá e se encontravam com os músicos locais, como Luiz Caldas, Gerônimo, Carlinhos Brown...

– Acredito e posso falar que foi o primeiro momento onde se misturaram esses ritmos musicais, porque a galera de fora trazia informações de salsa, rumba, merengue e dos diversos ritmos latinos, e os meninos, toda aquela galera, Gerônimo, Luiz, Brown, Tony Mola... vinham com as informações dos ritmos afro-brasileiros. Ali foi o início da axé music – afirma Nestor, com seu sotaque baiano-portenho.

Com seu dinheiro acabando, Nestor precisava arrumar um trabalho. Como ele tinha trabalhado em estúdio na Argentina, perguntou a um amigo se ele sabia da existência de algum em Salvador e o amigo o levou a um precário estúdio de jingles publicitários, de propriedade de Wesley Rangel, estúdio WR. Averiguando o estúdio, Nestor percebeu que ali não tinha muitas condições de se fazer algo em matéria de música e comunicou isso, sem nenhuma pretensão, a Rangel, cujo o sonho era ter um estúdio de gravação profissional. O visto de Nestor era de três meses e Rangel propôs a ele que fosse pra Argentina, resolvesse a papelada e voltasse de vez pra ajudá-lo na profissionalização, tanto em equipamentos como em mão de obra, do WR. Nestor, já apaixonado pela Bahia, nem pensou duas vezes. Voltou pra Argentina e veio de vez pro Brasil. Assim que chegou, Rangel comprou um gravador de oito canais, uma mesa de doze, microfones, bons instrumentos musicais, guitarras Gibson, baixos Fender, e montaram a primeira estrutura.

A necessidade financeira obrigava o estúdio a continuar produzindo jingles. Hoje, os jingles são gravados por um homem e um computador, mas na década de 80, os jingles eram tocados ao vivo, por bandas e, para o barateamento dos custos, o estúdio passou a ter bandas fixas nessas gravações. O bom e velho “pacotão”. Isso para poder concorrer com os mercados de publicidade carioca e paulista. Uma dessas bandas era a Acordes Verdes, primeira banda de Luiz Caldas, que contava com, entre outros músicos, Carlinhos Brown na percussão. Gravaram muitos jingles, Nestor os produzia e, nesse trabalho, conheceu então a banda que seria a sua maior parceira. O Chiclete com Banana tinha sido contratado pra gravar um jingle da Brahma e foram até a WR.
– Esses jingles fizeram sucesso, ainda existem? – perguntei.
– Sim, fizeram muito sucesso... tanto é que nos shows eles tocavam um mesclado de todos eles. A galera ia à loucura.

Percebendo o frescor, a vitalidade e a alegria que esses artistas e suas músicas traziam, mesmo em canções de 30 segundos pra vender sabão em pó, Rangel começou a liberar as horas vagas do estúdio para que eles gravassem suas composições próprias. Nenhuma expectativa foi criada em cima disso. Esses discos foram feitos pra vender 1000 cópias no carnaval. Eles eram o que chamamos hoje de artistas independentes. Porém, por uma questão até sociológica, os grandes artistas do carnaval baiano dessa época, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, moravam no Rio e em São Paulo, fazendo o público baiano só os ver uma vez ao ano, que era durante o carnaval, criando assim um enorme vazio artístico na cidade, que precisava ser preenchido. Era o público quem pedia isso e o que foi feito pra vender 1000, vendeu setenta vezes mais. O primeiro disco do Chiclete com Banana produzido por Nestor (Sementes, de 1984), na WR, chegou ao estratosférico numero, para os padrões da época, de 70 mil cópias vendidas.
– Ninguém ali poderia imaginar que depois de um jingle venderíamos juntos três milhões e meio de discos – diz Nestor, sobre as vendas com o Chiclete.
O disco Magia, de Luiz Caldas, veio no rastro e fez Luiz rodar o Brasil todo, “com sua nega do cabelo duro” se tornando o mais pai dos pais da axé. As grandes gravadoras passaram a olhar pra Bahia com outros olhos, ouvidos e bolsos. Escritórios aqui foram abertos, na procura de novos e talentosos artistas. Acharam muitos. Venderam muito. Cada vez mais. De 70 mil foram pra 100 mil, 300, 400, um milhão, número alcançado pela primeira vez com a banda Reflexu’s e seu Madagascar Olodum.
“Iêêê sakalavas oná ê, iááá sakalavas oná ah, Madagascar, ilha, ilha do amor”.
Curiosamente, o disco do Chiclete que mais vendeu foi quando Missinho saiu. Missinho foi o primeiro vocalista e um dos principais compositores da banda, autor do sucesso Tiete do Chiclete, com os versos “ô maluquete, de quem você é tiete? Eu sou, sou tiete do Chiclete”.
– Existia essa dúvida de que “será que o Chiclete vai ter tiete sem Missinho? Mas como a Bahia é muito doida, o primeiro disco sem ele foi o que mais vendeu até hoje – disse Nestor, sobre Gritos de Guerra, de 1986, que alcançou a marca de um milhão de cópias vendidas.

