Observatório

Revelando o concurso
Somos fãs do Projeto Revelando os Brasis. De cara achamos que era um projeto que tinha tudo a ver com a vocação colaborativa do Overmundo, ao permitir que pessoas de cidades com menos de 20 mil habitantes tivessem todo o apoio para fazer curta-metragens. Ano passado, vários textos foram feitos por aqui graças a uma parceria bem legal com o projeto. Este ano, seguimos em contato... leia

Fóruns

Observatório · tudo sobre o Overmundo

Ajuda · tire suas dúvidas aqui

Código · sobre o sistema do site

Conversas · sobre culturas de todo o Brasil

Classificados · produtos e serviços culturais

 
A Negr'Arte na Resistência Cultural
George Cardoso · Belo Horizonte (MG) · 20/2/2007 06:24 · 104 votos · 8 comentários ·  
 
1
overponto
Divulgação
O senegalês Léopold Senghor (esq.) e o brasileiro Abdias do Nascimento (dir.)
Em maio de 2006, o Centro Cultural Casa África realizou no Centro Cultural da UFMG a 2ª edição da Semana Cultural do Senegal, que homenageou o poeta-estadista senegalês Léopold Sédar Senghor. Dentro do evento, coordenei junto com o doutor senegalês Amadou Abdoulaye Diop o seminário "Senghor + Pensamentos e Movimentos da Afro-diáspora". Para substituir o senegalês Ousmane Sane, acabei escalado na mesa que discutiu a vida e obra de Senghor. De bate-pronto, na minha pressa de herança armenguêra, numa tarde conturbada eu lancei no papel as idéias e letras do texto abaixo, que tratam da apropriação das artes negras para visibilizar as civilizações do mundo negro e um pouco do feito do escritor e pensador da negritude no Brasil, Abdias do Nascimento. O que apresentei na mesa do seminário, agora jogo aqui pra vocês, camarás. Afoxé!

A vida de Léopold Sédar Senghor pode ser traduzida em dois eixos: o do homem público e político e o do poeta-pensador. No entanto, o laço que liga as duas trajetórias em Senghor é a Negritude, corrente de pensamento que busca reafirmar os valores das civilizações de origem negro-africanas. Mas é preciso compreender que a Negritude senghoriana, além de movimento poético e artístico, significa também um instrumento sócio-econômico e cultural para lutar contra um supremacismo branco, a exploração do colonialismo, do imperialismo e do racismo.

Ao contrario dos outros continentes, pode-se dizer que em África existe um sentimento para além dos sentimentos nacionais. Seria, assim, um sentimento continental, necessário para que os cidadãos das atuais 52 nações africanas pudessem/possam resistir às mazelas preconceituosas do racismo europeu, sofrido por aqueles que traziam sua diferentes origens reveladas nos traços e na pele. Este "sentimento de africanidade" nada mais é que a própria Negritude, sentida e conservada nas consciências, nas expressões e manifestações culturais e sociais, conceituadas a partir dos anos 30 pelo próprio Léopold Senghor, Aimé Cesaire e Leon Damas.

No entanto, o que pode ser considerada a grande sacada de Senghor e seus companheiros foi utilizar com inteligência do poder sensibilizador das artes negras enquanto arma na luta para reconhecer a condição humana e promover o respeito aos africanos e seus descendentes, diante dum processo histórico de opressão européia, que ideologicamente estereotipava estes povos como sendo eles desprovidos de Estado, sem Fé, sem História, sem Filosofia e sem Cultura. A arte negra era para Senghor a lança de combate para sensibilizar e fragilizar o inimigo opressor, o outro - o branco europeu -, para defender o valor das civilizações do mundo negro. Acreditava ele que era preciso "redistorcer" à verdade o pseudo-pensamento eurocentrista, construir uma nova epistemologia de uma cosmovisão africana e afrodescendente em vários âmbitos, seja na política ou nas artes, que expressasse uma voz própria para reconstruir a memória, a soberania e a civilização dos antepassados do velho continente africano.

