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À procura do filme livre perfeito

Saulo Frauches (com Sassá, Eric e Karin)
Filme Livre, curtas, criações...
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Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ
1/4/2008 · 202 · 5
 

Uma das coisas mais bacanas da Mostra do Filme Livre, que terminou a edição 2008 na segunda semana de março, é que há poucos palcos de exibição com regras tão flexíveis para os cineastas. Ao contrário da ditadura da película presente na maioria dos festivais, você pode inscrever seu filme em vários formatos – vale até DVD. Se o seu trabalho foi feito há quatro anos, saiba que isso não é razão para tirá-lo de uma seleção da mostra – o critério de 'novidade', aqui, ronda muito mais um espectro estético que temporal. Com uma proposta aberta dessas, não tenho muitos pudores em publicar um balanço sobre a Mostra a essa altura do campeonato – como não fariam as coberturas de jornais mais tradicionais – quase um mês depois de tudo ter terminado. O que vale é levantar uma série de discussões sobre uma produção mais livre e democrática do audiovisual; e a MFL 2008 foi um prato cheio para se fazer esta reflexão. Aliás, se quiser dicas para fazer seu filme e tentar emplacá-lo na edição do ano que vem, é só seguir a leitura.

Antes, contudo, falemos da mostra que acabou. Saldo pra lá de positivo: foram exibidos mais de 250 filmes – sendo 15 longas, cinco deles inéditos – em uma edição que durou uma semana a mais que a anterior. Teve desde filme feito semanas antes da mostra começar a obras lançadas há duas décadas. Exemplo da proposta de filme livre, na concepção dos curadores, foi a escolha de um dos homenageados em 2008, o cineasta Joel Pizzini – carioca de nascimento, mas que cresceu no Matro Grosso. O curta Caramujo-Flor (1988), o primeiro dele, foi um dos selecionados para esta edição. Mesmo com vinte anos nas costas, o filme mostra por que ainda merece ser exibido na tela grande. Uma fotografia de texturas vibrantes, locações lindas (tá bom, essa parte não é muito mérito dele porque não faltam locações lindas no Pantanal) e uma narrativa nada convencional – aliado a um elenco, digamos, improvável, que junta num mesmo balaio gente como Aracy Balabanian, Almir Sater, Ney Matrogrosso e Tetê Espíndola. Terminei de ver o filme com vontade de ler Manoel de Barros (o filme é um delírio poético baseado na obra dele) e consultar um dentista (um plano mais fechado na boca da Tetê Espíndola – grávida na época - mostrou uma portentosa concentração de cáries por metro quadrado). Tenho desses problemas: não posso ver uma pereba no joelho dos outros que começo a me coçar pensando que tenho igual.

Não sei se, ao final de tudo, entendi ou consigo explicar racionalmente em palavras o que pode ser um filme livre. Mas, ao ver aquele curta, alguma inquietação – das boas – me bateu.

Com vocês, Christian Caselli

Terminada a Mostra, bati um papo com o cineasta Christian Caselli – um dos cabeças da MFL, ele participa da curadoria e fez a direção videográfica – para pegar impressões e até fazer a famigerada pergunta: o que é um filme livre?

“Tenho até uma resposta padrão. Eu não sei o que é um filme livre! Mandem respostas. O que interessa muito mais é o processo [de se fazer filmes]. É como a utopia alquimista: a pedra filosofal nunca foi feita, mas toda a busca em função dela gerou muitas descobertas”, comenta Caselli, para concluir com uma provocação: “Se o filme livre for feito a Mostra acaba!”

Feliz com o resultado a MFL, Caselli relembra surpresas que deram certo, como a sessão Casca Grossa. Pra você ter idéia dos curtas que passaram nela, a proposta era dar um doce para quem aguentasse ficar até o final.

“[o filme] 'Manifesto Canibal' fez um sucesso danado, o povo aplaudiu!”, conta, para em seguida explicar, empolgadaço, o início o filme: “Começa com ele não simplesmente tatuando um sinal de anarquia na canela de um indivíduo... ele arranhou com um estilete!"

Empolgação justificada: o 'ele' em questão é o cineasta catarinense Petter Baiestorf – prolífico videomaker (mais de cem filmes!) que não tem pudores em usar fitas VHS nas produções. Uma obra recheada de traços kitsch e trash que estimulou Caselli a fazer o documentário 'Baiestorf: Filmes de Sangueira e Mulher Pelada' (2004). Para quem não conhecia o cara, como eu, o filme de Caselli é uma porta de entrada perfeita. E a boa notícia é que o filme será publicado no banco de cultura do Overmundo em breve – fiquem ligados!

Aliás, paralelo a este texto, o Christian Caselli postou aqui no Over um de seus curtas (foram vinte produzidos em quatro anos!) que é quase uma apresentação para o público conhecê-lo: chama-se Autoconhecimento (clica aí no link e vê o filme, pô!). Mas voltemos à Mostra...

Cinema (livre?) e verba

Não é só a menina da música do Chico Buarque que faz cinema. Você conhece algum amigo que reclama de ter uma idéia de filme mas que – injustiça divina – nunca tem verba para colocar de pé o que está no roteiro? Pois é, eu tenho vários. E, em alguns momentos, me encaixei nessa lista de queixosos da vida também (quero refletores, câmeras de alta definição, blá blá blá...). Conhecer a trajetória de sucesso do Baiestorf no udigrudi brazuca e bater esse papo com Caselli foi quase um cascudo na nuca. Um cascudo necessário nesta busca pelo 'filme livre perfeito'.