A Bahia foi nessa levada até os anos 90, quando surgiu um outro axé. O chamado “axé ruim”, pelos detratores.

Uma questão emblemática é que essa fase começa quando um outro produtor de fora, também baixista, chegou em Salvador. Liminha, ex-Mutantes, uma das bandas mais inventivas e inovadoras do mundo, e produtor de sucessos dos Titãs, Paralamas, Kid Abelha... veio gravar o disco da promissora cantora Daniela Mercury. Era o novo passo a ser dado. Era a vez do Brasil todo consumir. Quando Liminha chegou na WR, fez como Nestor:
– Não vai dar pra gravar aqui, a não ser que se invista em equipamentos.
E mais uma vez equipamentos novos foram encomendados e Daniela Mercury virou fenômeno nacional, abrindo a porta dos anos 90 para o carnaval baiano.
– A vinda de Liminha foi fundamental. Liminha tinha muitos sucesso, eu também tinha milhões de discos vendidos, mas ele era Liminha, tinha nome no Brasil todo, então, quando o disco de Daniela chegou nas rádios com o nome dele, isso foi fundamental pro seu sucesso – avalia.

Mas para Nestor, ainda mais marcante que Daniela, na axé music dos anos 90, foi a volta do samba através do pagode baiano, com Gera Samba que, conseqüentemente, virou É o Tchan, outra cria dos estúdios WR. Vários passos foram dados.
– Você produziu algum disco do É o Tchan?
– Produzi o primeiro sucesso, quando ainda eram Gera Samba. Produzi apenas a música "Trenzinho da Sacanagem", lembra dessa? – perguntou.
– Como não lembrar? Então você é um dos culpados, hein?
Cantarolei “Gera, ô ô ô ô, trem do amor, á á á,
;;;Gera mais… amizade”.
A letra continua com:
“
;;;Todo mundo na viagem, no trenzinho da sacanagem. Olha só como assobia, o trenzinho da alegria. Vou no thaco ou no tchu-tchu, no trenzinho de norte a sul…”
Ele riu e disse:
– Essa galera entrou na casa de todos os brasileiros, de todas as classes sociais. Nós, que viemos antes, entramos menos, pois tínhamos um visual mais ofensivo, tínhamos nossa própria estética. Os músicos usavam roupas extravagantes, coloridas, brincos, cabelos grandes... Isso nos anos 80 ainda chocava.
– Isso era influencia do rock and roll? – perguntei.
– Claro, com certeza. Eu sou roqueiro, todos os músicos dessa época são roqueiros, Luiz, Bell... O Chiclete tem uma música chamada Rock e Paixão – lembra Nestor.

Ironicamente, foi no início dos anos 90 que a Bahia produziu umas de suas mais expressivas bandas de rock and roll e, mais ironicamente ainda, com a frase “Produzido por Nestor Madrid” no encarte do disco.
Sem nenhuma experiência no estúdio, a banda foi pedir ajuda na WR. Queriam gravar um disco. Diferentemente da rixa rock X axé que acontece entre o público, e até entre os artistas, Rangel abriu as portas do estúdio para o Úteros em Fúria entrar.
– Eu na verdade nem produzi, só ganhei o mérito, o lance é que eu sempre acreditei nos desacreditados. E o rock sempre precisou disso. Ajudei eles nessa coisa de levar pra WR... mas gostaria muito de ter feito aquele disco, foi uma pena que eu não tivesse tempo na época. A Úteros em Fúria foi uma agradável surpresa.

