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A poesia escrita no quadrículo mallarmeano

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RonaldAugusto · Porto Alegre, RS
7/7/2007 · 121 · 8
 

Poesia escrita, à primeira vista, pode parecer uma “classificação desnecessária e levemente absurda”, como observa o poeta-crítico Cândido Rolim, em recente artigo dedicado ao assunto. Mas, se recordarmos que em suas origens a poesia era alguma coisa assemelhada a um “canto-falado”, partitura vocal assentada sobre uma estrutura melódico-instrumental - mesmo que às vezes incipiente -, podemos concluir que o que nos soa agora sem sentido, traz em seu bojo o índice crítico de uma situação cultural que diz respeito ao nosso tempo. Portanto, havia uma poesia que era mesmo “palavra voando”, experiência de linguagem cuja fruição não tinha nada a ver com a solidão e o silêncio.

Esta realidade é que justifica a seguinte afirmação de Jorge Luis Borges: “Quando lemos versos que são realmente bons e admiráveis, tendemos a lê-los em voz alta. Um verso bom não pode ser lido em voz baixa - ou em silêncio. Se isso for possível então o verso não vale a pena, pois um verso sempre exige sua pronúncia. O verso nos faz lembrar que antes de arte escrita foi uma arte oral: o verso nos lembra que inicialmente foi um canto”. E, além disso, um evento semiótico que pressupunha a recepção pública no instante de sua presentificação.

Mas, a invenção da escrita cursiva, a par da derrocada do mundo heróico, sepultou a poesia cantada. O espaço público, solidário e consensual, reflui para a imprecisão da subjetividade lírica. O leitor mudo encena a sua tragédia no quadrículo resumido da página manuscrita, ou impressa. O sermão dá passagem à confissão. Para usar uma metáfora resgatada ao campo da música, poderíamos dizer que a voz empostada se converte no canto à boca pequena da bossa nova. Mallarmé, no século19, já diz que tudo, mais cedo ou mais tarde, acaba num livro. Em literatura, toda teatralidade se rarefaz. O seu lado avesso esconde nada, e essa formulação também poderia servir de imagem ao poema como escritura-figura que se imprime no papel.

Com efeito, um dos desconfortos da poesia escrita encontra-se no seu rebuscamento (em potência) feito de lacunas, um discurso que, a contrapelo de sua impertinente escassez sígnica, convida o leitor-fuidor a fazer uma série de operações interpretativas; refinadas abstrações sensório-emotivo-intelectivas calcadas sobre uma negatividade extrema. Ao contrário (da estética) dos multi-meios que hoje predominam - já que, por assim dizer, tudo neles está dado, ou seja, eles constituem uma positividade -, na poesia escrita tudo tem de ser conquistado: os vazios de forma e fundo, sua instabilidade e sua irritante desmaterialização, agridem um mundo e uma mundanidade cujo apetite pela espetacularização dos eventos parece ser impreenchível.

Portanto, relativamente ao entorno, a poesia escrita parece se oferecer, agora, como algo cada vez mais limitado e pobre em termos de chances expressivas. A presumida “obsolescência” do preto-no-branco, ou seja, a mancha tipográfica do poema sobre a página mallarmaica, representam um insulto à hiperestesia da mentalidade contemporânea. Entretanto, corremos o risco de submetermo-nos à anomia já consagrada, se optarmos por qualificá-la (a poesia do suporte papel), sem receio, como um objeto “tosco”, inclusive porque a definição não condiz com uma linguagem que opera a partir de “suas desmesuras”. Isto é, em poesia estamos sempre na iminência de um gesto de ruptura - que infelizmente nem sempre conseguimos dimensionar.

Por outro lado, a poesia escrita sugere comportar uma dose de “tosquidão”, sim; ainda mais se persistirmos dando crédito à perdulária performance intersemiótica dos meios expressivos da hora, uma superestimulação resultando, até certo ponto, em recepção passiva, ou indiferente.

Espécie de truísmo, a idéia algo anedótica de uma poesia escrita, vem à tona com o objetivo de manter uma eventual produção que a essa “corrente” se filie, nos domínios de uma poética tradicional. Assim, como resposta às exigências das tecnologias e estéticas contemporâneas, uma poesia, já não digo visual, mas espacial e performática em sua dinâmica, atenderia melhor à assemblage eletrônico-virtual que marca os estímulos necessários a nossa satisfação.

