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A música instrumental gaúcha

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ratner · Porto Alegre, RS
10/6/2010 · 12 · 2
 

por Rogério Ratner



O Rio Grande do Sul sempre foi e continua sendo um celeiro de grandes instrumentistas, que manuseiam de forma brilhante os seus respectivos intrumentos, transitando com fluência nos vários estilos da música instrumental. Com efeito, seja no jazz, na MPB ou no chamado “instrumental brasileiro”, o Estado gaúcho está muito bem servido, contando com verdadeiros virtuoses. Inclusive, desde há bastante tempo, vários instrumentistas gaúchos têm espalhado o seu talento por outros Estados do Brasil, e inclusive no exterior.

Cumpre destacar que desde o final do século XIX, o RS já contava com a atuação profícua de inúmeros músicos, que, no mais das vezes, se desdobravam com eficiência tanto pelo campo da música erudita, quanto nos diversos estilos da música popular. Grandes músicos circulavam com facilidade entre os campos erudito e popular, caso de Radamés Gnatalli, Dante Santoro, Eduardo Nadruz (Edu da Gaita), etc.

Sublinha-se também a atuação de diversas bandas, tais como a Banda da Brigada Militar e a Banda Municipal de Porto Alegre, dentre outras.

Porto Alegre, no início do século XX, buscava de uma certa forma emular Buenos Aires e Montevidéo, as quais, por sua vez, pretendiam aproximar-se o máximo possível do esplendor das grandes capitais européias, tendo principalmente Paris como modelo. Assim, a exemplo do que aconteceu nestas capitais do Prata, a capital gaúcha passou a contar com inúmeros cafés, confeitarias e bares, ambientes nos quais os instrumentistas encontravam importante desaguadouro para o exercício de seu virtuosismo em repertório popular. Nestes ambientes atuaram grandes instrumentistas como Paulo Coelho, Octávio Dutra, Arthur Elsner, Plauto Cruz, Professor Menotti, e infindáveis outros.

A cidade teve a sua “Era do Jazz” nas décadas de 30/40, com a atuação de diversos grupos especialmente nos cabarés, de consagrada fama. As “jazz bands”, contudo, não se dedicavam apenas ao jazz, mas também ao choro, ao samba, ao maxixe, ao tango (para o qual se dedicavam mais especificamente, aliás, diversas orquestras “típicas”), enfim, os ritmos em voga até a metade do século XX no Brasil. Outras orquestras instrumentais também eram abundantes, e animavam bailes e festividades nos clubes e sociedades da capital gaúcha e pelo interior. Em seu fundamental livro sobre o “Jazz em Porto Alegre”, lançado pela L&PM, Hardy Vedana resgatou de forma magnífica tal movimentação musical ocorrida na primeira metade do século passado.

Já no final dos anos 50 do século XX, consagrou-se aqui a formação dos conjuntos melódicos (tendo como precursor e modelo o conjunto de Norberto Baldauf), grupos que atuavam na animação de bailes, e que atuavam também no rádio e na televisão sendo responsáveis pela revelação de grandes instrumentistas. Os melódicos geralmente não contavam com mais do que dez integrantes, e se dedicavam, de um modo geral, a tocar música dançante suave, embora alguns grupos tenham incluído o então nascente rock em seu repertório. Alguns dos mais destacados conjuntos melódicos, além do de Norberto, eram o de Primo, o de Renato (no qual atuou o saxofonista-escritor Luis Fernando Veríssimo), o Flamboyant, o Flamingo, dentre inúmeros outros (estamos preparando um especial em nosso programa “Paralelo 30”, que apresentamos na radioweb “Buzina do Gasômetro http://www.buzinadogasometro.com.br, em homenagem a tais conjuntos). Alguns dos conjuntos melódicos tiveram também uma carreira discográfica, pois atraíram a atenção de gravadoras do centro do país. Chegou a existir, nos anos 60, um festival competitivo anual de conjuntos melódicos, que era organizado pela Folha da Tarde (jornal do grupo Caldas Jr., capitaneado pelo Correio do Povo e a Rádio Guaíba), muito concorrido.