Assim, no ano de 1966, já legitimamente empossado presidente do Senegal independente do domínio francês, Senghor realiza na capital Dacar o que pode ser considerado como uma das suas grandes obras: o 1º Festival Mundial das Artes Negras, que, para a historiografia mundial, deveria ser considerado o primeiro grande reencontro de negros das nações da afro-diáspora após quatro século de tráfico - ou melhor, do rapto cruel - dos filhos da Mãe-África que foram obrigados na condição de escravos a cruzar o Atlântico e nas Américas foram constituir novos povos.

Este primeiro festival teve representações de dezenas de paises em diversas modalidades: música, literatura, poesia, teatro, artes plásticas, a fim de mostrar ao mundo ocidental a imensa produção cultural e intelectual dos povos negros.

O Brasil, como segundo maior país de população negra no mundo, teve como representantes em sua delegação um grupo de capoeiristas liderados pelo mestre Pastinha, a Estação Primeira de Mangueira, entre outros, e que revelou como líder desta excursão de regresso à terra ancestral o escritor, artista plástico e ex-senador Abdias do Nascimento, que hoje, na altura dos seus mais de 90 anos de idade, é um dos ícones máximos do reflexo da Negritude no Brasil.

Porém, neste primeiro festival, o Itamarati excluiu deste importante evento grandes artistas negros brasileiros, a exemplo do ator Grande Otello. Como repúdio ao desrespeito do governo brasileiro, Abdias escreve ao governo senegalês, à UNESCO e à Sociedade Africana de Cultura - com sede em Paris -, então responsáveis pela organização do festival, uma carta de condescendência aos ausentes da maior nação negra das Américas, que desenha em letras a importância do festival enquanto acontecimento e obra viva e humana para todo o mundo da diáspora negra, em que dizia:

"Irmãos:
A diáspora negra foi o acontecimento mais trágico da história do homem. Fomos arrancados pela violência do coração da África - de nossos deuses, de nossos costumes, de nossos afetos - e vimos habitar o Brasil, Cuba, Venezuela, Porto Rico, Haiti, Estados Unidos. A história guarda nossa história nesses quatro séculos e, hoje, convocados pelo Senegal livre, por nossa Mãe-África libertada, realizamos a ansiada viagem de volta. Desde cidades tentaculares como Nova York ou São Paulo, dos canaviais cubanos, dos bananais da América Central, dos cafezais colombianos, do fundo das minas, dos poços de petrolíferos, das usinas, ou dos mistérios da Bahia e Porto Príncipe, regressamos com nossas lágrimas e nosso riso. Enrijecidos na experiência de sangue, de força, de luta, de sofrimento - construímos um mundo novo, uma civilização nova -, comparecemos a esse 1º Festival Mundial das Artes Negras para confirmar nossa fidelidade às origens que estes quatro séculos de escravidão não conseguiram anular. Fomos negros ontem, somos negros hoje, seremos negros amanhã.
Nós, os negros brasileiros, artistas, poetas, intelectuais, músicos, nós, os exclusos fisicamente de Dacar, não nos sentimos ausentes. Em cada passo de dança que se executar no Festival, nós também estaremos dançando. Estaremos presentes em cada palpitação, na poesia e na música que se ouvir. Somos testemunhas oculares, pois nosso rosto está impresso para a eternidade nas máscaras que se exibirão. Somos a Negritude. E Negritude é a própria onipresença para aqueles que a assumem e a amam. Sobre as diferenças de idiomas, acima das distancias territoriais e das nacionalidades, os veios da diáspora, em movimentos concêntricos, se reintegram no grande mar escuro dessa mágica Negritude que nos manteve no espaço e no tempo unidos e irmãos."

