A não-entrevista com Kadu Vianna

Rafael Motta
No show: Marina Machado, Flávio Henrique, Kadu, Arthur Rezende e Aloízio Horta
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Marina Maria · Belo Horizonte, MG
1/9/2007 · 155 · 13
 

A vida é cheia de boas surpresas. Num dia de mau humor, minha amiga Carol insistia para acompanhá-la a um show. Eu fui sem esperar muita coisa, confesso. Na primeira palavra da primeira música, me rendi. Kadu Vianna, esse mineiro de Nova Lima, dono de uma voz doce e personalidade idem, é simples e charmoso como suas canções, e também vai te conquistar no primeiro acorde.

O músico lançou seu último CD Dentro em junho, no Teatro Dom Silvério. No show, a característica intimista do álbum se transfere para o palco. O cenário, composto de lindas fotos de objetos de casa plotadas e emolduradas, a iluminação e a banda com formação em trio, com Aloízio Horta no contra-baixo e Arthur Rezende na bateria, trazem um verdadeiro clima de “sinta-se em casa”.

Sensação parecida eu tive no nosso encontro: quando comecei a entrevista, até tirei o bloquinho onde tinha anotado perguntas, mas nos dois primeiros minutos aquilo virou conversa de bar. Ou melhor, de café. Me senti tão à vontade que nem posso considerar isso uma entrevista, e sim um gostoso bate-papo.


MM: O interesse pela música surgiu de onde?

Kadu: Sempre tive contato com a música na família. Meu tio, Eugênio Britto, é violonista, compositor e intérprete, tenho uma tia que é cantora, e minha mãe é artista plástica. Eu nunca tinha pensando seriamente em seguir carreira até que o Flávio Henrique (músico e compositor mineiro) me viu cantando na Babaya (famosa escola de música de Belo Horizonte) e perguntou: “Você não pensa em gravar um CD?”. Até então não tinha pensado, mas parecia uma boa idéia. Meu pai me ajudou com uma grana e começamos a produzir algumas músicas no estúdio dele, mas na época o Flávio estava fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, e acabamos interrompendo o trabalho.

MM: Mas como surgiu o primeiro CD então?

Kadu: Logo depois da primeira experiência do estúdio, conheci o produtor Vladimir Garcia, que de cara entendeu minhas pretensões. Sempre quis que o meu som fosse universal, e não somente associado a Minas Gerais. O disco tinha direção artística de Luiz Brasil (que já trabalhou com Caetano Veloso, Gal Costa, Elza Soares e outros famosos da música) e tinha ótimas canções, de músicos queridos como o Moska (Só me Dão Solidão)e o Chico Amaral (Rádio). O álbum saiu em 2003.

MM: Eu já tinha ouvido Rádio na “rádio” antes desse ano...

Kadu: Pois é, isso é engraçado. A versão que toca até hoje é a que gravei com o Flávio Henrique. As pessoas gostam dessa música... Mas gravamos um arranjo diferente nesse CD.

MM: E a música do Moska? Como chegou até você

Kadu: A composição do Moska foi interessante. Pedia muito uma música para ele, que sempre respondia “não tenho”. No fim das contas, me deu uma canção que fala “não têm” várias vezes na letra. É importante falar do Magno Mello também, que é um grande parceiro. São dele quatro canções do disco: Coração Polar, Sonhei que Estava todo Mundo Nu, É Onde Você Mora, e Quantas Religiões tem o Mundo?.

MM: Existia uma expectativa em torno desse disco, já que tinha tantos nomes importantes da música envolvidos? Como foi a recepção dele?

Kadu: Tinha sim uma grande expectativa em torno desse CD, mas acabei me decepcionando um pouco. Tivemos muitos problemas com divulgação e distribuição, acabou vendendo menos que o esperado. Foi difícil para mim, especialmente porque estava todo mundo falando do lançamento desse álbum. Nessa fase entrei num processo complicado, quase de depressão mesmo. Se não fosse a minha família e a Lu (Luciana, noiva do músico) do meu lado, não sei como teria sido. Voltei a trabalhar com o meu pai, que é representante comercial. Já tinha trabalhado com ele aos 18 anos. Entrei para a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) nessa época também, em 2004. Mas estava indo mal na faculdade, não sabia o que fazer.

MM: Como você superou o momento e gravou o disco novo?

Kadu: Um dia meu amigo e músico Chico Amaral falou uma coisa comigo: “A música é muito ciumenta; para a música se dar para você, é preciso se dar para ela também”. Fiquei pensando sobre isso e resolvi começar um novo trabalho. Fui reunindo músicas e parceiros, e tive controle de todas as fases de produção. Esse eu posso dizer que é meu disco, ninguém botou o dedo nele. Ele me reflete musicalmente. As canções são minhas, mesmo que em parcerias, e a produção do álbum também, assim como os arranjos, guitarras, violões e vocais. O CD teve patrocínio da Eletronet e Fran Representações

MM: Qual a principal diferença que você enxerga entre o primeiro e o segundo CD?