Vanguarda contraditória esta, que não se movimenta a contragosto do solo, pelo contrário, credita sua inteligência em realidade cuja condição de fato consumado torna todo questionamento a seu respeito um anacronismo; investe suas forças numa transição que é, antes, de suportes do que de repertórios ou de formas. A retaguarda inventiva da poesia escrita migrou para a tela do computador: o poema experimental, há pouco tempo construído caprichosamente com cartelas de letra-set, virou animação digital em 3D. Parece que vai sair da tela, mas não sai.
______________________________
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No Assoalho Duro (2007). Despacha no blog www.poesia-pau.zip.net

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Adroaldo Bauer
 

Em sendo o quadrículo a tela do pecê,
ficando a poesia reduzida ao texto,
ela imitaria, no brilho o couchê?
E mais, a linda foto,
mas linda e incorrompida mesmo,
descreve sem escrever,
o poema à Mallarmé?
E, por fim,
seguro,
tens a licença de Rogério de M.
para cometer esse teu preciso e precioso impreenchível

E, antes que tarde, e mais sério ainda, amigo, porque não há texto ou impresso sem erro, terias atingido a perfeição no teu postado não fosse teres cunhado: leitor-fuidor, com certeza querendo grafar (ou pecezar) leitor-fruidor, não é fato?
Esta última indagação é tão-somente referente à grafia da palavra composta e ao conteúdo dela, não sobre a perfeição, por óbvio, posto que, ainda que buscada, mais a cada dia se mostra inexistente para que humildes humanos continuemos na senda do crescimento.
Sempre aprendo contigo, amigo Ronald.
Parabéns outra vez!


leitor-fuidor

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 7/7/2007 12:06
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Adroaldo Bauer
 

Ronald,
Perdão pela inserção insidiosa, solerte e rampeira mesmo do caco que colou-se sei lá por quê, repetido, acima de meu nome.
Não era para ser ali, feito assinatura indevida e pouco respeitosa, como até possa parecer.
É apenas outra prova de que escritos não saem de fato sem erro!
Ou da revolta dos nanos-organismos e fragmentos virtuais, já, contra os humanos.
Abraço, amigo.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 7/7/2007 12:11
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RonaldAugusto
 

valeu adroaldo! certo, cochilei na digitação. ainda bem que tenho leitores-fruidores como você.
abraços!

RonaldAugusto · Porto Alegre, RS 7/7/2007 16:06
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Manoel
 

Manoel · Porto Alegre, RS 10/7/2007 12:08
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Manoel
 

Caro Ronald! É com satisfação que te encontro repleto de literatua da boa. Também considero que quando o poema é bom, devo reler várias e múltiplas vezes, como a querer que este se transforme em ar, assemlhando-se a respiração natural e vital para nossa existência. Abraços!!!

Manoel · Porto Alegre, RS 10/7/2007 12:12
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Benny Franklin
 

Caríssimo Ronaldo
- Pelas mãos poéticas de Adroaldo - pude constatar e ler teus escritos, que ao meu ver, são alimentos na boca do planeta.
Parabéns, amigo. O que é bom, degusto-o de vera! Votado.
Quando postar comunique-me.
Abçs. Benny.

Benny Franklin · Belém, PA 10/7/2007 17:04
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candido rolim
 

Ronald, legal a abordagem em torno da "tosquidão" da poesia escrita. realmente é a detença que a "beleza difícil" ou o terreno árido do poema reclamam que tornam a poesia senão uma festa para poucos, pelo menos em um jogo sem ganhos sensitivos aparentes, pelo menos na falaciosa medida pretendida pelos outros meios. Valeu! abração Cândido.

candido rolim · Fortaleza, CE 13/7/2007 11:00
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mainieri
 

Ronald/Tutuca :

Teus artigos tem esse quê de desconstrução, de nos guiar pela senda do questionamento, de nos impulsionar um passo além.
Neste, tu nos chama a atenção da importância da poesia numa mídia impressa.
Trazendo a tradição dos gregos e sua mudança nos tempos. Do Universo de Gutemberg até os micro-chips.
Embora, a poesia se integre melhor à celulose, o silício que habita os chips consegue, também, ser uma mídia confiável, porém democrática "demais" em seu acolhimento à poesia mediana ou até sofrível.
Acho que os dois universos caminham, ainda, paralelos. A interação entre eles é a meu ver, o melhor caminho.

Abração.

Ricardo Mainieri

mainieri · Porto Alegre, RS 13/7/2007 16:25
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