Pra quem não conhece a história do cinema baiano, pode parecer que a produção local está vivendo tempos de gloriosa retomada tardia, com o sucesso de Cidade Baixa e Eu me lembro. Mas se a questão for bem analisada, percebe-se que é parte de um processo contínuo de evolução, de ciclos que se abrem e fecham.
"Retomada é um termo que sugere continuação de algo que foi interrompido. Em relação ao cinema nacional cabe, mas em relação à produção baiana não", explica Sandro Santana, mestrando em Comunicação e Sociedade pela UFBA. Convoquei o cara que sabia tudo dos filmes de John Ford, atento para a história coletiva dos esforços cinematográficos destas paradas. Sem mitificação.
"Na Bahia tivemos um período, entre os anos de 1958 e 1962, onde floresceu a atividade cinematográfica. No entanto, foi fruto da inventividade de Roberto Pires, da capacidade de Glauber Rocha enquanto agente catalisador, da agitação cultural que vivia a Bahia naqueles anos e dos terrenos e propriedades que Rex Schindler vendeu para bancar as produções sem nunca ter retorno financeiro. Com o fracasso financeiro dos filmes e a ida de Glauber e Roberto Pires para o Rio o 'Ciclo' baiano acabou", explica. Depois da esparsa produção nos anos 70 e 80, o cinema baiano só voltou ao cartaz com 3 histórias da Bahia, na década de 90.
Sandro acredita que a Bahia ainda está tentando formar cineastas, e que a emergência de um cinema baiano segue distante. Concordo com ele nesse ponto, mas penso que precisamos ser mais condescendentes com a parada, vamos jogar fermento, não precisa o bolo solar todo mas se com sabor.
"O caso de um Edgard Navarro é bastante elucidativo. Após uma carreira de décadas, para fazer o seu primeiro filme teve que vencer um edital do governo do Estado, conseguir mais verbas para a finalização junto ao Ministério da Cultura e ainda que o filme tenha recebido os principais prêmios no Festival de Brasília, dificilmente irá se pagar e, o pior, ainda enfrentará grandes dificuldades para chegar às telas, como qualquer outro filme brasileiro que não esteja atrelado à Globo Filmes e produtoras que estão vinculadas as distribuidoras americanas".
O produtor cultural tem um olhar crítico sobre a política cultural de fomento ao cinema, considerando que é preciso a formação de uma economia de mercado nacional voltada para a produção de cinema que envolva o sucesso comercial de tais empreitadas - o famoso "fazer um filme que se pague com bilheteira". Quem impulsiona a retomada atual em nível nacional, considera, são produtoras publicitárias competitivas que trabalham com isenção fiscal e apoio de grandes empresas. "Para se falar em um cinema baiano precisamos pensar em estratégias de
distribuição e exibição que não se restrinjam a um dia de sonho". Ok. No final, me lembra que apenas 8% dos baianos têm condições financeiras de ir ao cinema.
Então temos uma pilha encruada de falta de público pagante, mercado publicitário incipiente, quase derruba o vivente que tenta escalar a parada e chegar lá no alto, pra divisar o horizonte. Decidimos pelo assalto a banco ou a produção inteiramente independente, e vamos ruminar com uma cerveja a vontade de produzir um longa metragem no estilo de No tempo das diligências.
Texto bom Snack, e polêmico, não?
setaro · Salvador, BA 16/3/2006 18:58Opiniçoes corajosas e difíceis de se ler num mundo cada vez mais politicamente correto onde a mentira virou o melhor caminho para se fazer média. Parabéns, só com análises críticas poderemos superar esta interminável vida em ciclos que não é só do cinema baiano, mas do cinema brasileiro.
Stam · Salvador, BA 17/3/2006 12:02bem detectado o problemas não basta fazer filmes, eles têm que chegar aos cinemas. Sem meias palavras vc acertou!
Stam · Salvador, BA 17/3/2006 12:05
Patrick gosto de ver, o interesse interno para assuntos que pairam na imaginação dos aspirantes a cineastas como uma fabula de esperança, acredito que com esse tipo de pensamento critico é que realmente iremos à raiz dos problemas, ao invés de ficarmos sonhando com uma gloria de um dia!
Abraços
Bom texto. Mas lágrimas não adianta! Num país subdesenvolvido onde tudo tende a dar errado, devemos também buscar soluções para os problemas sociais, com as nossas ferramentas de expressão, o audiovisual. Já sabemos de todos as barreiras de se produzir, distribuir e exibir filmes. Mas, a nossa população precisa de nossa mensagem, seja como for. Vamos encarar a realidade de nosso cenário, e não só desejar passar pro lado globalizado...
Enfim, suas idéias são válidas, e muito, mas requer uma solução.
Triste bahia, Oh quão dessemelhante és... Se no no Rio tem demais (exagero) na Bahia nada tem. Sem as política de renuncia fiscal que são voltadas para benefícios à cultura de um povo é o que temos, não podemos desperdiçar. O problema não é de distribuição e exibição. Não adianta distribuir a todos e não será visto por ninguém? Foi ensinado a um povo carente de alimentos visuais uma estética raquítica, que não força o pensamento nem o olhar e a grande maioria se condicionou ao ato passivo de apenas, ver, ver, ver e não questionar ou decodificar a mensagem. Um bom filme não precisa ser visto por milhões de pessoas, mas fazer um filme para satisfazer seu ego quanto espectador já é demasiado narcisista. A Bahia cresce, ou melhor o quadro técnico de pessoas voltadas ao cinema e ao vídeo cresce e com isto novas possibilidades e novos produtos surgem. Mas o público, aquele surrado com roteiros syd fieldianos, planos Griftinianos, música extra-diegética e beijos e abraços no final parece que nunca se cansa e não percebe que sempre acaba comprando o mesmo produto. Éfata, abre-te olho... abre muito bem e começa a ver o que deve ser visto. Se não vaia cabar escrevendo artigos pessimistas sobre o cinema nacional e principalmente sobre o cinema baiano, baseados em crônicas do Jabor pro resto da vida. Só não podemos tapar os nosso olhos diante de tudo isso.
Edson Bastos · Salvador, BA 20/5/2006 17:51
Gostei do texto também.
Sou aluno de Serafim, em documentário, e concordo com o argumento Patrick, pois sei que o que ele escreveu é verdade.
Abraços!
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