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A nova cartografia social da Amazônia

Thaís Brianezi
As crianças da aldeia Beija Flor ajudaram a desenhar o mapa da comunidade
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Thaís Brianezi · Manaus, AM
21/2/2008 · 232 · 13
 

A Amazônia é um lugar que a maior parte dos brasileiros só conhece no mapa: aquela imensidão monocromática, em geral verde, cortada por muitos traços azuis, que ocupa todo o Norte do país. Para muitos, há muito tempo, ela é associada ao vazio demográfico, à natureza selvagem. Inferno ou paraíso verdes: o sinal das classificações oscila entre o extremamente positivo ou negativo, mas a imagem de natureza selvagem, sem gente, pouco muda.

O nome Amazônia é conhecido no mundo inteiro, virou marca de uso comercial e político. Mas a realidade da região, de fato, ainda é bastante ignorada pela dita sociedade globalizada e globalizante, que cada vez mais se preocupa (ou diz se preocupar) com o meio ambiente.

Quem conhece bem a Amazônia é, paradoxalmente, pouco conhecido. São povos e comunidades tradicionais que lutam contra um processo de invisibilidade social ao qual, historicamente, foram condenados. Por meio deles, com o apoio do projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, o verdadeiro mapa da maior floresta tropical do planeta está sendo desenhado.

Mulheres quebradeiras de coco babaçu do Piauí, Quilombolas da ilha do Marajó, Ribeirinhos da região do Zé Açu, no Amazonas, e Homossexuais na cidade de Belém. Estes são exemplos dos títulos dos 50 fascículos que o projeto já lançou, nos últimos dois anos e meio, desde que seu coordenador, o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, mudou-se para Manaus, como professor visitante do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura da Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). No início, em 2005, o projeto tinha o nome de Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil e realizava trabalhos em todo território nacional. Na renovação do contrato de financiamento com a Fundação Ford, ele restringiu seu foco de atuação e foi rebatizado.

Os fascículos são resultado de oficinas de mapeamento participativo, nas quais as fronteiras entre os sujeitos e os objetos de pesquisa se dissolvem. Professores e alunos de graduação e de pós-graduação apóiam o processo no qual membros de um determinado grupo registram quem são, onde e como vivem.“As identidades são produtos de classificações. É preciso se perguntar sempre quem classifica”, era o conselho que ouvia do professor Alfredo, quando fui sua aluna, em 2006. Não por acaso, portanto, os textos dessas publicações são construídos quase que exclusivamente com os depoimentos das pessoas que participam da oficina.

Os fascículos têm sido usados como instrumento de luta. Eles alcançam grande circulação e fortalecem essas comunidades no encaminhamento de reivindicações”, contou o pesquisador Emmanuel de Almeida Jr. O coordenador da Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, funcionário do Ministério do Desenvolvimento Social, Aderval Costa, parece concordar. “Com o trabalho do Nova Cartografia ganha força, dentro do Estado brasileiro, o reconhecimento de que um quarto do território nacional é legitimamente ocupado por cinco milhões de famílias representantes de povos e comunidades tradicionais. Esse número tem gerado protesto dos ruralistas, que já se articularam para pedir a revisão dos decretos de regularização fundiária de quilombos e de territórios indígenas”, alertou Aderval na 5ª reunião ordinária da Comissão, durante o II Encontro Nacional dos Povos das Florestas, em Brasília, em setembro do ano passado.

O tuxaua da aldeia Beija Flor, Fausto de Andrade Costa, espera com ansiedade que o fascículo produzido com a comunidade fique pronto. Ele e mais 231 indígenas de novo povos (Tukano, Sateré Maué, Tuyuca, Marubo, Maioruna, Dessana, Arara, Apurinã e Baniwa) vivem em um terreno de 42 hectares, na área urbana de Rio Preto da Eva, pequeno município vizinho a Manaus (AM). Lá, a oficina de mapeamento participativo aconteceu em outubro de 2007, durante três dias, com cerca de 30 indígenas e cinco pesquisadores externos. “A gente não consegue aprovar projetos nem trazer uma escola indígena para cá, porque nossa área não está demarcada”, lamentou o tuxaua. “Com o Nova Cartografia, a gente não vai mais só pedir de boca, vai ter documentos para levar ao Ministério Público Federal, à Funai”, comemorou o líder indígena.

A aldeia Beija Flor nasceu em 1991, quando o norte-americano Richard Melnik, suposto dono da área, convidou alguns artesãos indígenas a mudarem para lá. Ele revendia aos turistas, em Manaus, os artesanatos produzidos em Rio Preto da Eva. Dez anos depois, quando o “benfeitor” morreu sem deixar herdeiros, seu procurador legal, Tadeu Drummnond Geraldo, que mora em Minas Gerais, passou a reivindicar a propriedade do terreno. Desde então, os indígenas têm sofrido ameaças de expulsão, visíveis nas marcas de bala deixadas por pistoleiros nas placas na entrada e ao redor da aldeia.

A violência que deveria silenciar esses povos tradicionais da Amazônia, entretanto, tem servido como estímulo à mobilização. O nome do futuro fascículo produzindo na aldeia Beija Flor foi escolhido pelos participantes da oficina e reflete esse espírito de auto-afirmação da identidade étnica: Indígenas em Rio Preto da Eva. No meio da publicação, seguindo o modelo dos outros fascículos, haverá um mapa da comunidade, com coordenadas geográficas marcadas pelos próprios indígenas (durante a oficina, eles aprenderam a manusear o GPS). À exatidão da latitude e longitude medidas com cuidado, soma-se a poesia das legendas: cada marcação cartográfica (a localização de uma casa, de um roçado ou de um malocão, por exemplo) é representada por desenhos das crianças da aldeia. A expressão “tão pequeno que nem aparece no mapa”, na Amazônia, aos poucos, vai deixando de existir.

Como adquirir os fascículos

O site do projeto Nova Cartografia Social da Amazônia ainda está em construção. Enquanto os fascículos não são disponibilizados eletronicamente, a distribuição (gratuita) é feita diretamente pelos grupos “mapeados” ou pelo escritório central do projeto:

Endereço:
Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia
Rua José Paranaguá, 200 – Centro, Manaus/AM
CEP: 69005-130

Correio eletrônico:
pncsa.ufam@yahoo.com.br

Telefone:
(92) 3232-8423

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Sinvaline · Uruaçu, GO 21/2/2008 18:49
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Lu&Arte · Porto Alegre, RS 21/2/2008 21:47
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sandra vi · Petrópolis, RJ 21/2/2008 22:45
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Thaís Brianezi · Manaus, AM 22/2/2008 11:51
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Mell Glitter · São Paulo, SP 22/2/2008 19:15
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Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 23/2/2008 10:50
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Renata Silva · Aracaju, SE 23/2/2008 13:50
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Juliaura · Porto Alegre, RS 25/2/2008 11:58
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FILIPE MAMEDE · Natal, RN 27/2/2008 10:10
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ana leo · São Paulo, SP 31/3/2008 10:51
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Selma Dealdina · Vitória, ES 28/10/2008 13:49
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Thaís Brianezi · Manaus, AM 30/4/2009 20:03
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Thaís Brianezi · Manaus, AM 30/4/2009 20:05
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