A música sai do armário

Guto Costa/Divulgação
Leila Maria gravou o primeiro CD com repertório de temática inteiramente gay
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Tacilda Aquino · Goiânia, GO
27/4/2007 · 83 · 11
 



Música tem sexo? Tem preferência ou orientação sexual? A cantora carioca Leila Maria garante que tem. E não só tem como resolveu sair do armário (a música gay, é bom explicar). Depois de conquistar o público GLS do País em 1997 com Bom é Beijar, na qual desfila, cheia de suingue, versos como "Bom é beijar, não importa se é cavalheiro ou dama", a cantora foi mais longe e reuniu no CD Canções do Amor de Iguais 13 faixas que de alguma forma se relacionam com o universo gay, de autores tão diversos como Roberto & Erasmo, k.d. lang, Johnny Alf, Cole Porter e Marina Lima.

Voltando aos rótulos: música tem sexo? Sinceramente acredito que não. Uma canção de amor embala qualquer tipo de romance, independente da orientação sexual do casal que a está ouvindo ou que a elegeu “sua música”. Um ‘amor de iguais’ tem os mesmos prazeres e desprazeres de um entre os chamados ‘normais’.Tudo bem que existam cantores e compositores declaradamente gays e que têm nos gays um público para lá de fiel.

Pensando assim, fica difícil classificar Canções de Amor de Iguais. Pode ser um disco oportunista ou mesmo a tentativa de Leila Maria de ganhar um público mais amplo, muito além dos apreciadores da sua veia jazzística que a levou a gravar Off Key, leituras jazzísticas de clássicos da bossa nova como Dindi e Desafinado e com os standards norte-americanos como A Day In a Life of a Fool.

Independentemente dos motivos que levaram Leila Maria a gravar Canções de Amor de Iguais, o disco é uma grande sacada e o fato mais relevante é justamente reunir belas canções de amor que, agrupadas nesse conceito, possam chamar a atenção para a discriminação sofrida por homossexuais . Pelo menos é assim que pensa a artista.

Com arranjos pop, mas sem grandes vôos ou ousadia, o disco de Leila Maria foi produzido pelo baixista Dunga a partir de uma idéia original do jornalista Antônio Carlos Miguel (O Globo). O repertório foi escolhido levando-se em conta três critérios: o fato das canções terem sido adotadas pelo público gay, a orientação dos cantores e compositores ou a temática das letras.

A única canção de letra explicitamente homossexual do álbum é Mar e lua, de Chico Buarque, que fala do amor entre duas mulheres. "Amaram o amor proibido / Pois hoje é sabido / Todo mundo conta / Que uma andava tonta / Grávida de lua / E a outra andava nua / Ávida de mar", canta a artista.

Nas outras canções do CD o amor entre iguais está nas estrelinhas, metáforas e interpretações, como Ilusão à-toa de Johnny Alf. “É o amor que eu trago há muito dentro de mim/ Bem dentro de mim...”, diz o versos da música. Já Um Certo Alguém, de Lulu Santos/Ronaldo Bastos é mais sutil ainda: “Quando um certo alguém/Desperta o sentimento/É melhor não resistir”.

Outras composições vêm de artistas assumidamente homossexuais, mas os versos de Se Você Voltar, assinados por Ângela Ro Ro não são abertamente gays. “Quem é forte e nega seu próprio amor/É tão fraco que não suporta a dor/É melhor se perder pra depois reviver/Todo um bem...”. Mapa-múndi, de Marina Lima, destaca os versos: “Estranha, essa noite /Nenhuma estrela/Só ela /Senti-la tanto que dói/Ela que foi a minha trilha /Ela, não minto nem resisto”. As duas canções ganharam novos sentidos e reinterpretações. Gatas Extraordinárias, oferenda de Caetano Veloso a Cássia Eller não compromete o disco de Leila Maria. Mas Cássia é Cássia.

O repertório nacional tem ainda Seu Tipo, que Eduardo Dusek compôs com Luiz Carlos Góes. A música, clássico marcado pela ótima voz de Ney Matogrosso ganha interpretação especialíssima de Leila quando ela desfila os versos: "Coloca aquele vestido/Vê se não brinca/Com minha libido/Me beija no ouvido/Nada faz sentido/Tudo arde...".

A surpresa do disco fica por conta da inclusão de Você Vai Ser Meu Escândalo, do conservador Roberto Carlos que já declarou publicamente que não gosta de dar autorização para regravarem suas composições. A música, feita em parceria com Erasmo Carlos, naturalmente, foi gravada originalmente por Wanderléa, em 1968. E tem uma letra-desabafo: “Até quando vamos ter/Que esconder nosso amor”.

Canções de Amor de Iguais tem ainda um repertório internacional, com músicas que explicam a militância de seus autores e intérpretes. A melhor delas é Sexuality, da engajadíssima canadense k.d.lang, que tem versos como: "Come on come one/Kiss away the ones who say/The lust you feel is wrong”.

Nature Boy, que Éden Ahbez escreveu no fim dos anos 40, gravada primeiramente por Nat King Cole, não tem nada explícito, mas é considerada por muita gente como uma das primeiras canções gay. O fato de ser um estranho e encantador garoto que acredita que a coisa melhor do mundo é amar e ser amado não torna ninguém gay. Diz a letra: “There was a boy/A very strange enchanted boy/This he said to me/The greatest things you'll ever learn/Is just to love and be loved in return”.

“Pessoas... /Você nunca pode mudar seus sentimentos/Melhor deixá-las fazer o que elas quiserem/Pois elas farão/Se você deixá-las roubar seu coração”, diz a música Kissing a Fool, de George Michael, outro artista assumidamente gay que, na canção, aconselha as pessoas a ouvirem seus corações para ter paz de espírito. “But youll never find /Peace of mind/Til you listen to your heart”. Vale lembrar que Kissing A Fool foi gravada pelo cantor antes mesmo dele sair do armário. Leila Maria a interpreta em clima jazzístico.

