Se estivéssemos na idade média os “loucos” da cidade provavelmente seriam colocados em uma barca/balsa/barco e lançados no rio Uruguai (que faz a divisa entre os estados de SC e RS) de preferência num período de cheias para que o destino os conduzisse o mais longe possível da cidade, de preferência até a Argentina. Mas como os tempos são outros e não é mais possível jogá-los ao léu, ou mesmo, queimá-los nas fogueiras da idade média, a sociedade se obriga a conviver com eles (e quem segura?). No entanto a impressão que fica é que sempre se dá um jeito de, sorrateiramente, livrar-se destes intrusos, na grande maioria das vezes, indesejados. Talvez porque funcionam como espelhos do mundo civilizado.
Quando falo em loucos, de imediato vem em mente a canção que Tom Zé fez para os “doidos” de Irará - Maria Bago Mole, sem registro fonográfico -, ou ainda, Schlomo, o personagem do Trem da Vida (uma comunidade inteira que se deixa guiar pelas idéias, por que não, geniais de um louco), Quincas Borba de Machado de Assis, dentre tantos, mas, em especial, aqui, neste texto, como Tom Zé, me refiro àqueles personagens folclóricos que perambulam pelas cidades e lembram freqüentemente aos demais (loucos), no caso, aqueles que conseguiram se enquadrar (ou foram enquadrados na moldura social), que a loucura destes últimos pode ser muito mais perniciosa do que a dos primeiros.
Muitos desses personagens, que vagam pela cidade, têm endereço, mas são reconhecidos pelo “estar na rua”, e é claro, por algo que caracteriza este “estar na rua”. Na grande maioria das vezes um tique nervoso ou um outro cacoete qualquer.
Galeria dos Loucos (não tem necessidade de moldura)
O primeiro nome que vem a mente, não poderia deixar de ser, carrega no apelido o título proposto pelo texto, me refiro a Maria Loca. Um dos maiores clássicos chapecoenses da década de setenta. Uma senhora que perambulava pela cidade com um saco nas costas segurado por uma das mãos (que nem o Papai Noel) e um pedaço de pau na outra. Fazia sucesso com os adultos e com a criançada. Os pais utilizavam um velho (e eficiente) truque para manter (amedrontar) a autoridade diante das crianças mais levadas: cuidado que a Maria Loca te pega! Se tu não te comportares eu vou te entregar para a Maria Loca. Aí era um desespero para a criançada quando estas encontravam com a dita cuja na rua. Era inevitável, não tinha como não passar pela cabeça as frases pronunciadas pelos pais em momentos tão delicados. Eu, por exemplo, quando a via me borrava todo, até hoje acho que tenho medo (a sorte que nunca namorei com uma Maria, imagina só o desespero – um trauma sem precedentes).
A história da Maria Loca ganha desdobramentos, afinal de contas, o tempo passa e duas décadas depois aparece uma outra Maria Loca, assim chamada pela nova geração. O pessoal da velha guarda não admitia a comparação alegando que a segunda não passava de uma imitação barata (um simulacro) e defendiam a posição dizendo que a primeira (saudosismo puro) era muito melhor por ser a primeira (a original) – e acabavam, sem perceber, como uma espécie de advogados das causas públicas, isentando a loucura desta para validar a própria. Os mais novos que, por sua vez, não haviam conhecido a anterior, é óbvio que achavam a Maria Loca deles muito mais interessante, ainda mais que esta andava pelas ruas rodeada de crianças (e as lendas se duplicavam, do tipo, quem eram os pais de toda aquela piazada? Uma das crianças o povo dizia que era filha de um ex-prefeito, outra que era filha de um empresário e assim por diante: prefeito, leiteiro, empresário, padeiro, delegado... mas como falei, isso tudo não passa/passava de lendas urbanas).
Pequeno à parte para um delírio desnecessário – pode passar para o parágrafo seguinte se quiseres:
(Tu chegas na bodega e pede: Dá uma Coca. O bodegueiro responde: Light ou normal? Não sei se foi só comigo, mas me obriguei a rir. Vejam só o que é o mundo, depois do surgimento da light a outra passou a ser a normal. E o mundo segue, que nem cavalo de padeiro, se babando todo para subir a ladeira ... aaaaaaaai!!!)