Ao final dos anos 70, e muito especialmente a partir dos anos 80, a Capital Gaúcha foi cenário para o surgimento de vários grupos instrumentais dedicados ao jazz, em seus diversos estilos (bebop, jazz-rock, fusion, free, etc.), e ao chamado “instrumental brasileiro”. Neste sentido, podemos indicar, por exemplo, os grupos Hálito de Funcho, Cheiro de Vida, Raiz de Pedra, Vôo do Tucano, Álibi, CEP 90.000, Grupo Escolar, Circuito Emocional, Jazz Noir, Contrast Combo, Trio Cais, Doctor Jazz Band, Quarteto Pictures, Quebra-Cabeça, Versão Brasileira, Orquestra Popular de Porto Alegre (OPPA), etc. Mais recentemente, temos a atuação de grupos tais como o Faskner, o Sexteto Blazz, o Jazz Seis (em que toca Luís Fernando Veríssimo), a Camerata Brasileira, dentre vários outros. Na seara do rock instrumental, vem obtendo destaque o grupo Pata de Elefante.

Também é muito importante a produção instrumental que mistura influências regionais com elementos “universais”. Nesta trilha vão os trabalhos Renato Borghetti, Quartcheto, Luciano Maia, Bethy Krieger, Dúnia Elias, etc. Há também inúmeros nomes dedicados à música regionalista tradicional instrumental, tais como Gilberto Monteiro, Luis Carlos Borges, etc.

O RS conta/contou com grandes virtuoses do violão, tais como Mário Barros, Ivaldo Roque, Jessé Silva, Paulinho do Pinho, Darci Alves, Lúcio Yanel (argentino aqui radicado), etc.; e nesta trilha é que surgiram nomes atuais como os Felipe Azevedo, Yamandu Costa, Arthur Nestrovski, Toneco da Costa, Carlos Badia, dentre muitos outros.

O Sul também é berço de grandes guitarristas que se dedicam à música instrumental, especialmente ao jazz, em seus variados estilos (jazz rock, fusion, instrumental brasileiro, bebop, etc.), e até ao rock. Neste sentido, podemos apontar o trabalho de Ary Piassarollo, Olmir Stocker, Frank Solari, James Liberato, Ciro Moreau, Edilson Ávila, Richard Powell, Alexandre Martau, Júlio Herrlein, Alegre Corrêa, Pedro Tagliani, Paulinho Supekóvia, Daniel Sá, Foguinho, Paulinho Fagundes, Dante Jr., Jéfferson Marx, Maurício Barca, Ângelo Primon, Marcelo Corsetti, Fábio Marrone, Carlos Lichman, Solon Fishbone, dentre inúmeros outros.

Músicos gaúchos também se destacam nos instrumentos de sopro (flauta, saxofone, trumpete, trombone, etc.), fazendo música instrumental brasileira e jazz de qualidade. Temos Luizinho Santos, Pedrinho Figueiredo (carioca aqui radicado), Cláudio Sander, Jorginho do Trumpete, Sérginho do Trombone, Ayres Pothoff, Amaury Iablonowsky, Júlio Rizzo, Marcelo Figueiredo, Sérgio Karam, Márcio Tubino, Augusto Maurer, Paulo Lata Velha, Marcelo Piraíno, Luiz Fernando Rocha, Charão, Marcelo Ribeiro, Zé Blanco, Augusto Maurer, Chico Gomes, Adolfo Almeida Jr., dentre diversos outros nomes.

