A profissionalização dos palcos passo-fundenses

Luciana Saggiorato
Em 7 anos, grupo Viramundos realizou 531 apresentações para 500 mil espectadores
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Guilherme Mergen · Passo Fundo, RS
21/10/2007 · 191 · 2
 

Quando se pensa na presença de manifestações artísticas em locais distantes de regiões metropolitanas, logo o imaginário recorre àquela logística de municípios médios e pequenos fora do círculo de apresentação de grandes espetáculos de teatro, dança e música. Apesar da visão aparentemente estereotipada, essa é a realidade da maioria das cidades do interior do país. Em muitos casos, a ausência de uma infra-estrutura adequada impossibilita a expressão da riqueza cultural conservada pelos múltiplos povos interioranos. Manifesto-me do interior do Rio Grande do Sul, em Passo Fundo, a 300 quilômetros da capital Porto Alegre e a mais de 1 mil quilômetros do eixo Rio- São Paulo - onde tenho a impressão de essa relação público-arte ser mais acessível. Mesmo intitulado de Capital Nacional da Literatura, o município de pouco mais de 180 mil habitantes poderia se encaixar perfeitamente na lista de cidades-negras do ponto de vista de expressão cultural. Porém, se as peças teatrais produzidas em centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre dificilmente incluem o município no seu percurso, um movimento surgido ainda na década de 40 tenta fazer o percurso inverso: partir daqui, com elenco local, rumo a outras cidades do estado e até do país.
Além de possibilitar a apresentação dos grupos de Passo Fundo em outras regiões, o desafio consolidou um público local apreciador de teatro – algo inédito e considerado impossível para uma cidade de porte médio nos anos 80. O esforço, concentrado principalmente em dois grupos, alterou a rotina da cidade e permite que mais de 50 atores, produtores, coreógrafos, entre outros, sobrevivam exclusivamente da segunda arte. Atualmente, é comum espetáculos serem encenados com teatro lotado em plena meia noite - eu pude comprovar mais de uma vez só nos últimos 30 dias. Ou encontrar atores pendurados em lençóis pelas ruas ou praças invadidas por um ônibus-palco.
Já conhecidos em vários estados, o Grupo Viramundos, mantido pela Universidade de Passo Fundo, e a Cia da Cidade, da Faculdade do Planalto, não só deram continuidade à tradição de bons espetáculos produzidos na cidade lá na década de 40 como também profissionalizaram o teatro. Aquele estágio amador enfrentado no início acabou superado e, atualmente, nossos artistas deixaram de encarar os palcos como segundo plano para sobreviver exclusivamente deles. Mesmo com uma história de mais de 60 anos de artes cênicas, essa fase de consolidação só veio recentemente. No caso do Viramundos, em 2005, quando a universidade contratou um grupo inicial de 10 atores, três técnicos e um coordenador administrativo e passou a pagar salários fixos – antes, recebiam bolsas para auxiliar no pagamento da faculdade.
Em sete anos de histórias sobre os palcos, o Viramundos elaborou cinco peças teatrais e protagonizou 531 apresentações para um público de cerca de 500 mil espectadores – quase o triplo da população de Passo Fundo. Todas as encenações em cima do famoso ônibus-palco, que, por ora, transforma-se em um cenário perfeito, e depois, um eficiente meio de locomoção aos artistas, equipe e equipamentos. A idéia é baseada em um antigo grupo italiano. Em meio a números de apresentações e histórias, vale uma consideração de quem assistiu à maioria das encenações. Sempre gostei dos roteiros do grupo, principalmente pelo forte apelo à contextualização histórica. O Viramundos jamais pulou a etapa de pesquisa, seja para compor seu figurino – aliás, este sempre impecável – ou o enredo coberto da mais pura comédia. Para visitar os mais de 184 municípios onde a trupe de Passo Fundo passou, o ônibus-palco acumula milhares de quilômetros rodados pelas estradas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo Minas Gerais e Distrito Federal.

