Quais são os limites impostos pelo que vemos?
Kafka, em um conto intitulado “A construção”, descreve-nos uma cena interessante. Conta a história de um ser que, buscando proteção, decide morar nos subterrâneos da floresta; cava seu próprio labirinto. Corredores que se complicam em um intrincado jogo de galerias, uma planta da construção especialmente organizada para dificultar o acesso de qualquer estranho: uma constante fonte de segurança e de alimento, uma vez que, devido ao seu profundo conhecimento da estrutura da edificação, consegue localizar pequenos ruídos de seres menores que ele e banquetear-se.
Uma vida constantemente direcionada para a atualização da construção e correção dos pequenos detalhes problemáticos: eis que o ser descrito por Kafka se obceca. Imagina diversas possibilidades de falha e, de modo hipotético, a todo momento imagina sua própria ruína. Focinhos que destroem todo o seu esforço, seres curiosos (ou até mesmo desavisados) que, por uma sorte do infortúnio consigam entrar definitivamente na construção e devorar seu empreendedor. Crê-se, em sonho, súbita e irremediavelmente diante de seu predador. Eis que o medo surge como alavanca primeira para a nunca finalização do empreendimento: a todo momento o modifica, constrói outras galerias, outras praças subterrâneas. E, mesmo cada vez mais aprimorado, ainda assim não se sente seguro; e recomeça.
Sua fortaleza soa, antes de tudo, como uma prisão construída em torno de si: “também aquela saída [da construção] não me salva, como provavelmente ela não me salva em caso algum, antes me arruína, entretanto é uma esperança e eu não posso viver sem ela”. Esse trecho parece-me bastante elucidativo se enxergado em proximidade. Como posto por Brecht, “todos reconhecem a força das águas, mas poucos tratam da violência das margens que a comprimem”. Antes de as galerias da construção representarem uma maior eficiência no caso de fuga, são a previsibilidade dos atos do ser que nelas habita. Comprimido pelas paredes que ele mesmo arquitetara, vê-se preso dentro de seu próprio projeto: seus movimentos tornam-se previsíveis, óbvios.
Em todos os sentidos, torna-se a própria construção. Certa feita, tendo decidido sair a campo aberto por algum tempo, sente-se ainda assim preso à sua fortaleza: “A construção me ocupa muito a cabeça. Saí correndo da entrada, mas logo estou de volta. Procuro um bom esconderijo e vigio a entrada da minha casa – desta vez do lado de fora – durante dias e noites. Pode parecer tolo: isso me dá uma alegria indizível e me tranqüiliza. É como se não estivesse diante da minha casa, mas de mim mesmo dormindo e tivesse a felicidade de poder ao mesmo tempo dormir profundamente e me vigiar com brio”. É bastante esclarecedora a afirmação de que “é como se não estivesse diante de minha casa, mas de mim mesmo”: ao dedicar toda a sua vida à construção daqueles túneis, acabara por torna-los uma síntese de si mesmo e lá se trancar. Em cada parede jazem diversos dos seus medos, a cada encruzilhada de galerias surge um passado que está impregnado em toda a edificação. A certa altura do conto, o ser mesmo consegue identificar em certas alas mais antigas sua própria ingenuidade da juventude como se fosse possível dissecar sua própria fortaleza tal qual sua história individual. O espaço ao qual restringira-se durante toda a vida torna-se, portanto, sua mimese em outra linguagem, a visual. Entretanto, existe ainda outra possibilidade. Sua própria constante vivência dentro dos corredores da edificação não o arregimentaria segundo seus preceitos? Seus medos não definiriam os corredores e, portanto, suas possibilidades de locomoção? Certamente que sim. Dessa forma, creio deparar-me com dois sentidos da mesma análise: o ser inventa seu esconderijo e, por outro lado, o esconderijo inventa o ser.
