A música de nosso 'Brazil'

Foto da capa do livro - foto de Jason Gardner - todos os direitos reservados
Maciel Salu na zabumba e Dinda Salu no ganzá, em Olinda - foto de Jason Gardner
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Leonardo Martinelli [ www.outramusica.org ] · São Paulo, SP
13/2/2007 · 181 · 19
 

Falar da música brasileira é uma tarefa espinhosa: nossa cultura musical é ampla, compreende uma grande extensão geográfica e suas raízes históricas, apesar de detectáveis, ainda carecem de estudos mais aprofundados (além da difusão daqueles já existentes). Muitos brasileiros já se aventuraram por estas sendas tão densas e perigosas, pesquisando nichos específicos de nossa cultura musical. No entanto, mais perigoso ainda é realizar uma impressão generalista sobre esta cultura musical tão plural, e a tarefa torna-se de maior risco quando se tem como objetivo explicar a música no Brasil para uma audiência que, possivelmente, pouco conhece além dos estereótipos difundidos mundo afora, isto é, a trívia “samba, carnaval e bossa-nova”.

É justamente este o propósito do livro “Music in Brazil”, escrito pelo músico e pesquisador norte-americano John P. Murphy, e que apenas recentemente está mais acessível nas livrarias brasileiras. Integrante da série de livros didáticos “Global Music Series”, publicados pela editora da universidade de Oxford, a série abrange diversas culturas musicais mundo afora, um segmento que se convenciou chamar de world music, e inclui títulos sobre a música em Bali, Egito, Java Central, EUA, entre muitos outros. Além dos volumes geograficamente temáticos, a coleção edita também outros dois voltados para a conceitualização teórica do assunto: “Teaching Music Globally”, de Patricia S. Campbell, e “Thinking Musically”, de Bonnie C. Wade, ambas coordenadoras da série.

É sob a perspectiva de uma obra didática que o livro de Murphy deve ser entendido. Deve-se, então, levar em conta tanto seus propósitos e público como sua diminuta dimensão (menos de duzentas páginas). Entretanto, nada disto diminui o mérito da obra, que se mantém interessante inclusive para nós, brasileiros.

Para dar conta da tarefa, Murphy – que morou no Brasil e se comunica em português com fluência – propõe três visões sobre a nossa música: 1) “Música e identidade nacional”; 2) “Música e identidade regional” e 3) “Cosmopolitismo musical”.

Na primeira parte do livro o autor detém-se sobre a questão do samba enquanto nossa “música nacional”, partindo de seus primórdios históricos e chegando até um pequeno panorama atual e multifacetado deste gênero. É ainda nesta parte do livro que explica outros gêneros ligados à identidade geral da cultura musical brasileira, tais como o choro e a bossa-nova. Na segunda parte, Murphy se detém sobre gêneros regionais que, apesar da suposta limitação geográfica, são de suma importância no caldeirão musical brasileiro, tais como o forró, a capoeira e a música das festas religiosas nordestinas (maracatu, bumba-meu-boi, etc.). Na última parte, o autor debruça-se sobre a complicadíssima tarefa de realizar um panorama da atualidade musical brasileira e alguns de seus gêneros. Aqui o autor dá ênfase gêneros da cena musical do Recife (notadamente Mangue Beat, de Chico Science e Nação Zumbi), cidade onde o autor morou por vários anos.

Apesar da necessidade pragmática de definições claras e diretas, Murphy não conduz o leitor a uma visão unívoca dos temas que aborda, algo de muita importância quando se tem em mente que o público-alvo é justamente os estrangeiros. Um ponto de relevância na obra é a boa quantidade de exemplos em forma de partitura e de análises musicais, além das amostras em áudio presentes no CD que acompanha o livro. O website do autor completa a suíte de material didático. É notável o esforço do autor em explicar ao público certas minúcias de nossa cultura (como, por exemplo, quando alerta o leitor da carga de preconceito que existente no Sul e Sudeste sobre o sotaque dos nordestinos).

Mesmo tendo em conta os propósitos da obra, seu calcanhar de Aquiles é a virtual ausência de referência às atividades musicais de caráter mais “internacional” em solo brasileiro, tais como as diversas correntes do rock-pop não miscegenados, bem como do jazz e da música clássica. O caráter didático da obra torna urgente a correção do mapa do Brasil (afinal, nosso litoral não é banhado pelo Golfo do México e a capital do Acre não é “Rio Braneo”).

O livro, evidentemente, não esgota o assunto (e nem é este seu propósito), mas pode ser uma boa introdução ao universo musical brasileiro. Inclusive para os próprios brasileiros.