A trajetória do Viramundos iniciou com a peça “O Ferreiro e a Morte”. Mais tarde, vieram “O Parturião”, o polêmico “Timbre de Galo” – polêmico porque, de certa forma, utiliza do tradicional comportamento do gaudério gaúcho para fazer piadas -, “Fantoches”, em homenagem a Erico Verissimo, e por último “Till Eulespingel”, finalizada esse ano. Admirador e envolvido com o teatro desde a adolescência, o diretor do Viramundos e também ator, Sandro Augusto Pasini, garantiu ser privilegiado por poder dispor de uma estrutura e de um grupo de atores permanente. “Quem trabalha com teatro sabe da importância de encenar várias vezes a mesma peça para que ela fique cada vez mais afinada. Mas isso só é possível quando se tem um investimento como esse. Passamos também a olhar o teatro sobre o ponto de vista econômico e administrativo”, disse.
Depois de falar sobre um dos grupos responsáveis por essa sonhada profissionalização do teatro em Passo Fundo, passo a relatar sobre o outro: a Cia da Cidade, esse mais recente. No caso da Cia da Cidade, o grupo iniciou sob uma lógica mais administrativa, com a premissa de fazer arte e, através dela, sustentar a equipe. Com base nessa idéia, uma trupe de atores já conhecidos por seus trabalhos na cidade montou uma empresa e firmou parcerias com instituições públicas e privadas. Recentemente, a Cia da Cidade completou dois anos e já produziu quatro peças, entre elas “Diário de um Bonitão”, “Psicose – A Comédia” e “Onde o Diabo Perdeu as Botas”. Em um bate-papo descontraído durante o ensaio, o ator e produtor do grupo, Beto Mayer, revelou que a equipe procura trabalhar as diversas linguagens do teatro, com a inserção de performance em tecido, malabares, trapézio manipulação de bonecos e contação de histórias. “Nós temos essa característica de valorizar todos os elementos que compõe o teatro. Em relação a essa questão econômica, o apoio de uma faculdade como a Faplan e outras empresas, juntamente com projetos paralelos, nos permite trabalhar exclusivamente com as artes”, contou.


Trajetória de três décadas
Se Passo Fundo vive atualmente um momento completamente distinto de outras cidades com a mesma característica – com dois grupos de teatro profissionalizados e outros dois no mesmo caminho -, nada é por acaso. A relação dos passo-fundenses com a segunda arte surgiu ainda no início do século passado. Porém a história começou a ganhar proporções até chegar ao cenário de hoje na década de 60, quando nasceu o principal e mais duradouro grupo de teatro amador da cidade. Inspirados nas companhias de teatro que viajavam do Rio de Janeiro ou São Paulo de trem para se apresentar na cidade, um grupo de jovens, liderado por Paulo Giongo, funda o Delorges Caminha – estranho, o nome é uma homenagem ao galã do teatro e do cinema nacional, cujo pai, Geolar Caminha, residia no bairro Boqueirão, um dos maiores aqui de Passo Fundo. Sinceramente, apesar de conhecer um pouco do grupo, nunca assisti a nenhuma peça. Quando cheguei a Passo Fundo para cursar jornalismo, há exatos quatro anos, o que restava da companhia eram apenas histórias – relatos que contarei a diante.
A primeira peça da Delorges Caminha, “Sinhá Moça Chorou”, foi encenada no histórico Cine Real, extinto há mais de 20 anos, com a presença surpreendente na platéia ator Delorges, acompanhado da atriz Henrite Morinau. De lá até a última encenação do grupo, “Ciúme”, em 1979, passaram-se 35 anos de atividades ininterruptas. Durante essas mais de três décadas, quase 80 peças foram produzidas, muitas apresentadas não só nos palcos gaúchos, mas também em São Paulo e Brasília.

Aqueles poucos que lembram da história da companhia acreditam que o seu elenco era formado por cerca de 40 pessoas, entre médicos, professores, advogados, farmacêuticos e pintores. Naquele passado, a maioria dividia o tempo entre trabalho, três horas diárias de ensaio no salão de um colégio da cidade e as viagens no final de semana. Para manter a estrutura, como figurino, cenário e viagens, o Delorges usufruía apenas o dinheiro arrecadado nas bilheterias, além da comercialização de anúncios para um folder que trazia informações sobre a peça e o apoio de algumas (sem dúvida nenhuma, pouquíssimas) empresas. “Era um teatro amador nesse sentido. Não havia a possibilidade de sobreviver apenas dos palcos. Fazíamos por amor à arte. Levávamos o Delorges e o nome da cidade para vários lugares do Brasil”, Lembra Paulo Giongo, que dirigiu a maioria dos trabalhos, em entrevista depois de várias tentativas adiadas por viagens ou outros compromissos. Além de diretor, Giongo atuou muito como ator e não esquece de algumas histórias daquela época. “Havia muitas situações inusitadas. Em Carazinho (município vizinho a Passo Fundo, situado a cerca de 80 quilômetros), por exemplo, faltando cerca de 20 minutos para iniciar a apresentação, o ator Gildo Flores caiu no alçapão e bateu a cabeça. Ele acabou levado ao hospital e ficou em observação. Como eu sabia todas as falas dele, não tive alternativa a não ser subir do palco”, recorda com gargalhadas.
A partir do fechamento das cortinas para o grupo Dolores, em 1979, o diretor Paulo Giongo seguiu a sua carreira de farmacêutico e advogado, porém nunca chegou a se afastar completamente dos palcos. Hoje, diante de uma outra realidade, o ex-diretor e ator é um estímulo para a nova geração. “Olha, eu vejo com muita satisfação a profissionalização do teatro em Passo Fundo. Temos ótimos elencos e isso precisa ser valorizado”, orgulha-se.

