Meu nome é Renato Villaça.
Vivo em Belo Horizonte.
Sou cantor, compositor, arranjador e produtor musical de discos.
Estou aqui pra escrever um texto sobre o que significa a pirataria para minha classe – a classe musical – e para a estrutura de produção, distribuição e consumo de música na atualidade.
Devo dizer, de cara, que sou totalmente a favor de qualquer tipo de pirataria sobre obras intelectuais de quaisquer formas. E tenho vários motivos pra isso.
1- O velho e ingênuo argumento de que a pirataria prejudica os artistas, que passam a ter menos condições de continuar produzindo é totalmente anacrônico. Atualmente qualquer artista tem condições próprias, se levar sua produção realmente a sério, se esforçar e se virar, de ser um auto-produtor, ou seja: os artistas que dependem do faturamento e dos planos de marketing de uma grande gravadora são artistas de museu. Velhos. Secos. Imóveis. Sem sangue correndo nas veias. São apenas simulacros. Imagens vivas de um objeto que já não existe mais: o mito romântico e televisivo do gênio popstar. Não gostaria de ser um popstar.
E, pelo que já reparei, a maioria dos popstars que conheço também não parecem gostar. Popstars são tristes. Solitários. Prisioneiros de suas próprias imagens.
Além disso, quem realmente sempre faturou com discos neste paÃs foram as gravadoras. Todas as fortunas somadas dos artistas milionários são migalhas perto do faturamento de uma major qualquer.
2- A pirataria, além de representar uma crescente fonte de renda informal na economia do paÃs, segmento econômico cada vez mais importante e promissor em todo o mundo, estimula imensamente a divulgação das obras e, setores cada vez mais capilarizados em todos os segmentos, dos mais simples aos mais cults. E todo artista que vende muitos discos, sejam eles caros ou baratos, com ou sem direitos autorais, faz bastante show. O show, como um evento, é um trabalho presencial. Ao vivo. As pessoas estão lá se comunicando e dialogando com você. Estão trabalhando. Suando a camisa. Têm valor material. Um disco, um livro, uma imagem ou qualquer coisa que se crie em arte são, antes de qualquer outra coisa, produções de um imaginário coletivo. Idéias que estão por aà e que acidentalmente e felizmente foram captadas por alguém num momento. Não se deveria cobrar para se dizer o que se pensa a ninguém. Não se deveria dar valor monetário a uma canção. A um poema. A nenhuma idéia. O copyright é excludente. Mesquinho. Ele vicia. Rebaixa. Esquematiza. Formata. Deforma. Conforma “a forma à fôrmaâ€, como diria o velho e bom Tom. Idéias deveriam ser dadas. De graça. De presente pra todo mundo que quisesse e se interesse.
3- A crise generalizada no mercado das majors coincide justamente com o perÃodo de maior fertilidade e crescimento do segmento “independenteâ€, mas sobretudo, contraindustrial. Significa que, o que diferencia a produção independente da produção das grandes gravadoras é que a independente hoje já se paga? E vendendo só 1000 cópias a 15 reais cada? E um artista de gravadora que vende 10000 a 40 dá prejuÃzo? Como pode ser isso? Se a gravadora tem muito mais poder de negociação com fornecedores, fábricas, estúdios? Se produz em escala industrial? Se divulga seus artistas em todos os canais e distribui seu produto nos melhores pontos?
4- Como pode ser? Vamos lá. Permita-me apresenta-lo o respeitável senhor Jabá. O jabá é uma prática ilegal que corresponde a um suborno. Um tipo de caixa 2. Dinheiro não contabilizado. “Uma bufunfa por fora†que cai das gravadoras na mão das emissoras para que, como num milagre do acaso, todos os programadores passam a gostar do mesmo artista. Da mesma banda. Da mesma música. E durante o mesmo tempo. Depois desgostam e passam a gostar de outro. Outro que você nunca viu mais gordo. Nem ouviu cantando mais xoxo. E sabem porque o jabá não é denunciado e apurado? Porque ele tem lobby. Ele está do lado dos fortes. Dos manda-chuvas. Dos comandantes dos veÃculos de comunicação de massa e das fábricas de plástico da indústria fonográfica. Sabem quem ele prejudica? Os artistas independentes, autônomos, que administram seus próprios trabalhos e não podem pagar pra tocar. Esses camelôs que não conseguem botar seus produtos nas prateleiras das lojas e dar notas fiscais. Vendedores ambulantes de um produto autêntico. Sem falsificação. E o público em geral. Que é obrigado a consumir uma programação de baixÃssimo nÃvel porque tem um imbecil que é diretor artÃstico de gravadora ou de rádio e TV que acha que o público é ainda mais imbecil que ele.
5- A pirataria é um caminho irreversÃvel para a humanidade. E é ótimo que isto esteja ocorrendo. Significa que estamos, de fato, entrando num estágio em que as relações de consumo tecnologicamente mediadas já ultrapassam o domÃnio estrito do mercado convencional de vendedores e compradores. De capitalistas e operários. O internauta é, potencialmente, emissor e receptor. É sobretudo um interlocutor. Um mediador. Uma ponte entre outros internautas. Um canal de geração e transmissão de idéias. A perda do valor econômico dos suportes musicais tradicionais (discos, fitas, cds) só aumenta o valor polÃtico de se fazer, promover e distribuir música na atualidade. E multiplica o número e a diversidade estética de produtos musicais em todo o mundo. E talvez seja o inÃcio do caminho de volta da prisão tecnológica e burocrática que pasteurizou, enlatou, classificou, tabelou e colocou a cultura nas prateleiras do século XX.