Kadu: Principalmente na questão de maturidade mesmo. Nesses quatro anos ouvi muita música, além de ter começado o curso de Canto Lírico na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Mas vejo que no meu primeiro trabalho, o foco estava em encontrar boas canções, mas elas não necessariamente dialogavam entre si. Em Dentro, o repertório foi escolhido com a preocupação de que todas as músicas tivessem uma guia central.

MM: Esse guia central é o tema “amor”? Você se considera uma pessoa romântica?

Kadu: Também, mas existe uma sonoridade em comum entre as músicas. Você ouve o cd, percebe que as canções estão dentro de um mesmo lugar. E sou romântico sim, daqueles irremediáveis.

Kadu: Você não me perguntou o porquê do nome Dentro...

MM: É mesmo... É que para mim pareceu claro, essa coisa intimista e particular do disco. Mas não seja por isso: Por que o nome Dentro?

Kadu: Então, a história do nome é boa. Eu queria um nome simples, uma palavra única. Primeiro pensei em Quatro, mas logo depois os Los Hermanos lançaram o álbum com esse mesmo nome. Depois eu queria o nome Quarto, mas daí a Ana Carolina lançou o Dois Quartos. Aí resolvi pelo Dentro, torcendo que ninguém pegasse o nome antes de mim! Mas acho que é um nome com várias significações, encaixou bem no disco. Queria dar essa sensação caseira mesmo, que tentei levar para o palco.

MM: O CD e o show são recheados de parcerias. Isso é uma parte importante do seu trabalho?

Kadu: Super importante. Sou um músico que valoriza demais quem trabalha comigo, e sempre acho que eles aparecem menos do que deveriam. Também tenho uma mania de valorizar mais ou outros que eu mesmo, mas acho que isso é porque tenho consciência que não faço nada sozinho. As parcerias ensinam muito também. O Magno Mello, por exemplo, já fez uma experiência de imersão comigo: fiquei três dias na casa dele só compondo: sem televisão, computador, rádio, nada. Ele chegou a pedir que eu ficasse nu no meio da sala e cantasse as minhas músicas, sozinho. Quer coisa mais genial que isso? Ele é meu parceiro desde o primeiro CD. Em Dentro, também trabalhei com Leo Minax, Murilo Antunes e Pedro Morais, além das participações super especiais de Milton, Flávio Henrique e Marina Machado. O Flávio e a Marina estiveram no show de lançamento comigo.

MM: Como foi essa participação do Milton Nascimento?

Kadu: Ahhh... Conhecer o Bituca foi demais. Tudo começou quando um CD meu chegou até o Bebeto (aquele da música “Paula e Bebeto", Kadu mesmo explica), e ele mostrou para o Milton. Na época ele estava em Búzios, e não ouviu meu CD logo que recebeu. Mas depois acabou se interessando pelo meu trabalho. Em 2005, antes de gravar o Dentro, fui fazer um show no bar Vinnil, e ele quis me ver. Foi até engraçado porque era 1º de Abril, e achei que queriam me pregar uma peça. Mas era verdade, ele foi, nós conversamos, ele elegiou meu trabalho e viramos amigos. Achei que ia ficar nervoso, mas não fiquei... E a participação no CD foi um presente... (Em Dentro, Milton canta a música Miragem com Kadu e Marina Machado)

MM: Ainda te incomoda ser comparado com outros artistas, como Pedro Morais?

Kadu: Essa coisa de comparação é muito chata. Eu e o Pedro somos muito amigos, compomos juntos, mas nunca achei que nosso trabalho fosse parecido, muito menos digno de comparação. Conheço ele há muitos anos, mas não vejo porque rotular um como melhor que o outro. Acho que até por isso nós dois começamos a procurar outros caminhos, outros parceiros.

MM: Você acha que novamente está surgindo uma “turma” em Belo Horizonte com algumas características musicais em comum, como já aconteceu com Skank, Patu Fu, Jota Quest? Você, o Pedro, Marina Machado, Flávio Henrique, etc?

Kadu: Não acho que seja uma turma tão unida, no sentido de conquistar coisas juntas. Esses que você citou são meus parceiros, mas é tudo muito segmentado. Você não vê o Skank convidar a Fernanda Takai para compor uma música. É uma coisa nesse sentido... Surgem sonoridades parecidas, mas isso não significa que a galera trabalha junta, como era no Clube de Esquina, por exemplo.

MM: O que toca no seu som?