Voltando a nau dos loucos (quem?) - que provoca arrepios por atravessar os conceitos estabelecidos, por deslocá-los causando um certo desconforto -, a Maria Loca tinha na época vários outros nomes para fazer frente ao seu reinado: o Cinco Pila (pra tudo pedia cincão), O Pepê, o Bodão, o Pedrinho Punk, o Tuté, o Pulga, o Vaca (uma mescla de Fred Flinstons e Tião Macalé que chegava perto das pessoas sem ser observado/percebido e iuuuuuhhhhhuuuuuuu! – e aí era aquela festa, se divertia com o susto que as pessoas levavam. Que pegadinha do Faustão que nada), a muda, o mudo (no caso, mais que um mudo, um deles lavava por conta própria os carros - estacionados na rua – e ai de tu não dar uns trocados: surtava; o outro até hoje chamam de Roberto Carlos por causa dos óculos escuros igual ao do rei; e onde tem mudo, lembrando Decameromn do Boccaccio, as freiras ficam todas em polvorosa) e assim o barco vai andando.
Um outro clássico da cidade era a “Nega Tifú”: ficava parada em uma das esquinas da avenida principal, óbvio que, no local mais movimentado da cidade, e quando passava um rapaz qualquer ela levantava o vestido (no estilo) colegial, é claro que, desprovida das roupas de baixo, e gritava: Olha a Buceta! O sorriso ingênuo (de repente o ingênuo era eu) dela diante de um olhar de surpresa do transeunte dizia tudo, não tinha maldade, talvez uma necessidade inconsciente de afronta. Com o sorriso acabava por expor a boca desprovida de dentes, numa felicidade que não se importava de expor as intimidades.
Agora, o mais famoso de todos foi o Pé-de-Boxa (tinha esse apelido por causa de um problema de nascença, não tinha os pés formados, apenas dois tocos). São inúmeras as histórias do Pé-de-Boxa, as mais engraçadas são contadas (em algumas rodas da cidade) dele dando um jeito de se livrar da polícia, como nem sempre conseguia, nas segundas-feiras era comum vê-lo nos programas policiais por pequenos furtos (entrava na casa dos médicos, enquanto estes não estavam, e ao invés de roubar algo tomava as garrafas de whisky importado e, sem condições de ir embora, dormia esparramado/emgarrafado no sofá).
A história mais famosa dele aconteceu na quaresma, no interior de um município próximo, vamos aos fatos que não passam de uma interpretação (adaptada por este que vos fala) colhida entre os moradores da cidade:
- primeira cena: de um lado da cidade a moça queria ir ao baile, mas o pai não queria deixar, pois, segundo a sua crença, era pecado tu não respeitar o período da quaresma (período de abstinência);
- segunda cena: do outro lado da cidade convidaram o Pé-de-Boxa para ir ao baile, deram um chá de loja no cidadão, perfume e até calçado (que o dito cujo não usava) deram para ele usar.
Terceira cena: façam de conta que é filme (da sessão da tarde) da Globo. Vocês não vão acreditar, os dois se encontraram no baile e depois de trocarem alguns olhares, dele gaita (dois pra lá e dois pra cá num vanerão de fazer suar até a alma). Lá pelas tantas, depois de dançarem mais que um par de vaneras, veio aquela lentinha pra aproximar ainda mais os interessados que ainda restavam no salão e não haviam se decidido (Peço um pouco de imaginação agora, uma boa dose de suspense e a trilha sonora pode ficar a sua escolha). A moça acomodou a cabeça no ombro do Pé-de-Boxa e quando olhou para baixo, os calçados do cidadão apontavam um para o norte o outro para o sul.
Desfecho da cena nos próximos capítulos ou na nota-de-rodapé.
O Último dos Moicanos
O último nome da galeria (quando digo o último não gostaria de fechar, apenas acho que o povo que perambula pelas ruas hoje apresenta para a sociedade um pacto diferente de um tempo atrás – a malandragem parece ter sido substituída por uma certa maldade, digamos que, sem precedentes) é o Chocolate – um desses cidadãos de rua que onde estiver vai estar sempre abraçado em uma garrafa de qualquer coisa alcoólica. A história dele vai dar números finais ao placar e, assim sendo, promover a interrogação final (sem a intenção de interrogar ninguém) que o texto irá deixar no ar.