Enfim,
Teria mais alguns vários outros bons motivos para dizer que: sim. Eu, cantor, compositor, poeta, arranjador, produtor musical, professor universitário, pesquisador, apesar de em todas essas áreas já ter podido ganhar um extra no final do mês pingado na minha conta, sou totalmente a favor de quaisquer tipos de pirataria. E me auto-pirateiro com freqüência. Se meu projeto na Lei Estadual de Incentivo à Cultura for captado, meus discos serão distribuÃdos gratuitamente.
Aprendam a assistir filmes de piratas sabendo que eles foram produzidos em Hollywood. Por uma grande companhia cinematográfica. DistribuÃdos em todo o mundo e promovidos com toda a pompa até chegarem ao Oscar. Quem conta a história dos piratas são os judeus americanos. Não os próprios piratas.
Percebam que os piratas são pelo menos pessoas que não se conformam. Que vivem na clandestinidade. No alto mar. Estão no meio da tempestade. Que suam a camisa pra roubar. Que já perderam mãos, pernas e olhos nas batalhas pela vida. Os executivos de Hollywood são ladrões engravatados. Que roubam cifras muito mais altas e que contribuem para o emburrecimento da humanidade acima de tudo.
Os piratas pelo menos se divertem.
Cantam e se embebedam com rum, mesmo sem nenhum requinte.
Os executivos, comedidos e calados, nem competem.
Cheiram cocaÃna sozinhos em seus quartos planejando o saque do dia seguinte.
É so conferir Rock de Garagem
Estamos em 4º lugar no Brasil.
http://www.bandasdegaragem.com.br/cascarasagrada
€.S.
Ola Renato, concordo com você em partes. O Copyright é muito importante e deve ser preservado sim, afinal, uma produção intelectual pertence àquela pessoa e a mais ninguem. Tenho a liberdade de mostrá-la ou não e de vendê-la ou nao.
Atualmente temos o copyleft, que acabou desencadeando o Creative Communs (ao qual este site pertence). Assim, no copyleft, o autor intelectual da obra autoriza qualquer pessoa a ouvir e distribuir seu trabalho, sem nenhum custo, ou seja, ele escolhe como seu trabalho poderá se propagar.
Percebemos que a pirataria não é tão grande, pelo menos no mundo musical, como é noticiado pela mÃdia, pois muitos destes trabalhos são produções independentes e são regidos pelo copyleft (tacitamente). Não há pirataria neste caso.
Acredito que somente após as pessoas se conscientizarem da importância do trabalho intelectual e dar os devios créditos a ele que teremos realmente uma revolução no direito autoral (de forma ampla)
Se não concordamos com a politica das gravadoras, então, ao invés de "prejudicar" o seu estilo de negocios e os artistas que concordam como ele; devemos prestigiar os artistas independentes, divulgando ainda mais seu trabalho. Em resumo é isto.
concordo com a laine.
hoje em dia não é preciso recorrer ao pirata. inclusive já existem formas legais de se combater a pirataria, como o SMD, uma forma mais barata de prensagem de discos, onde o produto final não pode ultrapassar o valor de 5 reais.
pra conhecer mais sobre o assunto, eis o exemplo de uma banda que gravou seu segundo disco em SMD e tá fazendo sucesso:
http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=4066
a sub-versão também disponibilizou suas músicas aqui mesmo:
http://www.overmundo.com.br/banco/veias-abertas-1
http://www.overmundo.com.br/banco/novo-manual-do-guerrilheiro-urbano
http://www.overmundo.com.br/banco/fantoches
http://www.overmundo.com.br/banco/marcha-da-revolucao-part-especial-hamilton-de-holanda
http://www.overmundo.com.br/banco/prece-urbana
Renato,
acho interessante e provocador o assunto. Confesso que simpatizo mas não tenho opinião formada, e não gostaria de estar à frente desta Tsunami, que é a inevitável pirataria de tudo por todos.
Remonta aos Persas no século V a.C. que piratearam os Gregos em armas, armaduras e táticas de guerra e o fizeram tão bem que conquistaram quase tudo e quase extinguiram a civilização grega, o que seria um desastre, pois as coisas boas que conhecemos sobre filosofia, matemática, astrologia e polÃtica estavam ainda florescendo por lá. Depois foram os romanos que piratearam os egÃpcios e outros povos no oriente. Marco Polo foi o grande pirata da Idade média.
Recentemente tivemos americanos, ingleses e russos se digladiando por segredos alemãos e depois os japoneses, russos, chineses e os latinos, em geral por patentes americanas e européias.
Parece que não há como evitar o inevitável.
Mas de uma coisa tenho certeza: os ricos sanguessugas que criaram e difundiram este sistema de ganhar dinheiro que hoje se pirateia não vão assistir a isto passivamente. Eles são profissionais no que fazem e o fazem há muito tempo. Vem chumbo grosso por aÃ.
Haja PolÃcia, decretos, leis e outras "gentilezas" que serão colocadas contra.
Mas que o Tsunami é grande, é !!!
Segura a onda cambada!!!
Um reparo: onde está grafado "alemãos" rogo que seja lido "alemães". Falha etÃlica...
peninha · Butão , WW 6/4/2007 22:29
Oi gente.
Obrigado pela visita. A idéia era mesmo provocar a discussão. Sobre a questão dos supostos "direitos" sobre a obra, continuo batendo na mesma tecla: idéias devem ser livres. Não nos pertencem. Por isso sou contra o fundamento do direito autoral. Aprecio a prática do copyleft. Acho que é o único mecanismo de preservar o reconhecimento da autoria sem coloca-la a merce do mercado.
No mais, abraço a vocês, e visitem meu blog: musicaleidoscopica.zip.net.
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