Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

A música da eternidade

1
Henry Burnett · São José dos Campos, SP
5/7/2006 · 2 · 2
 

Na sexta-feira 05 de maio, nesta igreja, chamada St. Burchardi, em Halberstadt, na região da saxônia alemã, aconteceu uma leve mudança de um acorde numa peça estimada para durar 639 anos. Sim, mais de seis séculos! Composta por John Cage, chama-se “As slow as possible”, literalmente “Tão lento quanto possível”. Para além do absurdo aparente, o projeto é muito real.

John Cage estudou com Arnold Schoenberg, que por sua vez foi o criador do sistema dodecafônico que rompeu com o sistema tonal que chegara ao seu ápice no final do XIX início do XX. Como não se entenderam no quesito harmonia, Cage abandonou Schoenberg e partiu para a criação do que ficou consagrado como “Música aleatória”, igualmente de vanguarda e completamente avessa à tradição que conhecemos por clássica.

Claro que não se trata de um concerto clássico isto que ora se realiza a sudoeste de Berlim, isso parece óbvio; clássico para nós brasileiros é quase sempre relacionado com sofisticação musical, glamour, Teatro Municipal. Música clássica não é isso, ou não é só isso; mas também é assunto para outro texto. Voltemos a Cage.

O grupo de músicos que executa o projeto na Alemanha imagina que novos seguidores virão, e que a peça soará lenta e gradualmente até o ano 2639... não duvidem, os alemães são capazes de fazê-lo (para quem quiser conhecer o projeto com detalhes basta clicar aqui). O que uma música pensada para durar seis séculos pode querer nos dizer?

Não preciso forçar a inteligência de ninguém pra afirmar que a peça de Cage tem uma intenção nítida: ir de encontro com nossa avidez contemporânea. Queremos tudo, agora, rapidamente. Não importa que nossa angústia esteja cada vez mais incorporada às nossas vidas por conta disso. Cage nos chama de volta à calma, ao vagar; será possível desacelerar?

A música não mudou sozinha, mudaram os ouvintes. Quem gosta de sentar em casa, reunir os amigos e escolher uns discos realiza um ato cada vez mais anacrônico, passado. Para o bem ou para o mal. Queremos um iPod – o novo modelo vem com capacidade para armazenar 15.000 músicas. Parece importar cada vez menos que músicas serão essas.

A impraticabilidade do ouvido humano em escolher algumas músicas entre 15.000 assim, de repente, no ônibus, na rede(!?), de nada importa. Basta imaginarmos que teremos toda nossa coleção e mais um pouco para nos sentirmos saciados. A tecla “shuffle” que enlouqueça para selecionar aleatoriamente por nós.

Cage não quer que ouçamos a peça, ato impossível, por motivos óbvios; ele quer que cada pequena célula fale pelo todo. Estar ali, no momento da mudança do acorde, é fazer parte da história do homem, de suas faltas, de seus acertos. Pouco importa que o som final jamais possa ser condensado, que não haja totalidade. A música deve pairar acima e principalmente além dos homens, como que para mostrar que esse período de nossas vidas, comparado ao sopro universal da música que nunca emudece, não significa nada, de nada importa.

Essa nossa pequenez diante do universo/música certamente será notado por poucos, como quase tudo que há de bom nessa vida. Reconhecer nossa insignificância já seria um grande passo para uma vida mais plena, mais saborosa, menos devotada aos vazios da mediocridade. Saber-se nada é um grande passo rumo à excelência.

Publicado no http://henryburnett.blogspot.com/

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Helena Aragão
 

"Para quem quiser conhecer o projeto com detalhes basta clicar aqui". Oi Henri, acho que nessa parte do texto você esqueceu de colocar o link na palavra "aqui". Valeu!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 3/7/2006 15:46
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Henry Burnett
 

Obrigado Helena

Henry Burnett · São José dos Campos, SP 3/7/2006 16:24
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados