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Scriptorium Monk at Work (From Lacroix)
Não sou um habitual leitor de jornais e revistas. Também não sou daqueles que acham que é preciso ver TV “para estar informado”. Apesar disso, há alguns dias atrás, comprei a edição de julho do Le Monde Diplomatique Brasil para ler na praia do Leme, aqui no Rio de Janeiro, onde estou morando desde abril.
Fiquei surpreso ao conhecer o conteúdo desta revista, que completou um ano de publicações no Brasil, pela pluralidade dos temas, numa perspectiva ampla e com entendimento da complexidade que permeia a organização social de nosso país.
Cito este fato pois foi a partir do contato com a matéria “O impacto sobre o meio ambiente”, de Jean Pierre Leroy, publicada nesta revista, que fiquei pensando sobre as relações entre a produção cultural independente e o meio ambiente.
O subtítulo da matéria diz o seguinte: “Enquanto a maioria da população brasileira deseja entrar na sociedade de consumo, parte significativa pretende ascender ao padrão da classe média alta. Concretizar essas aspirações, porém” tem um alto custo: a superexploração do trabalho e a subestimação dos custos ambientais”.
Então fiquei pensando que talvez a maioria dos produtores culturais independentes ou de pessoas que se lançam a trabalhar na área cultural, por fazerem parte desta mesma população, estejam aspirando “entrar na sociedade de consumo” ou “ascender ao padrão da classe média alta”, porém sem perceber os impactos ambientais disso.
Num país em que uma parcela considerável da população não usufrui de seu direitos culturais mínimos, que o Estado está começando a dar os primeiros passos para organização de políticas públicas, que 62,9% dos profissionais culturais estão na informalidade, pode parecer um exagero preocupar-se que as pessoas reflitam sobre seu ingresso na sociedade de consumo ou ascensão a padrões mais altos, dentro de um modelo de desenvolvimento que tem se mostrado insustentável para o planeta. Mas não é. Vejamos dois olhares iniciais sobre o tema.
A Cadeia Produtiva da Cultura e a Economia Solidária
Produtores independentes, músicos e outros profissionais da área cultural têm refletivo que para o desenvolvimento da cadeia produtiva da cultura é necessário se entender a dimensão econômica da atividade e compreender as relações de mercado.
Contudo, se conseguíssemos apenas “incluir” todos que estão excluídos do mercado cultural no país, de uma hora para outra, todos os profissionais recebessem uma remuneração mais elevada, que muitas pessoas passassem a consumir os produtos culturais aos quais não têm acesso, teríamos também de imediato impactos ambientais, que trariam efeitos colaterais econômicos e sociais que não têm sido discutido nas feiras independentes e em importantes espaços de discussão sobre a produção cultural brasileira.
Penso que se passarmos a integrar as pessoas que estudam as cadeias produtivas da cultura com as pessoas que estão organizando iniciativas de geração de trabalho e renda através da Economia Solidária, iremos começar a perceber o meio ambiente como uma variável fundamental a ser avaliada no planejamento e gestão das atividades culturais.
O Desenvolvimento Humano
O alto índice de informalidade dos profissionais culturais e a precarização de suas relações de trabalho parecem, para muita gente, somente estarem associados a grande concentração dos meios de comunicação e dos investimentos dos agentes financiadores do mercado cultural.
Se ampliássemos os canais de distribuição dos conteúdos culturais e repartíssemos de forma mais equilibrada o investimento dos recursos, teríamos novamente um aumento na remuneração de muitos profissionais, oriundos de uma grande maioria que está acostumada com a dificuldade de sustentabilidade, mas que não necessariamente significaria aumento do desenvolvimento humano.
Acho que todo mundo deveria ter condições de acesso a conteúdos de revistas, filmes, livros, espetáculos teatrais, shows musicais, performances de dança, viagens para conhecer a nossa diversidade cultural. Mas não consigo imaginar todo mundo consumindo todos estes produtos culturais como alguém que vai a um McDonalds, come um hambúrguer e joga fora uma embalagem. Imagine milhares de livros, CDs, DVDs, etc, sendo jogados fora após serem consumidos.
Neste sentido, acredito que é preciso que os profissionais da cultura, em especial os produtores culturais independentes, busquem informações de como podem desenvolver suas atividades buscando impacto negativo mínimo no meio ambiente.
