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A nova literatura de Mato Grosso(II)- Literamérica

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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
16/10/2006 · 134 · 12
 

A Literamérica e os escritores.

Penso: o papel do escritor é escrever. Trabalhar muito: escrever, escrever , ler o que escreveu, riscar, cortar, amassar, amar, odiar, destruir, jogar no lixo, lixo, lixo. Ler muito para escrever. Jogar muitos escritos fora na lata de lixo e continuar escrevendo, depurando, lapidando a nave bruta para vôos na casca da jóia desengastada. Jóias de vôos. Asas de poesia.

Só que, agora, nos tempos modernos, o papel do escritor tem se alargado como imensas páginas que se abrem - ad infinutum – para se escrever, selecionar, editar, produzir, distribuir o livro com os inúmeros meios disponíveis, enfim, cair na rede e tentar ocupar seu território nesse mar de (des)territórios.

páginas vazias repousam antes de serem ocupadas pelas garatujas que se multiplicam como insetos nesse grande oceano de coisas & signos

Então é preciso discutir mercado, encontrar soluções para novos mercados, cooperar, disponibilizar obras, fazer circular tanto o objeto livro como o e.book ou e.livro se preferirem, encontrar novos meios, novos caminhos, novos fluxos nessa gigantesca rede que não pára de se expandir. Esses movimentos vêm, saudavelmente, anarquizando os modelos arcaicos de produção que são estanques, elitistas, autoritários, exploradores.

Então, tem mais é que parar de chorar e ir à luta: encontrar seus próprios meios de sobrevivência nessa grande rede colaborativa que está construindo um caminho sem volta. A onda que seduz a garotada é a do conhecimento coletivo, do compartilhamento criativo-afetivo-solidário. As utopias estão mais vivas do que nunca. A capacidade de sonhar está em estado de alerta e vem desenhando novos modelos de auto-sustentabilidade.

Naveguei por toda essa introdução, para falar da segunda Feira do livro sul-americano, que aconteceu em Cuiabá, no mês de setembro. A Feira é realizada pela Secretaria estadual da Cultura junto com a associação Alimento – amigos do livro de Mato Grosso - entidade que agrega escritores, editores e livreiros. A Alimento mantém reuniões regulares onde seus membros têm como objetivo falar daquilo que mais gostam: de livros. Buscam encontrar saídas para a complicada questão da leitura, da escrita, da edição, da publicação e da distribuição de livros em nosso país. A idéia ao se realizar esse evento, que envolve a participação de quase todos os países sul-americanos, é propiciar uma integração cultural através do livro, dos escritores, editores, estudiosos, enfim, de todos aqueles que de alguma forma alimentam a cadeia produtiva e faz o livro chegar até os leitores.

É interessante iniciar essa integração continental, de fato, através do livro. A Feira propiciou encontros entre escritores e editores de vários estados brasileiros e de outros sul-americanos, como Equador, Chile, Venezuela, Uruguai e Argentina, dentre outros, o que torna o evento bastante pertinente, pois a aproximação entre produtores e criadores pode frutificar, despertar interesses principalmente para a circulação de suas obras, enfim, são contatos que sempre deixam algo de bom. Foi interessante também a mostra gastronômica, realizada através de uma parceria entre a secretaria estadual da Cultura e a UNIC, com a oferta de um prato típico, de cada país da América do Sul, no restaurante da Literamérica. A produção dos pratos, muito bons por sinal, ficou por conta dos alunos do curso de Gastronomia da Universidade de Cuiabá.

As palestras e os encontros dos escritores têm revelado um certo distanciamento entre a literatura brasileira e a produzida no restante do continente principalmente pela questão da língua. Uma maneira de se iniciar essa integração poderia ser através de acordos bi-nacionais entre os Departamentos Superiores de Políticas de Leitura, das Câmaras setoriais que tratam da questão do Livro, da Literatura. É importante desenvolver políticas públicas, por exemplo, de estímulo à tradução de obras literárias tanto do português para o espanhol quanto o inverso; de fomento ao processo de edição, publicação e circulação nos países sul-americanos, nas escolas de ensino básico, ensino técnico e universidades. Acho que seria interessante também estimular o ensino da língua espanhola no ensino básico no Brasil. Afinal, além de ser uma língua cada vez mais difundida na geografia mundial, é importante para uma integração definitiva entre nós brasileiros e 'los hermanos del sul.'