No blog www.outramusica.org é possível ler a entrevista realizada com o autor de "Music in Brazil", o norte-americano John P. Murphy.

Serviço:
“Music in Brazil” de John P. Murphy, 173 págs. (acompanha CD).
Oxford University Press, R$ 45
http://web3.unt.edu/murphy/brazil/

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dj yuga
 

Realmente o universo ritmico brasileiro é muito amplo e falar sobre ele é com certeza uma tarefa árdua. O Brasil transpira sons e ritmos, assim como a nossa língua, a música tbm tem sotaques. Jackson do Pandeiro falava que a base de tudo é o cõco, ele usava o "sotaque" do cõco para contruir suas músicas, mesmo que fosse um maracatu, um samba, um baião ou um xaxado. Será que o CÔCO é a nossa "Música e identidade nacional"???

Muito bacana este texto, quero ler o livro para me aprofundar mais nos ritmos brasileiros, valeu a dica cabra.

No mais... aquele abraço das Geraes

DJ Yuga

dj yuga · Belo Horizonte, MG 10/2/2007 17:13
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Higor Assis
 

Legal mesmo o texto e da uma boa percepção do há muitom que pesquisar e estudar.

Higor Assis · São Paulo, SP 13/2/2007 14:33
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Leonardo Martinelli [ www.outramusica.org ]
 

Pessoal. parece que entre as indas e vindas do Orvermundo editaram de forma esquisita o título de meu post, cortando a palavra "Brazil" (com "Z") no final. Enfim, o título completo é A música de nosso "Brazil". Se alguém souber me dizer como faço para editar, ficarei agradecido. Abraços.

Leonardo Martinelli [ www.outramusica.org ] · São Paulo, SP 13/2/2007 15:17
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Hermano Vianna
 

oi Leonardo: os softwares as vezes são bem encrenqueiros e temperamentais: o nosso não consegue entender aspas nos títulos - ainda nao conseguimos resolver o problema... dá para falar a mesma coisa sem aspas?

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 13/2/2007 16:35
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Hermano Vianna
 

coloquei aspas simples: funciona?

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 13/2/2007 16:37
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Leonardo Martinelli [ www.outramusica.org ]
 

Olá Hermano. Está perfeito! Aproveito a oportunidade para expressar minha admiração pelo seu trabalho. Nesta sexta-feira para o jornal para o qual colaboro (Gazeta Mercantil) e depois no meu blog um artigo sobre os 90 anos de "Pelo Telephone" que quero postar também aqui no Overmundo. Um abraço.

Leonardo Martinelli [ www.outramusica.org ] · São Paulo, SP 13/2/2007 16:49
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Hermano Vianna
 

oi Leonardo: já viu o Overfeeds - é uma maneira prática de agilizar a conversa do seu blog com o overmundo

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 13/2/2007 17:25
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Tranquera
 

Texto excelente!

Tranquera · São Paulo, SP 14/2/2007 07:48
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Guilherme Mattoso
 

ótimo texto! parabéns!

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 14/2/2007 10:32
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Tiago C. Alves
 

ótimo texto!

Ano passado aconteceu aqui na minha cidade um festival de música independente, que ilustra bem a diversidade da música feita no Brasil. Como é a minha primeira vez aqui e estou sem tempo pra escrever um texto maior vou postar aqui mesmo.

Um amigo meu, tentou organizar um festival de Rock (Aqui quase não tem espaço pro genero). Ele ate conseguio um bom número de bandas pra tocar, mas faltando duas semanas pro show, três das cinco bandas que tocariam, desistiram . Mas a essa altura o festival ja tinha sido todo organizado e divulgado, não tinha como cancelar. Ele não conseguio bandas do mesmo genero pra suprir as que furaram, ai o jeito foi mesclar bandas de varios generos.
Pro lugar das bandas que furaram, ele conseguio uma dupla serteneja, um cantor pop (que tocou de bossa à clube da esquina) e uma banda de Regge. As bandas que permaneceram eram uma banda de Rock setentão e uma cover do Iron Maden.

olhem que viagem: Vc começa a noite ouvindo Chico mineiro, faz um breve passagem pela bossa nova, megulha no mundo pop, ouvi um bom regge e termina a noite quebrando o pescosso ao som de Iron maden. Na ultima música da noite tinha uma "bicho grilo" ja muito loca dançando do meu lado, e do outro um "tiuzinho" dançando metal a la japones no samba (isso mesmo, com os dedos indicadores apontados pra sima). O mais incrivel de tudo: todos se respeitando e interagindo, como se aquele show fosse a coisa mais normal do mundo.