Outro clássico presente no disco é Lush Life que, com sua bela música e letra genial, é considerada a mais coleporteriana das canções de Billy Strayhorn. O registro definitivo é de John Coltrane, mas também foi gravada por Donna Summer, outro ícone da cultura gay.

Cole Porter. Ah! Cole Porter não poderia faltar em um disco onde a música sai abertamente do armário. E Leila Maria escolheu All of You, que tem uma das letras mais sutis do disco. Mas Porter era gay e na primeira metade do século passado as canções que ele fez para seus amantes viraram sucesso em musicais. All of You foi uma delas.“I love the look(s) of you, (and) the lure of you/The sweet of you, and the pure of you /The eyes, the arms, and the (that) mouth of you/The east, west, north, and the (that) south of you.”

Por letras como as da música de Cole Porter, não dá pra classificar simplesmente Canções de Amor de Iguais como um CD GLS. É melhor defini-lo como um disco de amor como outro qualquer, cheio de cenas que podem ser protagonizadas por ele e ela, ela e ela ou ele e ele. O repertório, antes sim, forma um panorama de romantismo que cai bem em qualquer relacionamento. As relações entre iguais do título vão tirar a cantora do nicho do jazzístico e levá-la para um público mais amplo, graças a levada mais pop do CD, que mostra Leila Maria, uma ótima intérprete de jazz, bem à vontade.

Disco: Canções do Amor de Iguais
Artista: Leila Maria
Produção: Dunga
Gravadora: Deckdisc
Preço: R$ 21,90

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Helena Aragão
 

Tacilda, muito boa sua crítica. Fiquei curiosa com o disco (aliás, quantas músicas tem esse disco, meu deus?:) Só de ter Mar e Lua na voz dela acho que já vale à pena. É bom ela tomar cuidado com o Roberto Carlos, ele tá impossível e não duvido que tasque um processo nela, hehe. No mais, tem umas bobaginhas de revisão no texto que certamente você pega fácil numa lida. Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 25/4/2007 12:51
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Tacilda Aquino
 

Helena, obrigada pelo comentário e pela observação a respeito da revisão. É que escrevi o texto na noite de ontem e resolvi postá-lo imediatamente. Sei que não adianta a gente tentar copidescar um texto assim que acaba de escrever... Os erros passam mesmo. Dei uma olhada hoje e parece que ficou melhor. Quanto ao Roberto Carlos, segundo a Deckdisc ( www.deckdisc.com/deckdisc/), ele autorizou a regravação.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 25/4/2007 16:45
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Egeu Laus
 

Sim, pode ser oportunista. Mas isso não interessa, e sim, para nós outros, o resultado final.

Afinal, quantas músicas o citado Roberto não fêz "especificamente" para um público?

Quantas outras – nas mais variadas épocas e que hoje são "clássicos" – não foram feitas só pelo "cachê"?

Quero conhecer... : ))

(e o artigo está muito bom...)

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 25/4/2007 18:23
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Helena Aragão
 

É verdade, Egeu. Se fosse pra ser algo oportunista, acho que a seleção do repertório seria bem mais apelativa. Mas bem, vamos ouvir. Tacilda, entendo perfeitamente, quando escrevemos um texto o olho parece ficar cego para os erros, tem que dar um tempo mesmo e voltar a ele com a cabeça fria. :)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 26/4/2007 12:00
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Roberta Tum
 

Tacilda, adorei sua crítica, e fiquei muito curiosa para ouvir o CD. O repertório é de primeira e a idéia mais que válida. Não há como negar que o universo do amor entre iguais tem suas peculiaridades. Então, por que não uma trilha sonora especial? Gostei! Parabéns pra ela pela iniciaiva e pra você pelo texto!
Bjo

Roberta Tum · Palmas, TO 26/4/2007 15:10
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Roberta Tum
 

ops, iniciativa.

Roberta Tum · Palmas, TO 26/4/2007 15:11
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Cida Almeida
 

Tacilda, sempre quando vejo um texto seu aqui já fico contente, pois sei que vou me dar ao luxo de uma leitura prazerosa, cheia de novidades. E se é sobre música, então, nem se fala. Seu texto é uma delícia, assim, manteiga escorrendo sobre o pão quente. Bela dica para o meu final de semana. Saudade de ler suas críticas sobre cinema... Parabéns!

Beijo grande.

Cida Almeida · Goiânia, GO 27/4/2007 09:05
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José Afonso Viana
 

E com um texto seu com certeza sai bem arrumada. Muito bom o comentário, Tacilda.

José Afonso Viana · Goiânia, GO 27/4/2007 14:34
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Tacilda Aquino
 

Que bom que vocês gostaram. Se tiverem chance, ouçam o disco. Realmente vale e pena. A voz da Leila é dez.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 27/4/2007 18:43
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Bruna Célia
 

Gostei, viu?! Não conhecia seu texto e agora não vou deixar de ler todos que saírem!!
Abraços goianienses - pseudo-palmenses!

=))

Bruna Célia · Goiânia, GO 10/5/2007 22:22
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louis
 

Oi sou contra este comentario me descup. mas tudo tem haver com o publico que o ator, ou cantor se identifica. o artista atrai o publico que quer se é que me entende impossivel isso sou gay e adoro reggae, curto uma vaneirra e tbm musicas dos anos 60,70 etc... naum curto dance,pagode. estes tipos assim. bom dei minha opinião. obrigado bjsssss

louis · Porto Alegre, RS 31/8/2007 01:26
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