Sem deixar cair a peteca do infame trocadilho: Hermano Vianna, que foi um dos palestrantes da Feira de livros, deu uma belíssima demonstração em sua aula-palestra multimídia sobre a contemporaneidade e suas possibilidades milionárias de produção colaborativa. O que dá para concluir é que o conhecimento coletivo deve ser cada vez mais difundido, sem medo de ser feliz, ao contrário, a felicidade e o bem estar coletivo são as melhores coisas que podem acontecer com esses novos procedimentos, que representam avanços fabulosos na prática humana do viver em coletivo. Qual o sentido do conhecimento, a não ser, servir a todos?

E aí entra a questão da autoria. De quem são as idéias? Pelo que sei, elas circulam livremente, não respeitam barreiras geográficas e tampouco são privilégios de alguém ou de algum lugar. Os modelos de regulação do direito autoral que vigoraram e vigoram ainda hoje estão sendo superados. Novas alternativas estão sendo praticadas e fazem parte desse conjunto de transformações que estamos vivenciando. Alternativa como o Creative Commons que já passou das 50 milhões de obras em todo o mundo sob sua forma de licenciamento. Overmundo também está nessa. Faz parte dessa vanguarda.

A literatura de Mato Grosso vem se desdobrando em movimentos orgânicos que não dependem de nenhuma ação oficial. Escritores aparecem em qualquer lugar e considero animador ver a sanha da gurizada que vem brotando em todos os recantos desse imenso Mato Grosso: então, vi textos de autores contemporâneos bons, que me chegaram pela revista Fagulha, editada por Juliano Moreno, de Sinop, de Barra do Garças, de Cáceres. Lembro de Raimundo Maranhão que morava em Guiratinga, interior de Mato Grosso, no século passado, com seu faro de futuro: se utilizava de meios que na época ainda não eram utilizados para tais fins: com o melhor aparelhamento dos Correios, na época (pós Segunda Guerra), descobriu que não havia limites que impedissem a circulação de sua produção literária junto com a dos seus parceiros poetas de vários países do mundo. Ele tinha uma lista com cerca de seiscentas cidades para onde distribuía seus poemas entre movimentos literários planetários, criando e abrindo assim, novo meio de circular, interagir, ler compartilhar. Hoje, fico fascinado com a gurizada que, com muita facilidade, mete a mão na internet e recorta coisas, cola outras, recria, cria em coletivo, se “adjuntano” pra fazer arte, como diz o cuiabano.

Acho muito rica essa relação entre meio e mensagem onde nada se separa, onde tudo interage e uma coisa dialoga com a outra: bifurcações que nunca terminam. Nunca acreditei em obra acabada, obra fechada, obra que não pudesse ser invadida. Então, uso de tudo para criar, utilizo velhas bulas de produtos químicos, revistas velhas, recorto trechos de filmes já rodados, pedaços de músicas alheias, jogo tudo no ventilador, jogo poeira pra tudo que é lado. Não tem barreiras, não tem limites, não tem geografia fronteiriça, é zoeira nas orelhas, ruídos nos olhos, tatos, olfatos, e assim vamos, vivendo e revivendo todos os ciclos possíveis e inimagináveis.

Termino aqui deixando um forte abraço torto de anjo barroco misturado ao som eletrônico que rola no fundo do quintal, enquanto a feijoada se refestela ao fogo, a boca bebe um gole de cachaça com limão. A cerveja? É holandesa ou alemã, não sei direito. O poema? É português. Do José Luis Peixoto. Poesia contemporânea de Portugal. Qual?