Kadu: Muita coisa. Norah Jones, Jamie Cullum, Paul McCartney, James Taylor. Uma galera daqui também, Flávo Henrique, Marina Machado, Júlia Ribas, Elisa Paraíso, Mariana Nunes. Tenho ouvido muito o CD novo do Leo Minax.

*******
Kadu Vianna faz dois shows de lançamento do CD Dentro nas próximas semanas. O primeiro acontece em Nova lima, no dia 02 de setembro, domingo, às 20h30, no Teatro Municipal de Nova Lima. O outro, no dia 15, sábado, vai ser realizado no Armazém Digital, no Rio de Janeiro, também às 20h30.

PS. A conversa ainda rendeu na pós-entrevista, que de café virou almoço, e coletei outras informações preciosíssimas: Kadu tem três cachorros e uma gata, essa que possui o singelo nome de Amélie Poulain, e já teve uma iguana quando era mais novo. Ele morreu de rir da história sobre a fuga seguida de morte de uma das minhas tartarugas, que Deus a tenha. Sonha em fazer parte de uma produção da Broadway e talvez viaje para Nova Iorque ainda esse ano para tentar alguns testes. Atende os telefonemas da noiva sempre com voz carinhosa e paciente, de eterno apaixonado, e nem por isso deixa de fazer gentilezas para outras mulheres, como abrir a lata de refrigerante para mim, porque senão, como ele disse, “minha unha pode quebrar”...

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Marina Maria
 

oi pessoal!

No início, pensei em escrever em forma de matéria, mas achei que a entrevista ia capturar mais a descontração que foi nossa conversa...

críticas (construtivas) são bem-vindas! correções também!

beijos

m.m.

Marina Maria · Belo Horizonte, MG 29/8/2007 15:56
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luizgvt
 

grande entrevista marina.

é legal pq dá p/ ver que o entrevistado estava interessado em conversar e se abrir p/ vc.

gosto muito dos toques de subjetividade presentes no texto todo. o jornalismo precisa mais disso.

luizgvt · Belo Horizonte, MG 29/8/2007 17:25
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Ilhandarilha
 

Entrevista bacana! A música O fim do fim não dá pra baixar (diz arquivo não encontrado), verifique se adicionou corretamente. Ouvi Frio e gostei bastante da música e da voz do cara. Valeu a dica!

Ilhandarilha · Vitória, ES 30/8/2007 10:38
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FILIPE MAMEDE
 

Gostei muito das fotos. Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 30/8/2007 10:40
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Marina Maria
 

lhandarilha, valeu pelo toque, já reeniei todos os arquivos, testei aqui e deu certo... Filipe, obrigada por passar por aqui, as fotos são do Rafael Motta =)

Marina Maria · Belo Horizonte, MG 30/8/2007 12:50
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Labes, Marcelo
 

Que isso, Marina! Tua matéria-entrevista tá muito bacana. Instiga a conhecer o Kadu, sua música e, pela tua sensível descrição, sua voz sensível. Belo texto.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 30/8/2007 16:21
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Marina Maria
 

Obrigada, Labes! Vale a pena conhecer o trabalho dele mesmo. um beijo!

Marina Maria · Belo Horizonte, MG 30/8/2007 16:28
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manogil
 

A entrevista ficou bacana. O texto da Marina é muito bom. Não sei o Kadu soube se deixar levar o suficiente, se mostrar, se descontrair, relaxar... mas ainda assim, graças à habilidade da entrevistatora, o texto fluiu gostoso...

manogil · Estados Unidos da América, WW 31/8/2007 14:58
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Rafael Campos
 

Agora sim, Nina! O texto ficou muito bacana mesmo! O texto caminhou de forma leve e espontânea!!! Gostei muito... agora é ouvir o Kadu...
beijão!

Rafael Campos · Belo Horizonte, MG 1/9/2007 12:05
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Patricia Moreira
 

Curti bastante sua entrevista e a narrativa do final! Parabéns pela entrevista. Votadíssimo

Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA 1/9/2007 13:59
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Marina Maria
 

Gil, Rafa e Patrícia, muito obrigada pelo carinho, é bom saber que curtiram!

Marina Maria · Belo Horizonte, MG 1/9/2007 14:19
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Leandro Lopes
 

Massa! Já está votada!

Leandro Lopes · Belo Horizonte, MG 1/9/2007 15:17
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Nina Furtado
 

Faço minhas as palavras do Gil!
Uma observação: na frase "Kadu Vianna, esse mineiro de Nova Lima, dono de uma voz doce e personalidade idem, é simples e charmoso como suas canções, e também vai te conquistar no primeiro acorde" , eu alteraria a última oração para "capaz de te conquistar no primeiro acorde". Acho mais interessante trabalhar com a possibilidade de ser conquistado (ou não), deixando isso a cargo do leitor...

bjos Marina!!!
=)

Nina Furtado · Belo Horizonte, MG 2/9/2007 15:29
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