Em algum desses dois sentidos estaria a noção foucaultiana de epiméleia heautoû (ou o “cuidado de si”). De forma geral, esse conceito representa uma espécie de prática individual da liberdade, um regime no qual a vida deve ser tratada tal qual uma obra de arte: segundo o que Da Vinci chamaria de pintura, o ser humano deveria preocupar-se consigo e com tudo o que per via de colocare arquiteta-o. Um cuidado sobre o que se faz de si atenuando, portanto, as fronteiras entre ética e estética. Essa noção de epiméleia heautoû assemelha-se muito ao sentido proposto anteriormente sobre a obra de Kafka de o ser inventar o esconderijo, ou seja, seu meio e tudo aquilo com o qual ele entraria em contato. Dessa forma, conseguiria arquitetar a si mesmo por meio do espaço; “cuidando de si” por meio daquilo que é posto diante de si. Reconhecer, por exemplo, o caráter de poder exercido pelas paredes das galerias sobre sua locomoção e reformula-las de modo a praticar sua própria liberdade.
O trabalho aqui proposto é direcionado exatamente no sentido de buscar certos desdobramentos dessa idéia: a interferência do espaço sobre a liberdade individual do ser. É bem verdade que, ao invés de espaço, poderia ser voltado para o som ou o convívio, por exemplo. Mas não; o recorte escolhido justifica-se pelo formato do presente ensaio e de limitações impostas à análise (tanto teóricas quanto técnicas).
Apologia à ótica do invisível; um discurso sobre o hábito
As rígidas paredes das galerias propostas por Kafka poderiam muito bem ser substituídas por outro elemento mais metafísico: o hábito. Como posto por Leon Tolstoi em seu diário, “se toda a vida complexa de muita gente se desenrola inconscientemente, então é como se essa vida não tivesse sido”. Explico-me.
Imaginemos o tráfego em uma cidade. Um conjunto delimitado de ruas e sinais que garantam certa margem na mobilidade. Por meio de um poder legitimado no indivíduo cerceia suas possibilidades de ação; nesse sentido, os meio-fios de cada um dos asfaltos, juntamente com semáforos ou quaisquer outros sinais, constituiriam as paredes kafkanianas das galerias subterrâneas do ser tratado anteriormente. Há, dessa forma, uma espécie de institucionalização do hábito: tornado mais ou menos uniforme a vários indivíduos, parece realizar o esforço societal. Não podemos reconhecer simplesmente o hábito como docilizador apenas do percurso dobrado pelo espaço; ele vai além. Como mesmo posto por Foucault, pequenos mecanismos de poder parecem presentes tanto na forma de organizar os espaços quanto nos modos de utiliza-los. Há, assim, um poder estabelecido com o intuito de docilizar os corpos valendo-se da construção do sujeito: manipula-se o que antes seria o “cuidado de si” a favor de um sentimento grupal. Mas creio ser necessário ir um pouco mais além.
Cada imagem pode ser interpretada pelo sujeito de acordo com seu repertório individual de vivências. Tal qual inicialmente proposto por Marcel Mauss ao tratar das técnicas corporais identificáveis em diferentes sociedades, alguma espécie de mensagem parece ser transmitida por entre idiossincrasias corporais. Proponho aqui algo que mantenha a mesma direção, contudo caminhe em sentido diferente: que cada um desses detalhes visualmente perceptíveis transporte consigo mensagens plurais traduzidas de forma divergente em cada consciência individual. Introjetada como experiência adquirida, tal mensagem auxiliaria na construção do “eu” e da forma particular de se representar o mundo; todo elemento apresentado ao indivíduo seria recebido como linguagem a ser decriptada de acordo com seus referenciais particulares, uma vez que não existiria uma gramática convencionada para a interpretação, por exemplo, de dados iconográficos. Tal é o caráter subjetivo da imagem: suas interpretações são divergentes em função da ausência de uma convenção. De qualquer forma, se essa ausência fosse tão marcadamente presente, o observado por Mauss como gestos comuns a determinadas culturas e compartilhadas por diferentes indivíduos seria impensável. O problema parece ganhar formas mais colossais.
Com o intuito de diluir tais incômodos, retomo o tratado sobre o hábito anteriormente. Dentro das margens de erro diante da convenção estabelecida, por exemplo, no trânsito, o mesmo ângulo de olhar parece oferecido a diferentes olhares individuais. Pára-se no sinal vermelho: atento à lâmpada, esperando-a permitir a retomada do tráfego, esse olhar assemelha-se muito àquele lançado pelo ser que dirige o carro ao lado e se encontra em situação semelhante. Homogeniza-se, de certa forma, um grupo em experiências semelhantes em espaços análogos. É bem verdade que os sentidos lançados por cada um dos olhares sobre o semáforo podem ser diametralmente opostos dependendo da vivência individual, mas ainda assim compõe-se um quadro interessante: o indivíduo, colocado ao longo de toda uma vida dentro dessa vivência regulada termina por entrar em contato com experiências cada vez mais em comum com os outros. Não seria essa a definição de cultura? Tipo de sentimento grupal que, mesmo apesar de seu caráter socializante, não exclui de forma alguma certos traços da individualidade? A vivência em comum toma aqui uma importância fundamental: divide a experiência quer seja de forma direta (por meio do convívio) ou de forma indireta (por meio da linguagem proposta pelo espaço compartilhado). Interdependentes, esses elementos conferem certa margem para a individualidade: uma espécie de ética. Obedecendo a esta ou aquela idiossincrasia pode-se trabalhar a individualidade; caso transpasse certos limites, a segregação é imposta ao corpo como forma de docilizá-lo, como propõe Foucault, de forma definitiva – todos os mecanismos de controle presentes na sociedade são então levados ao extremo em instituições estruturadas com esse fim; manicômios, prisões, colégios.
Há, portanto, algo tornado invisível em toda essa organização espacial. Um poder que centre os olhares na instituição corporificada no semáforo priva os olhares de atingirem algum detalhe na calçada, por exemplo. Torna-se invisível. Existe algo nesse ponto semelhante ao posto por Kafka: os túneis tornavam os elementos “lá fora” escondidos, no entanto bastaria refletir sobre a própria edificação construída ao longo da vida; em outras palavras, “cuidar de si”. Quebrar o hábito no olhar significaria revelar o invisível. Ao se docilizar os corpos segundo um caminho bem delimitado – banco para se sentar, calçada para se andar, janela para se ver – priva-se também de certos estímulos que nos seriam únicos e, exatamente por não ser compartilhado por outros, construiria uma individualidade mais sólida. Refiro-me a enxergar o invisível a todo momento; buscar o novo de modo a nos construirmos tendo-o como alicerce.
c ou ¢; vários espaços em vários olhares
Proponho aqui um ensaio prático a respeito do trabalhado anteriormente. Utilizando uma máquina fotográfica Olympus e filme Konica asa 100, proponho um pequeno exercício. As fotografias foram tiradas entre 13:50 e 14:40 do dia 22 de Janeiro de 2005. Peço, entretanto, que se desconsidere uma pequena entrada de luz aparente em certas fotos aproximadamente a 1/7 horizontal.
Foi selecionado um parque infantil em uma superquadra da Asa Sul, bairro de Brasília. Todas as estruturas formadoras do hábito estão presentes: uma cerca que converge todos os passantes para uma única entrada, uma calçada que subordina o passo, partes do parque tomadas pela grama onde, em função da ausência de areia, as crianças não brincam. Todos os movimentos aqui são estipulados por uma organização espacial que determina uma margem de erro certa a cada movimento. O traçado axial, referente aos passos, como indicado pela Sintaxe Espacial, é indicado em um esquema gráfico em anexo. A calçada em frente conduz os passantes a uma entrada na cerca cricular que define o perímetro do parque. Marcados com Xs, os brinquedos para as crianças. Identificada com um conjunto de pequenos círculos, a mesa na qual os pais podem vigiar seus filhos.
