Seus pés, calçados com um sapato negro de couro ilegítimo e meias pretas, chocavam-se contra o assoalho de textura laminada num compasso menor do que ritmavam seus batimentos cardíacos. No entanto, o ônibus ainda vazio tinha a acústica quase que perfeita para fazer ressonar de forma estrondosa o som emitido pelo solado desgastado ao chocar-se com o assoalho de alumínio, sujo e arranhado. As barras da calça de linho, também negra e fosca, que parece ser usada todo santo dia, balança como um sino nas canelas finas daquele homem magro e negro com um corte de cabelo com design feito à navalha em salão de beleza unissex de bairro popular.
A única exceção à moda blecaute é sua camisa de botão branca e de mangas longas com o punho abotoado e que escondia, no pulso esquerdo, um relógio digital com pulseira de borracha, de dez "conto" na passarela do Iguatemi. Como numa contagem regressiva, o homem, a cada segundo, passeava seus olhos pelos números digitais formados em traços hexagonais. Cada vez que ele olhava os segundos que se passavam, perdia outros tantos olhando quem estava no ônibus, como se procurasse por alguém, ou como se alguém o estivesse observando. Cinco, seis, sete... os segundos se passavam e ele sabia que ainda era cedo.
Sentado na cadeira do corredor da quarta fileira de cadeiras duplas, com estofados que imitam o estampado de um mix de mármore negro, azul e branco, o homem olhava para as janelas laterais e para o pára-brisa do motorista. Ele sabia que ainda não era hora. Sua aflição aumentara e agora fazia um tac-tac com o choque de duas unhas não cortadas e que pareciam ter sido limpas com palitos de fósforos já acendidos. Não havia ninguém na cadeira ao seu lado, apenas nas cadeiras da quarta fila, porém do lado oposto.
Na janela oposta, um guri, com um fone de mp3 no ouvido, estava atendo à paisagem que lhe fora imposta no trajeto de Lauro de Freitas até o Terminal da França e que se passava a uns 85km/h. O tac-tac das unhas irritava a mulher ao lado do guri. Ela mordia a boca, rangia os dentes como quem tem bruxismo. Era ginge. A mesma agonia que sentimos quando o giz branco risca o quadro negro. Ela não entendia porque ele não parava com aquele tique nervoso. O tac-tac das unhas era para ela como um grito agudo e estridente é para o cristal.
Novamente passeando os olhos no relógio, ele continuava sem saber se já era a hora de atuar.
Atrás do homem, uma mulher curiosa, encostada na cadeira da janela, ergue o pescoço para saber de onde vêm os ruídos que já estavam incomodando-a. Mais do que a descoberta da origem dos sons, a mulher se assusta com um volume negro e reluzente em que a mão do homem repousava entre as pernas.
Ela não pensava em outra coisa, a não ser o desejo obcecado em descobrir que diabo era aquilo na mão dele? Continua pensativa enquanto ajeitava sua calça jeans ultra apertada, com um cinto maior que sua cintura e que escondia, junto com a blusa de malha fria, o umbigo feio.
Ela ergueu novamente o pescoço e não conseguiu perceber o que era o volume que aquele homem tinha nas mãos.
Tac-tac. A mulher continuava a ranger os dentes. Ela continuava se perguntando porque ele não parava de bater as unhas e totalmente nervosa, não fazia nada, nem coragem tinha, para que ele parasse de bater as unhas. O homem continuava a batucar com os pés e riscar as unhas umas nas outras. Ele ainda não sabia se já era hora. Como uma coruja, seu pescoço virava quase que 360 graus para ver quem estava no ônibus. Um dobrar de pernas, uma ajeitada na blusa. Imaginava que alguém o espionava. Sabia que a hora era agora! Se tinha que fazer, era melhor fazer logo.
Já se passaram sete quilômetros e o homem olhou mais uma vez a janela e parou de bater os pés e roçar as unhas. A mulher sentiu o alívio dos seus músculos bucais relaxando. O pescoço da outra se esticou mais uma vez inutilmente para, pela última vez, tentar ver o volume negro e reluzente que o homem carregava. Os pés desta vez se firmaram contra o assoalho e as barras da calça negra esconderam as meias pretas e agora já arrastavam no alumínio frio.
Ainda sem saber se era a hora certa, o homem levantou-se, deu dois passos, se virou para o lado do cobrador, mostrou a todos aquilo que a pescoçuda tentava ver durante o percurso e disse com uma voz trêmula:
- Levantem as mãos...
...e louvem o nosso Senhor Jesus Cristo, com a graça de Deus. Cantemos irmãos! Para te adorar ó Rei dos reis, foi que eu nasci ó Rei Jesus...
Roberto Fonseca Gois, recebera sua primeira missão como "irmão" da Assembléia de Deus: pregar no buzú.
Uma crônica, após o dia do acontecido, é a própria literatura em movimento, pura poesia.
No caso do teu postado, ainda, Marvin, aquela gostosa pitada de bom humor.
Repassa os olhos (e um corretor do word mesmo no texto) para salvá-lo de algumas pequenas impropriedades ao grafar as palavras, que sempre as há, em qualquer texto escrito, como em: ...não ser o desejo obsecado que se grafaria obcedado.
Eu gostei muito.
O fim abrupto, esperado em suspense breve, adivinhado, mas inusitado daria ele mesmo uma própria outra parte ao enredo.
Como reagiram os demais outros? Quem sabe uma outra vez ou dali partisse para outras aventuras, porque (chavão vale em comentário!) a primeira vez a gente não esquece.
E a tua busca da construção outra para as definições simples, aqui necessárias, posto que uma crônica breve, permitiram o bom achado: duas unhas não cortadas e que pareciam ter sido limpas com palitos de fósforos já acendidos.
Tem vida. É bonito. Bem escrito.
Parabéns.
É Marvin, tudo isto não é muito ficção, é tão comum, legal,
andre
Mas nada disso foi ficção, tanto que coloco no título que isto foi um fluxo de consciência. De fato aconteceu...
Marvin Kennedy · Lauro de Freitas, BA 4/8/2007 12:45Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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