Desculpa ter postado isso aqui mas quando tiver tempo escrevo um texto maior e posto no overblog.

Tiago C. Alves · Santa Luzia, MG 14/2/2007 11:18
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John Murphy
 

Olá pessoal. Sou fã do overmundo e dos colegas que escrevem no site. A foto acima, que vem da capa, é de Jason Gardner e mostra Maciel Salu na zabumba e DInda Salu no ganzá, em Olinda. Maciel me mandou os nomes dos outros músicos. Quando eu achá-los no computador, vou colocar no site. Eu preferi minha foto do Biu Roque e o finado Deodato pra capa, mas a editora não quis. Acho justa a crítica do Leonardo. Estou colecionando dicas para melhorar o livro se houver uma segunda edição. Obs. coloquei Recife como minha cidade porque não vi Denton, Texas entre as opções.

John Murphy · Recife, PE 14/2/2007 13:05
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John Murphy
 

vou tentar de novo com link da foto:

foto
Biu Roque (E) e Deodato, toadeiros de cavalo-marinho, Chã de Camará, Aliança, PE, março de 1991.

funciona como in-line? vamos ver:

John Murphy · Recife, PE 14/2/2007 13:10
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Gustavo Gama
 

Pois é Tiago, acho q esse festival q vc descreveu ficou a cara daquilo que eu considero o "Brasil ideal": tudo junto, misturado e convivendo na paz!
Fiquei curioso de ler o livro e vou dar uma olhada no site.

Gustavo Gama · São Paulo, SP 14/2/2007 15:44
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Hermano Vianna
 

oi John - muito bom te encontrar aqui no Overmundo - desculpa não ter as cidades fora do Brasil como opção no cadastro - seria muita cidade (além dos 5mil municípios brasileiros...) - nosso banco de dados ficaria maluco! mas vamos criar a opção de países... mas de qualquer maneira, você é do Recife sim! abraço!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 15/2/2007 01:36
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CB
 

É sempre instigante constatar que a base cultural profunda do Brasil e seu, praticamente, subterrâneo desenvolvimento, costuma atrair mais o olhar dos instruídos lá de fora do que dos de dentro do nosso próprio país. Parabéns ao Leonardo pelo assunto e um sincero abraço.

CB · Porto Alegre, RS 15/2/2007 10:45
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Higor Assis
 

John Murphy .

Este Biu Roque é o mesmo citado na Música interpretada pela "CÉU".

Valsa para Biu Roque ?

Higor Assis · São Paulo, SP 15/2/2007 15:37
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Thiago Paulino
 

Valeu a dica do livro e parabéns pelo texto que levanta boas questões.

É interessante a visão de "estrangeiros" (' " - pq muitas vezes somos estrangeiros no nosso próprio país) e estudiosos da nossa música...

Vale também dar uma conferida no documentário Moro no Brasil do diretor Mika Kaurismäki que vivia no Brasil há 10 anos qdo fez o filme e é um bom passeio pela sonoridades do nosso Brasil...

Abraço.

Thiago Paulino · Aracaju, SE 16/2/2007 01:43
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John Murphy
 

Oi Higor, pode ser. Não conheço a música.

É o mesmo Biu Roque que canta e toca com Siba e a Fuloresta do Samba.

John Murphy · Recife, PE 16/2/2007 20:53
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Valério Fiel da Costa
 

É verdade que a música brasileira é uma caixa preta ainda por desvendar. Basta ir morar uns bons 2, 3 anos em alguma cidade do interior para encontrar coisas impactantes das quais ninguém havia ouvido falar. Às vezes restrita a um pequeno espaço territorial de 4 quadras, às vezes efêmero, às vezes ritual. O bacana é perceber que as coisas estão em movimento e que os diagnósticos valem por muito pouco tempo. Seriam necessários muitos grupos de pesquisa espalhados coletando dados o tempo todo, atualizando o quadro infinitamente para conseguirmos acompanhar o que se passa. E isso só seria possível para o estudo de casos específicos onde os pesquisadores topassem viver nos locais e lidar com demandas de longo prazo, sem afobação (prazos) e sem depender demais de pressupostos acadêmicos. Porém, enquanto não se fizer isso no Brasil, não teremos a mínima noção do que realmente acontece em termos culturais dentro de nosso território. Ficamos com os grandes circuitos condutores, por onde passam os grandes eventos e que sempre envolvem muita gente, como expressão oficial de nossa cultura.

belo post!

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 1/4/2007 22:41
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