Através deste texto de Abdias do Nascimento podemos conhecer um pouco do que foi uma das obras que Léopold Sédar Senghor idealizou para a posteridade da memória das civilizações negras no mundo, e saber o quanto (e como) as autoridades brasileiras da época já (des)tratavam as questões raciais no Brasil, sobretudo as de origem negro-africanas, raízes de grande parte da cultura do Brasil.

tags: Belo Horizonte MG cultura-e-sociedade negritude negro negra brasil arte festival senghor abdias nascimento senegal geo


 
canto_esquerdo comentários rss postar novo comentário canto_direito
 
Grande George!Manda mais! Tem o pessoal da negritude da América Central, tem o Aimè Cesaire. Tem a galera de Cuba...O Brasil precisa de um banho de Negritude, George. Manda mais!
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 20/2/2007 06:50 
2 pessoas acharam útil
Sua opinião: Útil   

Quase montei uma peça de Aimé Cesaire uma vez, uma versão de A Tempestade, de Shakespeare. Genial: pena que o projeto não deu certo. Mas fico feliz que tenha acontecido esse encontro em Minas.
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 20/2/2007 11:46 
1 pessoa achou útil
Sua opinião: Útil   

Essa galera, Fábio, ligada ao movimento cultural 'Negritude' ao qual o George se refere, criou raízes profundas na cultuta da África contemporânea (pena que o Brasil ignora estas coisas). Recomendo também o fantástico poeta Nicolas Guilhén, de Cuba, mesma praia portanto.
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 20/2/2007 12:32 
1 pessoa achou útil
Sua opinião: Útil   

Valeu, camarás! Há muito mesmo dos heróis e grandes nomes da negritude da afro-diáspora a ser dito e escrito. É uma pena esses nomes serem tão pouco conhecidos entre nós brasileiros, que formamos a 2º maior população negra do mundo, a 1ª fora do continente africano. Foi vergonhoso em 2006 ver que o governo brasileiro não declarou o ano como o "ano Senghor", como fizeram praticamente todas as nações da afro-diáspora, reconhecento a importância dele no enfrentamento das pseudo-teorias raciais européis e de valorização das civilizações do mundo negro.
Poxa, Spirito e Fábio, vocês lembraram bem Cesaire... Gosto bastante do "Cadernos de Retorno" dele. Valeu por apoiarem minha humilde contribuição neste terreir'eletrônico. Tô chegando agora e vamos ver no que vai dar essa kizomba de idéias. Axé! [b]george[/b]
George Cardoso · Belo Horizonte (MG) · 20/2/2007 13:02 
1 pessoa achou útil
Sua opinião: Útil   

Vem na fé, parceria! O que mais tem por aqui é coisa para ser dita.
Abraços,
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 20/2/2007 14:33 
1 pessoa achou útil
Sua opinião: Útil   

Geoge, meu abração,
- Tenho me batido pelas proposições com propostas reais, você até exibe Abdias, o patriarca. É só uma lembrança me permite: O negro pintado - - O Emperror Jones, acho que na Argentina, um prazer: Um negro no Papel principal - engano: O negro era pintado (um branco pintado de preto), como defunto que formiga comeu os lábios, um horror! - escandalisa Abdias.... Abdias socorre-se do não negro... este terá de ser o principal aliado, assim Abdias deixa para a História uma proposta vitoriosa, a única, avalio: " o fim do negro pintado". No mais vamos em frente andre
Andre Pessego · São Paulo (SP) · 27/4/2007 17:07 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Galera,
Achei o livro do Nicolás Guilhèn que estava sumido. Vou publicar umas coisas dele aqui, qualquer hora dessas.
O Livro é o 'Songoro Cosongo'

Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 27/4/2007 22:20 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   


George e galera,
Promessa é dívida: Aqui o post sobre o Nicolas Guillén que eu vos prometi.
Abs,
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 5/5/2007 18:18 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   
 



  Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

 
canto_esquerdo   canto_direito