O teatro dos anos 80
Se os anos 50, 60 e 70 consolidaram o Delorges Caminha como o mais importante do teatro passo-fundense, o grupo mal saía de cena e já surgia nos corredores de uma escola do município um outro para dar continuidade a arte na década de 80: o Alma Livre, considerado o grupo formador da maioria da atual geração de atores de Passo Fundo. Liderado por uma professora, o elenco nasce a partir de uma oficina de estudantes e se torna a principal referência de teatro na região. Diferente dos grupos atuais – com um viés financeiro – e do Delorges, o Alma Livre toma proporções a partir de um pensamento pedagógico, principalmente entre o público infanto-juvenil. Mas logo a turma rompe as paredes de uma única escola para chamar a atenção de alunos de outras instituições de ensino. Durante esse período, os atores protagonizavam duas sessões diariamente, de segunda a sexta-feira, com cadeiras lotadas de espectadores, a maioria estudantes. Os jovens talentos da segunda arte recebiam tratamento de estrela. Eles eram dispensados de algumas aulas, recuperadas posteriormente, e até adquiriram o direito de realizar provas em diferentes datas para cumprir agenda.
Como se não bastasse à formação de novo atores, o Alma Livre também se destacou pelo pioneirismo no universo teatral. Aqueles apreciadores da época contam até hoje – mais de dois me contaram somente para está matéria – que era comum ver os atores em bares da cidade interagindo com os clientes em pequenos esquetes. A primeira trilha sonora ao vivo em uma peça, por exemplo, com formação de bateria, violão teclado e percussão, também se realizou a partir do Alma Livre. Assim como os demais grupos, a sua atuação não se restringiu a Passo Fundo. Durante os seus 10 anos de atividades, rodou pelo interior do Rio Grande do Sul. O curioso é que muitas dessas viagens foram a bordo do Opala Vermelho de uma das professoras responsáveis pela companhia, a famosa Desdemona Machado. Na lista dos espetáculos produzidos, destaque para “O Homem do Princípio ao Fim”, de Millôr Fernandes. Encenada em 1992, a peça foi premiada como melhor direção e melhor espetáculo gaúcho, inclusive com um pequeno espaço de crítica na revista Veja.
A professora incansável na batalha por mais grupos de teatros em Passo Fundo dedica-se ao teatro gospel atualmente. Ela ainda guarda as lembranças e as histórias curiosas daquele período. Uma delas envolve a artista plástica Ruth Schneider, que empresta seu nome a um dos museus da cidade. “Uma vez pedimos que elaborasse o cartaz de uma das nossas peças. Ela criou uma verdadeira obra de arte e o pessoal do grupo não gostou. Fui voto vencido e tivemos que trocar de cartaz”, brinca a professora durante rápida conversa. Não foram poucas as vezes em que ela retirou dinheiro do próprio bolso para ajudar no orçamento do grupo. Histórias de quem acredita no teatro passo-fundense, desde quando ainda dependia exclusivamente da vontade de seus atores. Assim, concluo essa matéria sobre a história das artes cênicas na pequena – hoje um pouco maior - Passo Fundo, desde o seu surgimento amador até a profissionalização. Para quem ainda não assistiu às peças do Viramundos ou da Cia da Cidade, fica a dica: até o final do ano, ambos os grupos retornam a se apresentar na região Sudeste e Centro-Oeste.

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Marcos Paulo Carlito
 

Parabéns Guilherme,

Trabalho de fôlego...

Abraços

Marcos Paulo Carlito · , MS 21/10/2007 19:19
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Mauro Paz
 

Ótimo trabalho, Guilherme.
As pessoas têm que conhecer o trabalho deste excelente grupo de Passo Fundo.

Grande Abraço!

Mauro Paz · São Paulo, SP 21/10/2007 23:11
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