Assim, pensando na geração de trabalho e renda de forma solidária, através de um mercado socialmente construído e do planejamento de atividades culturais sustentáveis, podemos começar a aproximar a produção cultural do meio ambiente.
tags: Rio de Janeiro RJ cultura-e-sociedade independencia
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Alê: também não consigo entender tanto desperdício. É lamentável a gente ver livros e revistas nos lixões, o que significa a morte de muitas árvores; não bastasse o desperdicio também de comida dos shoppings....é uma tristeza ver o descaso em torno disso tudo. Parabens pelo texto, pela informação. Abraços
graça grauna · Jaboatão dos Guararapes (PE) · 5/8/2008 06:51
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Vizinho de Leme e de profissão (sou da primeira leva de desbravadores que marcaram 'x' no quadradinho 'Produção Cultural' no guia de vestibular da UFF de 95 pra 96), muito prazer.
:)
Aumentar nossa remuneração seria ótimo, mas não acho que o problema esteja aí. Se minha renda aumentar, não vou comprar mais livros, cds ou ir a mais shows do que agora. Tenho investimentos mais urgentes, contas a pagar, viagens a fazer, e acredito que nossos colegas estão na mesma posição. Agora, na minha posição de produtora (faço parte dessa porcentagem na informalidade, mas confesso que hoje sou mais feliz e até ganho mais do que quando pertencia a um grande conglomerado de comunicação que sugava todas as minhas energias e mais um pouco), posso pensar num bem intangível, que não gaste tanto petróleo para ser produzido e que realmente acrescente alguma coisa a quem vai consumir. E, acredite, quando a gente ganha mal, a gente valoriza o que vai consumir, escolhe melhor. E a falta de verba obriga a gente a encontrar soluções criativas. Talvez seja uma boa.
Os produtores de agora precisam encontrar maneiras de educar para que as pessoas escolham melhor o que vão consumir ou no que vão investir. Incentivar a livre difusão de cultura e informação, de preferência sem um suporte físico - esses 'bens' podem não ser jogados fora, mas imagine as toneladas de cds e dvds empoeirados na estante e livros que você só leu uma vez na vida. É energia estagnada, cultura que deixa de circular e informação que você não compartilha. Os bens culturais precisam mesmo ser 'compráveis'?
Cabe a mim e a você encontrar soluções para que a cultura circule livremente e todos tenham acesso, independente da renda. Que, aliás, se você tem cultura e informação, sempre tende a aumentar...
Lia Amancio · Rio de Janeiro (RJ) · 5/8/2008 23:35
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Alê , sempre interesante teus textos.Parabens.
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 6/8/2008 09:24
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Oi Graça de Jaboatão dos Guararapes. Pois é a "cultura do desperdício" que precisamos entender e transformar. Não numa "nóia" que tudo tem que ser reaproveitado, mas tratarmos o planeta como um corpo que precisa passar por um processo de redução de danos. Nada melhor que usar a produção cultural para isso, né?
Lia Amancio, vizinha do Leme, eu concordo contigo. Nós produtores temos que encontrar maneiras de educar as pessoas e que a cultura circule livremente. E entendermos o que é a cultura circular livremente, pois isso é um tema complexo.
Cíntia, que bom ler suas palavras. Obrigado pela sua generosidade.
Abs a todos!
Alê Barreto · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2008 13:24
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Caro Alê. Leste "Bilhões e bilhões", do Carl Sagan? Tudo a ver.
Circus do Suannes · São Paulo (SP) · 6/8/2008 22:22
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Legal, você fala de diretrizes que são irrefutáveis. Só me fica uma dúvida: como fazer isso num sistema capitalístico, que agrega o discurso ecológico e o torna inócuo ao afastá-lo de si? Ou, em outras palavras, como fazer isso se o sistema - que alguns chamam de imperial - é produtor de miséria, de corrupção e de poluição, no entanto vive a falar de preocupação com o planeta? Como fazer quando a cultura é entretenimento e, logo, é muito parecida com um sanduíche sintético do McDonald?
Luiz Geremias · Curitiba (PR) · 7/8/2008 00:02
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Alê,
muito boa sua indicação da revista (que já conhecia) e mehor ainda sua reflexão sobre inclusão, cultura e economia solidária. Esses tópicos me dizem muito e tenho aprendido bastante participando de uma biblioteca comunitária. Os lemas Reuse, recicle e reduza ficam bem vivos de um forma ao mesmo tempo simbólica e concreta na rotina dos leitores. A economia solidária também se faz marcadamente presente na vida dos usuários da BILICA - Biblioteca Livre do Campeche.
Abraço,
Josalba Ramalho · Florianópolis (SC) · 10/8/2008 21:30
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