“Cara, o meu filme mais caro deve ter custado R$ 10; que é o preço da fita MiniDV”, brinca, quase como que provocando, já que o cineasta eventualmente teve alguns casos de gastos maiores, como ao filmar em película, por exemplo. "Mas a imensa maioria dos meus filmes foi entre dez e vinte pilas", reforça.

Cinema (livre?) e direitos autorais

Outra novidade da Mostra do Filme Livre deste ano foi a sessão Livre Direito, só com filmes em Copyleft e Creative Commons (CC) – pois pensar em novas formas de discurso audiovisual pode passar, sim, por pensar em formas alternativas de licenciamento. Esta criatura que vos escreve até participou de um debate que rolou logo após a exibição dos curtas, em uma mesa que contou ainda com o Bruno Tarin e o Christian Caselli como mediador.

A idéia é que a sessão Livre Direito não se repita no ano seguinte, mas a razão é animadora: incorporar os filmes em licenças abertas à programação normal da MFL acaba com a necessidade de segmentação. Mas vai rolar um extra:

“Queremos instituir um prêmio para o melhor filme sem copyright; pode ser feito em Copyleft ou Creative Commons”, explica Caselli.

Cinema (livre?): Faça você mesmo

É caminho sem volta: cada vez mais a tecnologia tem nos permitido ultrapassar a barreira de espectador passivo e nos transformar num produtor de discurso. Já que existem cada vez mais formas democráticas de se fazer cinema (ou audiovisual, se achar o termo mais adequado), nada melhor que fazer uma convocação para a próxima edição a Mostra do Filme Livre. Que tal você participar dela não apenas sentado nas cadeiras do CCBB, mas com filme seu na tela? Segue logo abaixo algumas sugestões de softwares e acervos de imagens para mostrar que é possível (do roteiro à pós-produção) fazer um filme sem grana alguma, só com boas idéias. E, por favor, turbine essa listinha – que é apenas um pontapé inicial – nos comentários com outros programas gratuitos ou livres que você conheça.

Vamos lá:

Por mais que seja engraçado flagrar com a câmera seu irmão tomando um tombo de skate e esborrachando a cara no chão, as coisas filmadas aleatoriamente, em geral, não funcionam. Então, como primeiro passo, trate de escrever um roteiro bacana. E mãos à obra. Uma ótima indicação é o Celtx – um software gratuito e open source que não apenas serve para escrever roteiros e os exporta em formatos populares, como o PDF, mas também armazena storyboards e gera tabelas de produção que ajudam na organização na hora das filmagens. Completaço.

Você escreveu o roteiro e vai colocar em prática. Bom, aí é contigo filmar o que for necessário. Não tem câmera? Seja criativo e – é possível! - faça um filme sem câmera. Com as facilidades que a internet e o uso e licenças flexíveis nos dão, é viável encontrar acervos de filmes e fotos que podem ser usados na sua criação. Um acervo de vídeos enorme e muito popular está no site Archive.org. Lá você encontra imagens em domínio público e Creative Commons.O acervo de filmes, músicas e imagens do Overmundo também pode ser usado no seu filme. Aliás, fazendo a 'tia chata', é bom ressaltar que quem pega imagens em licenças flexíveis na internet precisa tomar cuidado com as condições de uso. Aqui no Overmundo, por exemplo, você pode usá-las desde que seu filme dê crédito ao autor original da obra, você não faça uso comercial e permita que usem trechos de seu filme em outras obras feitas sob a mesma licença.

Bom, se catou na internet ou captou na câmera, você tem as imagens para montar sua criação. Hora de editar. Caso não tenha a menor intimidade nesta área e nem se importa por fazer uma coisa mais simples, use o Windows Movie Maker mesmo. Tá, é software proprietário, mas é distribuído gratuitamente na internet. Se você quer uma coisa de qualidade profissional, a boa notícia é o open source Cinelerra – só tem em versão Linux, que também é gratuito e, se precisar, pode dividir o seu HD pacificamente com o Windows. Com o filme montado, você ainda pode fazer ajustes de pós-produção com o Cinepaint, para correção de cores.

Com o filme pronto, é botar na rede e se inscrever nos festivais. A gente te vê na MFL 2009?

PS: fique à vontade para sugerir outros programas ou soluções para filmes nos comentários. Porque a busca pelo 'filme livre perfeito' não pode parar...

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Bruno Resende Ramos
 

Um bom programa. Nota dez ao evento!

Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 29/3/2008 12:53
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Berioliveira
 

Muito bom sucessos!

Berioliveira · Vitória da Conquista, BA 30/3/2008 20:33
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clara arruda
 

Deixo aqui voto e voto pelo sucesso.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 31/3/2008 07:27
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Roberto Girard
 

Votos e sucesso!
Abs
Beto

Roberto Girard · Rio de Janeiro, RJ 1/4/2008 17:48
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Bruno Resende Ramos
 

Cara,
Essa matéria foi uma descoberta. Eu me pensava muito distante da possibilidade de enveredar pelo ramo audiovisual. Seu texto foi um elixir bombástico para meus ânimos. Gostei da forma didática com que apresentou o tema e a motivação de suas palavras. Acredito que preciso dar as primeiras pedaladas no ramo e esquecer os tombos, mas já foi um bom começo ter lido o seu texto, haja vista que a questão financeira sempre foi um entrave para tomar uma atitude positiva diante deste que é um dos meus sonhos. Grato por dispor de seu tempo aqui no Over e nos ensinar os primeiros passos nesta era d inclusão videográfica.
Tenho dito
Bruno Resende Ramos

Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 28/12/2008 06:26
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Christian Caselli em 'Autoconhecimento', filme disponível no Overmundo zoom
Christian Caselli em 'Autoconhecimento', filme disponível no Overmundo

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