A visão do todo do recorte escolhido na fotografia panorâmica representa o oposto do que proponho no restante das chapas: escolhi por diminuir a abertura do diafragma no intuito de obter profundidade e clareza nas cores de modo a acolher um plano geral. No restante das fotos, a tentativa foi exatamente de encontrar nesse ambiente geral o particular e invisível: encontrar pequenos detalhes ocultados pelos percursos “normais” dentro do espaço. Nesse intuito, e procurando destacar essas particularidades do geral, a técnica usada consiste em, jogando com o foco e abrindo ao máximo o diafragma, entorpecer as cores do fundo destacando a nitidez do primeiro plano. Não apenas objetos, mas também texturas presentes em, por exemplo, placas, que se perdem à absorção pelo indivíduo em função do uso prático dos objetos. Ao invés de, em certo caso, figurar a visão oferecida pelo banco ao nele sentar-se, tentar capturar texturas escondidas pelo uso objetivo do objeto. Ao contrário de Bresson, não me detive a buscar o “momento decisivo”, mas sim um instante que se perdura estaticamente no espaço e pode revelar-se a qualquer um que rompa com o hábito.
Não pretendo, contudo, examinar foto a foto; ao invés de provocar uma legenda, creio que seja necessário lançar um olhar particular sobre cada um dos registros tentando alcançar, desse modo, o tal “cuidado de si”.
As fotos se encontram em anexo.
Bibliografia
FOUCAULT, Michel. “A hermenêutica do sujeito”. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
FOUCAULT, Michel. “Vigiar e punir”. Petrópolis: Vozes, 2004
KAFKA, Franz. “Um artista da fome / A construção”. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
MAUSS, Marcel. “Sociologia e Antropologia”. São Paulo: Epu.
Que loucura Pedro. Kafka, Foucault, Mauss... É uma subjetividade do espaço? O espaço como indução e como o próprio comportamento. Muito interessante essa percepção de que pequenos gestos se repetem em individuos completamente diferentes, como o olhar o sinal vermelho, ou como recentemente aquele cineasta carioca levantou aqui no overmundo aquela olhadinha pro lado quando se digita a senha do cartão.
O texto está dificil mas compreensível especialmente quando se vê as fotos.
O que vc espera é a repetição deste exercício ao redor do Brasil? O cuidado de si, não faz parte da história da sexualidade?
Um abraço e parabéns o txt causa uma enorme reflexão sobre os hábitos que encobrem ou camuflam objetos, pessoas e práticas sociais.
Obrigado, Cláudio.
Tenho vontade de expandir tais questões para o âmbito da fotografia em alguns estudos que faço. Compreender, enfim, a fotografia como parcela da realidade - mas, também, por vezes uma parcela inesperada, fora dos padrões de olhares esperados por passarelas ou outros caminhos cotidianos. Lembrei-me dessas questões quando li um artigo aqui mesmo no Overblog sobre as tais "pessoas invisíveis" (tentei colocar o link, mas não encontrei). Ocorreu-me que, talvez, tais pessoas - por convenções sociais ou culturais - sejam forçadas a ocupar um desses tais "espaços cegos", lugares para os quais não se prevê o olhar. São, enfim, escondidos pela cidade.
A idéia do "cuidado de si" aparece na Hermenêutica do sujeito. É um livro feito a partir de transcrições de um curso oferecido pelo Foucault na França. O livro é sensacional.
Fico contente pelo bom papo.
Abraço.
encontrei o link, Cláudio:
http://www.overmundo.com.br/overblog/em-busca-de-pessoas-invisiveis
O texto é fantástico.
Eu li e tb achei maravilhoso. Inclusive li em outro lugar acho q por aqui mesmo que a Hermeneutica do sujeito foi o último curso dado por Focault em 81 ou 82. É interessante como as coisas se cruzam, coincidências...
O Cuidado de si está tb na História da sexualidade, se não me engano é o segundo volume. O que deve ter acontecido então antes da Hermeneutica, né?!
Ah! As fotos estão maravilhosas mesmo, deu vontade de procurar e fotografar alguns pontos cegos por aqui... Se der frutos, eu publico.
Abraço.
Excelente texto e analogia.
Quando eu crescer quero ser culto assim, igual a você.
Um abraço, pax.
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