Nas eleições municipais de 2004 lançaram o cidadão candidato a vereador sem uma oficialização partidária (não era filiado). O que acontece é que em poucos dias tinha santinho do Chocolate (sei lá eu bancado por quem) em todos os cantos da cidade (o lema, entre tantos, era – “para agüentar a sem-vergonhice só de cara cheia”): primeiro ponto, os eleitores passaram a reconhecer o Chocolate como possível candidato, sabiam que era brincadeira mas não tinham certeza se a brincadeira era oficial (se estava registrado) ou se era mera sabotagem; segundo ponto, a situação chamou a atenção de uma “associação dos direitos ao cidadão” (acho que é isso) que considerou de uma tamanha leviandade lançar como candidato a um cargo público uma pessoa que, aparentemente, não tinha aprovado essa condição; terceiro ponto, com o Chocolate não tinha como (des)confirmar absolutamente nada - estava sempre de cara cheia.
Vejam, não quero entrar no mérito da brincadeira (quem fez? Por que fez? Se ela é de bom ou de mau gosto?) pois, afinal de contas, para o Chocolate, isso é o que menos importa. Gostaria apenas de salientar uma das situações que considero importante: de como a sociedade organizada parece sempre dar um jeito de se livrar do indesejado. O Chocolate passou (mais de) dez anos perambulando pelas ruas da cidade sem que ninguém o notasse. Caído, literalmente, na sarjeta, mas em nenhum momento esta situação (para uma associação qualquer) era motivo para que alguém intercedesse com algo que pudesse tirá-lo desta situação (acho até que ele dava graças a deus que isso não acontecesse); por sua vez, a candidatura (não oficial) foi motivo para que uma associação de direitos humanos intercedesse (retirando o Chocolate das ruas) com aquele discurso hipócrita de que apenas queria protegê-lo (de um possível desgaste público ou sei lá do que – isto, apenas, até que terminasse as eleições de 2004, depois ele voltou, literalmente, outra vez, para a sarjeta).
Por sua vez, sem ir muito a fundo na questão (pois o causo já está se alongando), imaginem só se esta onda pega, e a cada tentativa de lançarem alguém candidato (sejam eles chocolates, chuchus, bergamotas...) a algum cargo eletivo (qualquer) apareça uma associação (qualquer) para botar água na fervura? Isto por um lado seria maravilhoso, poderia nos livrar de cada situação incomoda; por outro lado, provocaria chiadeira de todos os tipos, acho que até greve de fome, os possíveis candidatos, seriam capazes de fazer (lembre-se que, no Brasil, mas não apenas neste, o poder tem cheiro de teta fresca – ou seria leite?). Os demais, com tantas coisas para perderem, não sei o que diriam diante de uma situação desta. O Chocolate, por sua vez, para deixá-lo em paz, como resposta para a situação, parafraseio uma outra figura (mais ou menos) anônima – O Vanderlei - que perambulava pelas ruas de Chapecó e quando era enxotado dos bares (por não ter sido convidado para a festa) respondia em alto/baixo e bom tom: “Mesas são mesas, cadeiras são cadeiras, garrafas são garrafas, o sol nasce para todos e ninguém é mais do que ninguém.”
Nota de rodapé. A moça entrou num desespero e saiu gritando do baile, é o diabo, é o diabo! O Pé-de-Boxa continuou por lá, a moça nunca mais viram, e como a história do mundo sempre foi baseada na dos vencedores, permaneceu viva a lenda do Pé-de-Boxa.
demétrio, sei de uma história muito mais macabra. diz a lenda que quando o pé-de-boxa morreu, a sua turma, gangue, como num ritual, bebeu seu sangue.
noitesdecabiria · Florianópolis, SC 13/11/2006 08:56Muito bom o texto.
Fabinca · Bento Gonçalves, RS 16/12/2006 15:13
isso ae panaroto..boa esplanação!
Texto bom e bem escrito.
Porém muito longo.
cuidado
Perfeito o seu texto , super esclarecedor.
carol de trancinhas · Brasília, DF 25/7/2007 22:44adorei, Demetrio!!!
Natacha Maranhão · Teresina, PI 2/8/2007 16:35Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Chapada dos Veadeiros, como você já deve saber, é um lugar bonito por natureza. Com a beleza da sua diversidade biológica, o lugar parece um... +leia
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!