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Fábio Fernandes
 

Eduardo, é isso aí: nós, escritores, hoje em dia temos uma variedade muito maior de modos de disseminação de nossos textos do que há vinte anos. Não temos muito do que recamar não: temos mais é que escrever e botar o bloco na rua, como já dizia o saudoso Sérgio Sampaio...

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 16/10/2006 12:15
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Patrícia Alcântara
 

A literamérica é um evento fantasticas, sem duvida, uma grande oportunidade tanto para escritores quanto para admiradores e ineteressados nos mesmo.
E realmente é empolgante a quantidade de jovens mentes querendo se aventurar pelo mundo da literatura... O próprio overmundo tem revelado isso.

Patrícia Alcântara · Cuiabá, MT 16/10/2006 19:45
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Rangel Castilho
 

Saudações aos escritores matogrossenses...
( já fui matogrossense um dia, antes da divisão...)
E o que não dividem hoje em dia??
Poetas e Poesia!!!!!!

Rangel Castilho · Anastácio, MS 16/10/2006 22:50
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Pedro Gontijo
 

Tudo isso é ainda para mim um mundo inexplorado. A labuta em escrever é a mesma, mudam as ferramentas para criar e distribuir. É muito bom conhecer um pouco mais desse mundo criativo e perceber que não estou sozinho nesse turbilhão...
Grande abraço!

Pedro Gontijo · Brasília, DF 17/10/2006 12:08
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eduardo ferreira
 

é muito bom a gente poder se conectar e perceber que temos pares aos montes...abraços gerais.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 17/10/2006 13:19
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Jean Campos
 

É verdade Eduardo, a possibilidade de conexões que um site como o Overmundo proporciona é inexplicável...
Coisas que criamos(e deixamos lá naquele canto da gaveta de trapos) podem deixar de ser um potencial lixo.
Quanto a Literamérica, estive trabalhando na assessoria durante o evento, e posso afirmar que o conhecimento que adquiri á algo ímpar. Foi lá que conheci o Hermano, e começei a publicar colaborações no site.
Abraços gerais(não querendo copiar mas já copiando!).

Jean Campos · Cuiabá, MT 17/10/2006 16:04
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eduardo ferreira
 

legal demais jean. prazer em ter você aqui colaborando. tira aí das gavetas passe cla e cole aqui, rs. abração. há braços!

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 17/10/2006 18:44
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eduardo ferreira
 

passe cola, desculpe.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 17/10/2006 18:45
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Marília Beatriz
 

Companheiro, é bom ler coisa bem lançada e sem ranço como sobre a Lieramérica e EU NÓIA. V. tem razão sem ler não é possível escrever. É porque você é MUITO LEGAL que admiro V.S.

Marília Beatriz · Cuiabá, MT 23/10/2006 23:38
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eduardo ferreira
 

oi marília. tantos nós para desfazer, não é? a gente tem mais é que abrir o verbo e o coração. um beijo.
*espero colaborações suas para o banco de cultura também, afinal sei que tens muita coisa escrita aí, rs. sério: coloque ensaios, suas pesquisas, poemas, sei lá, tanta coisa...

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 25/10/2006 21:28
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amaralnet
 

oi eduardo, ando acompanhando as conversações que acontecem pelo overmundo e encontro (com alegria e saudade) as antenas da raça forte e louca do cerrado produzindo como sempre, fazendo mais que resistência, conversando com o mundo graças, Oh!, graças as redes colaborativas, minha obsessão intelectual e profissional. Tenho trabalhado com a articulação de redes de pessoas e organizações, fazendo o que chamo de redes sociotécnicas, pois são redes sociais suportadas pela tecnologia de comunicação. Além disso sou faciltadora de comunidades virtuais, tipo ambientes virtuais de aprendizagem, listas de discussão, etc. Bem, tenho uma filha literata - a Mariana, que também utiliza o Overmundo.
bjs
Vivianne

amaralnet · Florianópolis, SC 20/2/2007 14:39
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Djalma Nery
 

Ehhh Cuiabá, terra de gente boa!!!

Forte Abraço!

Djalma Nery · São Carlos, SP 28/11/2008 02:46
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