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A poesia de Sousândrade

Maldoror
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Maldoror · Belém, PA
8/4/2007 · 110 · 4
 

Joaquim de Sousa Andrade nasceu em Guimarães, estado do Maranhão, em 1833. Sua obra só se tornou conhecida por volta de 1970 com a publicação de "Inéditos", aos cuidados de Frederick G. William e Jomar Moraes, São Luis, Departamento de Cultura do Estado, em São Luís, capital do estado do Maranhão.

Sousândrade formou-se em Letras pela Universidade de Sorbone, em Paris, França e foi naquela cidade que estudou, também, Engenharia de Minas. Durante o período em que estudou na França, viajou muito pela Europa e pelas repúblicas latino-americanas indo fixar-se, finalmente, nos Estados Unidos onde editou "Obras poéticas" e alguns cantos do "Guesa Errante". Sua longa passagem pela Europa e a residência americana por muitos anos abriram seus horizonte para o mundo capitalista no grande desenvolvimento industrial da época. Isso o contrastava com a grande maioria dos escritores brasileiro que não tinham conhecimento tão amplo do mundo exterior.

Durante o tempo que morou nos Estados Unidos, o poeta viveu em na grande metrópole Nova York em plena época escandalosa de Wall Street e dos jornais montados e dirigidos para a grande população. O escritor sentiu o peso de uma democracia fundada no dinheiro e a competição comercial entre os habitantes da cidade grande e teve a chance de comparar todo aquele desenvolvimento e competição com o regime brasileiro ainda de Império e é dessa época o poema narrativo "Guesa Errante", composto ao longo de dez anos. Com esse trabalho, Sousândrade recebeu de Humberto de Campos o título de "João Batista da poesia moderna". Nessa obra o autor narra a jornada de um adolescente que depois de peregrinações na rota do deus Sol, acaba nas mãos de sacerdotes que lhe extraem o coração e recolhem o sangue nos vasos sagrados. O poeta teve uma intuição dos tempos modernos, onde imagina o Guesa que após escapar dos sacerdotes refugia-se em Wall Street onde reencontra seus carrascos disfarçados de empresários e especuladores.

Sousândrade era uma pessoa muito original em seu modo de ser especialmente se for levado em conta à época em que viveu. Era um escritor atento às técnicas da dicção e com facilidade utilizava os clássicos e os jargões yankees que aprendera nos Estados Unidos e fazia ousados conjuntos verbais na montagem de sua sintática. O poeta não conseguiu ser assimilado em seu tempo por isso passaram-se mais de cinqüenta anos após a sua morte para que sua poesia começasse a aparecer. No crepúsculo da vida Sousândrade, inteligente, viajado e culto, retornou a São Luís, no Maranhão, onde viveu na pobreza dando aulas de grego e fazendo parte da política da República da época, não chegando a ser conhecido dos literatos do início do século XX. E foi em São Luís que morreu em 1902.


O Guesa / Canto Terceiro


As balseiras na luz resplandeciam —
oh! que formoso dia de verão!
Dragão dos mares, — na asa lhe rugiam
Vagas, no bojo indômito vulcão!
Sombrio, no convés, o Guesa errante
De um para outro lado passeava
Mudo, inquieto, rápido, inconstante,
E em desalinho o manto que trajava.
A fronte mais que nunca aflita, branca
E pálida, os cabelos em desordem,
Qual o que sonhos alta noite espanca,
"Acordem, olhos meus, dizia, acordem!"
E de través, espavorido olhando
Com olhos chamejantes da loucura,
Propendia p'ra as bordas, se alegrando
Ante a espuma que rindo-se murmura:
Sorrindo, qual quem da onda cristalina
Pressentia surgirem louras filhas;
Fitando olhos no sol, que já s'inclina,
E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.
— Está ele assombrado?... Porém, certo
Dentro lhe idéia vária tumultua:
Fala de aparições que há no deserto,
Sobre as lagoas ao clarão da lua.

Imagens do ar, suaves, flutuantes,
Ou deliradas, do alcantil sonoro,
Cria nossa alma; imagens arrogantes,
Ou qual aquela, que há de riso e choro:
Uma imagem fatal (para o ocidente,
Para os campos formosos d'áureas gemas,
O sol, cingida a fronte de diademas,
índio e belo atravessa lentamente):
Estrela de carvão, astro apagado
Prende-se mal seguro, vivo e cego,
Na abóbada dos céus, — negro morcego
Estende as asas no ar equilibrado.

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Egeu Laus
 

"Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa Errante será lido 50 anos depois; entristeci – decepção de quem escreve 50 anos antes".
(Sousândrade)

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2007 22:35
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Pedro Vianna
 

Muito boa essa sacada Egeu. O velho dilema do reconhecimento post morten . Legal ver como foi profético em relação a si mesmo Sousândrade. Realmente O Guesa é um poema vanguardista para sua época, comparado a literatura feita pelo cometa de Hailey, Ezra Pound.

Pedro Vianna · Belém, PA 9/4/2007 14:09
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Maldoror
 

Egeu,muito boa essa frase do Sousa.
Profética mesmo Pedro.
Grato aos dois.

Maldoror · Belém, PA 11/4/2007 09:23
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
romulo andrade
 

Brasil
é braseiro de rosas

A união,
estados de amor.

Floral.
sub-espinhos daninhos.

Espinhal.
sub-flor e mais flor.

Souzândrade

romulo andrade · Brasília, DF 25/4/2013 14:37
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