Nas baquetas, há igualmente um sem-número de grandes instrumentistas, tais como Ricardo Arenhaldt, Ronnie Martinez, Bebeto Mohr, Kiko Freitas, Fernando Paiva, Luke Faro, os irmãos Alexandre Fonseca/ Adal Fonseca/Rick de la Torre, Carlos Calcanhotto, Rodrigo Lopes, Argos e Zé Montenegro, Mano Gomes, Gercy Saraiva, Mutinho, Nenê, Gilberto Lima, Fernando Pesão, César Audi, etc.

No piano jazz/popular, destaque para Geraldo Flach, Manfredo Fest, Breno Sauer, Paulo e Michel Dorfman, Dionara Schneider, New, Glauco Sagebin, Dudu Trentin, Adão e Paulo Pinheiro, Luiz Mauro Filho, Fernando Corona, Carina Donida, Marco Farias, Marcos Ungaretti, Marcelo Nadruz, Rafael Vernet, etc.

Em relação ao contrabaixo, há nomes como André Fonseca, Clóvis Boca Freire, Edson Jr., Ciro Trindade, Ayrton Zettermann, Tenison Ramos (recentemente falecido), Auriu Irigoite, Jorge Gerhardt, Ricardo Baumgarten, Nico Bueno, Evaldo Guedes, Éverson Vargas, Mário Carvalho, Jorge Dorfman, etc.

Desafortunadamente, no atual momento não há um número expressivo de casas noturnas suficiente para escoar a produção jazzista/instrumental. De fato, a cidade não conta mais com excelentes espaços que eram o Bar Big Som (do baterista e cantor Marco Antônio), a Sala Jazz Tom Jobim (no andar de cima do restaurante Lugar Comum), o Absinto, o Alambique’s, o Porto Velho, o Porto de Elis, o Café Charlot, o bar do IAB, etc.; o bar Vermelho 23, dentre outros, também era um dos que abria espaço para o jazz, bem como o Mercato Jazz, mais recentemente; e não podemos nos esquecer do lendário Clube de Jazz da Dona Ivone Pacheco. Infelizmente, também, não contamos mais com os excelentes projetos que eram dedicados ao choro (O choro é livre) e ao jazz (Blue Jazz) no Theatro São Pedro, e com os Saraus no salão mourisco da Biblioteca Pública (com ênfase na música erudita) e dos Museus Júlio de Castilhos e Joaquim Felizardo, bem como da Sala Radamés Gnatalli (que fica no auditório Araújo Vianna), dentre outros espaços. O Instituto Goethe também já não apresenta com tanta frequência espetáculos musicais, sendo que era comum que a instituição trazesse grupos de música instrumental de vanguarda da Alemanha, do jazz à música erudita, além de abrigar alguns shows de instrumentistas locais.

No momento, os espaços mais pródigos para a música instrumental têm sido as livrarias, tais como a Cultura e a FNAC, bem como o Instituto Cultural Norte-Americano e o Espaço Clio, que têm aberto algumas brechas para a música instrumental, assim como os projetos da Vonpar no Multipalco do Theatro São Pedro e do Sarau do Solar dos Câmara, bem no Santander Cultural e na Fundação ECARTA. E também locais como o Café Santo de Casa (antigo Café-Concerto da Casa de Cultura Mário Quintana), dentre outros poucos. Alguns bares aqui e ali vem abrindo algum espaço em suas agendas, caso do Paraphernália, do 8 e ½, do Long Play, etc., mas o certo é que a capital gaúcha já teve uma cena bem mais favorável à música instrumental que atualmente. De fato, os shows de música instrumental de linhagem popular nos teatros também não têm sido tão frequentes quanto o que seria desejável.







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Viktor Chagas
 

Caramba, mas que mapeamento de nomes bacana! Será que essa galera toda está na rede também? Você por acaso não teria links para a produção musical desse pessoal, ratner? :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 11/6/2010 19:13
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Ana C S
 

Faltou o Gastão Villeroy na lista dos contrabaixistas. Abs

Ana C S · São Paulo, SP 29/6/2011 14:57
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