Já em meados dos anos 90, enquanto a axé music superava todos os limites, de baixaria e de vendas, como sempre no antagonismo entre os dois, o rock baiano apresentou ao Brasil suas três bandas mais expressivas do cenário alternativo até hoje. Cascadura, brincando de deus e Dead Billies. Cascadura tinha uma influência mais setentista, do rock and roll clássico. Brincando de deus (em minúsculas) usava de referenciais mais contemporâneas, oriundas do rock inglês dos anos 80 e Dead Billies usava do rockabilly e dos filmes B para se expressar. Todas bem distintas, sem se parecer em nada. Nem imagem, nem som. Mas se você olhar no encarte desses discos, verá uma coisa em comum. A frase “Produzido por Nestor Madrid, nos estúdios WR.”

– Qual o balanço hoje que você faz das bandas de rock de Salvador? – perguntei.
– Na época dos 80, as bandas da axé music eram tipo uma cooperativa, por isso a gente venceu. Luiz cantava a música de Chiclete e vice-versa. Assim mostramos que era possível ter um mercado, pois a única forma de atingir a massa era com essa generosidade, isso também é rock and roll, e não apenas tocar com guitarra distorcida. Na época que o rock 90 começou, a gente viu essa necessidade de união, mas o lance é que no discurso do rock estava “axé music é uma bosta, só fala de besteira, ninguém toca nada, axé music é meu inimigo”, sem saberem eles que o artista nunca foi quem mandou em nada, em nenhum segmento da música, e mais, até entre os próprios roqueiros existia a segregação do “eu sou hardcore e você é metal”, virou um Bahia e Vitória. É aquela coisa adolescente do rock, da rebeldia, que, infelizmente, eu não tive a sorte nem a capacidade na época de implantar o que implantei no axé, que era todos serem uma coisa só. Mas, falando em talento, essas bandas eram incríveis, todas com suas propostas de estética e composição, e a coisa que mais me chamava a atenção, que eu acho até engraçado, do meu ponto de vista, era que eu não conseguia enxergar coqueiros na música deles, e isso me intrigava, ficava abismado em como eles não se influenciavam por essa paisagem, pelo tropicalismo... Por outro lado, isso também é rock, pois rock é pra contestar. Se o mercado diz que A é o bom, vou ser contra o A. É a contradição do rock e da vida.

A partir dos anos 90, podemos dizer que Nestor ficou mais tranqüilo. Como ele mesmo disse que gosta de acreditar nos desacreditados, passou a trabalhar com artistas independentes que tivessem alguma proposta musical que lhe soasse interessante e se afastou um pouco da axé music, porém, ainda trabalhando nos estúdios WR. Essa calma artística perpetuou até hoje, 2008, quando ele completou 50 anos de idade, ainda dentro dos estúdios, fazendo música, contudo, longe dos holofotes. E para ele, nesses anos todos, mais importantes que os milhões de exemplares vendidos são os 200 discos em sua trajetória de produtor.

Pedimos a conta e fiz minha última pergunta:
– Nos anos 80 você não fez nada de rock and roll propriamente dito?
– Produzi a primeira fita-demo do Camisa de Vênus, na WR. Essa fita foi apresentada a uma gravadora, que assinou contrato com eles, que também venderam milhares e milhares de copias...

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Jarbas Jarras
 

Excelente trabalho de historiografia da música. Parabéns!

Jarbas Jarras · Rio de Janeiro, RJ 16/12/2008 01:05
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Muito interessante o que ele fala sobre a generosidade que catapultou o axé pras paradas de sucesso... Dá o que pensar e relacionar com os tempos atuais, com os novos modelos de negócios da música. Legal de ler e ver no vídeo, com aquele sotaque mezzo argentino mezzo baiano. :)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 16/12/2008 20:02
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Zezito de Oliveira
 

Cury,
Excelente matéria.
Na atualidade a grande maioria dos artistas ligados ao "axé music", buscam repetir a formula fácil do sucesso e se tornam verdadeiros caça niqueis. Foi muito bom brincar carnaval ao som da banda Mel, Chiclete, Cheiro de Amor, Netinho e tantas outras Hoje só ouço coletâneas que fiz das músicas mais antigas e originais desses artistas. Ao contrário, Daniela Mercury, escapou disso e continua fazendo sucesso, se não como era antes, ao menos sem perder o brilho e a força poético/criativa das canções.
Abrs,

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 16/12/2008 20:43
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