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A praga das esperanças

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Regina Luna · Fortaleza, CE
14/11/2006 · 107 · 2
 

A praga das esperanças

Passei o dia, hoje, pensando na forma de cometer alguns assassinatos necessários. Esperanças insuportáveis assolam meu coração e preciso dar um jeito de livrar-me delas... Esperança -Dicionário Aurélio: Bras. Inseto ortóptero da subordem Tettigoniodea, de antena setácea, geralmente mais longa que o corpo, pernas espinhosas e ovipositor ensiforme. Tem, de ordinário, cor verde. Ou seja, a esperança é uma espécie de barata verde. No caso, mais de uma. O equivalente a uma praga bíblica das mesmas.
Frente ao problema urgente, assumi, faz pouco tempo, a missão de exterminadora. A cada, dia, mato impiedosa e friamente os insetos que chegam ao meu alcance. Apesar do nojo, apesar da pena.
E confesso que, às vezes, não consigo ser impiedosa ou fria. Às vezes, as esperanças me emocionam, me conquistam com sua cor de jardim, seu ar de planta comum, sua carência de inseto rejeitado, seus olhos de cachorrinho batido. E as deixo se alimentar de meu coração. O fato é que, quando mato algumas, surgem outras. O pobre coração, logo depois de voltar a respirar, torna a ser sugado pelas encantadoras baratinhas verdes...
Pior, quando mato uma delas, um pedaço do coração é arrancado, pois prendem-se a ele como carrapatos. A cada uma que morre, a dor se torna lancinante, para muito depois amenizar, logo antes de chegarem as novas esperanças, que reiniciam o processo interminável de dor/renovação. E o coração permanece sangrando.
Assim, embora seja necessário livrar-se das esperanças, é insuportável continuar a matá-las, em um paradoxo desarticulador da luta...
Como fazer para estancar o sangramento, permitindo a nova dor de um coágulo, a regeneração necessária da cicatriz e a posterior quase inofensiva memória da tatuagem?
Entre a dor do assassinato das esperanças e a dor de sua intolerável infestação, me veio a idéia de matá-las de forma mais sutil: de fome. Deixá-las morrer à míngua, sem agressão exterior, mas também sem recurso extraordinário de sobrevivência.
O único problema do raciocínio é que o alimento delas é o meu coração, que eu precisaria sacrificar...
Novamente, a solução mostra-se impraticável e o coração, cansado, eternamente comovido, se abre outra vez para as esperanças...
Talvez a única forma de superar o momento atual seja agir de maneira totalmente oposta ao que a lógica ordena, mesmo: deixar que as esperanças se alimentem até a exaustão, até se sentirem fartas e decidirem partir por conta própria. Encarar a sina de meu coração como necessária e nobre, o “dar de comer aos que têm fome”.
E, talvez, apenas talvez, depois que a última delas; pequenina mas redonda de satisfação, levantar vôo, hesitante, ainda restem forças para um coração exaurido voltar a viver.
Será que a única forma de sobreviver a esse sentimento é entregar-se completamente a ele?

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Saulo Frauches
 

Oi Regina! No banco de cultura tem uma seção para textos de literatura, acho que sua colaboração faria mais sentido lá do que no overblog.

abs!

ps: o ponto de partida do texto tá muito legal, prendeu mesmo.

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 12/11/2006 15:56
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
silviaraujomotta
 

Que belo texto!
Maravilha.Um bj doce,Sílvia

silviaraujomotta · Belo Horizonte, MG 7/2/2008 11:55
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